MINICURSO: TRATAMENTO DIDÁTICO DO TL COM VISTAS À LATINIDADE
Profa. Dra. Regiane S. Cabral de Paiva/UERN/FAPERN
12/05/2022
14h às 18h
La Palabra- Pablo Neruda
Todo lo que usted quiera, sí señor, pero son las palabras las que cantan, las que suben y bajan… Me prosterno ante ellas… Las amo, las adhiero, las persigo, las muerdo, las derrito… Amo tanto las palabras… Las inesperadas… Las que glotonamente se esperan, se escuchan, hasta que de pronto caen… Vocablos amados… Brillan como piedras de colores, saltan como platinados peces, son espuma, hilo, metal, rocío… Persigo algunas palabras… Son tan hermosas que las quiero poner todas en mi poema…
(NERUDA, P. Confieso que he vivido. 1es. Buenos Aires: Seix Barral, 2004. p.68-69)
La Palabra- Pablo Neruda
Las agarro al vuelo, cuando van zumbando, y las atrapo, las limpio, las pelo, me preparo frente al plato, las siento cristalinas, vibrantes, ebúrneas, vegetales, aceitosas, como frutas, como algas, como ágatas, como aceitunas… Y entonces las revuelvo, las agito, me las bebo, me las zampo, las trituro, las emperejilo, las liberto… Las dejo como estalactitas en mi poema, como pedacitos de madera bruñida, como carbón, como restos de naufragio, regalos de la ola… Todo está en la palabra… Una idea entera se cambia porque una palabra se trasladó de sitio, o porque otra se sentó como una reinita adentro de una frase que no la esperaba y que le obedeció… Tienen sombra, transparencia, peso, plumas, pelos, tienen de todo lo que se les fue agregando de tanto rodar por el río, de tanto transmigrar de patria, de tanto ser raíces…
La Palabra- Pablo Neruda
Son antiquísimas y recientísimas… Viven en el féretro escondido y en la flor apenas comenzada… Qué buen idioma el mío, qué buena lengua heredamos de los conquistadores torvos… Estos andaban a zancadas por las tremendas cordilleras, por las Américas encrespadas, buscando patatas, butifarras, frijolitos, tabaco negro, oro, maíz, huevos fritos, con aquel apetito voraz que nunca más se ha visto en el mundo… Todo se lo tragaban, con religiones, pirámides, tribus, idolatrías iguales a las que ellos traían en sus grandes bolsas… Por donde pasaban quedaba arrasada la tierra… Pero a los bárbaros se les caían de las botas, de las barbas, de los yelmos, de las herraduras, como piedrecitas, las palabras luminosas que se quedaron aquí resplandecientes… el idioma. Salimos perdiendo… Salimos ganando… Se llevaron el oro y nos dejaron el oro… Se lo llevaron todo y nos dejaron todo… Nos dejaron las palabras.
Texto literário (TL)?
Qual o papel do TL para o ensino de língua?�
Abre caminhos para usos diferentes da língua, permitindo uma complexa atividade cognitiva de construção de sentido e de atribuição de interpretações, de reconhecimentos de elementos, de formas, de relações.
“os textos literários oferecem como input de língua para desenvolver as quatro habilidades linguísticas fundamentais na aquisição de uma língua: compreensão leitora, compreensão auditiva, expressão oral e expressão escrita, dentro de um contexto cultural significativo”. Albadalejo (2007, p. 6).
"registra a evolução da ciência, tecnologia, jurisprudência, política, educação, ética, estética [...]” (TENORIO e REYZÁBAL, 1992, p. 32)
TL é bastante ousado, pois transita em todos os âmbitos compreendidos na articulação dos conteúdos de língua; transita por inúmeros temas; se estrutura e se organiza em várias formas e se constrói sob várias perspectivas.
E ainda podemos afirmar: o TL é um “ponto de encontro dos resultados de diversos fenômenos de linguagem, procedimentos estilísticos, etc.; o ponto de encontro de influências histórico-político-culturais”
(TENORIO e REYZÁBAL, 1992, p. 43)
Fortes razões para incluir o TL em aulas de línguas -(Albadalejo, 2007)�
1- Os temas literários apresentados em seus textos possuem um caráter universal, fazendo com que o texto se aproxime do mundo do aluno
2- O TL é um material autêntico. Não foi desenvolvido para fins específicos fora da esfera artística; logo, o aluno pode perceber através destes textos amostras de língua dirigidas a falantes nativos.
