Ouse
Sonhar
Filipe Chamusca não é um atleta, mas conciliou durante 18 anos uma carreira exitosa em uma empresa multinacional brasileira, com sua paixão por esportes, montanhas e culturas.
Formado em Ciências Sociais pela USP, o aventureiro, já percorreu 42 países e, desde 2014, ao finalizar o trekking ao acampamento base do Everest, iniciou seu projeto dos Sete Cumes (a maior montanha de cada um dos continentes). Ao longo desses quase 10 anos, Filipe começou a praticar Triathlon e Corrida, tendo realizado diversas provas de Ironman e participado da renomada e desejada Maratona de Boston, além de Ultra Maratonas.
Nesse momento está dedicado à um ano sabático e em maio se tornou o 37o brasileiro a escalar o Everest, a montanha mais alta do mundo e (sendo a sua 5ª montanha dos sete cumes.
Muitos desses desafios e montanhas deixaram marcas importantes e foram transformados em aprendizados. A cada montanha percebia a conexão desses ensinamentos com o mundo corporativo, mas, principalmente, com a essência de cada pessoa. Sua vocação principal é compartilhar experiências e inspirar mais pessoas a irem atrás dos seus “Everests”.
A vida é curta. Viva as suas paixões e compartilhe os seus sonhos!
Qual é o seu “Everest”?
Em outubro de 2014 fui fazer o trekking ao acampamento base do Everest. No dia seguinte de chegar na base, é costume subir uma montanha chamada Kalla Patthar (5644m), pois é só ali que realmente você consegue observar o cume do Everest! Foi nesse momento que nasceu um sonho. Seria possível escalar a montanha mais alta de cada continente (7 cumes)? Seria possível um dia voltar ao Nepal para escalar o Everest?
Passados 10 anos dedicados a praticar os mais diferentes esportes e progredir gradualmente no montanhismo, em abril desse ano desembarquei no Nepal para dois meses de expedição ao topo do mundo.
Foram muitos dias de escalada e aclimatação, com muitos sentimentos misturados ao longo desse tempo: ansiedade, medo, saudade, alegria, confiança…Eu me sentia preparado, mas acima de 8000m sempre estamos sujeitos aos riscos da montanha, como tempestades, avalanches, problemas com o oxigênio suplementar, etc. Superados os grandes desafios físicos e emocionais, depois de 10 horas escalando na madrugada, no dia 21 de maio, Khandu (o sherpa-anjo que me acompanhava), e eu chegamos ao cume do Everest!
Fui o 37o brasileiro a chegar ao cume. Por mais que me orgulhe desse ranking, isso pouco importa em relação aos aprendizados que tive ao longo desses meses. Essa foi a realização de um sonho de muitos anos, de muita preparação, planejamento, dedicação, esforço, suor e, principalmente, um sonho que contou com o apoio de muitos.
Eu sei que nem todos sonham em escalar o Everest ou qualquer outra montanha. Isso é claro, não porque seja difícil ou complexo, mas porque essa é a "minha montanha". Mas eu acredito muito que todos têm a sua própria montanha para escalar. Uma montanha totalmente diferente da minha. Uma montanha exclusivamente sua e só sua!
Talvez você não saiba qual é essa montanha. Talvez você sonhe em correr 10kms, uma maratona, fazer uma viagem de bicicleta, fazer uma prova com sua filha...não importa. O importante é tentar encontrar essa montanha que faz você único e especial!
Se você pudesse fazer qualquer coisa, sem as expectativas da sociedade, o que seria?
Eu ainda tenho duas montanhas para finalizar o projeto dos 7 cumes. Continuarei sonhando e incentivando que mais pessoas escalem suas montanhas!
A vida é curta! Viva o seu sonho e compartilhe as suas paixões!
Everest- 2024
Acredito que os sonhos sejam feitos de resistência, coragem e superação, mas também de muito planejamento e preparação.
Em 2018, ao fazer um curso de escalada em gelo no Rainier, comecei a planejar e sonhar com o Denali, a montanha mais alta da América do Norte, localizada no Alaska e considerada por muitos como uma das mais frias do mundo e das mais difíceis entre os Seven Summits (montanhas mais altas dos 7 continentes). Além de ser uma montanha muito mais técnica, no Denali não existem porters, sherpas ou mulas. Tudo (comida, roupa, equipamentos...) será carregado por você mesmo.
