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RAÍZES DA MALDIÇÃO �DOS FARAÓS

LUIZ HENRIQUE TORRES

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 Capa e diagramação: Luiz Henrique Torres

Editor: Marcelo França de Oliveira

 Conselho Editorial

Prof. Dr. Amurabi Oliveira (UFSC)

Prof. Dr. Aristeu Elisandro |Lopes (UFPEL)

Prof. Dr. Elio Flores (UFPB)

Prof. Dr. Fábio Augusto Steyer (UEPG)

Prof Dr. Francisco das Neves Alves (FURG)

Prof. Dr. Jonas Moreira Vargas (UFPEL)

Profª Drª Maria Eunice Moreira (PUCRS)

Prof. Dr. Moacyr Flores (IHGRGS)

Prof. Dr. Luiz Henrique Torres (FURG)

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Copyright ©2022 Casaletras.

 

Direitos desta edição reservados aos organizadores, cedidos somente para a presente edição à Editora Mundo Acadêmico.

Importante: as opiniões expressas neste livro, que não sejam as escritas pelos organizadores em seus capítulos, não representam ideia(s) destes. Cabe, assim, a cada autor a responsabilidade por seus escritos.

Atribuição - Não Comercial - Sem Derivadas 4.0 Internacional

(CC BY-NC-ND 4.0)

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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

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R2193

 

Raízes da Maldição dos Faraós / Luiz Henrique Torres. [ Recurso eletrônico ] Porto Alegre: Casaletras, 2022.

 

268 p.

Bibliografia

ISBN: 978-65-86625-55-4

 

1. História do Egito- 2. Maldição dos Faraós - 3. Egiptologia - I. Torres, Luiz Henrique - II. Título.

 

CDU: 83-1733 CDD: 960

 

EDITORA CASALETRAS

R. Gen. Lima e Silva, 881/304 - Cidade Baixa

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  • “Afinal, o que há no Egito que explique tamanho fascínio, capaz de resistir – e, na realidade, crescer ainda mais – ao longo de tantos séculos? O que faz uma civilização tão antiga como essa continuar ditando modas e, seis milênios depois, prosseguir influenciando aspectos tão diversos da vida contemporânea, seja na arquitetura, nas artes, no espiritualismo, na ciência e na filosofia? E o que faz, nos dias de hoje, movimentos sociais tão variados, como a maçonaria e as associações de consciência negra, reivindicarem uma relação de descendência direta ou indireta com ela?” (Margaret Bakos, 2004)

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SUMÁRIO

  • Introdução/6
  • Fundamentos históricos da civilização egípcia/15
  • Egiptologia - Egiptomania/26
  • Napoleão e seu fascínio: o Egito é redescoberto pelo Ocidente/32
  • Mumificação/59
  • O nascimento da Literatura sobre a Maldição dos Faraós/84
  • A Maldição de Tutankâmon/132
  • A Múmia no Cinema/184
  • A maldição: raízes históricas/239
  • Bibliografia e acervos/261

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INTRODUÇÃO

  • Este livro foi escrito como um roteiro de temas para discussão entre os acadêmicos da disciplina História e Terror (Universidade Federal do Rio Grande).
  • O ano do seu lançamento é o centenário da descoberta da tumba de Tutankamon (1922) e traz subsídios para a compreensão de alguns marcos referenciais na longa duração temporal em que foi construída a “maldição dos faraós”.
  • A disciplina busca refletir sobre as raízes históricas ligadas as construções míticas e as readaptações discursivas ao longo do tempo.
  • Isto já foi realizado em relação a historicidade do vampirismo eslavo (TORRES, 2018) e propiciou discussões produtivas. Desta feita, aproveitando o destaque internacional do centenário de Tutankamon, serão oferecidas algumas ferramentas intelectuais para analisar os discursos que ecoarão em 2022.

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  • Um amplo levantamento iconográfico foi realizado buscando instigar o leitor refletir sobre as construções pictóricas, fotográficas e artísticas de cenários do Egito.
  • A questão central a ser desvelada é buscar as raízes históricas do mito da “maldição dos faraós”.
  • Selos emitidos pelo Egito, referentes a temáticas do período faraônico, foram reproduzidos ao longo do livro e fazem parte do acervo filatélico do autor.
  • O leitor é convidado para acompanhar as raízes históricas que fundamentaram a “maldição dos faraós” e o papel histórico-literário legado às múmias nos escritos ocidentais.

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Os fundamentos históricos para analisar a veracidade da “maldição dos faraós” originadas no Antigo Egito deve ser buscado nos primórdios da ocupação do Rio Nilo entre o período pré-dinástico e o início do Antigo Império por volta de 3100 a.C.

  • O processo de mumificação e o culto aos mortos é a primeira abordagem em que poderia residir as raízes de uma suposta “maldição”. Registros em tumbas e papiros são uma fonte para esta reflexão.
  • O segundo momento é a presença europeia fazendo a “redescoberta” do Antigo Egito com Napoleão Bonaparte, no final do século XVIII, e a divulgação das “múmias” na Europa Ocidental.

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  • A construção literária, a partir do século XIX, é outro caminho investigativo que precede o evento fundamental: a descoberta, em 1922, no Vale dos Reis, da tumba de Tutankamon.
  • A cobertura da imprensa sobre os eventos das mortes ocorridas após a escavação da tumba, projetaram a ideia da “maldição”.
  • A difusão pelo cinema da “maldição dos faraós”, a partir de 1932, -com o filme “A Múmia”, e a filmografia posterior,- encerra este ciclo investigativo que pode propiciar a luz suficiente para a compreensão de uma construção histórico-mítica de mais de cinco mil anos.
  • Investigar estes temas que apresentam uma logicidade cronológica pode contribuir para situar o leitor nos limites entre o referencial documental e a produção ficcional.

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A ESFINGE EM GIZÉ É A GUARDIÃ DA SABEDORIA MILENAR. CARTÃO-POSTAL, 1905.

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INÚMERAS INVASÕES E GUERRAS A ESFÍNGE PRESENCIOU AO LONGO DE CINCO MIL ANOS. DIVERSIFICADAS RELIGIÕES E TECNOLOGIAS AQUI ESTIVERAM. "BONAPARTE DIANTE DA ESFINGE" JEAN-LEÓN GÉRÔME, 1868 (ACERVO: ART RENEWAL CENTER).

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Soldados britânicos e indianos posam para foto com a esfinge e pirâmide em Gizé durante a Primeira Guerra Mundial. https://www.historiailustrada.com.br

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Cargueiro militar do Exército dos EUA sobrevoa as Pirâmides de Gizé, em outubro de 1943. (AP Photo). A II Guerra Mundial sobrevoa o Egito.

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EGITO: ATUAL LOCALIZAÇÃO GEOGRÁFICA

O Egito ou República Árabe do Egito é um país localizado entre o nordeste da África  e o sudoeste da Ásia. É um país mediterrâneo que faz fronteira com Israel, o território palestino em Gaza, Líbia e Sudão. É banhado pelo Mediterrâneo e pelo Mar Vermelho. Localizado no extremo leste do deserto do Saara tem o clima predominante desértico, um relevo plano e a dependência das águas do Rio Nilo.

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FUNDAMENTOS HISTÓRICOS DA CIVILIZAÇÃO EGÍPCIA

MAPA DO ANTIGO EGITO. In: HISTÓRIA GERAL DA ÁFRICA VOL. 2.

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FUNDAMENTOS HISTÓRICOS DA CIVILIZAÇÃO EGÍPCIA

  • Conforme DESPLANCQUES (2019) Os primeiros vestígios esparsos de cultura paleolítica no Egito recua a 300.000 a.C. Caçadores-coletores no vale uadi Kubanieh remontam a 18.000 a.C. quando o rio Nilo era estreito e de fluxo lento. Com o final da última glaciação o fluxo hidrográfico se tornou intenso e o “Nilo Selvagem” (entre 12 e 10.000 a.C.) tornou a ocupação muito difícil devido as cheias devastadoras. Caçadores-coletores (entre 7300 e 6400 a.C.) retomam parcialmente a ocupação das margens. Cerca de 6000 a.C. inicia a agricultura e a domesticação de animais (bois, carneiros e cabras) no Vale do Nilo. Comunidade agrícola de maior porte surge em Faium (no norte) em 5200 a.C. e por volta de 4200 a.C. no sul do Egito.

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OS NOMOSIN: MORETA, 1927.

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  • Pelo menos a 4300 a.C. grupos humanos de horticultores já ocupavam sistematicamente às margens do rio Nilo num processo prévio ao Egito Faraônico. O Pré-Dinástico foi caracterizado pelos períodos: badariano (4300-3800 a.C.), Nagada I (3800-3500 a.C.), Nagada II (3500-3200 a.C.) e Nagada III ou protodinástico (3200-3000 a.C.).
  • Por volta do ano 3500 a.C. o Egito Antigo ainda não existia como um Estado unificado. Na verdade a região era composta por várias tribos que habitavam às margens do rio Nilo. Estas tribos, formadas por clãs familiares, estavam unificadas em pequenas confederações tribais denominadas nomos (ou sepat no egípcio antigo).
  • Cada nomo cultuava uma divindade específica, mantendo uma organização político-religiosa independente dos clãs vizinhos. Os líderes eram chamados de nomarcas e, em geral, eram escolhidos entre os chefes dos clãs. Existiram 42 nomos sendo 20 no Baixo Egito, ampla região do delta do Nilo no Mar Mediterrâneo.

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  • Por meio de guerras de conquistas, iniciou-se, um processo de unificação dos vários nomos egípcios. Inicialmente, ocorreram duas unificações distintas, uma entre os nomos do sul e outra ao norte.
  • A unificação dos nomos ao sul do rio Nilo resultou na formação do Reino do Alto Egito, que tinha por divindade o deus Seth.
  • Já a unificação dos nomos da região ao norte do rio Nilo, mais precisamente no entorno do Delta do Nilo, formaram o Reino do Baixo Egito, este tendo no deus Hórus a divindade máxima.

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  • A unificação dos dois reinos somente ocorreu por volta do ano 3100 a.C. com o primeiro faraó, Menés I, que passou a utilizar uma única coroa que fundia as cores branca (Alto Egito) e vermelha (Baixo Egito). Menés (ou Narmer) não somente foi o primeiro faraó egípcio, também foi o responsável por fundar a primeira das 30 dinastias que governariam o Egito Faraônico entre 3100 e 332 a.C. Ao longo de quase três milênios governaram cerca de 330 faraós.

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  • Os historiadores dividem a história faraônica em períodos: Época Tinita iniciada com a unificação em 3100 a.C. compreendendo as duas primeiras dinastias. Império Antigo (2686-2180 a.C.) abarcando as pirâmides de Djoser e de Gizé, portanto, até a IV Dinastia. Na sequência veio o Primeiro Período Intermediário de 150 anos de duração com graves distúrbios políticos. O Império Médio (2040-1780 a.C.) foi seguido de um Segundo Período Intermediário (1780-1560 a.C.) quando ocorreu a invasão dos Hicsos em 1650 até a expulsão dos invasores pelo faraó Amósis I que fundou a XVIII Dinastia e transferiu a capital de Mênfis para Tebas. Sucedeu o Império Novo (1560-1070 a.C.) caracterizado pela expansão territorial egípcia e por faraós de destaque como Ramsés I, II e III, Aquenáton, Nefertite e Tutankamon.

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  • As dinastias de XXI a XXX (Terceiro Período Intermediário) sucedem o Novo Império e fazem parte de um período de fragmentação política e início da decadência com invasões por outros povos. Em 525 a.C. os persas controlam o Egito (formando a XXVII dinastia tendo por faraó Cambises II) permanecendo até a conquista realizada por Alexandre Magno quando tem início o período Greco-Romano em 332 a.C.
  • Os conflitos com outros povos marcaram a história egípcia como é o caso da invasão dos líbios, núbios, assírios e persas.

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  • Com a ocupação militar pelas tropas de Alexandre, o Grande, tem início a Dinastia Ptolomaica (nome oriundo do general Ptolomeu) e a capital passa para a cidade de Alexandria. A cultura helenística (grega) se difunde e neste período será construído o farol e biblioteca de Alexandria, o templo de Ísis em Philea e o templo de Hórus em Edfu. Entre 305 a.C. até 30 a.C. foram 16 faraós ptolomaicos até a queda de Cleópatra VII quando os romanos passaram a controlar o Egito e encerraram a longa duração das dinastias. Após o domínio romano (até 395 d.C.) ocorreu o controle bizantino (perdura até 642 d.C.), persa (Império Sassânida 619-621 d.C.), árabe (iniciado em 642 d.C.) e otomano (iniciado em 1517). Após a breve ocupação francesa entre 1798-1801, os ingleses passam a ter influência no Egito que é declarado protetorado Britânico em 1882.

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  • Tropas britânicas ocuparam militarmente o Egito e o reconhecimento da independência ocorreu em 1922. Uma Monarquia Constitucional manteve os laços de subordinação do Egito a Inglaterra até a eclosão do golpe militar que levou Gamal Abdel Nasser ao poder em 1952. A nacionalização do Canal de Suez ocorreu em 1958 num contexto de anti-colonialismo, nacionalismo e construção da Liga Árabe.
  • No presente, o país navega de forma complexa entre o nacionalismo, a aproximação com o Ocidente, o fundamentalismo islâmico e a busca de preservação de suas raízes.

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Aegyptus Antiqua, 1765. Atlas Generale de D Anville. In: Description de l’Egypte.

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EGIPTOLOGIA/EGIPTOMANIA

  • A longa duração temporal em que se fundamenta a construção do mito da “maldição dos faraós” é a História do Egito Faraônico. Estamos no campo da Egiptologia, que estuda a civilização egípcia extinta com fundamentos históricos, geográficos, arqueológicos, artísticos, literários, e, também, por meio da Filologia que analisa a linguagem preservada nas fontes históricas.
  • O nascimento sistemático destes estudos, remete ao nome do francês Jean-François Champollion que em 1822 decifrou a pedra de Roseta possibilitando o conhecimento da escrita hieroglífica. A disciplina de Egiptologia foi criada por Champollion, em 1831, no Collège de France (Paris).