3- A carga de valor cultural que o TL apresenta, acarreta em um benefício para a transmissão de códigos sociais e de conduta da sociedade onde se fala a língua
5- O poder que dispõe em envolver o leitor para que se crie um compromisso pessoal com a obra (ou o texto) que lê.
4- Oferece uma ampla riqueza linguística, tanto pelo vocabulário, como pelas estruturas sintáticas, variações linguísticas e estilísticas e formas de conectar as ideias
TL, por quê?�
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Dato importante 1:
Gráfico 1- Seções de leitura: Presença dos textos não literários e literários nas coleções de espanhol do PNLD/2018 do EM.
Fonte: Dados do estudo de minha tese.
Fonte: Disponível em: < https://stryptor.herokuapp.com/mafalda/10-158>.
Qual o lugar de fala do pai de Libertad?
Quando o pai da personagem afirma “Nuestro problema”, contrapondo como os dois universos, europeus e norte-americanos, fica evidente o seu lugar de fala no continente americano: o dos latinos.
. “Tenemos que empezar a ser como nosotros” não é uma tarefa simples. Principalmente se não nos conhecemos, nem nos reconhecemos como latino-americanos. A necessidade da valorização e da imitação dos elementos culturais que emergem do continente europeu e do subcontinente americano, deve-se a dois fatores: ao poder econômico que estas duas potencias exercem no globo e à falta de memória histórica desde a nossa formação enquanto território e etnia.
O dilema posto pelo pai de Libertad reproduzido na fala dela é bastante sério quando nos damos conta de que abrimos mão do sentimento de pertença a este contexto latino-americano para sobrevivermos como estrangeiros na cultura alheia, melhor dizendo, na cultura do dominador.
Além disso, como lembra Mignolo (2005), a América Latina, ao lado da África e de certas regiões da Ásia, se constitui como um lugar onde os tentáculos imperialistas não param de crescer amparados pelo discurso da modernidade que, por sua vez, caminha de mãos dadas com a colonialidade. .
No caso do ensino de língua espanhola aqui no Brasil, a concepção colonialista norteou por algum tempo os livros didáticos quando os textos postos para o desenvolvimento de práticas de leitura eram oriundos apenas da Espanha e os autores destes textos eram espanhóis.
Felizmente, nos últimos anos, já se nota a presença de gêneros textuais que circulam em contexto latino-americano e a presença de gêneros literários cujos autores tem origem na América Latina (AL).
Dado importante 2:
Quadro 1- Origem dos autores dos TL da seção de leitura na coleção Confluencia.
Dado importante 3:
No entanto, só a presença destes textos e destes autores não bastam. Faz-se necessário trazer a temática da latinidade com um viés decolonial para o contexto de ensino de língua espanhola no ensino médio brasileiro, dado que é possível: dar a conhecer as particularidades que caracterizam os países de fala hispânica da América Latina (AL); possibilitar que estudantes brasileiros tenham a oportunidade de se sentirem pertencentes ao universo latino-americano (LA) e conscientizá-los sobre o seu lugar de pertença; de trazer à tona ...
... as memórias silenciadas pelos países opressores e de mostrar-lhes que é possível continuar aprendendo com o outro, sem a necessidade de imitar outras culturas ou se sujeitá-las a ela. Esse é o caminho que precisamos percorrer para nos conhecermos e nos reconhecermos.
Portanto...
Se a literatura “registra” diferentes contextos da condição humana, acreditamos que, por meio desse registro materializado no texto literário (TL), a latinidade pode ser revelada e discutida nas aulas de língua espanhola durante a prática da atividade leitora.
América, no invoco tu nombre en vano.
Cuando sujeto al corazón la espada,
cuando aguanto en el alma la gotera,
cuando por las ventanas
un nuevo día tuyo me penetra,
soy y estoy en la luz que me produce,
vivo en la sombra que me determina,
duermo y despierto en tu esencial aurora
dulce como las uvas, y terrible,
conductor del azúcar y el castigo,
empapado en esperma de tu especie,
amamantado en sangre de tu herencia.
Pablo Neruda.
