QUANDO A APOSTA
ENTRA EM CASA
Apostas online, ludopatia e custo público de um risco privado
Juliana Prates
Auditora • Advogada • Pesquisadora • Ativista
01
A motivação: da história pessoal à evidência pública
Experiência pessoal não substitui pesquisa; ela produz as perguntas.
Dor
→
Escuta
→
Pesquisa
→
Política pública
Minha aproximação com o tema começou com a morte do meu irmão, Otacílio, e a descoberta de um processo de dependência e endividamento que a família não enxergava.
Depois vieram relatos de todo o Brasil: mães, esposas, servidores, famílias endividadas, pessoas pedindo ajuda e sem saber onde buscar cuidado.
Ponto de método
A dor mostra a urgência. A pesquisa dá sustentação. O controle público organiza as perguntas certas.
Fonte contextual: trajetória pública de Juliana Prates e relatos documentados na imprensa.
04
UMA HISTÓRIA PESSOAL
Do luto à luta!
“A dor mostrou o problema. A escuta das famílias mostrou que ele não era isolado.”
R$ 1,5 mi
em dívidas identificadas após a morte do meu irmão Otacílio
Relato pessoal documentado pela imprensa nacional; usar com sobriedade e sem transformar o dado em espetáculo
A minha história pessoal abre a pergunta, mas não substitui a evidência. O luto virou estudo, escuta pública e defesa de respostas institucionais.
A transformação foi muito rápida
Em poucos anos, um mercado digital entrou no cotidiano de milhões de pessoas.
2018
Lei 13.756
apostas de quota fixa
2023
Lei 14.790
nova estrutura regulatória
2025
Mercado federal
regulado em operação
2026
85 empresas
habilitadas pela SPA
O número de operadores importa. Mas o essencial é entender a escala da exposição social e a velocidade da normalização digital.
Fontes: Leis 13.756/2018 e 14.790/2023; Ministério da Fazenda/SPA, 13 ago. 2026.
05
CONCEITO
O que está dentro da palavra “BETS”
Apostas de quota fixa
Podem ser de suas modalidades:
Apostas esportivas e jogos online. Sendo que em todas as duas a pessoa conhece o multiplicador potencial do prêmio no momento da aposta.
Jogos online / cassino digital
A aposta esportiva depende dos eventos esportivos, já as roletas, slots e jogos rápidos estão 24 horas disponíveis e ampliam a repetição, recompensa imprevisível e tentativa de recuperar perdas.
A separação artificial entre “bet” e “tigrinho” confunde a sociedade.
05
Fonte: Leis nº 13.756/2018 e nº 14.790/2023; MF/SPA; Portaria SPA/MF nº 827/2024.
A ARQUITETURA DO RISCO
O cassino agora cabe no bolso
Sem porta. Sem horário. Sem deslocamento. Com Pix, publicidade e poucos segundos entre impulso e aposta.
Digitalização + disponibilidade permanente + pagamento instantâneo + marketing
OMS: comercialização, digitalização, marketing e patrocínio aceleram a normalização do jogo
A aposta digital reduz barreiras: não há porta, horário ou deslocamento. O impulso encontra Pix, publicidade e um produto disponível o tempo inteiro.
PANORAMA NACIONAL
Escala: milhões de pessoas, mercado regulado em expansão
85
empresas habilitadas pela SPA/MF em agosto de 2026
22,1 mi
pessoas apostaram nos 30 dias anteriores à pesquisa DataSenado 2024
52%
dos apostadores da pesquisa tinham renda de até 2 salários mínimos
A escala já é suficiente para tratar bets como política pública — sem exagerar conceitos.
Fontes: Ministério da Fazenda, 13/08/2026; DataSenado 2024, 21.808 entrevistas
REGULAÇÃO MADURA
Mercado legal e ilegal: duas agendas simultâneas
Combater o ilegal
Fiscalizar o legal
não substitui
A existência de regras não elimina risco. Ela cria deveres de prevenção, dados, transparência e responsabilização.
Síntese regulatória: combater clandestinidade e reduzir danos no mercado autorizado
Milhões de CPFs. Bilhões em fluxo.
25,2 mi
brasileiros apostaram em 2025 em plataformas autorizadas, segundo a SPA.
R$ 18–21 bi
transferências mensais estimadas para bets em 2024, segundo o Banco Central.
24 mi
pessoas físicas fizeram Pix para apostas na estimativa preliminar do BCB.
Nessa escala, não é apenas escolha individual: é política pública.
