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200 anos de Sociologia

Clássicas e clássicos do século XIX na formação em Ciências Sociais

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Harriet Martineau

  • Por que conhecer e estudar Martineau?
  • Para além da curiosidade intelectual
  • Martineau entre os clássicos da sociologia
  • Meu argumento: Martineau é mais interessante para a sociologia do que outros autores que por vezes figuram entre clássicos da disciplina
    • É mais interessante para a sociologia do que Comte
    • É mais interessante para a sociologia do que Tocqueville
    • É tão interessante para a sociologia quanto Durkheim

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Harriet Martineau

  • Prelúdio: como cheguei a Martineau
  • Por uma ampliação dos cânones da sociologia
    • Novas perspectivas sobre a modernidade
    • Novos interesses de pesquisa sociológica já nos clássicos
    • Nova relação entre sujeito e objeto de conhecimento
  • Impressiona a combinação de pioneirismo e atualidade
  • Martineau X contemporâneos:
    • Sociologia crítica X sociologia da crítica
    • Sociologia dos objetos

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Harriet Martineau X Alexis de Tocqueville

“Os procedimentos metodológicos de Martineau eram conscientemente planejados, reflexivos e surpreendentemente modernos (...) Em comparação com Tocqueville, suas técnicas metodológicas eram multifacetadas (i.e. trianguladas), filosoficamente racionalizadas e sistematicamente mais rigorosas. Martineau se concentrou em observações diretas, suplementadas por entrevistas, para examinar o “encaixe” entre a realidade e a retórica da democracia Americana. (...) Enquanto Martineau entendeu as intrincadas interrelações entre retórica e realidade, Tocqueville não o fez. (...) Nos E.U.A., ele falou primariamente com informantes homens brancos de elite; registrou apenas o que ele queria ouvir, e falhou em fazer observações sistemáticas das características sociais concretas que atravessavam as divisões cruciais de raça, classe e gênero.” (HILL, 2003, p. 72-73).

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Harriet Martineau X Auguste Comte

“O interesse original de Martineau no positivismo era para permitir entendimentos teóricos e empíricos sobre a sociedade e suas estruturas e moral (valores) em um enquadramento sociológico crítico e em última instância para fazer achados empíricos e tornar suas interpretações disponíveis aos tomadores de decisões e ao grande público. Isso era muito diferente da perspectiva “gestora” (termo meu) autoritária de Comte. Martineau queria aprender sobre a realidade social; Comte queria, seguindo sua própria filosofia, reorganizá-la. Não é surpreendente, então, que ela tenha recusado os numerosos apelos de Comte para traduzir suas últimas obras como Sistema politico positivo e Catecismo positivista. E, Martineau, aparentemente, jamais recomendou outros escritos de Comte a seus amigos ou leitores” (HOECKER-DRYSDALE, 2003, p. 186)

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Harriet Martineau X Émile Durkheim

“Tendo concordado em um nível que o tema e propósito da sociologia é o estudo científico de ideias coletivas, eles divergem no nível seguinte de desenvolvimento. Martineau vê este tema e propósito como o registro das condutas e moral de um povo, para avaliar o quanto elas promovem a mais alta felicidade humana relativa. Durkheim vê este tema e propósito como a busca pelos componentes estruturais sociais universais a serem descobertos por um processo de abstração que parte de toda evidência da vida social humana. Ambos concordam sobre a importância da “objetividade” e “imparcialidade” por parte do observador.

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Harriet Martineau X Émile Durkheim

Durkheim busca isso no “distanciamento” do observador do fluxo de eventos particulares na vida social para selecionar como “coisas” para estudar aquelas que existem de forma mais independente de qualquer manifestação particular. Martineau argumenta que a imparcialidade só pode ser alcançada quando o paroquialismo de julgamento é superado, mas argumenta também que o observador deve desenvolver um entendimento simpático ou empático da vida diária de um povo, selecionando “coisas” que iluminam o significado dessa realidade cotidiana.

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Harriet Martineau X Émile Durkheim

Mesmo que em várias ocasiões eles tenham olhado para as mesmas “coisas” – i. e. registros legais, ditos populares, religião, crime, suicídio, relações entre campo e cidade – Martineau olha para essas coisas com base em seu critério de felicidades humana geral que ela vê como dependente da autonomia moral ou livramento da dominação. Durkheim olha para essas mesmas coisas como indicadores do grau em que estruturas sociais promovem a integração social entre pessoas e instituições” (LENGERMANN; NIEGRUGGE, 2003, p.78)

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Segunda parte de “How to observe…”:

Cap. 1 Religião

  1. Igrejas
  2. Clero
  3. Superstições
  4. Suicídio

Cap. 2 Noções morais gerais

  1. Epitáfios
  2. Amor de parentesco e local de nascimento
  3. Conversa de idosos e crianças
  4. Caráter do orgulho predominante
  5. Caráter dos ídolos populares
  6. Épocas da sociedade
  7. Tratamento da culpa
  8. Testemunho dos criminosos
  9. Músicas populares
  10. Literatura e filosofia