Um poema
Etimologicamente�...
...latinidade vem do latim Latinitas e se refere ao estudo da língua e da cultura latinas, bem como ao conjunto de povos de língua latina. Daí a importância dessa nomenclatura para o continente americano, porque era preciso deixar demarcado, ainda que simbolicamente, a afirmação de uma “identidade interna de seus povos, que buscavam auto reconhecimento e emancipação política; seja em uma concorrência de espaços hegemônicos em território americano entre determinadas nações” (BRANDALISE, 2013, p. 75).
Latinidade – noção e compreensão
O termo latinidade só ganha evidência quando a concepção de América Latina (AL) começa a ser consolidada dentro de uma conjuntura política e econômica deste continente.
Os estudos de Soria (2004) confirmam que a criação e a difusão do conceito de AL está apoiada em duas vertentes: a primeira, representada por alguns intelectuais latino-americanos que geraram o nome como uma das estratégias de reconhecimento diante das nações europeias e em oposição à norte-americana; a segunda, representada por uma parte da intelectualidade e do governo francês que se puseram a fortalecer a ideia de latinidade da América como uma estratégia para melhorar a posição da França diante dos impérios europeus e sobre as novas entidades soberanas da América.
Latinidade – noção e compreensão
Essa segunda vertente também é mencionada por Mignolo (2005), no livro La idea de América, ao afirmar que os intelectuais e funcionários franceses se apropriaram do conceito de latinidade para se adiantar entre os países latinos que tinham interesse na América (Itália, Portugal, Espanha e a própria França), mas também para enfrentar a contínua expansão dos EUA neste continente em meados do século XIX. A partir disso, a América do Sul e as ilhas do Caribe, as elites criollas brancas e mestiças adotaram este termo depois da independência para criar sua identidade pós-colonial (MIGNOLO, 2005).
Latinidade – noção e compreensão
Num estudo do uruguaio Arturo Ardao (La idea de Latinoamérica ), Mignolo (2005) explica que os incidentes, tensões e conflitos de 1850, relacionados com o Panamá, reforçaram a origem do nome latinidade. Para além de uma disputa por questões de limites, se tratou de uma luta pelo controle do ponto de encontro entre o Atlântico e o Pacífico. Duas forças opostas se concentravam nesta tensão, de um lado a “raça anglo-saxônica” e de outro a “raça latina”. O enfrentamento entre essas duas Américas encontrou sua expressão poética em “Las dos Américas” do colombiano José Maria Torres de Caicedo como expressado na estrofe abaixo:
“Más aislados se encuentran, desunidos, / Esos pueblos nacidos para aliarse:/ La unión es su deber, su ley amarse:/ Igual origen tienen y misión;/ La raza de la América latina, / Al frente tiene la sajona raza,/ Enemiga mortal que ya amenaza/ Su libertad destruir y su pendón”.
é interessante observarmos que o texto literário foi utilizado nesse contexto como um mecanismo de conscientização étnica, cultural e geográfica, o que lhe configura como um gênero que está para além da apreciação estética simplesmente. Afinal, como bem aponta Vargas Llosa (2006), a imaginação e a palavra presentes na literatura estão também a serviço de um ideal cívico.
Caicedo escreve esse poema da cidade de Veneza, em setembro de 1856, e publica no mês de fevereiro de 1857 no ‘El Correo de Ultramar’.
“Torres Caicedo é, efetivamente, como foi possível verificar, o hispano-americano que com consciência precoce do seu porvir histórico, aplicou a nossa América – em espanhol – o ‘qualificativo de latina’ [...]” (ARDAO, 1980, p. 74)
O filósofo e político chileno, Francisco de Bilbao, também empregou o termo “latino” ao continente americano, precocemente, durante uma conferência realizada em Paris, em 22 junho de 1856, conclamando a uma unidade latino-americana. Nesse caso, Bilbao teria sido o primeiro hispano-americano a adotar a terminologia composta para dar mais ênfase ao seu manifesto.
“Pero la América vive, la América latina, sajona e indígena protesta, y se encarga de representar la causa del hombre, de renovar la fe del corazón, de producir, en fin, no repeticiones más o menos teatrales de la edad-media, con la jerarquía servil de la nobleza, sino la acción perpetua del ciudadano, la creación de la justicia viva en los campos de la República. […] La palabra circula en tus valles, visita las orillas de los grandes ríos, y brilla en los Andes para contemplar el firmamento poblado por la palabra de Dios. ¡Adelante, mundo de Colón, América de Maipo, Carabobo y de Ayacucho!”.