06
Fonte: MF/SPA, mar./2026; Banco Central, Estudo Especial nº 119/2024.
Perfil dos apostadores: 62% homens, 38% mulheres; 56% entre 16–39 anos. A mudança tecnológica é estrutural: o cassino cabe no bolso, sem deslocamento, porta ou horário.
Quando vulnerabilidade social encontra aplicativo e Pix
5 mi
beneficiários do Bolsa Família enviaram Pix para apostas em ago./2024.
R$ 3 bi
enviados por famílias beneficiárias em um único mês.
R$ 2 bi
por chefes de família, segundo a estimativa do Banco Central.
Não é inferiorizar quem é vulnerável. É proteger a finalidade da política pública diante de uma atividade de risco.
07
Fonte: Banco Central, Estudo Especial nº 119/2024; Senado Notícias, 25/09/2024.
MADE/USP • 24/08/2026
A conta econômica vai além da arrecadação
R$ 62,5 bi
transferência líquida estimada das famílias para plataformas em 2025.
R$ 120–141 bi
atividade econômica retirada pela redução do consumo, conforme exercício do MADE/USP.
0,9%–1,1%
ordem de grandeza estimada do impacto sobre o PIB.
A pergunta muda: não é quanto arrecada. É quanto desloca de consumo, renda e cuidado.
08
Fonte: MADE/USP, “O custo econômico das bets”, publicado em 24/08/2026.
CONTAS PÚBLICAS
A receita direta pode esconder perda líquida
O que entra
Outorgas, tributos empresariais e tributação de prêmios. Essa receita existe e precisa ser reconhecida.
O que sai
Quando a aposta reduz consumo e PIB, a arrecadação geral também perde base.
MADE estima efeito líquido negativo mínimo de R$ 22 bi, podendo chegar a R$ 46 bi.
09
Fonte: MADE/USP, 24/08/2026; Lei nº 14.790/2023; MF/SPA.
DESIGUALDADE
Quem perde renda consome mais do que quem lucra
R$ 1 perdido na baixa renda
não tem o mesmo efeito econômico de R$ 1 concentrado no topo.
• famílias cortam comida, aluguel, transporte, cuidado e contas básicas
• a economia perde consumo recorrente
• o lucro concentrado não retorna na mesma velocidade
O risco não é só individual. Ele pode ampliar concentração de renda.
10
Fonte: MADE/USP, 24/08/2026; NPE 8 e NPE 52 citadas pelo MADE.
Mulheres & Bets: quando mudamos a pergunta
Não perguntar apenas “quem aposta?”, mas também “quem é afetado?”.
42%
das mulheres disseram apostar ou já ter apostado
12%
não apostam, mas são afetadas por alguém próximo
1,6x
mães apostam em proporção maior que mulheres sem filhos
A unidade de análise precisa ir além do CPF apostador. Famílias, cuidadoras e crianças também sofrem consequências.
Fonte: pesquisa Mulheres & Bets — Clarice, Estratégia Latina e Instituto IDEIA; divulgação Folha/UOL, ago. 2026.
11
O dano não respeita a fronteira do CPF
Mulheres podem estar dos dois lados: apostadoras e responsáveis por reorganizar as consequências.
Orçamento doméstico
Dívidas escondidas
Cuidado familiar
Conflito e violência
Saúde mental
família
OMS
Para cada pessoa que joga em nível de alto risco, outras 6 pessoas ao redor podem ser afetadas.
A política pública precisa ouvir também quem não aposta.
Fontes: OMS, Gambling fact sheet; pesquisa Mulheres & Bets.
12
FAMÍLIAS
A dívida financeira é só a parte visível
23%
conhecem ou presenciaram situação em que apostas contribuíram para violência familiar.
33%
teriam interesse em canal anônimo de apoio, segundo a pesquisa.
“Pra toda aposta online, uma mulher paga a conta.”
A aposta corrói confiança, orçamento e paz doméstica.
12
Fonte: CLARICE, Estratégia Latina e IDEIA, “Mulheres & Bets”, 2026.
O cidadão é inteiro. O Estado é fragmentado.
Uma mesma família atravessa muitas portas institucionais.
Família
afetada
SUS
saúde mental
Bancos
dívida
Procon
consumo
Assistência
vulnerabilidade
Judiciário
superendividamento
Escola
proteção
A ouvidoria pode ser ponto de observação transversal: não resolve tudo sozinha, mas ajuda o Estado a perceber conexões.
Fonte: modelo conceitual da palestra.
20
SAÚDE MENTAL
Ludopatia é doença. Não é falta de vergonha.