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EGIPTOLOGIA/EGIPTOMANIA

  • Margarete Bakos propõe pensar em três tipos de leituras/pesquisas sobre o Egito Antigo: “a Egiptofilia, a Egiptomania e a Egiptologia. A primeira, da Egiptofilia, busca o exotismo naquela sociedade e deseja a posse de coisas relativas ao Egito antigo. A segunda, da Egiptomania, faz reinterpretação e reuso de traços da cultura do antigo Egito de uma forma que lhe sejam atribuídos novos significados. A última, da Egiptologia, caracteriza os olhares dos egiptólogos acadêmicos e trata com rigor científico tudo que se relaciona com o antigo Egito, inclusive práticas de egiptomania”.

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EGIPTOMANIA

  • As releituras e apropriações da vida material e espiritual do Egito, a egiptomania, se expressam numa diversificada gama de produtos e práticas, visíveis em espaços públicos ou privados: esfinges, monumentos, obeliscos, pirâmides, sarcófagos, estilos arquitetônicos, mitologia, divindades, citação de faraós, obras faraônicas, arte cemiterial, objetos artísticos, roupas, cortes de cabelo, músicas, fantasias, festa de carnaval, HQs, gamers, cards, filmes etc.

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D. PEDRO E A EGIPTOMANIA

Uma forma de apropriação do Egito faraônico é a charge. No caso, o caricaturista republicano Angelo Agostini na Revista Ilustrada (RJ) de 1871 que reproduz a esfinge com o rosto de D. Pedro II. In: BAKOS, 2004.

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A “mania” ligada ao Egito levou inclusive a escalada das pirâmides pelos turistas.

Henri Béchard, 1880. Acervo: National Geographic.

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O COLECIONISMO MUITAS VEZES ESTEVE ASSOCIADO AO ROUBO DE RELÍQUIAS. STEFANO BIANCHETTI/CORBIS. SMITHSONIANMAG.COM

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NAPOLEÃO E SEU FASCÍNIO: O EGITO É REDESCOBERTO PELO OCIDENTE. Acervo: Descrição do Egito, vol.5, década de 1810.

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DESCRIÇÃO DO EGITO. CARTA TOPOGRÁFICA, 1798-1801.

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PLANTA FRANCESA DO BAIXO EGITO EM 1798. DESCRIÇÃO DO EGITO DÉCADA DE 1810.

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A expedição de Napoleão ao Egito, a partir de 1798, promoveu a Egiptologia na Europa. A esfinge, parcialmente coberta pela areia, foi redescoberta. Teve seu nariz destruído em 1378 por um fundamentalista iconoclasta que desejava destruir um símbolo pagão que era cultuado pelos camponeses egípcios. Atentamente, a Esfinge observou/observa a tortuosa caminhada da humanidade.

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CAMPANHA DO EGITO

  • No contexto da Revolução Francesa, Napoleão Bonaparte se destacou como chefe e estrategista militar. Napoleão, com indicação do Diretório francês, planejou a ocupação militar do Egito para deste território avançar para a Índia e derrotar o Império Britânico na sua mais rica colônia. A Campanha do Egito (1798-1801) não se restringiu ao controle militar, pois, buscou evidenciar o poder intelectual francês que almejou contar a história esquecida da civilização egípcia -antes e depois- de sua dominação pelos povos estrangeiros.

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CAMPANHA DO EGITO

  • O Egito era governado por mamelucos (senhores proprietários de terra) que pagavam tributos para o Império Otomano que era aliado dos ingleses. Os franceses enfrentaram a resistência militar dos mamelucos e batalhas como a das Pirâmides e a do Cairo foram travadas e vencidas pelos franceses. Porém, a frota naval inglesa lançou fulminante ataque e na Batalha do Nilo os franceses foram derrotados perdendo grande número de embarcações. Os franceses tiveram de lutar contra os mamelucos, ingleses e otomanos tendo como resultado final a derrota militar e a retirada negociada das tropas para a França. Foram três anos de conflito e milhares de mortos. A Campanha do Egito redundou em fracasso militar, mas, em redescoberta do Egito para o mundo Ocidental. O que, pela devastação patrimonial, pode ter sido uma grande derrota para o Egito. Em outra perspectiva, a egiptologia permitiu ler as ruínas e artefatos para escrever a história egípcia.

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CAMPANHA DO EGITO. ACERVO: MANUEL MOURÃO, COMMONS.WIKIMEDIA

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BONAPARTE COM OS SÁBIOS FRANCESES NO EGITO. ELA ESTÁ OBSERVANDO UMA MÚMIA. MAURICE HENRI ORANGE DÉCADA DE 1890.

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BATALHA DAS PIRÂMIDES 1798, FRANÇOIS WATTEAU. ACERVO:�MUSEU DE BELAS ARTES DE VALENCIANES.

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BATALHA DAS PIRÂMIDES. LOUIS-FRANÇOIS LEUJENE, �1808. MUSÉE NATIONAL DES CHATÊAUX DE VERSAILLES.

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NASCIMENTO DA EGIPTOMANIA NA FRANÇA. �PLANTA DO VALE DOS REIS EM 1800.

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OBRA - DESCRIÇÃO DO EGITO

  • Com a intervenção napoleônica foi criado no Cairo (1798) o “Instituto do Egito” para desenvolver pesquisas sobre a civilização egípcia. Um volumoso material resultou das atividades dos 160 acadêmicos e cientistas civis (Comissão de Ciências e Artes do Egito) que realizaram o levantamento nas fontes escritas, iconográficas, arquitetônicas, artefatos arqueológicos etc.
  • Napoleão defendeu a publicação das pesquisas numa vasta obra: Description d’Égypte. A primeira edição é formada de 23 volumes que foram publicados entre 1809 e 1822, constituindo numa coleção magnífica em informações escritas e imagéticas.

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DESCRIÇÃO DO EGITO. FRONTISPÍCIO DA PRIMEIRA EDIÇÃO 1809. PERSPECTIVA DO EGITO: DA ALEXANDRIA A PHILAE.

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 DESCRIÇÃO DO EGITO. FRONTISPÍCIO DA SEGUNDA EDIÇÃO, 1809.

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DESCRIÇÃO DO EGITO, 1809. TEMPLO DE ÍSIS NA ILHA DE PHILE.

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DESCRIÇÃO DO EGITO. FRAGMENTOS DE ESTÁTUAS MORTUÁRIAS EM TEBAS (ATUAL LUXOR) IMEDIAÇÕES DO VALE DOS REIS.

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DESCRIÇÃO DO EGITO, 1811. HIERÓGLIFOS EM TEBAS.

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DESCRIÇÃO DO EGITO. Vol 2, 1810. PINTURAS EM SARCÓFAGOS. TEBAS.

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DESCRIÇÃO DO EGITO, VOL. 2, 1810. HIERÓGLIFOS.

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DESCRIÇÃO DO EGITO (PUBLICADO EM 1822). ESFINGE E GRANDE PIRÂMIDE. ARTISTAS: CONTÉ E SCHROEDER.

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A EGIPTOLOGIA FRANCESA DESENCADEOU UM AMPLIADO INTERESSE NO EGITO E NO RETRATAR ICONOGRÁFICO. PIRÂMIDES EM GIZÉ, DAVID ROBERTS, 1839. ACERVO: BIBLIOTECA DO CONGRESSO AMERICANO.

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GIZÉ. FOTÓGRAFO BONFILS, DÉCADA DE 1870. BIBLIOTECA NACIONAL DO RIO DE JANEIRO.

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GIZÉ. FOTÓGRAFO ANTÔNIO BENTO, 1862-1873. ACERVO: BIBLIOTECA NACIONAL DO RIO DE JANEIRO.

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D. PEDRO II E COMITIVA EM GIZÉ, 1871. BIBLIOTECA NACIONAL DO RIO DE JANEIRO.

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CANAL DE SUEZ

  • A Campanha de Napoleão desencadeou desdobramentos científicos que se difundiram pela Europa, entre eles: a descoberta da Pedra de Roseta e a decifração dos hieróglifos-, o surgimento da Egiptologia e a publicação da Description de l’Égypte.
  • Outro fator para a popularização do Egito foi a construção do Canal de Suez, uma hidrovia que liga o Mar Mediterrâneo ao Mar Vermelho. São 193 quilômetros de extensão, 24 metros de profundidade e 365 metros de largura. A obra se estendeu entre 1859 a 1869 e intensificou fricções políticas entre França e Inglaterra. A importância da obra desencadeou um aumento da presença europeia na costa do Mediterrâneo e o surgimento da cidade de Port Said. Notícias sobre o Egito se tornaram cotidianas nas capitais europeias.

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Vendedor de múmias no Egito, 1875. Fotógrafo: Félix Bonfils.

O artefato de maior atração na divulgação da Egiptomania foram as múmias. Esta iconoclastia Ocidental será o fruto mais consumido.

Mas o que é a mumificação?

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MUMIFICAÇÃO. Card Liebig, 1925.

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MUMIFICAÇÃO

  • A maldição como conhecemos no presente não teria impacto sem a presença de uma múmia! A ponto de haver uma confusão entre os termos nos filmes: maldição dos faraós ou maldição das múmias? Podemos pensar que o papel principal é das múmias através do seu impacto visual com as bandagens e força descomunal. Mas pelas raízes históricas a maldição emana dos faraós ou de quem foi enterrado naquela tumba. A múmia seria um veículo ou um meio dirigido para a ação vingativa contra a profanação da tumba.
  • Surge a questão do que é uma múmia? É um ser humano ou animal que foi parcialmente preservado através da ação natural ou artificial, sem ocorrer a decomposição cadavérica. A possibilidade natural existe em pântanos, geleiras e especialmente, em desertos, onde a umidade é mínima.
  • No Egito, frente a religião que almejava a preservação do corpo físico como garantia para o ingresso no plano espiritual, surgiram sofisticados métodos artificiais de mumificação. A sofisticação destes conhecimentos possibilitaram que corpos mumificados ainda estejam preservados 5 mil anos depois do procedimento.

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MUMIFICAÇÃO

  • O nome múmia não é egípcio e sim persa (mumya - betume) sendo apropriado pelos árabes e remete a aparência das múmias encontradas pelos povos árabes: a cor e aparência do betume (um derivado do petróleo).
  • A observação empírica de corpos parcial ou plenamente mumificados nos enterramentos feitos no deserto pode ter sido um fator de investigação de técnicas que permitissem o controle artificial do processo de não decomposição dos corpos. O contato do cadáver com a areia era fundamental para a retirada dos líquidos do corpo e a efetivação da mumificação. Porém, colocar os corpos em caixões ou fibras vegetais já impedia a ação direta da areia e a decomposição tinha continuidade.

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MUMIFICAÇÃO

  • Através da experiência, os egípcios constataram que a decomposição se dava principalmente de dentro para fora e que as bactérias existentes inicialmente nos órgãos internos do corpo se espalhavam para o exterior. Os embalsamadores perceberam que para deter o processo de putrefação, teriam que remover os órgãos internos.
  • Foi isto, combinado com a descoberta das propriedades naturais de secagem do natrão, que resultou nas famosas múmias egípcias que conhecemos hoje.
  • Descobrir os fatores da decomposição exigiu a observação sistemática para constatar que era necessário a retirada dos órgãos internos e a realização de vários tratamentos químicos com o corpo.

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MUMIFICAÇÃO

  • Descobertas arqueológicas recentes remetem a um conhecimento sofisticado de mumificação ao período pré-dinástico (cerca de 3100 a.C.), porém, inúmeros exemplos de uma técnica madura ocorreram a partir da IV dinastia (cerca de 2575 a.C.). O tipo de incisão, a retirada dos órgãos e seu tratamento, o embrulhamento em linho (sem os quais as múmias perderiam muito do seu charme...), já estão difundidos e ao longo do tempo serão popularizados não se restringindo aos enterramentos dos faraós e grupos mais privilegiados.

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MUMIFICAÇÃO

  • A mumificação era feita em etapas exigindo conhecimentos de anatomia e química pelos responsáveis pelo procedimento.
  • Sacerdotes estavam envolvidos, já que havia uma ritualização com orações que acompanhavam a parte física e técnica de lavagem do corpo e de remoção das vísceras. Era feita uma incisão no abdômen para retirada do coração (tratado quimicamente e voltava para o corpo no final), intestino, rins, fígado, estômago etc. Pelo nariz era realizada a retirada do cérebro. Percebemos que os egípcios já conheciam fundamentos de medicina interna.
  • O corpo era colocado em água e sal por cerca de 70 dias matando as bactérias decompositoras e promovendo a desidratação.

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MUMIFICAÇÃO

  • No final da desidratação, o corpo era preenchido com ervas aromáticas e serragem, além de objetos de caráter religioso que poderiam ser úteis na caminhada do espírito.
  • A próxima etapa era a colocação das ataduras de linho branco que também recebia substâncias e uma cola para se prenderem ao corpo. A última etapa era a colocação da múmia num sarcófago e preencher o ambiente com os vasos canopos (onde foram colocadas as vísceras) e objetos úteis (amuletos, deuses protetores e inclusive o Livro dos Mortos) na difícil passagem para o outro plano. Após a tortuosa viagem pelas trevas o coração seria pesado no Tribunal de Osíris. Quem conduzia o espírito para o Tribunal era Anúbis.

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ANÚBIS

  • É o nome do deus egípcio da morte.
  • Era a divindade do embalsamamento, guardião das tumbas e juiz dos mortos. Ele é representado com cabeça de chacal ou associado aos cães. Sua presença era constante nas tumbas.

