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O DISCURSO DE ÓDIO NO CENÁRIO DO JUDÔ PAULISTA:

CONTRIBUIÇÕES DA ANÁLISE DISCURSIVA

SOB A PERSPECTIVA DE MARCAR UM INIMIGO

MOTTA, Rodrigo Guimarães; Doutor em Administração; PUC-SP

rodrigo-motta@uol.com.br

CORÁ, Maria Amélia Jundurian; Doutora em Ciências Sociais; UFAL

mariameliacora@gmail.com

ROCHA, Camilla Rodrigues Netto da Costa; Doutora em Comunicação e Práticas de Consumo; ESPM

camillanettorocha@gmail.com

Estudos Organizacionais – Simbolismos, Culturas e Identidades

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    • A história do judô paulista vem sendo marcada por uma crise provocada por uma resistência antidemocrática à alternância de poder: uma disputa entre a Federação Paulista de Judô (FPJudô) e a Confederação Brasileira de Judô (CBJudô).
    • O grupo da FPJudô se perpetuou no poder por 30 anos, recusando-se a realizar novas eleições.
    • Nesse contexto antidemocrático, surgiu o RenovaJudô, um movimento que clamava por renovação e transparência.

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Introdução

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    • Em meio à crise institucional, o grupo da situação (FPJudô) passou a se escorar na Revista Budô para veicular conteúdos que manifestam ódio e reiteram ataques contra o movimento de oposição (RenovaJudô).
    • Em um mapeamento no referido veículo, somente em 2021 — ano em que se encerrou o mandato da FPJudô e se intensificaram esses embates —, verificaram-se sete matérias veiculadas contra o RenovaJudô.

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Introdução

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    • Esta pesquisa tem como objetivo analisar a construção e o efeito do discurso de ódio na produção sistemática da Revista Budô ao utilizar a ferramenta “marcar um inimigo”.
    • Espera-se expandir os efeitos do discurso de ódio perante a crise institucional vivida pelo judô paulista e, ao mesmo tempo, engatar esse debate ao cerne das Ciências Sociais Aplicadas, mais especificamente no bojo da gestão ética.

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Introdução

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Análise do Discurso de Linha Francesa (ADF)

• Maingueneau (2005, 2015), Orlandi (2013), Baccega (1995) e Charaudeau (2018).

→ Consideram uma relação intrínseca entre a linguagem e o social, permitindo identificar as materialidades nos discursos que moldam o social e o cultural de determinados tempo e espaço.

Definições do discurso de ódio

• Brugger (2007), Schäfer, Leivas e Santos (2015) e Rosenfeld (2003).

→ Possibilitam investigações sob três categorias empíricas: (i) causar efeitos imediatos (insultar, assediar e intimidar); (ii) marcar um inimigo; e (iii) alterar o estado das coisas.

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Referencial teórico-metodológico

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    • O objeto empírico analisado é uma matéria datada de 15 de dezembro de 2021 e publicada no site da Revista Budô com o título “Rodrigo Motta e Vinícius Jerschow perdem mais uma ação na Justiça contra o editor da Budô” (Sbrissia, 2021).
    • O interesse por esse recorte de análise deve-se à experiência de parte dos coautores que, sendo eles próprios tanto atletas de judô quanto gestores, têm testemunhado a crise atual na gestão paulista da modalidade e até mesmo sido alvo do veículo de comunicação digital retratado, o que os leva a uma preocupação legítima e particular pela execução ética da gestão do esporte.

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Referencial teórico-metodológico

Figura 1: Imagem da matéria analisada

Fonte: Sbrissia (2021).

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Acostumados a agredir, ofender e desclassificar pessoas que não compactuam dos seus ideais sem receber o devido troco, os professores Rodrigo Guimarães Motta e Vinícius Jerschow sentiram-se ofendidos por receberem o mesmo tratamento que dedicam a professores kodanshas e pessoas honradas e de caráter ilibado. E mais uma vez ingressaram no Judiciário com denúncia crime contra a Revista Budô e Paulo Pinto, seu editor.”

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Análise

    • Mobilização de sentidos e mecanismo (inter)discursivo refletindo uma tentativa de constrangimento público e de desmoralização, típica do efeito imediato do discurso de ódio.
    • Celebração da derrota judicial da oposição, acusando-a de hipocrisia.
    • Se a própria revista está revidando os ataques, em que posição ela se coloca ao “dar o troco”? Não haveria uma contradição entre o suposto papel de vítima da Revista Budô e o uso de uma retórica agressiva pautada em retaliação e elementos de discurso de ódio?

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[Os participantes do grupo da oposição são] habitués em delegacias de polícia e tribunais de Justiça desde sempre [que] acham válido destroçar a imagem de terceiros, mas não aceitam críticas aos ataques desrespeitosos com os quais atacam seus adversários políticos.”

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Análise

    • Marcação dos dois sujeitos como desprovidos de ética e legitimidade, reforçando o antagonismo moral.
    • Deslegitimação do outro ao imputar receio e desconfiança sobre seu suposto antagonista (“habitués em delegacias de polícia” que “destroçam a imagem de terceiros”), incorporando o fenômeno do “discurso de ódio na forma” e recaindo sobre uma manifestação de ódio não velada.

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“Felizmente, o Judiciário fundamenta-se em normas e regras que separam muito claramente o joio do trigo, fazendo que as pessoas despreparadas e mal-intencionadas arquem com as consequências de seus atos”.