Depois de anos de postergação pelo COVID, cheguei ao Alaska pronto, mas com muito medo do que iria encontrar. Fisicamente achava que estaria forte, tinha carregado muita mochila cheia de peso pelas ruas de São Paulo e escada do meu edifício, mas sabia que seria muito diferente ao arrastar um estilo de trenó pelo gelo, usando crampons e precisando me pendurar em cordas fixas em desfiladeiros nos seus 6190m.
O medo foi ganhando forma de contemplação e desprendimento ao voar de Talkeetna (povoado ao norte de Anchorage) à base do Denali. Um voo de 45 minutos em um teco-teco que deixa você diretamente no glaciar, já em botas de escalada e deslumbrado com o tamanho e isolamento da cadeia de montanhas.
Desde o momento zero o nosso grupo, formado por 6 sonhadores e 2 guias estaria sempre conectado por cordas, sendo essa a única forma de mitigar o risco de acidente grave ao cair em uma greta. Nesse modelo, o risco de queda continua, mas se alguém afundar em um buraco (que pode às vezes ter mais de 100 metros) os outros servirão como âncora. Isso faz com que estejamos todos juntos e, ao mesmo tempo, separados. Um sendo responsável pela vida do outro. Inclusive nos momentos de descanso, ficávamos 10m distantes, conectados por olhares e gritos de apoio. Eu só tive um evento de queda, em que afundei um pé, vi um buraco de uns 50m, mas, ao ter uma mochila estilo tartaruga nas costas, fiquei preso na neve e consegui sair sem grandes problemas, além de um coração que quase saiu pela boca!
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Denali - 2022
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O clima estava ao nosso lado e, apesar de temperaturas muito baixas, o reflexo do sol no glaciar transformava os acampamentos mais baixos em um forno. Me sentia um vendedor de mate nas praias do Rio, carregando um peso absurdo e suando. Aproveitamos o clima e subíamos 8 horas por dia...só parando para armar o acampamento, derreter neve para água e construir blocos de gelo contra o vento!
Uma semana depois começamos a chegar nas cordas-fixas que ficam penduradas em encostas muito inclinadas e que nos prendemos para reduzir o risco de quedas, tudo isso com as mesmas mochilas de uns 30kgs e abandonando os trenós. Em uma das subidas perdi meu crampon na metade da parede, só percebendo uns 10 metros acima! Felizmente e com muita sorte, o Greg, que vinha logo atrás, conseguiu agarrar em me trazer. Colocar um crampon, de luva, pendurando em uma corda, com uma mochila, foi uma tarefa estilo Cirque du Soleil! Sem isso, teria acabado minha escalada!
Depois de 13 dias estávamos posicionados no acampamento 4 (5300 metros) prontos para o ascenso final! O clima continuava ao nosso favor, com ventos moderados e um frio de -25º C, pleno verão considerando as temperaturas do Alaska. Resolvemos subir sem um dia de descanso e aproveitar essa “janela”. Diferente de outras montanhas, em que se escala de madrugada, essa começamos a subida de manhã, com um plano de subir e descer em 12 horas. Eu só comecei a sentir efeitos da altitude a 5700m. No Denali, ao estar localizado perto do polo, temos uma menor pressão atmosférica e os 6000 metros podem facilmente ser comparados com uma montanha de mais de 7 mil. Eu já tinha vivido isso no Aconcágua, seu corpo, ao não ter oxigênio, começa a tentar “te desligar”, tudo vira slow motion, são 2 passos por minuto e com sinais de tontura, o que era agravado por existirem cristas de menos de 50cm e que um deslize significaria o fim de tudo, não só da escalada...rs Por outro lado, a adrenalina e o sentimento de que faltam poucos metros e o agradecimento, não só com a montanha, mas com todas as pessoas que estão te esperando, fazem você continuar escalando. Sem elas, nada disso seria possível. Família, amigos e Caro, que nunca tentam mudar minhas ideias loucas, mas entendem e me apoiam!
18h00 do dia 8 de junho, chegamos ao ponto mais alto da América do Norte, casa dos meus deuses, local da minha peregrinação, onde consigo olhar o meu passado, viver o meu presente da maneira mais intensa e, o mais importante, continuar sonhando com o meu futuro.
Namastê Denali! Muito obrigado!
https://www.instagram.com/reel/Cg62rjJOcHu/?igshid=MWZjMTM2ODFkZg%3D%3D&fbclid=IwAR0atMxmbJv4ge0WcGfs3y_gTFlRavI9-C1jTPfUpKyIGuKFfjNCd7jSFK8
As montanhas de nossas vidas
Aprendi no Nepal que as montanhas são a morada dos deuses e, desde então, encaro minhas escaladas como uma experiência mística, um momento de auto-conhecimento e um ritual de celebração e agradecimento. Esta última, no Aconcagua, sem dúvida, foi a mais difícil até agora! Chegar ao cume foi um exercício de muita coragem (não como oposto ao medo, mas do latim fazer com coração)!