Como bem reitera Quijada (1998), a adoção do nome “América Latina” pelos hispano-americanos forma parte de uma dicotomia racial onde o termo dessa dicotomia não é o adjetivo “espanhol” ou “hispano”, mas o anglo-saxão. Não existe, segundo ela, nenhum caso em que essa dicotomia fosse empregada com relação ao adjetivo “hispano”, muito pelo contrário, o termo ‘latino’ passa a se colocar quase que no mesmo campo semântico que “hispano”, já que foram os falantes da língua espanhola que incentivaram e divulgaram o adjetivo “latino”.
Apropriarmo-nos da construção latino-americano revela, portanto, uma condição de resistência diante das nações dominantes, tanto europeias quanto norte-americanas. Reflete a busca pelo encontro de realidades que foram absorvidas pelas forças colonialistas e encontraram na diversidade (compreensão de raças, religião, cultura, tradições, heróis, santos, monumentos, ruínas) problemáticas em comum.
Possivelmente, por isso, nós brasileiros raramente nos consideramos latino-americanos ou percebemos que fazemos parte também dos traços que configuram o ser latino em continente americano. Somando-se a isso, ainda há os fatores de ineficiência histórica, política, econômica e educacional que consolidam essa ausência de reconhecimento em território brasileiro.
Assim…
Era preciso aproximar os países vizinhos da grande América do sul, Central, México e Caribe, cuja raiz linguística se ampara na língua latina, e pensar para além da língua espanhola focando numa formação das nacionalidades latino-americanas. Por isso, a condição de hispano-americano se colocou menor diante de um contexto que exigia a integração de todas essas nações para além da questão geopolítica.
As nações antes eram colônias europeias, mas depois de conquistarem a independência política, articularam-se com sistemas imperialistas formados a partir da Inglaterra, Alemanha, França e Estados Unidos no final do século XIX. As duas guerras mundiais do século XX favoreceram a penetração dos EUA em todos os países. E nas décadas recentes, a AL tornou a ser um campo de disputas internacionais, uma fronteira entre sistemas mundiais (IANNI, 1993).
A partir disso, precisamos evidenciar, sobretudo, que a noção de latinidade revela algumas faces. Na Europa, esse conceito permitiu que os intelectuais e políticos franceses estabelecessem uma diferença imperial com as forças do mundo anglo-saxão (Inglaterra e Alemanha); na América do sul a ideia foi útil aos intelectuais e políticos criollos para se autodefinir em contraposição com seu competidor anglo-saxão neste continente: os EUA.
Nova ordem mundial
No entanto, o lugar da AL na nova ordem mundial foi, segundo Mignolo (2005), o de uma configuração histórico-político e cultural subalterna. Toda a construção colonial criada pelos espanhóis para justificar a colonização da América (a inferioridade dos índios, o caráter não humano dos escravos africanos, por exemplo), foi mantida e intensificada nas novas repúblicas independentes.
A partir disso, vale ressaltar que o sociólogo brasileiro Octavio Ianni (1993) defende que parte do pensamento e prática na AL organiza-se com base em interpretações sintetizadas em alguns conceitos, dos quais destaco seis pela relevância que trarão a tudo o que já foi exposto até o momento:
O primeiro contraponto, civilização e barbárie, é um dos temas mais frequentes para o pensamento LA.
Desde a formação dos estados nacionais até os dias de hoje essa ‘fórmula’ continua frequente; mudam as linguagens, os personagens, as forças sociais, mas o contraponto prevalece. A barbárie foi reforçada com o tempo pela ideia do bárbaro como aquele que pertence a outra casta, a outra classe, aos setores subalternos do campo e da cidade.
São os que reivindicam, questionam, protestam, lutam. A bem da verdade, não se trata de um dualismo apenas, já que a civilização produz a barbárie. A nação LA se caracteriza por uma instabilidade política e econômica crônica e recorrente; países marcados por revoluções, governos com mandatos interrompidos, ditaduras, desemprego, marginalidade, entre outros; os grupos dominantes controlam o poder político, militar, religioso, cultural pelos menos em escala suficiente para terem seus interesses garantidos.