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Análise

    • Legitimação simbólica por decisão judicial, comemoração da derrota judicial da oposição e utilização da sua vitória como respaldo moral.
    • Estabelecimento dessa decisão como separação entre o “joio e o trigo”, recurso esse que reforça a exclusão simbólica de Motta e Jerschow do campo moral e institucional do judô paulista.
    • Reforço do argumento de que qualquer mudança coordenada por esse grupo seria ilegítima, inscrevendo o discurso numa simbólica guerra moral, numa estratégia direcionada a impedir que o outro se torne um agente legítimo de transformação institucional.

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Os professores Motta e Jerschow precisam entender que ambos, hoje, são figuras públicas e estão sujeitos a críticas e elogios por parte da imprensa livre [...]. Não vivemos na época medieval, quando quem criticava o rei era preso nas masmorras, para depois ser levado para a forca. Tampouco vivemos na era coronelista.”

Depoimento do advogado da situação

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Análise

    • Construção de uma narrativa segundo a qual o editor da Budô seria portador da moralidade, enquanto os opositores seriam ligados ao atraso e à injustiça (“época medieval”, “era coronelista”).
    • Monopolização do lugar da verdade e da moralidade.

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Análise

Garcia [advogado de defesa da Budô] explicou que o presente caso é mais um processo que a dupla de detratores dos professores paulistas impetra contra o jornalista esportivo – e perdem – como forma de se vingar de uma revista que só reflete a verdade dos fatos.”

    • Destaque da repetição de derrotas jurídicas e caracterização das ações como “vingança”,
    • Anulação preventiva de qualquer narrativa futura de Motta e Jerschow, esvaziando sua voz política e simbólica.
    • Uso da liberdade de expressão como arma ideológica, como escudo para deslegitimar a oposição e, assim, ocupar o espaço de autoridade da verdade.
    • Articulação discursiva conduzindo a uma versão única da realidade, anulando a narrativa da oposição e simbolicamente “marcando um inimigo” .

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Análise

E quem diz isso são os próprios magistrados, já que o caso não configura nenhum abuso no exercício do direito de informação nem ofensa à honra de ambos.”

    • Apropriação do discurso jurídico como dispositivo de poder.
    • Instrumentalização do direito para reforçar a narrativa, reiterando a centralidade do grupo dominante na produção da verdade e da ordem.
    • Contraditoriamente, a própria matéria é permeada por retaliação e termos pejorativos, voltados a desqualificar os opositores discursivamente alvejados ao longo do texto, segundo o qual são “acostumados a agredir, ofender e desclassificar pessoas”, “habitués em delegacias de polícia”, uma “dupla de detratores” tomada pelo desejo de “se vingar da revista”.

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    • O artigo constatou como o texto analisado condiz à categoria de ‘marcar um inimigo’ em vista da persistência na demonização e desqualificação moral, na monopolização do lugar da verdade e moralidade, e na neutralização de narrativas alternativas.
    • O texto constrói os opositores como figuras moral e politicamente desqualificadas, reforçando um antagonismo que visa a silenciar alternativas ao discurso hegemônico do editor e de seu grupo.
    • Esse tipo de discurso funciona como dispositivo de poder para proteger a narrativa dominante e excluir dissensos, no caso, no campo do judô paulista.

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Conclusão

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    • A pesquisa espera ter fomentado a discussão sobre gestão ética de modo a ser considerada pelas Ciências Sociais Aplicadas.
    • Espera-se, ainda, que o artigo tenha contribuído para a compreensão dos simulacros referentes ao debate sobre a disputa vivida na gestão do judô paulista, a fim de se assegurar condutas em prol da preservação da gestão ética do esporte.
    • No contexto atual, marcado por uma polarização política global contundente, ampliar os estudos a respeito do discurso de ódio, em especial no cerne da Administração, faz-se emergente e fundamental.

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Contribuições e futuras pesquisas

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Encerramos a pesquisa sob a convicção de que

“marcar essa manifestação como albergada no conceito do discurso do ódio é um dos passos importantes para a sua superação”*

— e assim espera-se ter feito.

*Schäfer, Leivas e Santos (2015, p. 155).

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Baccega, M. A. (1995). Palavra e discurso: história e literatura. São Paulo: Ática.

Brugger, W. (2007). Proibição ou proteção do discurso do ódio? Algumas observações sobre o direito alemão e o americano. Revista Direito Público, 4(15), 117–136.

Charaudeau, P. (2018). Discurso Político. São Paulo: Contexto.

Maingueneau, D. (2005). Gênese dos discursos. Curitiba: Criar Edições.

Maingueneau, D. (2015). Discurso e análise do discurso. São Paulo: Parábola Editorial.

Orlandi, E. (2013). Análise de Discurso: princípios e procedimentos. Campinas: Pontes.

Rosenfeld, M. (2003). Hate speech in constitutional jurisprudence: a comparative analysis. Cardozo Law School – Public Law Research Paper, 24(4), 1523–1567.

Sbrissia, H. (2021, 15 de dezembro). Rodrigo Motta e Vinícius Jerschow perdem mais uma ação na Justiça contra o editor da Budô. Revista Budô.

Schäfer, G., Leivas, P. G., & Santos, R. H. (2015). Discurso de ódio: da abordagem conceitual ao discurso parlamentar. Revista de Informação Legislativa, 52(207), 143–158.

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Referências

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