Depois de passar o Natal no Brasil, me recarregando de amor e calorias, fui para Mendoza, na Argentina, onde me encontrei com os membros da expedição: 11 pessoas, com diferentes histórias de vida e um sonho em comum: escalar a montanha mais alta da América do Sul e a mais alta do mundo fora dos Himalayas.
Os primeiros dias de aclimatização foram de caminhadas razoavelmente tranquilas até o acampamento base (Plaza de Mulas - 4300m), onde chegamos justamente para “celebrar” a virada do ano! Considerando as condições locais e o frio (-15o C), às 8h30pm já estava na minha barraca saltando ondas imaginárias e mandando energias para todas as pessoas que amo! Meus fogos de artifício foram as milhares de estrelas do céu do Aconcagua, um dos mais lindos que já vi!
Começamos o ano subindo aos acampamentos altos (Plaza Canadá 5000m / Nido de Condores 5500m). Nessa parte já somos responsáveis por levar nossos equipamentos e comida. Alguns optaram por contratar porters, mas eu achava que carregar 20kg por dia me deixaria mais forte para o dia do ataque ao cume! Eu me sentia bem, mas começava a perceber que essa era uma montanha muito diferente das outras. Em cada acampamento novo, tínhamos que passar por um posto médico onde mediam nossa pressão, pulsações e saturação de oxigênio. Nos primeiros acampamentos, minha saturação estava próxima de 90% e era um valor muito bom, demonstrando que os treinamentos em Bogotá serviram para aumentar meus glóbulos vermelhos!
Nossos planos mudaram quando vimos a previsão de ventos a 100km/h para os dias do ataque! Se no Elbrus, com ventos a 50km, já era difícil de caminhar, sabia que aqui seria impossível - e facilmente poderíamos congelar! A única opção seria fazer menos dias de aclimatizaçao (ou seja, subir com menos glóbulos vermelhos e com mais riscos de edemas e outros problemas). Também teríamos de sair do acampamento 2 (5500m) porque seria inviável armar as barracas com os ventos fortes no acampamento 3 (5900m). Tudo ficava mais difícil e existia uma tensão entre todos! Um dia antes do ataque, subindo ao acampamento 3, fomos informados que uma pessoa havia falecido naquela manhã, não se sabia se por edema ou ataque cardíaco.
Dia 7 de janeiro, às 2am, sem conseguir dormir, me levantei e comecei o processo de transformação em boneco da Michelin e suas 89 camadas de roupas! Às 3h40am, nosso grupo formado por 8 pessoas e 3 guias (algumas, com uma saturação mais baixa, acharam melhor não subir) saiu do acampamento 2! Um pouco antes do acampamento 3, metade do grupo resolveu voltar! Éramos 4 e nossos líderes (guias), o lindo casal Popi e Horacio! O dia amanhecia de maneira esplêndida e podíamos ver a sombra do Aconcagua no horizonte quando, algumas horas depois, chegamos ao famoso lugar chamado Independencia (6500m)!
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Aconcagua - 2018
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Eu estava muito bem, mas lembrava que Horacio me falava todos os dias que aqui começariam os problemas! E ele tinha razão, aqui começaram meus medos! Foram 5 horas para subir 400 metros de desnível (Canaleta)! Nos últimos 300 metros (umas 3 horas), tinha a sensação de que ia desmaiar a qualquer momento! Era como se meu corpo estivesse falando: cara, não rola de funcionar com só isso de oxigênio, vou te desligar! Meu coração batia muito mais forte que quando corro 5km ao máximo! Minha estratégia era dar 2 passos e descansar a cabeça uns 5 segundos no bastão (às vezes acho que ficava muito mais e alguém me dava um pedala). Popi e Horacio, com discursos à la Tite ou a Simeoni (dependendo do momento), foram importantíssimos nessas horas sem ar! Eu não lembro de todos os detalhes, era como se estivesse em um sonho (ou pesadelo?).
Agora entendo quando contam que no Everest muitas pessoas começam a alucinar e ver coisas e pessoas no horizonte! Nesse momento, quando conseguia pensar, lembrava das pessoas que me tinham mandado mensagens, da minha família, dos meus pais, meus sobrinhos, meus amigos…por isso falo que só consegui com muita coragem, com muito coração e amor! Às 15h30pm, 11 horas depois, estávamos no topo das Américas!