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AS MÚMIAS COMO MERCADORIA

  • O tráfico de múmias do Egito para a Europa remonta ao século XV e se intensificou no século XVI com interesse no seu uso como medicamento. Na antiguidade greco-romana já se fazia referência as propriedades de cura associada ao consumo de betume preto. Triturar múmias aproximava a aparência do betume e era mais agradável ao paladar devido as ervas aromáticas.
  • A profanação se tornou sistemática e as múmias se tornaram uma mercadoria que assumiu diferentes usos nos séculos seguintes.

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PÓ DE MÚMIA. MUSEU DE HAMBURGO.

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PÓ DE MÚMIA

  • O betume preto apresenta uma relação com a cura de doenças na antiguidade oriental. Os persas, denominavam o betume de “múmiya” e assim foram seguidos pelos árabes que associam os corpos encontrados em sarcófagos com múmias pela sua aparência que lembra o betume preto.
  • O pó, feito com múmias trituradas, era vendido na Europa para diluição do sangue, reduzir a tosse, antiinflamatório, cicatrizante de feridas e analgésico.
  • O maior problema para a população consumidora da época, não era o consumo do pó original das múmias que tinha toda uma aura de aceitação supersticiosa dos poderes mágicos que recuava ao tempo da espiritualidade egípcia. O receio era consumir as falsificações em que cadáveres recentes eram triturados para garantir a manutenção de um mercado lucrativo. Ou seja, o que preocupava é o exercício do canibalismo de um produto falsificado.

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TINTA “MARROM MÚMIA”. ACERVO: HARVARD ARTS MUSEUM.

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TINTA “MARROM MÚMIA”

  • Outra forma de utilização das múmias trituradas era o pigmento para pinturas. Era o “marrom múmia” produzido com o extrato de múmia, gordura, terra, mirra e amônia. Desde os anos 1500 eram vendidas aos pintores para obterem sombreamento e tom de pele. Artistas como Edward Burne-Jones e Delacroix utilizaram a tinta que só deixou de ser fabricada em 1964.

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APRESENTAÇÃO EM QUE UMA MÚMIA DE TEBAS SERIA DESENBRULHADA EM 1850.

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SHOW DE DESENROLAR MÚMIAS

  • Esta prática pode ter sido a mais danosa pois provocou uma corrida ao consumo de múmias aquecendo o mercado de destruição de sítios arqueológicos em busca de sarcófagos e múmias.
  • A profanação virou um espetáculo banal com argumento inicial de investigar corpos mumificados de milhares de anos e os objetos que os acompanhavam. Retirar a bandagem e encontrar amuletos ou joias era o clímax. A aura de grandiosidade e religiosidade da civilização egípcia se converte num modismo mórbido e depreciativo.
  • Outras utilizações de múmias são mais improváveis ou lendárias por significarem a desvalorização financeira do aquecido mercado das múmias: uso como fertilizantes na Inglaterra (ocorreu um lote com múmias de gatos), queimar múmias como combustível nas locomotivas egípcias, usar as bandagens para imprimir jornais etc.

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COLECIONISMO DE MÚMIAS

  • Múmias inteiras ou partes do corpo passam a ser colecionadas no contexto da redescoberta da civilização egípcia e pelo fascínio ligado ao Orientalismo. Artefatos arqueológicos faziam parte deste desejo de consumo. Mas, fragmentos humanos davam um tom místico a coleção. Aos abonados, uma viagem ao Egito para conhecer as ruínas e ainda adquirir souvenirs macabros se associavam a um mercado local de saques e oferta de produtos. Um grande número de múmias foram compradas e enviadas para centros de pesquisa e universidades, garantindo a preservação de uma pequena mas relevante parte de sarcófagos e múmias para a pesquisa científica e a divulgação de conhecimentos.

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TRATADO MÉDICO SOBRE MÚMIAS DE PETTIGREW (1834)

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CIRURGIÃO PIONEIRO EM AUTÓPSIAS NAS MÚMIAS EGÍPCIAS

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PETTIGREW

O cirurgião inglês Thomas Pettigrew promoveu em 1821, num apelo pseudocientífico como encontros para médicos, espetáculos em que se desenrolavam múmias no Teatro de Piccadilly em Londres. As apresentações se tornaram populares e impulsionaram as atividades públicas e particulares que necessitavam de um número cada vez maior de múmias para serem desembrulhadas e identificadas: sexo, idade e objetos que estavam embalados em seu interior etc. Entre a repugnância e a curiosidade, a profanação de corpos enterrados ritualmente, se tornou uma moda. Era a “múmia kinder”.

Pettigrew acumulou grandes conhecimentos nesta “arte” de exumação e publicou um livro referencial para os estudos científicos no ano de 1834: História das Múmias Egípcias.

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EXPOSIÇÃO EGÍPCIA EM LONDRES NO PICCADILLY em 1828.

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DISSECAÇÃO DE MÚMIA NO CAIRO EM 1886. ORGANIZADA PELO EGIPTÓLOGO FRANCÊS GASTON MASPERO E OBSERVADA POR MILITARES EUROPEUS.

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DISSECAÇÃO DE UMA MÚMIA – QUADRO DE PAUL DOMINIQUE PHILIPPOTEAUX – 1891.

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MANCHESTER EM 1908. ARQUEÓLOGA MARGARET �MURRAY E A MÚMIA DE KHNUM-NAKHT.

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O INTERESSE POR MÚMIAS NA INGLATERRA SE ESTENDEU PELO SÉCULO XIX E FOI OBJETO PARA A CARICATURA SATÍRICA. CHARGE DE THOMAS ROWLANDSON (1806).

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O NASCIMENTO DA LITERATURA SOBRE A MALDIÇÃO DOS FARAÓS/MÚMIAS

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  • A longa caminhada literária na abordagem das múmias teve início em 1827. A fonte principal que será aqui utilizada é a coletânea de 25 contos publicado por John Irish “A Mummy Omnibus: 1820-1920s (2018)”. Apenas alguns destes contos foram selecionados e não a sua totalidade. Se buscou evidenciar que já se aproxima de dois séculos as incursões da produção literária referente ao tema “múmias e maldições”. Além do livro de Irish, uma bibliografia mais ampla também foi investigada.

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JANE LOUDON – 1827 (A MÚMIA)

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THE MUMMY!

A TALE OF THE TWENTY-SECOND CENTURY.

By Jane Webb (Mrs. Loudon).

"Why hast thou disquieted me, to bring me up?"�I Sam., xxviii. 15.�

LONDON: HENRY COLBURN, NEW BURLINGTON STREET.

1827.

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JANE LOUDON

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JANE LOUDON

  • The Mummy!: Or a Tale of the Twenty Second Century (1827) publicado em Londres por Jane Webb Loudon (1807-1858), dá início a literatura sobre múmias.
  • O faraó Quéops, que reviveu na Inglaterra no ano de 2126, é o tema central do romance e ele distribui conselhos sobre política, progressos científicos e como viver em sociedade. Não há qualquer elemento de “maldição”. A autor busca demonstrar a sabedoria egípcia que continuaria a ser útil três séculos no futuro de quando o romance deve ter sido escrito (1826?). A primeira edição foi publicada em 1827.
  • Especula-se que a autora acompanhou o pai numa apresentação da abertura de bandagens de múmias em Piccadilly. Com apenas 17 anos ficou órfã e começou a escrever este livro futurista, com criativos elementos de ficção científica.

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MARY SHELLEY

  • Hipoteticamente, Mary Shelley teria influenciado a criação de “A Múmia” (na reflexão de Lisa Hopkins, 2003). Jane Loudon não traz a vida uma criatura fundada no horror e na busca de vingança contra o criador (Victor Frankenstein). Ela reanima a múmia de Queóps que é um poço de sabedoria, conhecimentos e equilíbrio. A múmia não é o fruto de uma profanação do ciclo de nascimento e morte (realizado pelo saber médico que desencadeou desgraças) e sim foi reanimada magicamente por forças não humanas (poder divino).
  • Interessante é que Mary Shelley no romance Frankenstein relaciona a criatura gerada em laboratório como uma aberração superior a de reviver uma múmia: “Nenhum mortal poderia suportar o pavor daquela visão. Uma múmia que voltasse a vida não seria tão assustadora”. O livro de Shelley teria sido uma fonte de inspiração para Loudon?

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DIE MUMIE VON ROTTERDAM. GEORG �DÖRING. 1829.

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A MÚMIA DE ROTTERDAM

  • A história se passa em 1702 no Porto de Rotterdam (Holanda). Envolve, entre outros personagens, um poderoso comerciante Tobias van Vlieten e o professor de história natural Eobanus Hazenbrook. No Museu Natural de Leyden não havia uma múmia egípcia em exposição. A proposta do professor é que o comerciante, em seu testamento, autorizasse a sua mumificação. A obsessão do professor era possuir uma múmia mas elas eram difíceis de serem conservadas na Europa devido as condições do ar. Era necessário obter um corpo para mumificar com extremos cuidados para durar por milênios. Vlieten foi escolhido para compor o Museu administrado pelo professor, porém, se rebela frente a esta perspectiva.

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THÉOPHILE GAUTIER :�O PÉ DA MÚMIA

  • The Mummy’s Foot, história de 1840 de Théophile Gautier (1811-1872), em que um jovem compra um pé mumificado (da princesa Hermonthis com mais de 3.000 anos) em uma loja de antiguidades parisiense para usar como papelão. Naquela noite, ele sonha com a bela princesa a quem o pé também pertencia, e os dois se apaixonam, mas, a distância temporal não permite o relacionamento. O jovem desperta do que seria apenas um sonho, mas o pé mumificado teria voltado para o passado e em seu lugar, em agradecimento, estava uma estatueta do Antigo Egito. É uma ficção gótica sem “maldições” e sim, explorando a temática do amor impossível devido a anacronia temporal e ao lugar social dos apaixonados.

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EDGAR ALLAN POE: PEQUENA CONVERSA COM UMA MÚMIA (1845)

  • Edgar Allan Poe escreveu um conto chamado "Some Words With a Mummy" (em que uma múmia acaba sendo reanimada e conversa com os cientistas).

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EDGAR ALLAN POE (1845)

O conto “Pequena Conversa com uma Múmia” foi originalmente publicado por Edgar Allan Poe no periódico American Review de abril de 1845. A narrativa trata de um grupo de cientistas norte-americanos liderados pelo Dr. Ponnonner, que realizaram uma expedição científica as montanhas da Líbia e trouxeram uma múmia encontrada em uma gruta. O conto é satírico e humorístico pois Poe busca evidenciar a arrogância científica do tempo em que viveu e descaracterizar o pensamento moderno de que o passado reflete o atraso civilizatório. Ao ganhar vida, a múmia Allamistakeo, passa a dialogar com os cientistas e expor conhecimentos da antiguidade que constrange os conhecimentos científicos da modernidade norte-americana da década de 1840.

 

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EDGAR ALLAN POE (1845)

  • Não há maldição e sim argumentação de antigos conhecimentos egípcios que evidenciam a oposição entre a arrogância e a sabedoria. Poe interpreta o pensamento americano desta época como fundado no desprezo à tradição e na arrogância frente a posturas diferenciadas (numa referência ou completo silêncios ou as críticas recebidas por sua produção intelectual). Como a múmia é associada à morte e a negação da existência, Poe utilizou este exemplo extremo para humilhar os cientistas e literatos. Portanto, se observa o recurso da narrativa literária para criticar as práticas de seu tempo. Portanto, Poe “se preocupava com questões relacionadas ao seu meio social, às ideologias correntes em sua época à sua própria posição enquanto escritor”, e desenvolve uma narrativa, que “através do humor e da sátira, exerce uma crítica contundente em relação à mentalidade norte-americana e aos exageros do século XIX, manifestos nas ideias progressistas e no avanço científico observado na época” (BELLIN, 2010).

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ROMANCE DA MÚMIA PUBLICADO POR THEOFILE GAUTIER EM 1858. CAPA DA EDIÇÃO DE 1901.

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O ROMANCE DA MÚMIA

  • Este é o livro de maior impacto oitocentista no imaginário referente ao Antigo Egito e as múmias. Theophile Gautier escreveu o romance “Le Roman de la Momie” em 1858.
  • Ao retornar da vitoriosa campanha militar na Etiópia, o faraó Ahmosis (Ramsés ?) conhece a filha de um sacerdote e se apaixona por ela. A jovem e bela egípcia se chama Tahoser que está afetivamente ligada a Poeri, um hebreu exilado já prometido a outra mulher. O conflito está esboçado dentro dos fundamentos do romantismo e dos trágicos desfechos. Nesta época, os hebreus são escravos no Egito e Moisés lidera a fuga dos hebreus e envia as “dez pragas do Egito”. Posteriormente, ocorre a fuga pelo Mar Vermelho.

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O ROMANCE DA MÚMIA

  • Descrições do cotidiano e de técnicas egípcias, relatos sobre a história bíblica do período, caracterizam este escrito com elementos de romance histórico.
  • Esta história foi conhecida por um jovem aristocrata inglês, Lord Evangale, e um egiptólogo alemão, Dr. Rumphius, ao profanarem uma tumba no Vale de Biban-el-Molouk. A sepultura ficou por mais de 3.500 anos inviolada e deveria ser o local de repouso de um faraó. Entretanto, a múmia era de uma mulher que estava perfeitamente conservada: a jovem Tahoser. Uma nota final do livro insinua que Evangale teria se apaixonado pela múmia de Tahoser.