Sobre o conceito de Raça Cósmica (2), trata-se de uma ideia surgida no século XX criada pelo filósofo José de Vasconcelos Calderón, à raiz da Revolução mexicana, através do seu livro “La raza cósmica” no qual defende que a raça do mundo tende a se mesclar cada vez mais e formar novos tipos humanos. Como reforça Ianni (1993), nesse período começava a se conferir alguma dignidade à população composta por índios, mestiços, negros, mulatos, brancos de diversas procedências e outros.
Estava em curso a “emergência da ‘raça cósmica’, da ‘democracia racial’, ‘do continente mestiço’, e de outras formulações destinadas a dar conta da ‘nova’ realidade social, política e cultural” (IANNI, 1993, p. 21-22). No entanto, a questão do preconceito racial mesclada com as desigualdades sociais ainda precisa ser superada.
O terceiro conceito (3), que está atrelado ao pensamento da AL, se depara com a expressão Nossa América, formulada em 1891 pelo filósofo e intelectual cubano José Martí, com o intuito de emancipar América do domínio europeu e norte-americano. Esse termo é retomado em diversas lutas ocorridas neste subcontinente, como foi o caso das lutas do Panamá contra os EUA. Essa noção se relaciona com as propostas de integração ou confederação numa tentativa de não sucumbir diante da força capitalista mundial.
O tema das Revoluções compreende o conceito (4) que compõe o pensamento e a prática LA. A história está definitivamente marcada por lutas sociais, a começar pelas castas e pelos setores de castas durante o período colônia entrando pelo século XIX; depois, a partir das lutas de independência e abolição do regime de trabalho compulsório, destacam-se as classes e os setores de classes. A partir dessa formação social mesclam-se desigualdades sociais, econômicas, políticas, culturais, raciais e regionais. No que se refere à revolução burguesa ocorrida na AL, pouco foi realizado e não responde às reivindicações do povo que ainda luta contra os problemas agrário, regional, racial e nacional.
Paralelo a esse tema, temos a construção dos conceitos de classes e castas (5). Essas linhas de castas foram produzidas durante os séculos de colonialismo e escravismo compreendendo índios, mestiços, negros, mulatos e brancos de diferentes nacionalidades. A partir disso, além das desigualdades e hierarquias sociais, econômicas e políticas, também se desenvolveram as diversidades culturais, compreendendo a língua, a religião, família, padrões e valores culturais, postos como modalidades de consciência e visões de mundo.
Já o sistema de classes foi criado com o fim do colonialismo, a independência das antigas colônias, a abolição da escravatura do negro e índio, a diversificação das atividades econômicas, a expansão do capitalismo no campo e na cidade, a industrialização e urbanização, entre outros.
O último tema (6) referente ao contexto LA tem a ver com a questão nacional, que diz respeito ao modo como se forma e se transforma a nação. A base da construção da nação se ampara em seu território, população, história, bandeira, hino, moeda, mercado, comunicação, santos, ruínas, monumentos, língua, dialetos, literatura, produções culturais, derrotas, por exemplo. Por isso, esse sociólogo reafirma que a questão nacional se coloca desde o início da história.
A gênese de cada sociedade nacional abrange tanto a luta contra a metrópole como as divergências internas, além dos conflitos com vizinhos. Paralelo a isso, se desenvolvem diversidades e desigualdades entre cidade e campo, as regiões. A estas se unem as diferenças sociais, econômicas e raciais. Assim, se revelou um particular e fundamental desencontro entre a cidade e o campo, a região e a nação. Por isso que a questão do nacionalismo se cria e se recria no âmbito das conjunturas históricas, conforme o jogo das forças sociais internas e externas.
A fisionomia da nação é interferida periodicamente pelas desigualdades e contradições escondidas nas diversidades nacionais. Como lembra Ianni (1993, p.48), tivemos o socialismo de Allende e o fascismo de Pinochet no Chile; ditaduras militares de cunho fascistas na Argentina, no Brasil e Uruguai, destruindo experiências democráticas e conquistas culturais da maior importância; a vitória da Revolução Sandinista na Nicarágua; a revolução popular em El Salvador ao longo de 12 anos e desarticulada em 1992.