Todas montanhas trazem muitas emoções e aprendizagens, mas essa foi a primeira em que via lágrimas nos meus óculos! Minutos depois eu já me sentia bem outra vez! É incrível o poder da mente e os efeitos de sentir que havia realizado um sonho!
Ao descer, eu estava ajudando as outras 3 pessoas do nosso grupo que não se sentiam bem, quando encontramos um americano sozinho praticamente desmaiado! Medimos sua saturação e marcava 40%! Chamamos os médicos do acampamento base e nos falaram que deveríamos tirá-lo dali o mais rápido possível porque era muito alto o risco de um edema ou morte! Nessa hora vi como somos muito mais fortes do que pensamos! Junto com Horacio, fomos com ele amarrado e apoiado descendo a montanha! Por sorte encontramos outros guias que tinham um tubo de oxigênio e alguma coisa parecida com adrenalina (lembra da cena da injeção do Pulp Fiction? Então, foi igual!). Foram longas 6 horas descendo, mas no final ele pôde ser resgatado de helicóptero! Nessas horas, o cume já nao era importante!
Nos dias seguintes, caminhando ao acampamento base, pensava no que a montanha nos faz sentir: estamos vivos!!! Mas precisamos assumir a morte como algo concreto! Dependemos de fatores externos e não temos controle sobre nossas vidas! Somos vulneráveis e efêmeros! E por isso valorizo muito essas experiências! Me ajudam a contemplar a vida de outra maneira! Que deveríamos priorizar? Que vida queremos ter? Que legado deixaremos? Qual o nosso propósito? Quais serão os nossos próximos sonhos? Não importa qual será a montanha (existem algumas em nossas vidas muito mais difíceis que as físicas), mas devemos tentar e sonhar! E celebrar todos os “acampamentos”!
https://www.youtube.com/watch?v=6Ji-XW8AftQ
A primeira montanha de gelo
Depois de conquistar os picos da Ásia (uma parte) e da África – Acampamento Base do Everest (5380m / 5643m Kala Pattar), em 2014, e Kilimanjaro (5895m), no ano passado –, chegou a hora de tentar o topo da Europa!
Dessa vez a brincadeira começou muito antes, com uma lista de equipamentos dos quais nunca havia ouvido falar: crampones, piqueta, cadeirinha...e uma bota tipo astronauta! A parte física até que estava bem com os treinamentos de triathlon nas alturas de Bogotá (2600m). Só precisei incluir uns exercícios de subida de escada (máquina) na academia com as tais botas. Sim, cena bem patética: um magrelo de botas gigantes e bermuda na esteira. Tenho certeza de que era motivo de chacota!
A viagem começou por Moscou e Saint Petersburgo. Um erro. Ao passar alguns dias no nível do mar, perdi preciosos glóbulos vermelhos, importantes para minha jornada às alturas. Mas das duas cidades eu gostei muito, principalmente de Saint Petersburgo, a Leningrado da URSS. É incrível estar hoje em uma das cidades mais lindas do mundo e imaginar que, durante três anos, ela esteve isolada pelos alemães, sem comida e sofrendo ataques diários. Para quem se interessa pelo tema, vale o livro "The 900 days: the siege of Leningrad". Também aproveitei os dias na Rússia para ler "A Guerra não tem Rosto de Mulher", com uma série de depoimentos de mulheres sobreviventes à 2ª Guerra Mundial, escrito por Svetlana Alexievitch (Nobel de Literatura em 2015). Ao lembrar que nesse período morreram 26 milhões de russos (14% da população!!!), você começa a entender um pouco dos porquês de até hoje ainda existirem sentimentos de isolamento ao “Ocidente” – e adoração ao Putin.
Depois do rolê, o primeiro desafio era chegar à montanha: um voo de 3 horas até Mineralnye Vody, mais 3 horas de carro a Terskol. Longe, bem longe! Fica na fronteira com a Georgia (país que esteve em guerra com a Rússia em 2008) e ao lado da Chechênia (território russo que desde sempre briga pela sua independência). Só por essa descrição, já dá para sentir a tensão. Mas piora quando você chega ao aeroporto e te fazem (ou tentam fazer) uma entrevista (Google translator foi meu melhor amigo na viagem), ou quando, no check in do hotel, tiram cópia de todas as páginas do seu passaporte. Eu estava tranquilo (ou queria estar), sabendo que já se passaram 5 anos desde o último atentado na montanha (explodiram uns teleféricos e mataram 3 turistas).
Me junto ao grupo.