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ROMANCE DA MÚMIA (EDIÇÃO DE 1920)

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O ROMANCE DA MÚMIA (EDIÇÃO DE 1931)

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LOUISA MAY ALCOTT – 1869� “PERDIDO EM UMA PIRÂMIDE: A MALDIÇÃO DA MÚMIA”

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LOUISA MAY ALCOTT – 1869�“PERDIDO EM UMA PIRÂMIDE: A MALDIÇÃO DA MÚMIA”

  • O conto “Perdido em uma pirâmide: a maldição da múmia” foi escrito pela renomada escritora norte-americana Louisa May Alcott (1832-1888). De forma despretensiosa foi publicado no The New World, vol.1, n.1, 16 de janeiro de 1869. O conto caiu no esquecimento e foi redescoberto numa biblioteca pelo egiptólogo Dominique Monteserrat em 1998. Para Monteserrat a maldição é uma construção literária. Neste conto nasce o “the mummy’s curse” ou “a maldição da múmia” que foi retomada inúmeras vezes na linguagem literária.
  • O enredo é criativo e a narrativa flui com destreza.

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LOUISA MAY ALCOTT – 1869�“PERDIDO EM UMA PIRÂMIDE: A MALDIÇÃO DA MÚMIA”

  • Dois exploradores estão realizando pesquisas arqueológicas na pirâmide de Queóps e encontram um sarcófago com a múmia de uma mulher. Trata-se de uma sacerdotisa conhecedora dos poderes das trevas. Os dois desembrulham a múmia, em busca de objetos valiosos, até deixá-la nua e expondo as longas tranças que aformoseavam o seu crânio. Um acidente leva a necessidade de colocarem fogo em objetos na pirâmide para obterem, através da fumaça, a atenção de outras pessoas. A múmia é queimada e um papiro retirado de seu interior tinha uma mensagem que ameaçava os profanadores de uma vingança. Também foi encontrada uma caixa dourada com sementes deixadas pela sacerdotisa/feiticeira.

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LOUISA MAY ALCOTT – 1869�“PERDIDO EM UMA PIRÂMIDE: A MALDIÇÃO DA MÚMIA”

  • A maldição da múmia provém de uma mulher que garantiu vingança aos profanadores. Esta vingança não é a de uma múmia se arrastando para esmagar os intrusos e sim através de sementes que farão brotar plantas com veneno paralisante ou mortal. Um dos exploradores morreu ao plantar e fazer contato com a tóxica flor. Ele morreu em grande agonia, delirando e proferindo frases sobre múmias, pirâmides, serpentes e uma fatal maldição. A flor continha um veneno mortal desenvolvido por feiticeiras egípcias absorvendo a vitalidade de quem a cultivava.
  • O outro explorador teve uma punição mais angustiante: sua esposa ficou inflexivelmente paralisada exigindo permanente cuidados. Após ficar em contato com a flor que era branca fantasmagórica em forma de cabeça de uma cobra escarlate e sofrer uma síncope, ela afirmou: “Nem o sono, nem a comida, nem o ar me dão forças e às vezes uma névoa curiosa parece nublar minha mente”.

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LOUISA MAY ALCOTT – 1869�“PERDIDO EM UMA PIRÂMIDE: A MALDIÇÃO DA MÚMIA”

  • A morte em vida foi o destino da esposa do explorador que passou a viver isolado para cuidar “com devoção patética do fantasma pálido, que nunca, com palavras ou olhares, poderia agradecê-lo pelo amor que sobreviveu até mesmo a um destino de irremediável desesperança”.
  • Neste conto, emerge pela primeira vez o enfoque na “maldição” tendo por autora uma mulher e como personagem principal uma sacerdotisa/feiticeira egípcia.

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ARTHUR CONAN DOYLE�O ANEL DE THOTH (1890)

  • O conto “O Anel de Thoth” (The Ring of Thoth) foi publicado em janeiro de 1890 no The Cornhill Magazine e assinala a primeira incursão de Arthur Conan Doyle em temáticas do antigo Egito. Doyle retomou estes escritos e foi o principal literato a defender a existência de uma “maldição dos faraós”.
  • O Sr. John Vansittart Smith é um estudante de Egiptologia que viaja à França para ver alguns papiros no Museu do Louvre. Cansado de sua visita, ele se senta em um canto do museu e cochila. Quando ele acorda, o museu está fechado e ele está trancado lá dentro. Tentando sair, ele conhece um homem estranho que parece realizar um ritual em uma múmia. O curioso personagem conta a sua história:�seu nome é Sosra e nasceu há 3500 anos no Egito. Era um sacerdote do deus Osíris e descobriu um remédio contra a morte. Ele o usou e o compartilhou com seu assistente, Parma. Também queria administrar esse elixir à sua noiva, Atma, mas ela morreu pouco antes. Ficou desesperado porque não podia se juntar a ela na vida após a morte. 

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ARTHUR CONAN DOYLE�O ANEL DE THOTH (1890)

  • Então Smith buscou se tornar mortal novamente. Parma relatou-lhe que havia encontrado um antídoto, mas decidiu usá-lo para si mesmo, para que pudesse morrer e encontrar Atma no além. Sosra percebeu que o antídoto estava no anel de Thott, mas Parma o havia escondido e levou seu segredo para o túmulo. 3.500 anos depois, a múmia de Atma é encontrada por arqueólogos franceses e repatriada para o Louvre. Sosra conseguiu ser contratado no museu, encontrou o sarcófago de Atma e conseguiu o anel contendo o precioso elixir. No final de sua incrível história, Sosra acompanha Vansittart até a saída. Dois dias depois, os jornais noticiam que um homem foi encontrado morto no museu enrolado nos braços de uma múmia (resenha adaptada de: https://www.arthur-conan-doyle.com/ index.php?title=The_Ring_of_Thoth).

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Conan Doyle. Lot. N. 249. Harper’s Monthly Magazine, setembro de 1892, p. 525. Ilustração de William T. Smedley. In:https://www.arthur-conan-doyle.com

Reprodução de uma página da primeira edição publicada do conto Lote nº 249 no ano de 1892. Na ilustração, um detalhe da Igreja na Universidade de Oxford.

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ARTHUR CONAN DOYLE�LOTE nº 249

  • Lote nº 249 é um conto publicado originalmente na Harper’s Monthly Magazine no mês de setembro de 1892. Recebeu a partir de 1894 outras edições, inclusive com ilustrações (como na edição francesa de 1906).
  • O enredo transcorre na primavera de 1884 no campus da Universidade de Oxford. Dois estudantes de medicina, Smith e Lee, e um estudante de línguas orientais Bellingham moram numa torre da esquina no Old College. Numa noite, Bellingham é encontrado inconsciente em seu apartamento que está lotado de artefatos orientais, entre eles, uma múmia que fora retirada de seu sarcófago e que tinha a anotação: Lote nº 249. O acadêmico estava escondendo em seu apartamento algo estranho que produzia sons não identificados.

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Conan Doyle, Lot. 249. Edição de 1906. In: https://www.arthur-conan-doyle.com Ilustração Martin Van Maële (Société d’Édition et de Publications, setembro de 1906).

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ARTHUR CONAN DOYLE�LOTE nº 249

  • Em meio a desconfiança ocorre um crime no campus quando um acadêmico foi estrangulado por um homem de braços fortes e unhas muito longas. Lee discutiu com Bellingham pois parecia ter descoberto o que este guarda em seu quarto. Lee é encontrado parcialmente afogado na beira de um lago no campus de Oxford, porém, acaba salvo por Smith e um amigo. Os acadêmicos acreditam que o autor da tentativa de homicídio era a múmia. No dia seguinte, após acusar e discutir com Bellingham, Smith foi seguido por uma figura alta, magra e de cor escura, escapando por pouco de um ataque.

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Conan Doyle, Lot. 249. Edição de 1906. In: https://www.arthur-conan-doyle.com Ilustração Martin Van Maële (Société d’Édition et de Publications, setembro de 1906

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ARTHUR CONAN DOYLE�LOTE nº 249

  • Smith consegue uma arma e vai a casa de Bellingham forçando-o a atear fogo a múmia. Um papiro também é queimado, pois, nele estariam as instruções para reviver a múmia. O conto termina de forma vaga sem esclarecer se realmente havia a ação nefasta de Bellingham e a evocação de uma múmia para cometer assassinatos. Não seria tudo fruto de uma imaginação paranoica do acadêmico Smith?
  • A seguir são reproduzidas mais algumas ilustrações sobre a perseguição da múmia publicadas nas edições de 1898, 1906 e 1924.

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Conan Doyle, Lot. 249. Edição de 1906. In: https://www.arthur-conan-doyle.com Ilustração Martin Van Maële (Société d’Édition et de Publications, setembro de 1906).

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Conan Doyle, Lot. 249. Edição de 1906. In: https://www.arthur-conan-doyle.com Ilustração Martin Van Maële (Société d’Édition et de Publications, setembro de 1906).

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Conan Doyle, Lot. 249. Edição de 1906. In: https://www.arthur-conan-doyle.com Ilustração Martin Van Maële (Société d’Édition et de Publications, setembro de 1906).

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Conan Doyle, Lot. 249. In: https://www.arthur-conan-doyle.com Ilustração de Antoine-Marie Raynolt em La Lecture (dezembro de 1898.

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Conan Doyle. La momie-vivante (Lot. N. 249). Ilustração: Frederic Rouff, 1923-1924. https://www.arthur-conan-doyle.com

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BRAM STOKER "A JÓIA DAS SETE ESTRELAS“ (1903)

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BRAM STOKER

  • Arqueólogos encontram a tumba da rainha egípcia
  • Tera que havia sido amaldiçoada pelos sacerdotes. Neste local está um sarcófago e uma mão de múmia com sete dedos, adornada com um anel de rubi com sete pontas que parecem estrelas. O egiptólogo Abel quer ressuscitar Tera, porém, esta passa a dominar Margaret, filha do cientista. Mexer com o desconhecido provocou a morte de várias pessoas e, numa revisão publicada em 1912, Stoker retira o capítulo final com tantas mortes e o triunfo da maldição de Tera. Fez um novo epílogo brando.
  • Esta rainha fictícia apresenta semelhanças com uma personagem real que foi Hatshepsut (1479-1458 a.C.). Howard Carter descobriu a tumba desta Rainha em 1903, mesmo ano do lançamento deste romance. Bram Stoker era um aficionado leitor do Egito Faraônico e traz descrições detalhadas de objetos e cenários, além de citar destacados egiptólogos.

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BRAM STOKER

  • Stoker tinha amizade com o egiptólogo William

Wilde e Richard Francis Burton. Ele estudou em Dublin no Trinity College que se destacou em Orientalismo e Egiptologia.

  • A Jóia das Sete Estrelas se caracteriza como “horror gótico” com ênfase no “Gótico Imperial” onde os temas da literatura gótica se voltavam a consequências do imperialismo e do colonialismo. O medo do poder oculto e de forças desconhecidas desencadeadas por Tera poderia ser o reverso “do impulso externo da aventura imperialista” e o desencadear de uma crise na civilização europeia.

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AGATHA CHRISTIE – 1924

Este conto da “rainha do crime” foi publicado em 1924 no contexto da descoberta da tumba de Tutankamon e seus desdobramentos sobrenaturais tão difundidos na imprensa mundial. A associação de mortes, como a de Carnarvon, trazendo a tona a “maldição dos faraós” instigou Agatha Christie a contrapor a especulação da imprensa com um raciocínio lógico neste conto “A Aventura da Tumba Egípcia”.  

No conto escavações realizadas por dois ingleses próximo ao Cairo, em Gizé, resultam na descoberta de uma série de câmaras funerárias, entre as quais, a tumba do faraó Men-her-Ra da VIII dinastia com capital em Mênfis.  Após a descoberta começou a ocorrer a morte de participantes da escavação e a imprensa creditou os fatos a “maldição do faraó” que teve sua tumba profanada: “o poder mágico do antigo Egito passou a ser exaltado a um ponto quase fetichista”. Poirot é convidado pela viúva de um arqueólogo morto em situação trágica para investigar o que realmente ocorreu com o seu marido. A narrativa foi construída para, paralelamente a cobertura sensacionalista da imprensa em relação a tumba de Tutankamon, propor uma interpretação fundada em observação rigorosa dos eventos e explicações lógicas e racionais. É uma resposta as ocorrências do seu tempo e, possivelmente, rechaçar a abordagem mágica proposta por Conan Doyle.

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AGATHA CHRISTIE – 1924

Agatha Christie demonstrava ter algumas leituras de história do Egito e conduz a sua narrativa para um desfecho ligado a assassinatos premeditados por interesses materiais e concretos de apropriação do alheio. Manteve-se coerente a sua literatura policial. Ela colocou no enredo o personagem de Anúbis, que não passava de uma fantasia humana de Anúbis. Agatha flerta com leituras sagradas como O Livro dos Mortos para desmistificar a suposta crença egípcia em maldições. Numa passagem do conto a escritora fala a Hercule Poirot que descrê na divulgação tendenciosa da mídia expandida ao pensamento popular de que a estranha sucessão de mortes relacionadas com a tumba de Men-her-Ra seria uma “prova incontestável da vingança de um faraó do passado contra os profanadores”.  

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AGATHA CHRISTIE – 1924

Para Poirot, tal crença “é absolutamente contrária a todas as crenças e pensamentos dos antigos egípcios”. Interessante é o escrito ter sido lançado no contexto dos acontecimentos que seriam amplificados nos anos seguintes e na contramão do sensacionalismo que vigorava. Especialmente, se fizermos um contraponto com outro autor de literatura policial que é Conan Doyle que seguiu um caminho radicalmente oposto ao da “dama do crime”.

Neste conto temos a temática da “maldição” em decorrência do fato histórico da descoberta da tumba de Tutankamon e a cobertura da imprensa frente às mortes. A ficção se amparou nos episódios de 1923.

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ELIZABETH PETERS – egiptóloga autora de 19 livros populares sobre o Antigo Egito. Amelia Peabody é a personagem central das publicações iniciadas em 1975. Este livro da série foi lançado em 1981.