1. Expectativa
possibilidade de ganho e alívio
2. Reforço variável
ganhos imprevisíveis mantêm a repetição
3. Perda
culpa, ansiedade, vergonha e segredo
4. Tentativa de recuperar
nova aposta para “consertar” o prejuízo
Nomear corretamente, entendo que desenvolveu uma doença reconhecida pela OMS, diminui culpa, vergonha e aumenta a chance de cuidado.
CID-10: F63.0/Z72.6 • CID-11: 6C50.0
13
Fonte: Ministério da Saúde, Guia de Cuidado, 2026; CID-10; CID-11.
RESPOSTA PÚBLICA
O SUS entrou na conversa. A governança precisa amadurecer.
Saúde
Guia de Cuidado de 2026, Meu SUS Digital, UBS, CAPS, urgência e rede de apoio.
Controle
TCU aponta necessidade de articulação, indicadores, fiscalização e campanhas proporcionais ao risco.
O Estado não pode regular a arrecadação com velocidade e cuidar do dano com lentidão.
14
Fonte: Ministério da Saúde, Guia de Cuidado, 2026; Meu SUS Digital; TCU, TC 024.852/2024-4.
NORMALIZAÇÃO
Publicidade transforma risco em paisagem
Quando a marca aparece em todo lugar,
a aposta parece normal.
• futebol e transmissão emprestam familiaridade
• influenciadores emprestam confiança
• advertência pequena perde para promessa de ganho
Aposta não é investimento.
15
Fonte: Portaria SPA/MF nº 1.231/2024; Portaria SPA/MF nº 1.964/2026; Portaria Interministerial MF/SECOM/MJSP nº 73/2026.
Quando a aposta vira promessa de renda
O risco muda quando o usuário deixa de ver entretenimento e passa a ver solução financeira.
Aposta não é investimento
Apostar faz você perder dinheiro
Apostar pode causar dependência
Essas advertências se tornaram obrigatórias porque a regulação precisou enfrentar a percepção de aposta como renda, atalho ou investimento.
Lazer
≠
estratégia de sobrevivência financeira
Fonte: Ministério da Fazenda, Portaria SPA/MF nº 1.964/2026; notícia de 17 jul. 2026.
10
PROTEÇÃO ETÁRIA
Proibir acesso não basta
18+
idade mínima para cadastro e uso no ambiente regulado.
CPF
identificação e controles de acesso são obrigatórios no mercado autorizado.
lacuna
faltam estatísticas públicas periódicas sobre exposição de menores.
A criança não aposta legalmente, mas cresce vendo a aposta como cultural.
16
Fonte: MF/SPA; Portaria SPA/MF nº 1.231/2024; Ministério da Saúde, campanha “Não Aposte Sua Saúde”, 2026.
PUBLICIDADE E NORMALIZAÇÃO
A criança pode não apostar. Mas pode aprender que aposta é parte do esporte.
Prevenção começa antes da primeira aposta.
camisa do time
transmissão
influenciador
redes sociais
estádio
grandes eventos
Fontes: OMS; Ministério da Fazenda, regras de publicidade, julho de 2026
GOVERNANÇA
Onde o problema aparece primeiro
Ouvidorias
relatos antes de virarem estatística: dívida, sofrimento, escola, serviço público e consumo.
Empresas
absenteísmo, produtividade, empréstimos sucessivos, conflitos e risco de fraude.
Controle
indicadores, articulação, risco, publicidade responsável e orçamento de cuidado.
Medir é condição para prevenir. Ausência de dado não é ausência de dano.
17
Fonte: Ministério da Saúde, 2026; BCB, Estudo Especial nº 119/2024; TCU, TC 024.852/2024-4.
SOLUÇÃO INTEGRADA
Ninguém resolve sozinho
Família
acolher e buscar ajuda
Estado
fiscalizar e publicar dados
Mercado
cumprir dever de cuidado
Sociedade
não normalizar o risco
Regulação sem cuidado é incompleta.
Cuidado sem fiscalização é enxugar gelo.
Fiscalização sem dados é discurso.
18
Fonte: Síntese autoral a partir de Ministério da Saúde, MF/SPA, TCU, MADE/USP e CLARICE.
O DADO MAIS HUMANO
Mais de 1 milhão pediu ao Estado: “não me deixe apostar”
AUTOEXCLUSÃO
1+ milhão
solicitações de bloqueio em 2026
35%
indicaram perda de controle como motivo
O próprio cidadão reconhece que precisa de uma barreira externa para exercer a decisão de parar.