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Elbrus - 2016
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Dia 1 em Terskol, que no inverno é uma estação de ski, fizemos uma primeira caminhada de aclimatização até 3000m. No meu caso servia para voltar às alturas de casa!
Dia 2, subimos de teleférico até 3900m, onde ficava nossa base: um container de ferro instalado nos últimos anos. No começo, até achei modernoso demais para o meu gosto, com beliche, banheiro, luz e internet...mas com a mudança de clima dos dias seguintes e depois de ficar 3 dias enfiado como uma sardinha nessa lata, passei a valorizar a “modernidade”! Seguimos subindo até 4400m e começamos a fazer exercícios de auto resgate com a tal piqueta – basicamente, é aprender, se é que isso é possível, a enfiar um gancho na neve, caso você despenque de algumas das pirambeiras. Nessa hora entendi que os russos são loucões e não usam cordas fixas em nenhuma parte da montanha.
Dia 3, mudança radical de clima. Enquanto tentávamos fazer aclimatização a 4700m, começou uma tempestade de neve. Até então o problema era a visibilidade (uns 5 metros), rajadas de vento que me faziam caminhar como bêbado com a bota da lua e muita neve na cara, como se levasse chicotada – ou pedradas! Como se não bastasse, começaram uns raios, clarões por todos os lados em meio ao branco. Nessa hora pensava nos meus crampones de metal e na piqueta. Praticamente para-raios brasileiros! Só deu tempo de sair correndo e voltar para a lata!
Dias 4, 5 e 6: passado esse evento traumático, duas pessoas deixaram o grupo e ficamos em 3, mais a guia (uma russa de 1,5m toda ninja!), esperando o clima melhorar. Foram momentos de muita ansiedade, pensando que estava no fim do mundo e não conseguiria subir a montanha! Depois de 3 dias quase sem sair, mudar datas de voos e olhando a previsão do tempo de hora em hora, recebemos a notícia que teríamos uma janela na madrugada de 23 de julho, apesar da indicação de que os ventos estariam em 50km/h.
Começa a preparação para nossa última chance! Repassamos as instruções, jantamos às 19h. Revisei mil vezes todas as roupas e equipamentos. Resolvi dormir, ou tentar dormir, com toda a roupa de baixo. Virava de um lado ao outro no saco de dormir e só pensava na tal montanha!
Dia 7: levantei à 1h e vesti milhares de camadas (6 casacos, 4 calças, 2 meias, 2 gorros, 3 luvas (!), 2 buffs) para me preparar para o frio de -20º! Tentei comer um mingau russo, mais parecido com arroz integral (que delícia...mentira!), e enchi os bolsos de chocolate e gel.
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Às 3h, subimos na escavadeira que nos levaria até 4700m, de onde começaríamos a subida! Pelo frio e inclinação, não rola subir desde os 3900m do acampamento base. A noite estava clara e ao olhar a montanha já via todas as luzes das lanternas das pessoas que já tentavam subir! Depois de 30 minutos sacolejando, chegamos ao ponto de desembarque! Ventava absurdamente, algo entre 40km/h e 60km/h, e sentia minha cara congelando! Tentei colocar as outras duas luvas, uma ideia de banana, porque nunca havia experimentado as três juntas e, no final, não entravam. Tira uma, coloca as outras, vendaval, não vejo nada! Foram quase três minutos sem luva!
Comecei a subir a parede de gelo ainda no escuro. Dez minutos depois, já não sentia meus dedos das mãos! Fiquei muito preocupado, mas não queria contar para a guia com medo de que me fizesse descer! Nessa hora, lembrei de esticar os braços e não usar os ‘trekking poles’ para ver se o sangue chegava nas pontas dos dedos. A vida voltou às mãos em 5 minutos, bem quando o sol começou a nascer no horizonte!
Uma das vistas mais lindas que vi na minha vida! Tive certeza que chegaria ao cume!
Caminhamos sem parar até 5300m. Lá em cima, um plateau entre as duas faces da montanha. Já passavam das 7h e começava a ver pessoas desistindo! Ficamos só uns 5 minutos tomando água e tentei comer um gel (dessa vez não estava congelado)...não dava para ficar mais tempo, o vento e a neve na cara não deixavam!
Do plateau para cima o sol já batia na face sul e isso me deu uma força incrível! Tinha vontade de subir correndo, mas fui esperando o grupo. Sem parar e subindo forte chegamos às 9h30 ao topo da Europa! Comemoro e agradeço a montanha. Penso em todas as pessoas que me ajudaram nessa vida: amigos, família, pessoas que estão longe e que já não estão. É uma sensação indescritível, mas parece quando estou pulando ondas no réveillon na virada do ano!