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RAMSÉS, O MALDITO

  • Anne Rice (1941-2021) é muito conhecida pela obra Crônicas Vampirescas. Ela também enveredou pelo tema Egito faraônico e múmias no livro A Múmia ou Ramsés, o Maldito (1989). Uma série em HQs foi produzida com 12 volumes (Millennium Comics, 1990).
  • O enredo remete a descoberta, no Vale dos Reis, da tumba de Ramsés por um arqueólogo inglês que acaba sendo assassinado por um sobrinho que tinha interesses financeiros. A múmia acaba sendo enviada para a casa do arqueólogo e sua filha Julie se encarrega da guarda. Na condição de herdeira de uma grande fortuna, Julie se torna a nova vítima do sobrinho. Ramsés desperta da morte para evitar o envenenamento de Julie e passa a contar a sua história.

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RAMSÉS, O MALDITO

  • Ramsés e Julie acabam se apaixonando e ele fala sobre o elixir da vida, sua paixão por Cleópatra e suas vivências no antigo Egito. Ele percorre as ruas de Londres e vai descobrindo a vida cotidiana de uma metrópole no mundo contemporâneo. Os dois viajam até o Cairo e descobrem a tumba de Cleópatra a qual é despertada pelo uso profano do elixir da vida por parte de Ramsés. Este reviver resulta em muitas mortes e no desequilíbrio da relação vida e morte, condição humana e sobrenaturalismo.
  • Anne Rice promove uma reflexão sobre o sentido da vida e o desejo da imortalidade. E o preço a pagar por esta busca...

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A LITERATURA COMO OBJETO DE ANÁLISE

  • Estas referências literárias que buscaram rastrear as raízes da “maldição dos faraós” não esgotam o arrolamento. De forma direta ou fragmentada a visitas literárias ao tema são mais amplas, além, das abordagens que são literárias/ficcionais e que buscam passar por conhecimento científico.
  • Para além da busca da maldição a produção é muito ampla sobre diferentes aspectos e personagens da civilização egípcia, o que remete a uma vasta matéria-prima para a investigação crítica para potenciais pesquisadores. Como ressaltou Ciro Flamarion Cardoso (2004): “se a egiptomania for apropriação e reinterpretação de elementos da cultura egípcia, ressignificados e aos quais novos usos são destinados no mundo contemporâneo, os romances históricos de tema egípcio se encaixam bem nesta definição”.

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PAPEL MOEDA EGÍPCIO COM O MONUMENTO DE ABU SIMBEL

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A MALDIÇÃO DE TUTANKÂMON

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O VALE DOS REIS. ENTRADA DE UMA TUMBA REAL, 1821, EDWARD DE MONTULE.

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O VALE DOS REIS

  • O Vale dos Reis  é uma região onde, por um período entre os séculos XVI-XI a.C. (1539-1078 a.C.), tumbas foram construídas para os faraós, poderosos nobres ou administradores do Reino Novo (da XVIII até a XX dinastia do Antigo Egito).  O Vale se localiza na margem oeste do rio Nilo, oposto a Tebas (atual Luxor), no centro da Necrópole de Tebas e já foram encontradas 70 tumbas. Neste local foi sepultado Tutankâmon.  

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Porta da tumbá do faraó Tutankâmon, em 1922, ainda com o lacre original descoberto por Carter.

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Máscara mortuária de Tutankâmon. Museu Egípcio do Cairo.

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  • Tutankâmon (1336-1327 a.C) subiu ao trono com 10 anos e governou até sua morte aos 19 anos. Era filho de Aquenáton com uma de suas irmãs ainda não identificada. O faraó morreu, possivelmente, em decorrência de malária e teve problemas de má formação física devido aos laços de consaguinidade (os pais eram irmãos). No seu governo ocorreu a restauração da supremacia do Deus Amon e a capital foi transferida para Tebas. Entre a morte e o enterramento foram cumpridos os 70 dias de intervalo e ele foi enterrado numa tumba pequena que possivelmente já estava pronta para outra pessoa.

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Pintura em caixa encontrada na tumba. Acervo: Museu Egípcio do Cairo.

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A TUMBA DE TUTANKÂMON

  • As tumbas do Vale dos Reis são visitadas por saqueadores desde os primórdios dos enterramentos. Escavações se tornaram sistemáticas após o reconhecimento cartográfico pelos franceses no início dos século XIX. Tutankâmon é uma das 70 tumbas do Vale dos Reis. Ostenta o código de identificação KV-62 e foi descoberta em novembro de 1922.
  • O financiador da expedição arqueológica foi o 5° Conde de Carnarvon (1866-1923) um milionário inglês. A busca teve início em 1907 e o arqueólogo inglês Howard Carter (1874-1939) liderou os trabalhos que envolveu outros profissionais e muitos egípcios nas escavações. O Departamento de Antiguidades do Egito supervisionava os trabalhos.

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LORD CARNARVON

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CARNARVON

  • Carnarvon foi um dos pioneiros do automobilismo e sofreu um grave acidente de automóvel na Inglaterra. Realizou várias cirurgias e ficou com problemas respiratórios. A extrema umidade do inverno inglês o levou a viajar para o Egito no ano de 1903. A umidade do ar neste país é muito baixa lhe garantindo melhora na qualidade respiratória. No Egito se interessou por pesquisas arqueológicas e, em 1905, conheceu Howard Carter que realizava escavações em sítios egípcios desde 1890. A parceria foi estabelecida e se desdobrou em descobertas relevantes e na apropriação e construção/consolidação narrativa e imagética de um monstro: a múmia. A literatura esboçou a múmia como instrumento que enfrenta a profanação, mas, o cinema definirá, em 1932, uma historicidade e homogeneidade para sua existência: a paixão, a punição e a vingança contra os profanadores do objeto amado.

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LORD CARNARVON

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A ESCAVAÇÃO

  • Localizar o túmulo foi muito difícil pois até a entrada estava encoberta com ruínas de cabanas de operários que realizaram a construção.
  • No dia 4 de novembro de 1922 a escavação identificou os primeiros degraus que levavam a uma tumba. Carter informou a Carnarvon o qual partiu da Inglaterra com sua filha para acompanhar a sequência dos passos. Ele estava muito doente nesta época e tinha 56 anos. No dia 24 de novembro ele chega ao sítio arqueológico e foi iniciada a limpeza dos demais degraus. Ao chegar a uma porta lacrada foi identificado o nome de Tutankâmon. Rompido o lacre a “maldição” foi libertada!

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HOWARD CARTER

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CARTER

  • Diário de Howard Carter, 27 de novembro de 1922: “Chegou o momento decisivo. Com as mãos trêmulas fiz uma minúscula fenda no canto superior esquerdo. A escuridão e o vazio, até onde alcançava o comprimento de uma vara de metal, indicavam que atrás não havia nada... Se fizeram testes com velas por precaução diante da possibilidade de que houvesse gases perigosos e então, ampliando o orifício um pouco, meti uma vela e olhei... A princípio não pude ver nada... Mas depois, quando meus olhos se acostumaram com à escuridão, começaram a emergir por entre a névoa alguns detalhes da sala que havia ali: animais estranhos, estátuas e ouro – por toda parte, o resplendor do ouro. Durante um momento... Fiquei paralisado pela surpresa e, quando Lorde Carnarvon, incapaz de suportar mais o mistério, me perguntou excitado: ‘Vê alguma coisa’?, não pude mais que emitir as palavras: ‘sim, coisas maravilhosas’.”

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A TUMBA

  • A tumba já havia sido parcialmente roubada em algum(s) momento(s) do passado. Os ladrões já haviam empilhado peças e deixado o cenário bastante bagunçado com sobreposição de objetos. As melhores joias e objetos de valor (de maior facilidade para carregar) haviam desaparecido. Mas o que restou foram quase 5.400 peças que trazem inúmeras informações sobre o Antigo Egito. Somente para limpeza e registro dos objetos foram dez anos de trabalho.

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A TUMBA

  • Conforme o egiptólogo Henry James “a recompensa arqueológica e artística da tumba foi incalculável. Foram descobertos objetos que não pareciam com nada do anteriormente descoberto ou que eram conhecidos somente pelas cenas representadas em tumbas e templos: os grandes sepulcros, os ataúdes e a múmia, o Canópio e seu precioso conteúdo, os leitos rituais, as figuras divinas de ouro e as imagens de próprio Tutankâmon (...) Os textos sobre práticas funerárias, inclusive alguns fragmentos do Livro dos Mortos, dão muitas indicações sobre os amuletos e os objetos que eram postos sobre o corpo para protegê-lo.”

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Área das pesquisas no Vale dos Reis

Vista geral da tumba de Tutankâmon na The Illustrated London News de 17 de fevereiro de 1923.

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OS ARTEFATOS ENCONTRADOS

  • A referência máxima é o sepulcro onde foi colocado o faraó. Esta sepultura deveria conservar a múmia garantindo sua longevidade no pós-vida terrena. E Tutankâmon foi colocado numa proteção sofisticada composta por três ataúdes, um sarcófago de pedra e quatro féretros. Quatro vasos Canopos guardavam órgãos internos e estavam em pequenos cofres dentro de uma arca de calcita recoberta de madeira dourada.
  • Somente em 1925 Carter abriu o ataúde para examinar a múmia. Se Lord Carnarvon foi vítima da “maldição”, pois sua morte ocorreu em 1923, não era necessário romper o silêncio da múmia para desencadear os eventos sinistros.

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OS ARTEFATOS ENCONTRADOS

  • Os objetos permitem analisar técnicas sofisticadas de trabalho em metal, madeira, cerâmica, mineral e rocha. A maioria dos objetos tem dimensão religiosa e ritual e a variedade mostra a radicalidade do espiritual frente a vida cotidiana. São encontrados o leito ritual; ataúdes; shabtis (figura mumificada que assistia o faraó, de forma mágica, na vida futura); figuras de divindades antropomórficas; figuras de divindades animais; amuletos; figuras reais; insígnias reais; vestimentas; calçados; porta-joias; colares; peitoral; brincos; braceletes; anéis; carruagem; armas; barco solar; trono; caixa pintada; cadeiras; camas; cofres em madeira; vaso de perfume etc.

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Primeiras fotografias dos artefatos encontrados na tumba. O fotógrafo Harry Burton realizou mais de 3 mil fotografias referente a descoberta. Acervo: Griffith Institute, Oxford University.

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O local da escavação/análise dos artefatos se tornou um “pesadelo” devido a frequência de turistas e jornalistas.

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VIGILÂNCIA POLICIAL

A segurança da tumba de Tutankâmon foi rigorosa frente a frequência de turistas e curiosos. A maior preocupação residia na “visita” por traficantes de obras de arte que haviam sido atraídos pela repercussão internacional nas mídias da época. Esta fotografia é de 16 de dezembro de 1922 publicada no The Illustrated London News.

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Menino egípcio com um colar da tumba. A participação dos egípcios na escavação foi indispensável para sua realização.

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A COBERTURA DA IMPRENSA – novembro de 1922

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THE TIMES, 17-02-1923. FOTOGRAFIAS: HARRY BURTON.

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A COBERTURA DA IMPRENSA

  • O amplo assédio pela imprensa iniciou uma semana após a divulgação da descoberta. Correspondentes de jornais faziam plantão nas imediações da tumba e acompanhavam cada movimento ou nova informação. Carnarvon decidiu vender os direitos de cobertura da imprensa apenas para o jornal London Times por 5.000 libras esterlinas além de participação na venda das notícias pelo Times para outras empresas de comunicação. Insatisfeitos com a exclusividade, outros jornais passaram para a especulação e o sensacionalismo sobre acontecimentos ligados a tumba. A morte de Carnarvon, quatro meses depois de sua entrada na tumba, desencadeou a sistemática construção de uma “maldição” de Tutankâmon. Os jornais e revistas passam a vender cada vez mais e a lucratividade elevou a imaginação a parâmetros inimagináveis. Textos retirados de outros contextos se convertiam em traduções pela imprensa “de morte aos profanadores da tumba”. Outros supostos escritos passam a ser inventados ampliando o interesse dos leitores pelo tema.

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A COBERTURA DA IMPRENSA

  • Ajudando no desencadear da maldição surgiu a publicação da famosa escritora exotérica e romancista Marie Corelli (1855-1924) que publicou uma carta na revista New York World sobre as fatídicas consequências da profanação da tumba. O problema é que a publicação ocorreu duas semanas antes da morte de Carnarvon em 5 de abril de 1923. O filão para a imprensa sensacionalista foi muito bem utilizado para legitimar a suposta “maldição dos faraós”. O impacto de Arthur Conan Doyle defendendo a vingança de “elementais” contra os profanadores também incentivou esta construção narrativa.

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CONAN DOYLE E OS ELEMENTAIS

  • Conan Doyle estava em visita aos Estados Unidos, hospedado em New York, para discutir ectoplasmas e espiritismo. Desde 1916, frente as inúmeras mortes durante a Primeira Guerra Mundial, Doyle começa a ser voltar a investigações sobre a vida após a morte na perspectiva do espiritismo. Os dez milhões de mortos exigiam a criação de um novo cristianismo, conforme Doyle. Nesta cruzada religiosa ele defende os elementais (entidades espirituais ligada aos elementos da natureza) como a explicação para a maldição dos faraós.
  • Estas informações foram obtidas em Daniel Handerg Alonso (2020) “Sir Arthur Conan Doyle and the Curse of Tutankhamen”, no site https://medium.com/

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CONAN DOYLE E OS ELEMENTAIS

  • Em entrevista ao jornal New York Times, no dia 5 de abril de 1923, Arthur Conan Doyle é questionado sobre a morte, às duas horas da madrugada daquele dia, de Lord Carnarvon. Respondeu sobre a possibilidade de uma maldição com a seguinte argumentação: “Não é decente nem seguro tirar de seus locais de descanso os corpos de antigos reis. Os egípcios sabiam muito mais sobre o ocultismo do que nós sabemos hoje. Este deve ter sido um elemento peculiar de uma maldição egípcia. Os antigos egípcios estavam muito ansiosos para guardar os túmulos de seus reis, há razão para acreditar que eles colocaram elementais em guarda, e isso pode ter causado a morte de Lord Carnarvon. Um elemental maligno pode ter causado a doença fatal de Lord Carnarvon. Não se sabe que elementais existiam naqueles dias, nem qual poderia ser a forma. Esses elementais não são espíritos no sentido comum, pois não tem alma. Um elemental é uma coisa construída, artificial, uma força imbuída que pode ser trazida à existência por meios espirituais ou pela natureza”.