A partir disso, Ianni (1993, p.66) entende que a nação não se delimita na fronteira,
“[...] mas por suas relações internas e externas, de cunho social, econômico, político e cultural. Não é na geografia que se localiza a fronteira. Ela está na sociedade, estado, história. o jogo das forças sociais, compreendendo os grupos e classes movimentos e partidos, configura o estado-nação: soberano, subordinado, associado etc”.
Assim...
Toda essa discussão construída até aqui pretende fortalecer o significado de ser latino-americano sem limitar esse conceito apenas ao fato de termos uma raiz de origem europeia por conta da base linguística, mas porque essa língua, juntamente com suas particularidades, sejam elas de ordem cultural, folclórica, religiosa, política e social, se mesclaram com as de origem indígena e africana. Exatamente por essa riqueza de encontros, por essa hibridação, a noção de ‘latino’ ganha uma dimensão significativa dentro do continente americano ao celebrar a mestiçagem como uma característica fundamental.
As problemáticas apresentadas, os elementos e eventos peculiares e a diversidade na construção desse subcontinente são o fundamento para também percebermos como a literatura latino-americana se torna particular justamente por todos os aspectos étnicos, culturais, geográficos, históricos, linguísticos, sociais, nacionais, políticos que a compõem.
A latinidade a partir do TL
Todas estas amostras são dos textos sugeridos nas seções de leitura da coleção Confluencia, material de análise da minha tese.
Evidências da latinidade nos TL selecionados para a seção de leitura na coleção:�
1- ORIGEM DOS AUTORES
2- PRESENÇA DE BOXES COM A BIOGRAFIA DOS AUTORES
3- CONTEÚDO DO TL SELECIONADO
TL 1
A crônica ‘La televisión’pertencente ao El libro de los abrazos de Eduardo Galeano
La televisión / 2
�La televisión, ¿muestra lo que ocurre? En nuestros países, la televisión muestra lo que ella quiere que ocurra; y nada ocurre si la televisión no lo muestra. La televisión, esa última luz que te salva de la soledad y de la noche, es la realidad. Porque la vida es un espectáculo: a los que se portan bien, el sistema les promete un cómodo asiento.
Latinidade
Esta crônica seria uma ótima oportunidade de debater, na atividade de leitura, uma das questões que afligem o contexto LA: os mercados que dominam a comunicação como mecanismo de manipulação das informações.
Como bem lembra Canclini (2008), os mercados de comunicação do continente latino-americano, que até o século XVII estiveram nas mãos da Espanha e Portugal e nas da França desde o XIX até o início do século XX, passam ao predomínio estadunidense nesses últimos séculos.
No entanto, ele defende que, em tempos de globalização, não há apenas uma “americanização” no mundo, apesar de um amplo setor de produção, distribuição e exibição audiovisual ser de propriedade de corporações dos EUA.
TL 2
Poema ‘Mi belleza’ dos poetas cubanos - Magia López e Alexei Rodrigez Mola
Latinidade
O poema ‘Mi belleza’ (figura 2) dos poetas cubanos - Magia López e Alexei Rodrigez Mola - desenha uma das realidades da AL na medida em que um dos versos reivindica que a beleza não é clássica e que está para além dos padrões “eurocéntricamente hablando”.
Ao mencionar esse padrão e observando o contexto e o lugar de fala dos autores, seria oportuno propor um contraponto entre a imposição desse padrão de beleza, que considera apenas as pessoas brancas e europeias, com a realidade étnico-racial latino-americana. Importante mencionar também que a poeta além de mulher, Magia López é negra e assume o compromisso de reivindicar a voz da mulher afro-cubana. Mulher e negra.
Latinidade
Duas vozes que desde a época de nossa colonização foram silenciadas em virtude de um patriarcalismo e da colonialidade que precisava hierarquizar classes a fim de explorá-las e subjugá-las. Podemos incluir a essa discussão, inclusive, que propor um TL desses autores significa considerar a literatura negra do continente LA. Como bem reforça Ianni (1988, p.91), “Considera-se a literatura negra como de autoria negra, ou seja, diferencia-se daquela que apenas tematiza o negro”.
TL 3
Poeta peruano.