Uns 5 minutos depois olho ao lado e vejo um husky siberiano. Estaria doidão, sofrendo com a falta de oxigênio? Vejo o Juancho da montanha todo feliz contemplando o horizonte! Fiz um carinho nele, tirei poucas fotos (era difícil tirar a luva e ficar parado) e começamos a descida que durariam outras 3 horas!
Depois de muita ansiedade, medo, esforço, dedicação...era só alegria! Voltamos depois de 10 horas a nossa latinha! Feliz, realizado e agradecido, descia pensando...qual será o próximo sonho?!
https://www.youtube.com/watch?v=3wfNCmPEfEc
Tanzânia Reconhecendo as outras raízes da nossa formação cultural
É incrível ver como desconhecemos a história da África e, ao mesmo tempo, como somos tão parecidos com eles. Como brasileiro tenho vergonha do nosso sistema educacional que restringe o estudo aos breves relatos do período da escravidão, como se nossa população não fosse formada por pelo menos 50% de afro-brasileiros com claras influencias em nossa cultura. Como cidadão do mundo sinto tristeza ao ver que ignoramos e menosprezamos 15% da população mundial, seja em sua história ou em seu presente. Ao olhar a nossa mídia fica claro esse distanciamento…Quais são as notícias que vemos da África? Como falamos de suas tragédias em comparação as “nossas” tragédias? Essa foi apenas a segunda vez que estive no continente e encontrei um país muito diferente da África do Sul que tinha conhecido. A Tanzânia se tornou independente apenas em 1961 (!!!) e hoje é formada por uma população de 50 milhões habitantes sendo 50% muçulmanos, 40% cristãos e outros 10% de religiões das mais de 150 tribos que formam o país. A língua oficial é o suaíle e logo que você chega ao país percebe como somos (bom, eu pelo menos) ignorantes no tema. Muitos me falavam Jambo Hakuna Matata! E eu pensando, querem ser engraçadinhos com esse tal Hakuna da Disney (rsrs) depois entendi que Hakuna Matata significa “vida longa, seja feliz”, “sem problemas” em suaíle, assim como Simba significa Leão e Rafiki amigo. Podem agradecer ao Rei Leão pelo nosso vocabulário básico de suaíle!
Cheguei e fui direto para Zanzibar, ilha que se juntou ao país em 1964, dando origem ao nome atual (Tanganica + Zanzibar = Tanzania). Apesar de fazer parte da Tanzânia, são até hoje autônomos e elegem seu próprio presidente. Inclusive quando cheguei eram poucos os turistas, pois alguns dias antes tinha sido a eleição e a oposição estava questionando os resultados, levando à alguns conflitos no centro da cidade. É um lugar incrível marcado por muita história, já que era o principal porto comercial com a Índia e todo o mundo árabe. A maioria dos escravos que foram levados à Ásia passavam por aqui! Hoje o turismo é a principal fonte de renda e vemos resorts, muitos italianos, espalhados por toda a ilha. Por um lado é bom saber que hoje a Tanzânia já recebe um pouco mais de 1 milhão de turistas por ano (Brasil, recebe apenas 6!!!), por outro, preocupa ver que parte da riqueza do turismo não está ficando no país e que não têm gerado a inclusão social necessária. Apesar das melhoras nos últimos anos, o país continua tendo um dos piores IDHs do mundo, número 159 entre os 187 analisados!
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Kilimanjaro – 2015
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Poucos dias de praia e fui para o objetivo principal que era subir o Kilimanjaro, montanha (antigo vulcão) mais alta da África (5895m). Foram 6 dias caminhando e acampando! Não sofri tanto com a altura nos primeiros dias, acho que por morar em Bogotá, mas estava preocupado ao encontrar com pessoas descendo que não tinham conseguido chegar ao pico! O desafio principal é o ataque ao cume, pois o acampamento base fica muito longe (4600m), o que te obriga a sair entre 11pm e 1am para conseguir chegar antes do amanhecer. Nós saímos 00h15, eu parecendo um boneco da Michellin de tanta roupa, e subimos quase sem parar os 1300m durante 4h30! Fomos os primeiros a chegar, o que depois ficou claro que era um erro, pois faltava 1 hora para o sol nascer, com -15o de temperatura e um vento que quase não te deixava caminhar!