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CONAN DOYLE E OS ELEMENTAIS

  • Doyle também faz referência a morte de seu amigo o jornalista Bertram Fletcher Robinson editor do Daily Express. No verão de 1904 Fletcher fez uma matéria sobre a “sacerdotisa da morte” um sarcófago existente na Sala Egípcia do Museu Britânico e que provocara infortúnios e tragédias desde sua compra no Egito na década de 1860. A sugestões do jornalista sobre a maldição da sacerdotisa de Amen-Rá foi publicada e em janeiro de 1907 Fletcher morreu de febre tifóide e a imprensa especulou que ele pode ter sido uma das vítimas da sacerdotisa. O tempo passou e as investigações sobrenaturais de Doyle o fazem lembrar, no ano de 1923, da antiga amizade com Fletcher que renderam inclusive a escrita de O Cão de Baskerville. Doyle afirma para os jornalistas que a morte de Fletcher estava ligada a ação de elementais que guardavam o sarcófago da sacerdotisa. A defesa da maldição destinada aqueles que violassem determinadas tumbas egípcias ficava fortalecida pela argumentação de um famoso escritor.

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CONAN DOYLE E OS ELEMENTAIS

  • O próprio New York Times refutou as afirmações de Doyle referente a maldição como sendo irracionais. O The Morning Post também condenou o espaço dado a informações falsas. O egiptólogo Wallis Budge remete a pura superstição difundir uma suposta maldição dos faraós após a descoberta da tumba de Tutankâmon e os eventos que se seguiram. Para Budge, falando a imprensa, “se houvesse tal maldição e pudesse ter sido eficaz, não restaria nenhum arqueólogo hoje. Desenterrei múmias em muitas terras, mas nenhuma maldição caiu sobre mim. Você não acha que aquelas pessoas que dizem ter perecido sob a maldição teriam morrido de qualquer maneira?”.

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Revista O Malho 26-11-1932.

A imprensa sensacionalista passa a ligar acontecimentos como o apagar de luzes no Cairo com o sobrenaturalismo da ação do faraó. Aqueles que visitaram a tumba e ficaram doentes ou morreram foram associados com a maldição.

A circulação de notícias alcançou os jornais e revistas da maioria dos países. Inclusive no Brasil.

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REVISTA DO RADIO (1926).

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Jornal O Malho, RJ, 18-01-1930.

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THE ILLUSTRATED LONDON NEWS

  • Esta revista ilustrada foi fundada em Londres em 1842 e, acompanhou parte da construção da Arqueologia como ciência. A descoberta da tumba de Tutankâmon despertou neste periódico uma ampla cobertura jornalística e fotográfica. Dedicou dois extensos artigos por ocasião da abertura na edição de 16 de dezembro de 1922 com os títulos “No Túmulo de Tutancâmon: Celebrações de Abertura” e “Do Rei Tutancâmon ao Rei Fuad: Egito Antigo e Novo”; cinco artigos adicionais nos próximos meses; e, em 1923, dois números especiais, um de fotografias do túmulo (3 de fevereiro) e um “Número do Egito” (24 de fevereiro). In: The Illustrated London News and Archaeology, Thomas Prasch(UniversidadeWashburn).https://www.gale.com/intl/essays/thomas-prasch-illustrated-london-newsarchaeology.

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EDIÇÃO ESPECIAL DO THE ILLUSTRATED LONDON NEWS 24-02-1923.

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CARNARVON, O DESENCADEAR

  • O epicentro do desencadear da “maldição” foi a morte de Lord Carnarvon. O financiador da “profanação” morreu quatro meses e sete dias após sua entrada triunfal na tumba.
  • O perfil de saúde de Carnarvon não era nada alentador pois já em 1903, fizera uma viagem ao Egito para melhorar o seu estado de saúde que precocemente era frágil. Sua viagem ao Egito em novembro de 1922 foi desgastante, pois, estava com a saúde fragilizada. Ele faleceu de infecção generalizada após cortar com uma navalha, durante o barbear, uma área do rosto em que fora picado por um mosquito. O processo infeccioso foi fatal num corpo já debilitado.
  • Sua morte é paradigmática, pois, abriu a imaginação para todo o tipo de malefício nos anos seguintes.

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CARNARVON, O DESENCADEAR

  • Carter não caiu fulminado apesar de ficar 10 anos trancado na tumba catalogando as peças: viveu até 1939. A filha de Carnarvon, Evelyn, viveu até 1980.
  • Das 58 pessoas que estavam no local quando, em dois momentos, a tumba, e, posteriormente, o sarcófago de Tutankâmon foi aberto, 8 morreram num prazo de 12 anos. Oito mortes estariam por trás da “maldição”! Porém, quantos já apresentavam algum problema de saúde como Carnarvon ou quantos foram vítimas do fungo “Aspergillus niger” cujos esporos podem ter sido inalados se alojando nos pulmões?

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CARNARVON, O DESENCADEAR

  • Entrar e permanecer num espaço que ficou cerca de 3.300 anos fechado pode trazer alguns riscos. Substâncias tóxicas com formaldeído e gás de amônia, podem causar danos aos olhos e serem inalados trazendo prejuízos ao pulmão. Também podem causar reações alérgicas. Outro fator de perigo remete aos fungos ligados aos excrementos de morcegos ou de roedores, além de bolores nas múmias e bactérias nas paredes. Resistência do organismo, propensão individual e tempo de exposição aos agentes podem fazer eclodir diferentes reações fisiológicas.
  • Porém, o maior fator suspeito de uma “maldição” pode ter sido a cobertura virulenta da imprensa...

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COLEÇÃO DE POSTAIS DA DÉCADA DE 1920. Artefatos encontrados na tumba.

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O arqueólogo Howard Carter examinando o sarcófago de Tutancâmon (Mansell/LIFE Pictures).

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O CINEMA...

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A MÚMIA NO CINEMA

  • As múmias foram traduzidas para a linguagem do cinema a partir do diretor George Meliés em 1899 (O Túmulo de Cleópatra). Entre as décadas de 1910 e 1920 películas já eram conhecidas dos cinéfilos, mas, sem maior destaque ou sucesso. BRYER (2013) analisou esta produção e identificou o foco central dos roteiros: “múmias eram figuras românticas, amantes que retornavam à vida para se reencontrar com seus amores reencarnados”.

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A LOJA DE CURIOSIDADES ASSOMBRADA (1901)

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A MÚMIA NO CINEMA

  • Outros filmes pioneiros que trouxeram temas do Egito, com ou sem múmias, foram: The Haunted Curiosity Shop (A Loja de Curiosidades Assombrada - 1901); A Múmia (1911); Cleopatra (1917) e Egyptian Melodies: Silly Symphony (Melodias egípcias: Sinfonias Tolas - 1931). 
  • A descoberta da tumba de Tutankâmon e suas consequências mudou o cenário temático para investir num enredo ligado a historicidade de uma maldição ocorrida no passado do Egito faraônico. A data do filme é 1932 e esta é a obra referencial para os roteiros posteriores. A vingança da múmia fruto de uma maldição dos faraós está completando 90 anos!

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A MÚMIA DE 1932 – O GRANDE CLÁSSICO

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A MÚMIA – O ROTEIRO

  • Uma equipe de arqueólogos do Museu Britânico, em 1921, realizam escavações no Egito. Encontram a múmia de Imothep um alto sacerdote do Templo do Sol em Karnak. Constatam que a múmia foi enterrada viva devido a um sacrilégio cometido. Imothep foi sentenciado a morte na vida e no além-vida. Num baú estava um manuscrito de Thoth e um aviso de que não deveria ser lido pois desencadearia uma maldição. Um dos membros da equipe lê as palavras mágicas do papiro e faz despertar a múmia que foge com o pergaminho. Em 1932, o filho do líder da equipe está escavando no Egito e recebe a visita do egípcio Ardath Bey (de fato era Imothep) que indica o local onde se faria a descoberta da tumba da princesa Anck-es-en-Amon da XVIII dinastia (filha do faraó Amenófis) que teria sido enterrada a 3.790 anos em Tebas.

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A MÚMIA – O ROTEIRO

  • De fato, estava no local indicado. Após a escavação a múmia e os artefatos foram enviados ao Museu do Cairo. Ardath Bey, no museu, faz a leitura do manuscrito do Thoth para reviver a múmia da princesa e, distante dali, uma jovem entrar em transe.
  • Helen (filha de um inglês governador do Sudão) observa da janela de um prédio no Cairo as pirâmides de Gizé (que de fato estão a 38 km de distância...) e, em transe, vai até a porta do Museu do Cairo. Bey necessita do corpo dela e de sua conexão com o antigo Egito para trazer de volta a vida à princesa. E a aí reside a essência temática: a princesa morreu e o sacerdote Bey a amava e não aceitou o seu passamento. Ele, na tumba, evoca o manuscrito de Thoth para trazer a princesa novamente a vida desafiando a fúria dos deuses. Porém, foi pego cometendo o sacrilégio e condenado a ser enterrado vivo coberto por bandagens como uma múmia. O faraó ordenou esta morte nefasta para que aquele crime não mais se repetisse. O sacerdote foi enterrado no deserto num túmulo sem nome e junto um baú com o manuscrito. E assim perdurou até a descoberta realizada pelos arqueólogos em 1921.

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A MÚMIA – O ROTEIRO

  • Passado milhares de anos o sacerdote permanece irredutível na obsessão e afirma para Helen, numa postura blasfema: “meu amor é mais eterno que os templos de nossos deuses”. “Nenhum homem sofreu o que sofri por você” e que ela enfrentará “o horror pelo amor eterno”.
  • Como a alma de Helen estava num corpo mortal várias vezes reencarnado era necessário matar aquele corpo e embalsama-lo. Deveria ser apunhalada e jogada num caldeirão de natrão. Porém, ela não aceita a morte e afirma que a paixão que nutriu no passado ficara perdida no passado. Ao resistir a ser morta ela evoca ser filha de Ísis e que queria ser salva dessa “múmia”. Bey ou Imothep, prestes a mata-la com uma adaga, afirma: “você descansará da vida como o sol que se põe a oeste, mas, nascerá novamente no leste quando os primeiros raios de Amon-Rá espantar as sombras”. O desfecho não é com a intervenção da força ocidental e masculina, e sim com a ação de Helen implorando ajuda de Ísis que transforma Bey/Imothep numa múmia e depois num esqueleto sem poderes físicos ou mentais.

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A MÚMIA – A DIREÇÃO

Karl Freud foi o diretor e impôs à filmografia elementos fundados no expressionismo alemão num momento em que se firmava o cinema falado nos Estados Unidos. Seu trabalho de câmara foi inovador e dirigiu mais de 100 filmes entre eles O Golem, Metrópolis, Drácula e Terra dos Deuses.

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NINA WILCOX PUTNAN – ARGUMENTO INICIAL DO FILME A MÚMIA (1932)

Romancista, roteirista e dramaturga. É autora de mais de 500 contos. A história original de A Múmia foi escrito por ela e por Richard Schayer. Porém, ficou muito distante do roteiro do filme escrito por Balderston.

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JOHN BALDERSTON – ROTEIRISTA DE A MÚMIA (1932)

Balderston participou da cobertura jornalística da descoberta da tumba de Tutankâmon. In loco vivenciou o potencial de uma história que trabalhando o Egito faraônico poderia inserir uma temática de amor, maldição e vingança para atrair o público cinéfilo.

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A PAIXÃO MILENAR

Os atores principais foram Boris Karloff (Imothep e Ardath Bey) e Zita Johann (Helen).

A sessão de maquiagem feita em Karloff durava oito horas e eram brutais para a pele: algodão, graxa e cola, mistura que depois de seca era muito dolorosa para retirar. Ele deve ter sentido o peso dos milênios em carregar uma múmia e sua maldição.

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CENÁRIO COM ÍSIS.

Fotografia de divulgação do filme em que Zita Johann está em frente a uma estátua de Ísis. Este cenário foi escolhido para o epílogo do filme e a ruptura da maldição.

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UNIVERSAL MONSTERS

Coleção de miniaturas colecionáveis lançada pela Universal e produzida pela Diamond Select.

Boris Karloff em seus sarcófago no filme A Múmia de 1932. Acervo: LHT.

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HISTÓRIA E FICÇÃO

  • A egiptóloga Márcia Jamille (site Arqueologia Egípcia - https://www.youtube.com/ watch?v=XFxw10LzSYA) esclarece alguns aspectos da veracidade do filme em relação a história egípcia: o pergaminho de Thoth não existe; os egípcios não acreditavam em reencarnação e sim na continuidade da vida após a morte; diferente do que foi mostrado, a mumificação exigia a evisceração dos órgãos internos; a mutilação no local do rosto do sarcófago pode ter fundamento para evitar que a pessoa vislumbrasse a bonança de uma nova vida pós-morte; quem autorizava escavações arqueológicas eram a França e a Inglaterra, não podendo os egípcios exercer a arqueologia neste período; a princesa foi um nome retirado da esposa de Tutankâmon; as escavações, para retirada da rocha e areia, realmente recorria ao trabalho braçal de inúmeros egípcios que utilizavam cestos; referência a hieróglifos no período pré-dinástico era incorreto pois só surgem no período Tinita; a deusa Bastet não é ligada a “desgraça” e sim a “proteção”; para mumificação o corpo era colocado numa mesa e o natrão era aplicado não ocorrendo a colocação do corpo dentro de um caldeirão repleto de natrão fervendo.

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IMHOTEP EXISTIU?