Un mundo para Julius
Una semana más tarde, Susan trató de resondrar a Cinthia por ser tan descuidada, por haber perdido la medallita de platino que ¿te regaló?... pero en ese instante se le olvidó completamente quién se la había regalado y en cambio recordó que en estos días andaba más tranquilita, y ahora que se fijaba, hace por lo menos una semana que no pone el traje negro.
¿Y usted?
Se abalanzó sobre Julius, paradito ahí con las puntas de los pies separadísimas, volvió a sentir esa necesidad de que fuera un bebé y, en vez de decirle usted ya tiene cinco años, a usted ya deberíamos ponerlo en el colegio, le dio un beso oliendo delicioso.
Mami está apurada, darling – dijo, volteando a mirarse en un espejo.
Luego se inclinó para que ellos alcanzaran sus mejillas, un mechón lacio, rubio, maravilloso se le vino abajo como siempre que se inclinaba, los enterró entre sus cabellos: Cinthia y Julius dejaron sus besos ahí, guardaditos, protegidos, para que le duren hasta que vuelta.
Latinidade
O romance ‘Un mundo para Julius’ conta a história de Julius, uma criança que vive entre dois mundos: o de sua família rica e o dos empregados, ao mesmo tempo em que desenha a oligarquia de Lima e desmascara preconceitos, denuncia desigualdades e as discriminações pelas quais a população pobre peruana passa.
Trazer à tona essa questão, ainda que por meio de um fragmento, seria uma ótima oportunidade para a discussão em torno a uma das singularidades da AL apresentada por Mignolo (2005): o controle do espaço, a apropriação de terra se associa ao capital nas mãos de poucos e reforçam a marginalização e desumanização de outros. Uma oportunidade de denúncia contra preconceitos, desigualdades e discriminações.
TL 4
Poema ‘El sur también existe’ do uruguaio Mario Benedetti
Con su ritual de acero
sus grandes chimeneas
sus sabios clandestinos
su canto de sirenas
sus cielos de neón
sus ventanas navideñas
su culto a dios padre
y de las charreteras
con sus llaves del reino
el norte es el que ordena
pero aquí abajo abajo
el hambre disponible
recorre el fruto amargo
de lo que otros deciden
mientras que el tiempo pasa
y pasan los desfiles
y se hacen otras cosas
que el norte no prohíbe
con su esperanza dura
el sur también existe
con sus predicadores
sus gases que envenenan
su escuela de Chicago
sus dueños de la tierra
con sus trapos de lujo
y su pobre osamenta
sus defensas gastadas
sus gastos de defensa
son su gesta invasora
el norte es el que ordena
pero aquí abajo abajo
cada uno en su escondite
hay hombres y mujeres
que saben a qué asirse
aprovechando el sol
y también los eclipses
apartando lo inútil
y usando lo que sirve
con su fe veterana
el sur también existe
Latinidade
con su corno francés
y su academia sueca
su salsa americana
y sus llaves inglesas
con todos sus misiles
y sus enciclopedias
su guerra de galaxias
y su saña opulenta
con todos sus laureles
el norte es el que ordena
pero aquí abajo abajo
cerca de las raíces
es donde la memoria
ningún recuerdo omite
y hay quienes se desmueren
y hay quienes se desviven
y así entre todos logran
lo que era un imposible
que todo el mundo sepa
que el sur también existe.
O poema ‘El sur también existe’ do uruguaio Mario Benedetti aborda o enfrentamento entre os países do norte e do sul, fazendo referência ao domínio dos países desenvolvidos, em particular os EUA, sobre os países latino-americanos.
Latinidade
Nesse poema, podemos notar que o poeta qualifica “os do norte” como desenvolvidos industrialmente e tecnologicamente; como possuidores de armas químicas; como consumistas e ricos, mas pobres socialmente por não socializarem as descobertas científicas. Já os países do sul, os latino-americanos, são descritos como frágeis, marginalizados, dependentes, sem importância mundial, porém é do sul onde saem pessoas que se esforçam e que lutam sem perder a fé, a esperança e que tratam de seguir em frente apesar de todas as dificuldades sociais, políticas e econômicas que lhes afetam.