Nesse momento tive uma discussão com meu guia que queria começar a descer sem esperar o sol nascer! Falei que não tinha cruzado o mundo e andado 6 dias para ver umas estrelas, apesar de lindas! rs No final encontramos umas pedras que bloqueavam um pouco o vento e consegui esperar! Foram 40 minutos que pareceram 5 horas, comecei a ficar com medo achando que meus dedos dos pés estavam congelando (mas não queria confessar isso ao guia…haha), uns 20 minutos depois meu nariz começou a sangrar muito (altura, frio, muito seco), mas a parte boa é que o sangue congelava rápido e parou uns 5 minutos depois rs! E para completar não dava tempo de comer os géis de carboídrato que tinha levado, porque congelavam antes! O bom é que o sol sempre chega e então pude ver uma das paisagens mais lindas do mundo! Estava no topo da África ao lado de glaciares gigantescos!
Para terminar fui para a fronteira com o Kênia fazer safari nos parques Taranguire e Serengueti e descer na cratera do vulcão Ngorongoro, hoje casa para milhares de animais! O safari nessa região é muito diferente da África do Sul, pois, dependendo da época, você consegue ver a migração de milhares de zebras, gnus, elefantes! Percebemos como nossa espécie é insignificante e que, apesar de ameaçar muitas outras, somos nós que dependemos da natureza, nós que temos que mudar ou seremos extintos! Espero que meus netos possam fazer essa mesma viagem e ver os mesmos glaciares, apesar de muitos cientistas afirmarem que nos próximos 10 anos já não teremos neve no topo do Kilimanjaro! Asante Sana Tanzania! Hakuna Matata! Namaste!
https://www.youtube.com/watch?v=MYf-c-qAq4Y
Um mundo ainda encantado: 5600 metros mais próximo aos deuses
Foram muitos anos sonhando com essa viagem e alguns meses de planejamento logístico, físico e mental. Passados apenas 15 dias, posso dizer que deixei o Nepal carregando, além de “prayer flags”, temperos e chás, uma profunda admiração por sua cultura tão genuinamente expressa em seus templos e monastérios, mas, principalmente, vista em seus habitantes. É incrível ver como uma população de 28 milhões de pessoas (80% Hindu e 10% Budista) convive em um completo sincretismo. Em Katmandu pude ver oferendas sendo levadas ao mesmo templo tanto por hindus como por budistas. O que mais vejo é que no Nepal ainda vivem em um mundo mágico e encantado (lembrando Max Weber), onde os deuses não são vistos como um conceito abstrato, mas estão presentes nas árvores, nos rios, nos animais, nas montanhas...A quantidade de “prayer flags” ou “prayer wheels”, ao longo dos mais de 160km que estive caminhando pelo Himalaya até o Acampamento Base do Everest, são um exemplo dessa visão de mundo.
Por falar em Everest, chamado de Chomolungma pelos Sherpas, também vejo que para eles não é “apenas” a montanha mais alta do mundo, alvo de cobiça e competição entre muitos ocidentais, mas, sim onde vive a deusa Miyolangsagma ou Shiva para os Hindus. É por isso que os Sherpas fazem oferendas e rezam pedindo permissão e apoio antes de subir a montanha. Também é por isso que o Sherpa Tenzing Norgay, primeiro a chegar ao topo em 1953, até o final de sua vida foi reverenciado pelos Hindus como uma manifestação viva de Shiva (só sendo um “deus” para ser o primeiro a escalar). Quando faleceu em seu ritual de cremação participaram milhares de pessoas!
Existe um ditado em que diz que muitos chegam ao Nepal pela primeira vez atraídos pelas belezas do Himalaya, mas que muitos voltam pelas pessoas e cultura. Só posso concordar e pensar em quando voltar! Não é uma viagem fácil...são milhares de horas de voo; muitos dias sem banho (haja toalhinha Mamãe e Bebê..rs); nos primeiros dias acima de 4000 metros você acorda pensando que alguém está te sufocando com o travesseiro e percebe que é a altitude; a nossa famosa privada ainda não foi disseminada por essas bandas, então até para ir ao banheiro você precisa ter força nas pernas (rs); chega uma hora que você não aguenta mais comer batata e momo (igual a um gyoza)…mas tudo isso é facilmente superado quando chega ao topo das montanhas mais altas do mundo e sente, além da falta de ar, uma energia incrível e entende porque eles acreditam que estamos na casa de alguns deuses e deusas. Espero ver no retorno um país menos pobre, mas que saiba desenvolver-se assimilando alguns valores ocidentais, enquanto preserva a sua essência e continua nos ensinando com uma visão encantada do mundo, menos materialista e mais espiritual! Namaste Nepal
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Everest Base Camp – 2014
Outros sonhos
Uma ultra maratona, com 80kms e 4600m de subida (meio Everest), pode ser comparada com a vida e suas diferentes fases. É tanto tempo correndo (12h30) que você vive e sente de tudo. Comecei 22h00 e até umas 2am ia forte e feliz! Do km 35 ao 45 ia xingando e perguntando quem tinha me inscrito naquela loucura! Do 45 ao 65, já amanhecendo, entrei em um estado contemplativo, nada mais próximo a uma meditação ou viagem psicodélica!