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Capítulo 3 Estado doméstico

  1. Solo e aspectos da terra
  2. Mercados
  3. Classe agricultora
  4. Classe manufatureira
  5. Classe comerciante
  6. Saúde
  7. Mulheres e casamento
  8. Crianças

Cap. 4 Ideia de liberdade

  1. Polícia
  2. Legislação
  3. Classes sociais
  4. Servos
  5. Imitação da metrópole
  6. Jornais
  7. Escolas
  8. Finalidade e formas de persecução

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Cap. 4 Progresso

  1. Condições de progresso
  2. Caridade
  3. Artes e invenções
  4. Multiplicidade de objetos

Cap. 5 Discurso

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Sem menosprezar as contribuições dos clássicos mais famosos, como Marx, Weber e Durkheim, incluir Martineau entre os cânones da disciplina nos permite ampliar certos debates, por exemplo, a respeito do binômio neutralidade analítica X engajamento crítico, que tanto persegue a disciplina. De certa forma, a versão de que a sociologia deve ser uma ciência desprovida de intenção política transformadora foi triunfante na fundação da disciplina, seja na análise durkheimiana dos fatos sociais como coisas, seja na noção de neutralidade axiológica propagada por Weber. Mesmo que Marx já seja correntemente alçado a clássico da disciplina para trazer à tona a possibilidade de uma sociologia crítica e engajada, Martineau nos apresenta outra forma de pensar essas questões, aliada a instruções para uma observação empírica criteriosa que falta a Marx.

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Além disso, é interessante como poder contar com a perspectiva sociológica de uma mulher enriquece o cânone quanto a seus temas e o que seriam as principais características da sociedade moderna, objeto fundante da sociologia. Quanto a isso, é interessante notar como os espaços de interação humana privilegiados pelos demais clássicos para a compreensão da modernidade se sobrepõem aos espaços ocupados pelos homens, tendo destaque principalmente os ambientes do trabalho, do mercado e da política, que, junto à religião, formam os campos de estudos principais para a compreensão da sociedade nas obras de Marx, Weber e Durkheim.

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Harriet Martineau e a sociologia

Por outro lado, como em outras autoras que poderiam ser unidas a Martineau como cânones de uma teoria social feminista clássica, na reflexão da escritora inglesa surgem como objetos importantes de observação trabalhos não remunerados e domésticos – incluindo o trabalho escravo – e o casamento, tema de pouca reflexão dos clássicos masculinos (com exceção talvez, da controversa obra de Engels) e que ocupa posição central nos trabalhos de autoras como a própria Martineau, Charlotte Perkins Gilman e Marianne Weber.

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Patricia Madoo Lengermann e Gillian Niebrugge argumentam ainda que a teoria social clássica feminista, para além de contribuir com a ampliação do escopo temático da disciplina, compartilha um diferenciado “compromisso moral com a ideia de que a sociologia deve e pode trabalhar pelo alívio da dor humana socialmente produzida”. Exemplar neste sentido, o projeto de Martineau, segundo as autoras, consistiu em “desenvolver um método para estudar a relação da “moral” de uma sociedade, com as suas “condutas (manners)””.

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Isso seria feito por meio de “indicadores sociais, “as COISAS” que “mensuram graus de liberdade e dominação, mais bem apresentadas, ela acredita, no tratamento de grupos desempoderados – mulheres, pobres, minorias raciais, crianças e deficientes” (LENGERMANN; NIEBRUGGE, 2007, p.18-9).

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Referências:

  • LENGERMANN, Patricia Madoo; NIEBRUGGE, Gillian. Women Founders: sociology and social theory 1830-1930. Illinois: Waveland Press, 2007.
  • HILL, Michael R. “A methodological comparison of Harriet Martineau’s Society in America (1837) and Alexis de Tocqueville’s Democracy in America (1835-1840)”. In: HILL, Michael R.; HOECKER-DRYSDALE, Susan. Harriet Martineau: theoretical and methodological perspectives. New York/London: Routledge, 2003.

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Referências:

  • LENGERMANN, Patricia Madoo; NIEBRUGGE, Jill. “The meaning of “Things”: Theory and method in Harriet Martineau’s How to observe morals and manners (1838) and Émile Durkheim’s The rules of sociological method” (1895). In: HILL, Michael R.; HOECKER-DRYSDALE, Susan. Harriet Martineau: theoretical and methodological perspectives. New York/London: Routledge, 2003.
  • HOECKER-DRYSDALE, Susan. “Harriet Martineau and the positivism of Auguste Comte”. In: HILL, Michael R.; HOECKER-DRYSDALE, Susan. Harriet Martineau: theoretical and methodological perspectives. New York/London: Routledge, 2003.