  • Um personagem histórico chamado Imhotep realmente existiu. Porém, não tem nada a ver com o personagem ficcional do filme.
  • Imhotep foi vizir do faraó Joser da III dinastia. Também era sacerdote do deus Rá em Heliópolis. Atuava como arquiteto e engenheiro em Sacara, estando associado, hipoteticamente, a construção da pirâmide escalonada. Também foi reverenciado como poeta e filósofo.
  • O Imhotep do roteiro de 1932 e do O Retorno da Múmia (1999), ou seja, a múmia vingativa, não tem qualquer referência ao personagem histórico.

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CONTINUAÇÃO DO CICLO DA UNIVERSAL�A MÃO DA MÚMIA (1940)

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A MÃO DA MÚMIA (1940)

  • Este é o segundo filme dos cinco realizados com esta temática. O glamour do filme de 1932 se dissolveu já nesta incursão. O roteiro traz alguns elementos do clássico, mas, o clima de seriedade se dissolve em cenas de humor desconectadas. A trama se passa por volta de 1910.
  • O sacerdote Kharis, é apaixonado pela filha do faraó a princesa Ananka. A jovem e bela princesa morre e Kharis usa os seus conhecimentos de magia para trazê-la novamente a vida rompendo com a tradição e os tabus. O resultado foi ser enterrado vivo e virar um guardião da tumba de Ananka. Passados três mil anos destes acontecimentos, uma poção com folhas de tana o trazem de volta a vida: ele deveria proteger Ananka de uma expedição arqueológica americana que profanaria o descanso da princesa. A múmia acaba sendo destruída (aparentemente...) e a princesa foi levada do Egito para os Estados Unidos.

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A TUMBA DA MÚMIA (1942)

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A TUMBA DA MÚMIA (1942)

  • Nesta sequência a ação transcorre nos Estados Unidos. Se passaram três décadas do filme anterior e a seita dos Sacerdotes de Karnak (que protege túmulos saqueados por violadores) conduz a múmia de Kharis (restaurada) para o EUA com o objetivo de matar todos os que participaram da profanação. A vingança de Kharis é cruel e uma trilha de mortos segue o enredo do filme.
  • O referencial é a história de paixão entre o sacerdote e a princesa. A profanação ocidental desta tradição que é vingada pela múmia com a ajuda de uma seita egípcia. Um confronto entre a visão cientificista e a egiptomania x tradições religiosas ancestrais.

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O FANTASMA� DA MÚMIA�(1944)

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O FANTASMA DA MÚMIA (1944)

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O FANTASMA DA MÚMIA (1944)

  • O gótico em preto e branco da Universal com suas imagens de uma múmia de grande porte caminhando com dificuldade mas sendo implacável ao estrangular a vítima, fez mais uma aparição neste período da Segunda Guerra Mundial.
  • Novamente a trama se passa nos Estados Unidos onde a múmia de Kharis busca o resgate de Ananka para conduzi-la a sua morada sepulcral no Egito. A seita dos sacerdotes está novamente envolvida no resgate. Após um ritual a múmia de Ananka reencarna no corpo de uma egípcia residente nos EUA. O foco conduz ao sequestro da nova Ananka para leva-la ao Egito.
  • Parecia o fim desta série, mas, no mesmo ano, outro filme é lançado. Vejamos em mais detalhes como encerra este ciclo da múmia.

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A MALDIÇÃO DA MÚMIA (1944)

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A MALDIÇÃO DA MÚMIA (1944)

  • Este é o quinto filme da franquia múmia pela Universal. As múmias do sacerdote Kharis (que profanou a imagem de Ísis para buscar o pergaminho que permitiria trazer os mortos para a vida) e da princesa Ananka (morta há 3.000 anos e filha do faraó Amenophis) estão submersos num pântano em Mapleton, nos Estados Unidos. Um sacerdote egípcio tenta levar os dois de volta para o Egito. Um desabamento soterra Kharis e Ananka retoma a vida e depois retorna a condição de múmia. Ambos continuam nos Estados Unidos para uma sequência da série de filmes. O que felizmente não ocorreu nos anos seguintes. Mas o essencial do roteiro foi retomado neste filme. Vejamos...

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A MALDIÇÃO DA MÚMIA (1944)

  • Como Kharis profanou o templo dos deuses e procurou alterar o caminho da vida e da morte, foi punido com uma morte cruel (ser enterrado vivo) e jamais obteria descanso para sua alma. A maldição foi proferida por Amon-Rá e Kharis foi sepultado sozinho numa colina ao lado do Vale dos Sete Chacais. Ao lado foram enterrados folhas de Tana. Posteriormente, Kharis foi retirado do local e colocado em outra cova do outro lado da montanha. Ele seria imortal e seu coração continuaria batendo pela eternidade e de seu sarcófago vigiaria a tumba da princesa Ananka. Somente os sacerdotes de Arkam sabiam onde ficava a localização de Kharis e ali ele ficou vigilante por 3.000 anos. Um arqueólogo americano que procurava a tumba de Ananka encontrou o sarcófago de Kharis e ocorreu a vinda para os Estados Unidos. Dois supremo sacerdotes de Amon-Rá vieram a este país para leva-los de volta ao Egito mas foram mortos. Para reviver Kharis era utilizada as folhas de Tana para fazer um chá. A Tana é uma árvore nativa de Madagascar e adaptada a ecossistemas úmidos. Pode aliviar dores, inflamações e problemas estomacais. Um rio do Quênia tem o nome de Tana. A múmia foi derrotada e a princesa voltou a condição de múmia.
  • O ciclo de cinco filmes chegava ao fim e legou belas imagens da múmia se arrastando por pântanos ou apavorando os profanadores. Mas a sensação é de esgotamento, pois, a fórmula se tornou repetitiva.

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CICLO �DA �HAMMER �– A MÚMIA� (1959)

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CICLO DA HAMMER

  • A relação de filmes com temática derivadas da “maldição dos faraós” ou múmias assassinas remetem a mais de 30 filmes. Optou-se por se restringir as duas grandes produtoras: Universal e Hammer.
  • A Universal dedicou cinco películas ao tema em seu formato de “gótico em preto e branco” entre 1932 e 1944 (e uma comédia em 1955). Posteriormente, a partir de 1999, mais quatro filmes foram realizados.
  • A Hammer produziu quatro filmes em seu estilo “gótico colorido” entre 1959 a 1971.
  • Vejamos, a seguir, algumas características dos filmes sobre múmias produzidos pela produtora inglesa Hammer.

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A MÚMIA (1959)

  • Arqueólogos, no ano de 1895, escavam no Egito a tumba da princesa Ananka, sacerdotisa em Karnak, enterrada há quatro mil anos. O selo real e as peças do interior da tumba lembram o cenário que se conhece de Tutankâmon. O egípcio (Mehemet Bey) alerta para não profanarem o local para que a vingança de uma múmia viva, revivida através da leitura de um manuscrito de invocação, não recaia sobre eles. Em 1898, em Londres, a múmia caça os profanadores. A múmia é o sacerdote Kharis que foi responsável pelos rituais de mumificação e enterramento de Ananka. Kharis era apaixonado pela princesa e não aceitando sua morte, faz um ritual para a ressuscitar utilizando o manuscrito da vida escrito pelo Deus Karnak. Descoberto durante o ritual teve a língua cortada e foi enfaixado e enterrado vivo, em pé, para ser o eterno guardião da tumba da princesa.
  • Este é o primeiro filme da Hammer com a temática da maldição da múmia.
  • Constata-se que a base do filme é o roteiro do clássico da Universal de 1932 com os nomes utilizados no filme de 1940. Excelente para comparar os diferentes efeitos da filmagem em P&B e a cores (dirigido por Terence Fisher). Os atores Christopher Lee e Peter Cushing dão o tom de horror que caracterizou a Hammer nos anos 1950-60. O roteiro, que é uma refilmagem, foi escrito por Jimmy Sangster.

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A MÚMIA (1959)

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A MALDIÇÃO DA TUMBA DA MÚMIA

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A MALDIÇÃO DA TUMBA DA MÚMIA

  • O filme tem início em 1900 com o assassinato de um arqueólogo que descobriu, no Vale dos Reis, a tumba de Ra-Antef filho de Ramsés VIII e a profanação realizada com a múmia e as peças encontradas. O mecenas mantenedor da expedição, um comerciante sem escrúpulos, não permite que a descoberta seja levada para o Museu do Cairo e pretende fazer apresentações sensacionalistas com a múmia para ganhar muito dinheiro. Interesse comercial, tour mundial iconoclasta e desprezo com a cultura egípcia propiciam o cenário de crítica e ação de um grupo contrário a atuação colonialista. O arremate é a vingança realizada, em Londres, pela múmia do faraó Ra. A pesquisa arqueológica é associada ao colonialismo ocidental e sua pior face: o passado enquanto mercadoria para o deleite das plateias. Inúmeras passagens na excelente interpretação do empresário são emblemáticas: “não há sacrilégio quando se ganha dinheiro!”.

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A MALDIÇÃO DA TUMBA DA MÚMIA

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A MORTALHA DA MÚMIA (1967)

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A MORTALHA DA MÚMIA

  • Incisiva crítica a arrogância imperialista é The Mummy's Shroud.
  • Em 2000 a.C. um faraó egípcio é morto numa conspiração e seu filho Kah-to-Bey é levado para o deserto pelo servo Prem. Nesta difícil fuga o príncipe morre e é enterrado numa formação rochosa no deserto. Em 1920 uma expedição inglesa encontra o túmulo e leva o corpo para o Cairo. Porém, são avisados por um guardião da tumba de que mortes ocorreriam com a profanação. A múmia do servo Prem retorna a vida através da leitura de textos sagrados recitados pelo guardião. Os que escavaram a tumba passam a ser perseguidos e mortos. O empresário que financiou o projeto é arrogante e inflexível exigindo que a múmia e o seu acervo fossem levados clandestinamente para circular pela Europa em apresentações lucrativas: as famosas sessões de desembrulhar a múmia. Sua postura é uma referência a atitude imperialista de repudiar a tradição em nome do ganho financeiro.

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A MORTALHA DA MÚMIA

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SANGUE NO SARCÓFAGO DA MÚMIA (1971)

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SANGUE NO SARCÓFAGO DA MÚMIA (1971)

  • O filme é uma adaptação do livro de Bram Stoker The Jewel of the Seven Stars.
  • O enredo remete a uma expedição arqueológica inglesa que encontra a tumba da rainha Tera que, em vida, estava envolvida com rituais maléficos. Era considerada uma “Rainha das Trevas” e foi morta por sacerdotes que cortaram a sua mão direita. Na mão havia um anel com poderes mágicos cujo cintilar formava a imagem de uma constelação e sete estrelas, um portal para os poderes das trevas. O grupo de arqueólogos que descobre a Rainha encontram três relíquias junto ao sarcófago e dividem a pilhagem. Um deles fica com a múmia e a mão amputada com o anel. A filha deste arqueólogo recebe de presente de seu pai o anel e passa a ser possuída pelo espírito da rainha Tera. A tradicional múmia com suas bandagens se arrastando até a vítima não existe neste filme que recorre ao efeito sinistro de uma mão “caminhando” até estrangular as vítimas.
  • Portanto, o enredo foge aos clichês comuns e centra a ação na figura da rainha Tera e no domínio psíquico e espiritual de uma jovem obsediada.

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SANGUE NO SARCÓFAGO DA MÚMIA (1971)

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SANGUE NO SARCÓFAGO DA MÚMIA (1971)

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RETORNO DA UNIVERSAL

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A MÚMIA (1999)

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A MÚMIA (1999)

  • A Universal retomou o ciclo de A Múmia de 1932. O cinema avançou muito em efeitos especiais e na qualidade de projeção entre as décadas de 1930 e 1990.
  • O primeiro filme, lançado em 1999, se chamou A Múmia e foi escrito e dirigido por Stephen Sommers.
  • O roteiro remete ao ano de 1926 quando um explorador americano localiza Hamunaptra (uma cidade fictícia dos mortos próximo a Tebas). Ele conhece uma jovem que reanima a múmia do sacerdote Imhotep que tem planos sinistros de destruição para a humanidade. Horror atenuado por muita aventura, humor e bons efeitos especiais. Sem conexão com o clássico de 1932.

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O RETORNO� DA MÚMIA (2001)

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O RETORNO DA MÚMIA (2001)

  • É uma continuação de A Múmia (1999) e se passa em Londres no ano de 1935. Os dois personagens principais se casaram e tiveram um filho que foi sequestrado para ressuscitar o Escorpião Rei e liberar o Exército de Anúbis. Muita ação num clima de matinê sem pretensões de veracidade histórica. Recurso livre à magia e ao ficcional. Ritmo dinâmico e efeitos especiais. Novamente, obteve uma ótima bilheteria e uma comprometida pontuação na crítica especializada.

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A MÚMIA: A TUMBA DO IMPERADOR DRAGÃO (2008)

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A MÚMIA: A TUMBA DO IMPERADOR DRAGÃO (2008)

  • No terceiro filme da série o Antigo Egito vai parar na Antiga China. A “muralha da China” e o “Exército de Terracota” são as atrações. O Imperador Dragão retorna após 2.000 anos para escravizar a humanidade.
  • Excelentes efeitos especiais e muita ação.
  • Porém, a tradicional múmia dissolveu-se completamente e se restringiu ao apelo do título. A trilogia chegava ao fim e manteve um pleno distanciamento da versão da década de 1930. Mas certamente, a trilogia garantiu que o tema das múmias retornasse com muita força para o imaginário popular.