Nos últimos 15km sentia fome, enjôo, sono, euforia, tudo ao mesmo tempo! No caminho conheci gente (algumas davam só um oi e iam ao lado durante muito tempo, outras queriam falar da vida rs), corri umas 2hrs no meio do mato sem ver ninguém, tomei uma chuva de lavar a alma lá ao lado da Pedra do Baú e pratiquei esqui-bunda nível pro.
No final fiquei em 13o na geral e em 1o na categoria dos jovens de 40 a 49 anos! Um incentivo pra continuar vivendo e correndo! E agradecendo aos que apoiam tudo isso!
Indomit – 2022
Dizem que a terceira é a vencida e posso afirmar que o meu 3o IM foi o que menos sofrí, apesar de ser o mais difícil de todos! Assim como em muitas coisas na vida, vejo que está tudo relacionado a experiência (aprendemos a sofrer), a quanto nos dedicamos (aprendemos a treinar) e a expectativa que projetamos (aprendemos do que somos capazes).
Foi a primeira vez que fiz um IM sozinho! No início é estranho acordar sem o vallenato de Dieguito (e compartir todo o ritual com Juanito e Cezarin) e caminhar, às 4:30am pra transição e emprestar a bomba pra um montão de canadenses! Apesar disso, me sentia tranquilo e agradecido por estar com saúde em mais uma prova!
Nadando eram duas voltas de 1900m no Alta Lake, que lugar tão lindo! No final, o tempinho meio safado de sempre 1h16min, saindo na posição 60 de 170. Sinto que saí menos cansado que antes, dava pra ter apertado!
A bike sería a grande incognita, pois seriam 180km com 2500m de subida (marcou 2770m no Garmin). No treino não rolava subir tudo isso nem nas montanhas da Colombinha🇨🇴, então minha tática era fazer a primeira volta mais "suave" e na segunda apertar o turbo, tentando usar a potência como referência! Não existia nada plano, era só subida e descida! Eu sentia que estava indo bem, passava uma galera na subida, mas era difícil saber se eram do IM ou do 70.3 (estavam fazendo o mesmo percurso, mas de 1 volta). No final da primera volta, entrando pela cidade, parece que está recarregando a energia, volta a ver pessoas e foi quando ví Caro com sua família! Nunca tinha tido torcida organizada com camiseta e tudo e resolví que precisava terminar isso rápido ou iam passar muito tempo no sol! No final foram 5h38min, terminando em 27! Melhor do que eu pensava, considerando essa montanheira! Tinha passado 33 pessoas da minha categoria e 246 do geral! Acho que isso é a única coisa boa de não nadar muito bem
Hora de correr uma maratona! Aqui eu sabia que estava forte, mas não sabia quanto tinha me matado na bike! Nos primeiros 5kms sentia a perna pesada (depois entendí que era a parte mais difícil com subidas) e depois comecei a soltar até o km21 quando achei que ia desmaiar (no final era drama ) e percebí que faltava comida no tanque e gastei uns três minutos pra almoçar... tomar coca-cola, redbull, laranja, banana e um gel! Dois Kms depois estava agradecendo à santa Coca-Cola, estava de volta ao jogo! Faltavam 17kms e passaram rápido e sem sofrer! No final foram 3h33min na maratona! Eu achava que dava pra fazer menos antes da prova, continuo achando, preciso descobrir como!
Depois de 10h34min cruzava a linha de chegada, feliz e realizado depois de tantos meses de treino! Fiquei de 15o no meu grupo de idade e isso é um problema, porque agora já acho que rola buscar um top 10! Vamos por essa!
Ironman Whistler – 2019
Em julho do ano passado, no meio da pandêmia, lí um livro divertido chamado "Operação Portuga - Cinco homens e um recorde a ser batido". Nesse momento sonhei...um dia vou correr uma maratona e tentar fazer em menos de 3 horas!
Pensava, mas achava meio impossível! Já tinha feito 3 maratonas em provas de Ironman, mas ser um maratonista é algo muito diferente! Muitos treinos depois e ontem rolou o sonhado 2h57min!
Maratona Rio de Janeiro – 2021