Latinidade
Essa constatação revelada no discurso literário dialoga com as questões defendidas por Canclini (2008) e Mignolo (2005): o controle dos espaços, a apropriação de terras e do saber associadas ao acúmulo do capital nas mãos de uma minoria (norte-americana) reforça a marginalização de outros (LA). Também corresponde à discussão sobre colonialidade de poder, de que trata Quijano (2000), como um padrão mundial capitalista que estabelece relação entre dominadores/superiores e dominados/inferiores.
Fazer uso de um poema como este numa aula de língua espanhola, compreende uma discussão para além dos hemisférios: reflexão em torno da submissão dos países LA frente à dominação norte-americana, cenário que tanto marca a história econômica e político dos países da América Latina.
TL 5
América invertida’ (1943) Joaquín Torres García
He dicho Escuela del Sur; porque en realidad, nuestro norte es el Sur. No debe haber norte, para nosotros, sino por oposición a nuestro Sur. Por eso ahora ponemos el mapa al revés, y entonces ya tenemos justa idea de nuestra posición, y no como quieren en el resto del mundo. La punta de América, desde ahora, prolongándose, señala insistentemente el Sur, nuestro norte. Es decir,
olvidar lo del Viejo mundo, y poner toda nuestra esperanza, y nuestro esfuerzo,
en crear esta nueva cultura que aquí tiene que producirse. (…) Deja, pues,
autores y maestros, que ya no pueden servirnos, puesto que nada pueden
decirnos de lo que debemos descubrir en nosotros mismo. (Joaquín Torres García. Universalismo Construtivo, Buenos Aires: Poseidón, 1941).
Latinidade
Tanto a pintura quanto o fragmento do ensaio de Torres García reclamam que olhemos para o Sul como o norte do povo LA e não que o nosso norte/foco/rumo esteja condicionado aos interesses da América do Norte. A imagem remete inclusive às relações de poder que se estabelecem entre os hemisférios sul e o norte.
Podemos acrescentar ainda, como nos lembra Mignolo (2005), que o continente americano é marcado pela soberania de uns povos e pela exclusão de outros, essência que parece marcar toda a configuração de uma AL que ainda insiste em se colocar em posição inferior às nações com as quais mantém, nas relações econômicas e políticas, o discurso da colonialidade.
TL 6
Romance ‘Doña Bárbara’ do
venezuelano Rómulo Gallegos
Latinidade
O romance ‘Doña Bárbara’ (figura 7) do venezuelano Rómulo Gallegos, aponta para uma problemática vivenciada no contexto LA: o confronto entre a natureza e progresso. A protagonista é uma mulher autoritária, dominadora, que rege as leis da região dos llanos venezuelanos.
Podemos dizer que ela, detentora do poder na história do romance, pode ser considerada como a representação do ditador Juan Vicente Gómez, figura política que ditava as leis na Venezuela no período em que a obra foi escrita. Também se nota o confronto entre a natureza e progresso durante a narrativa. A partir dessa informação, notamos que a latinidade se configura no momento em que se aponta para uma problemática social que compõe o cenário LA: a luta pela modernização do campo e o atraso social e político pelo qual a Venezuela passava em meados do século XX. No fragmento posto na seção de leitura temos em evidencia dois personagens que experenciaram contextos diferentes: Santos que teve acesso aos estudos na Europa e a jovem camponesa que sempre viveu nos llanos venezuelanos.
Entendemos que o conteúdo que esses textos literários trazem também merecem ser levados em consideração nas atividades que se propõem a trabalhar com a compreensão e a interpretação. Afinal de contas, interpretar representa ir além das entrelinhas e, nesse caso, cabe a discussão em torno de todas as particularidades que o texto pode revelar sobre a latinidade, a fim de permitir que o aluno se reconheça como partícipe desse subcontinente diante da aproximação de contextos que não são próprios dos países de fala hispânica em solo americano, mas que também diz respeito a nossa realidade sócio-histórica.
Além disso, apontar para as particularidades do cenário LA é uma forma de, através do ensino de língua espanhola, atendermos o que orienta a LDB em seu artigo 35, parágrafo III sobre uma das finalidades do EM: “o aprimoramento do educando como pessoa humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico” (BRASIL, 1996, p.13). Além disso, a BNCC aponta para a necessidade de se compreender os processos identitários, conflitos e relações de poder que permeiam as práticas sociais de linguagem na formação do aluno de EM.
Referências
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Referências
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