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DARK UNIVERSE OU UNIVERSAL MONSTERS

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A MÚMIA (2017)

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A MÚMIA (2017)

  • Este filme seria o início de uma nova série da Universal: o Dark Universe. O retorno nas bilheterias comprometeu o projeto de retomar os monstros clássicos.
  • O filme é de ação, aventura, fantasia e terror. O enredo remete a um rubi egípcio enterrado por templários numa tumba que é encontrada numa obra realizada em Londres. Descobre-se num hieróglifo a história da princesa Ahmanet que vende sua alma ao deus Seti. Ela assassina a família pelo poder e acaba sendo enterrada viva em um sarcófago por sacerdotes. A tumba de Ahmanet é descoberta no Iraque e a princesa se liberta iniciando uma luta para obter o rubi e libertar Seti. A produção fracassou frente à crítica especializada.

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MÚMIA (2017) UNIVERSAL FILMES.

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A MALDIÇÃO: RAÍZES HISTÓRICAS

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A MALDIÇÃO: RAÍZES HISTÓRICAS

  • Vamos avançar na reflexão sobre as raízes históricas da maldição dos faraós trazendo mais alguns elementos para investigação e encaminhando algumas interpretações: a maldição em documentos egípcios; o Livro dos Mortos; manuscritos de Thot; a presença árabe e a presença ocidental; a expansão da egiptomania; a narrativa literária e a narrativa cinematográfica.

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A MALDIÇÃO: RAÍZES HISTÓRICAS

  • As maldições registradas em documentos/monumentos egípcios são raras. Alguns exemplos:
  • Na 9ª dinastia o túmulo de Khentika Ikhekhi registrou: "Quanto a todos os homens que entrarem neste meu túmulo ... impuro ... haverá julgamento ... será dado um fim a ele ... Vou agarrar seu pescoço como um pássaro ... Vou lançar nele o medo de mim mesmo". HAMILTON-PATERSON, 1978.
  • Zahi Hawass (2000) destacou: "Malditos sejam aqueles que perturbam o resto de um faraó. Aqueles que quebrarem o selo desta tumba encontrarão a morte por uma doença que nenhum médico pode diagnosticar.”

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A MALDIÇÃO: RAÍZES HISTÓRICAS

  • Hawass ao escavar tumbas de construtores em Gizé encontrou: "Todas as pessoas que entrarem nesta tumba que farão o mal contra esta tumba e a destruirão que o crocodilo seja contra eles na água e cobras contra eles na terra. Que o hipopótamo esteja contra eles na água, o escorpião na terra." 
  • Da XVIII dinastia temos estas palavras: “Quem invadir minhas propriedades, danificar minha tumba, ou retirar dela minha múmia, será punido pelo deus-sol. Não legará seus bens a seus filhos, seu coração não terá prazer em viver; ele não receberá água na tumba e sua alma será destruída para sempre”.

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A MALDIÇÃO: RAÍZES HISTÓRICAS

  • David Silverman (1987) investigou a historiografia referente a existência de maldições nas tumbas e constatou que elas são mais encontradas em tumbas de particulares (especialmente no Antigo Império) e não da realeza.
  • As maldições reais, estão mais voltadas a punir durante a vida do nobre e não após.  Há um discurso em Deir el Bahri por Tutmés I para a corte de sua filha, o faraó reinante Hatshepsut: “Aquele que a adorar, viverá; aquele que falar mal em uma maldição contra sua majestade, ele morrerá”.  

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A MALDIÇÃO: RAÍZES HISTÓRICAS

  • Uma maldição longa e detalhada foi encontrada na tumba de Amenhotep da 18ª Dinastia:
  •  “Quanto a [qualquer um] que venha depois de mim e que encontre a fundação da tumba funerária em destruição…�quanto a quem tomar o pessoal do meu povo�…�permita que eles desempenhem sua função de escriba...�Eu os colocarei na fornalha do rei...�Seu uraeus vomitará chamas sobre o topo de suas cabeças, demolindo sua carne e devorando seus ossos.�hey se tornará Apophis [uma serpente divina que é vencida] na manhã do dia do ano.�Eles vão virar no mar que vai devorar seus corpos.�Eles não receberão honras recebidas por pessoas virtuosas. Eles não poderão engolir ofertas dos mortos.�Não se derramará para eles água em libação...�Seus filhos não ocuparão seus lugares, suas mulheres serão violadas diante de seus olhos.�Seus grandes estarão tão perdidos em suas casas que ficarão no chão...�Eles não entenderão as palavras do rei no momento em que ele estiver em alegria.�Eles serão condenados à faca no dia do massacre...�Seus corpos se decomporão porque passarão fome e não terão sustento e seus ossos perecerão” In: Silverman, David "The Curse of the Curse of the Pharaohs" Expedition Magazine 29.2 (1987): n. pag. Expedition Magazine. Penn Museum, 1987 Web. 28 Aug 2022 http://www.penn.museum/sites/expedition/?p=14511

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A MALDIÇÃO: RAÍZES HISTÓRICAS

Na tumba de Petety e sua esposa, havia a seguinte maldição:

“Escutem todos! O sacerdote de Hathor castigará em dobro aquele que entrar nesta tumba ou fizer qualquer mal a ela. Os deuses o confrontarão, pois sou honrado pelo seu Senhor. Os deuses não permitirão que qualquer coisa aconteça a mim. O crocodilo, o hipopótamo e o leão devorarão aquele que causar qualquer malefício a minha tumba”.

Portanto, alguns exemplos existem de maldições contra os invasores. Frente às inumeráveis mensagens encontradas nas tumbas, templos etc, são aparições raras. Além do mais estas maldições devem ter sido indiferentes aos milhares de saqueadores que pilharam as necrópoles egípcias...

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RELIGIOSIDADE EGÍPCIA

  • “Os egípcios acreditavam que o homem mortal poderia ser levantado da morte, e atingir a vida eterna. A ressureição era o assunto para o qual toda oração era dita e toda cerimônia executada, e todo texto, e todo amuleto, e toda fórmula, de cada e todo período, eram diligenciados para habilitar o mortal para vestir a imortalidade e viver eternamente em seu corpo transformado e glorificado.” Wallis Bunge, As Ideias dos Egípcios sobre a Vida Futura.

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A “MALDIÇÃO” VEM DO LIVRO DOS MORTOS?

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LIVRO DOS MORTOS

  • O Livro dos Mortos (ou Livro de Sair para a Luz) recua ao Império Novo iniciado em 1580 a.C. e é constituído por textos que evocam orações, hinos, sortilégios e feitiços escritos em rolos de papiro ou nas faixas de linho das múmias. Trechos mais antigos foram adaptados ao Livro dos Mortos sendo retirados do Livro das Pirâmides (fórmulas mágicas nas câmaras funerárias das pirâmides de Sakara com cerca de 3000 a.C.) e o Livro dos Sarcófagos (a partir da VII dinastia no Império Médio são escritos na madeira interna dos sarcófagos).
  • A conduta moral fundada na verdade e na justiça era o fundamento dos textos. O julgamento das ações terrenas após a morte era uma etapa crucial para a chegada ao paraíso e evitar o reino das trevas. Daí o texto ser colocado na tumba ou no sarcófago junto a múmia para guiar o morto na viagem para o local do julgamento e pesagem da alma. Escribas utilizavam tinta preta e pincel para o texto e tinta vermelha para o título.

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LIVRO DOS MORTOS

  • O Livro dos Mortos não se constitui num “livro” com “autores” e sim numa coletânea de textos de diferentes épocas e que sofria seleções textuais em determinado período. A primeira versão compilando estes textos encontrados nos sarcófagos foi publicado em Paris em 1805. Porém, a primeira tradução dos textos foi feita em 1842 por Karl Lepsius e publicada em alemão. O Papiro de Ani é o mais conhecido destes “livros” e tem 24 metros de comprimento. Este guia para o além possibilitaria enfrentar os desafios de uma difícil jornada que conduzia ao embarque na barca solar e a transposição do subsolo da Terra em direção ao renascer do Sol no amanhecer.

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LIVRO DOS MORTOS

  • Um complexo caminho tinha de ser trilhado até o clímax no julgamento realizado por 42 divindades dirigidas por Osíris. A ritualização mágica do Livro dos Mortos possibilitaria enfrentar esta decisiva luta entre o mundo da luz e o mundo das trevas.
  • Portanto, o objetivo dos 200 textos conhecidos do Livro dos Mortos não é proferir maldições contra quem violasse a tumba e o sarcófago.

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A MALDIÇÃO ESTÁ NO LIVRO DE THOT?�

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  • Thoth é uma divindade que recua ao período anterior ao surgimento da Civilização Egípcia. É considerado o Deus da escrita e do conhecimento. O Livro de Thoth que de fato eram inúmeros textos (e não um manuscrito com maldições) mantidos em bibliotecas e consultados por sacerdotes egípcios, eram constituídos por rituais, geografia, medicina, arquitetura, hinos religiosos, o Duat (reino dos Mortos) etc.
  • Estes escritos de magia e técnicas não fazem referência direta a “maldição dos faraós”.
  • *Não confundir com O Livro de Thoth de autoria do ocultista Aleister Crowley.

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OU É UMA CRIAÇÃO FICCIONAL?

  • Ficcional construído historicamente a partir de experiências acumuladas desde a intervenção de Napoleão, da literatura, da imprensa até os avanços da medicina e da arqueologia.
  • A curiosidade pelo orientalismo egípcio forneceu motivação e inspiração para o desenvolvimento da linguagem literária e cinematográfica.

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���QUAIS AS RAÍZES HISTÓRICAS DE UMA MANIFESTAÇÃO CULTURAL COMO A MALDIÇÃO DOS FARAÓS?

  • A mumificação é um processo natural inserida na cultura sobrenatural dos Egípcios. O medo com os saqueadores e ladrões propiciou o surgimento de alguns escritos ligados a amaldiçoar quem profanasse os túmulos. Isto se deu de forma rara em relação as milhares de descobertas já feitas.
  • O Livro dos Mortos se volta a orientar o melhor caminho a ser percorrido pelo Morto e não em proferir Maldições.
  • O Livro de Thoth são textos dispersos que, entre tantos temas, investigou a vida pós-morte e as divindades a ela associada.

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QUAIS AS RAÍZES HISTÓRICAS DE UMA MANIFESTAÇÃO CULTURAL COMO A MALDIÇÃO DOS FARAÓS?

  • As “curiosidades” com a cultura egípcia voltada aos mortos já se faz presente a partir da ocupação Islâmica no século VII. Porém, foi com a expedição de Napoleão entre 1798-1801 que surgiria o interesse sistemático pelo Egito e sua descoberta na Europa Ocidental, especialmente, na França e Inglaterra. A pilhagem de múmias e artefatos se intensifica e se converte numa curiosidade crescente pelos europeus. A literatura se voltará a contemplar esta curiosidade, em escritos que surgem a partir de 1827 e começam a trabalhar o sobrenatural e a possível “maldição de faraós” que tiveram suas tumbas profanadas como no conto de 1869.

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QUAIS AS RAÍZES HISTÓRICAS DE UMA MANIFESTAÇÃO CULTURAL COMO A MALDIÇÃO DOS FARAÓS?

  • O clímax desta construção ficcional ocorre no contexto científico posterior a escavação da tumba de Tutankamon (1922)e a suposta onda de mortes que seria resultado da maldição desencadeada pela profanação da tumba. A cobertura da imprensa foi fundamental para difundir o sensacionalismo sobre os mistérios envolvendo a descoberta e suas supostas consequências. A linguagem cinematográfica aproveitará estas especulações e produzirá o primeiro clássico sobre a maldição das múmias em 1932. Os fundamentos discursivos e visuais, iniciados com este filme da Universal, terá continuidade em vários outros filmes desta produtora e também da Hammer. As produções posteriores, se voltarão a explorar os efeitos especiais, as aventuras e a ação para repor o tema aos cinéfilos contemporâneos.

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QUAIS AS RAÍZES HISTÓRICAS DE UMA MANIFESTAÇÃO CULTURAL COMO A MALDIÇÃO DOS FARAÓS?

  • A maldição enquanto uma suposta “obviedade” que reside na cultura egípcia, de fato é uma construção da ficção literária, jornalística e da narrativa cinematográfica, que se voltou a juntar peças diferentes e formar um “pseudo-mosaico coerente” que fundamentava a real existência de “Múmias” que voltam a “Vida” após dormirem por milênios esperando a vingança e o cumprimento da maldição aos seus profanadores.

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  • A verdade é uma construção narrativa (escrita, estética, normativa) formalizadora de representações do passado que estabelecem uma linguagem do senso comum sobre um tema. A verdade poderá ter quase nada de semelhança com o processo histórico e cultural ocorrido no passado. Investigar as raízes históricas de uma manifestação cultural possibilita equacionar as construções discursivas da verdade, que passa pelo viés da oralidade, dos discursos oficiais, das falas dos colonizadores e do silêncio dos colonizados, da produção iconográfica, da construção literária, da linguagem cinematográfica, jornalística e historiográfica.

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  • Investigar as raízes históricas remete a análise das pesquisas arqueológicas, dos documentos históricos, da historicidade já conhecida no campo da Egiptologia, da revisão crítica das fontes iconográfica, jornalística, literária, cinematográfica e da produção historiográfica.
  • O fruto deste trabalho resultará em verdade desmistificadora e ao mesmo tempo em fonte a ter sua verdade desmistificada frente a outros olhares investigativos no campo científico. Nisto reside a Ciência: a verdade enquanto processo de construção não absoluto, não ideologizado, que não admite ver apenas a sua face refletida no espelho do tempo.

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  • O cinema foi a mídia mais eficiente – com recurso ao entretenimento visual - na difusão da “maldição dos faraós”. A produção da Universal e, a partir de 1959, da Hammer, impulsionaram o interesse pela “maldição”. Os quadrinhos/graphic novel também contribuíram para manter o tema vivo, especialmente, entre o público mais jovem. Como as HQs se apropriaram da linguagem literária e cinematográfica para recontar na arte sequencial a “maldição dos faraós” e o papel vingador das múmias?
  • Ótimo objeto a ser desenvolvido num próximo livro!

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BIBLIOGRAFIA

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