Fonte: Ministério da Saúde / Plataforma Centralizada de Autoexclusão, agosto de 2026
AGENDA SÉRIA
O que o Brasil precisa medir
Saúde
prevalência, atendimentos, comorbidades e risco suicida
Crédito
endividamento, inadimplência, cartões, consignado e Pix
Trabalho
absenteísmo, produtividade, afastamentos e integridade
Crianças
exposição publicitária, burla de idade e influenciadores
Gênero
mulheres apostadoras, impactadas, cuidadoras e vítimas
Território
renda, região, beneficiários sociais e grupos vulneráveis
Sem dado, a indústria conta a história sozinha.
19
Fonte: Síntese autoral; lacunas apontadas por TCU, Ministério da Saúde, MADE/USP, CLARICE e Banco Central.
DADOS COMO POLÍTICA PÚBLICA
O Estado agora tem registros. Falta transformá-los em perguntas.
quem aposta?
com que frequência?
quem pede autoexclusão?
qual perfil de risco?
onde surgem danos?
quem procura ajuda?
Dados administrativos: SPA/MF, SIGAP, autoexclusão, saúde e demais sistemas públicos
TAXONOMIA MÍNIMA
O que a ouvidoria deveria reconhecer nas manifestações sobre bets?
perda de controle
endividamento
saúde mental
crédito/consignado
violência familiar
publicidade
crianças e adolescentes
benefícios sociais
autoexclusão
fraude
tratamento
práticas de plataforma
Elaboração própria a partir de riscos relatados em saúde, consumo, assistência, finanças e famílias
Ouvidorias no ciclo das políticas públicas
Da escuta individual à retroalimentação do desenho institucional.
1
Identificação
do problema
2
Formulação
3
Implementação
4
Monitoramento
5
Avaliação
retroalimentação pela experiência do cidadão
As apostas ainda não estão organizadas nas ouvidorias como categoria própria de risco social, mesmo já aparecendo em saúde, dívida, consumo, família e assistência.
Base: ciclo de políticas públicas aplicado à escuta institucional.
03
A OPORTUNIDADE DE ESCUTA
Entre o início do problema e a tragédia existe uma janela.
É nessa janela que a escuta pública pode virar proteção.
Antes da dívida impagável
Antes da ruptura familiar
Antes do adoecimento extremo
Chegar antes é função de governança, não apenas de acolhimento
ENCERRAMENTO
Fechar a torneira do dano antes da tragédia
Meu irmão não pode voltar.
Mas outras famílias ainda podem ser protegidas.
• apostas online são tema de saúde, economia, educação, assistência, consumo, trabalho e controle
• a pergunta não é só se arrecada; é se a arrecadação compensa o dano não medido
• Diga não às bets. E diga sim a dados, cuidado, fiscalização e proteção das famílias
20
Fonte: Síntese final autoral.
CANAIS OFICIAIS
Onde buscar ajuda
Meu SUS Digital
teleatendimento gratuito em saúde mental para maiores de 18 anos.
UBS e CAPS
porta de entrada, avaliação, encaminhamento e acompanhamento no SUS.
CVV 188
apoio emocional gratuito, sigiloso e 24h.
Se houver pensamento de morte, isso é urgência. Não espere “passar”.
Risco imediato: SAMU 192, UPA 24h ou pronto-socorro.
21
Fonte: Ministério da Saúde — Meu SUS Digital, UBS, CAPS, Disque Saúde 136; CVV 188; SAMU 192.
ENCERRAMENTO
Se as ouvidorias são os ouvidos do Estado, o que o Estado já poderia estar ouvindo sobre as apostas e ainda não aprendeu a reconhecer?
A ouvidoria pode escutar antes que o indicador enxergue.
Obrigada • Juliana Prates
TRANSPARÊNCIA TÉCNICA
Fontes principais e datas
MADE/USP
“O custo econômico das bets”, publicado em 24/08/2026.
CLARICE
“Mulheres & Bets”, 2026; quantitativa em 8–9/07/2026.
Banco Central
Estudo Especial nº 119/2024 sobre Pix, bets e Bolsa Família.
Ministério da Saúde
Guia de Cuidado, 2026; campanha “Não Aposte Sua Saúde”.
Ministério da Fazenda/SPA
regras, portarias e mercado regulado.
TCU
TC 024.852/2024-4 sobre governança e fiscalização.
Obrigada!
@julianaprates.oficial
22
Fonte: Apresentação construída com fontes públicas confiáveis e deck-base de Juliana Prates.