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FECCIF24 – III Feira Estadual de Ciência e Cultura do IFSP – de 21 a 26 de Outubro de 2024

Com base nos pressupostos teóricos da Análise do Discurso e da Lexicografia, o objetivo deste trabalho é fazer um percurso histórico do registro de “preto” e “negro” em dicionários de língua portuguesa para reconhecer a existência de marcas ideológicas. Partindo do primeiro dicionário de língua portuguesa – o Bluteau, de 1712 –, até os dicionários do século XXI, em um total de dezessete obras, esta pesquisa analisa como os registros dessas entradas são ideologicamente marcados e quais os efeitos de sentido produzidos. Também analisamos se, ao longo dos séculos, houve mudanças quanto a tais registros no que diz respeito à ideologia. Os resultados indicam que, nos dicionários selecionados, as definições são, em sua maioria, marcadas por um tom racista quanto às entradas de “preto” e “negro”, fruto de um discurso pró-escravidão da época de publicação dessas obras. Em segundo lugar, apesar do longo período de mais três séculos entre as obras, constatamos que, com raras exceções, os registros mantiveram praticamente as mesmas ideias.

RESUMO

INTRODUÇÃO

OBJETIVOS

METODOLOGIA

REGISTRO DE “PRETO” E “NEGRO” EM DICIONÁRIOS DE LÍNGUA PORTUGUESA

Franciele de Souza Meira¹,

Prof. Dr. Rafael Prearo Lima (orientador)²

1Instituto Federal de São Paulo, Bragança Paulista, Brasil - meira.f@aluno.ifsp. edu.br

2Instituto Federal de São Paulo, Bragança Paulista, Brasil – rprearo@ifsp.edu.br

Na atual sociedade brasileira, muito tem se discutido sobre questões que envolvem temas raciais. Dada a relevância da temática, decidimos investigar o assunto a partir daquilo que os dicionários apresentam em

suas definições. Nossa hipótese é a de que, ainda que sejam popularmente considerados como “certos” ou como “a palavra final” para a definição de um determinado termo, os dicionários podem apresentar percepções enviesadas a respeito daquilo que se propõem designar, definir ou descrever, e isso poderia ser observado a partir da análise de suas entradas.

● Objetivo geral:

○ Analisar o percurso histórico do registro de “preto” e “negro” em dicionários de língua portuguesa.

● Objetivos específicos:

○ Analisar as entradas “preto” e “negro” nos dicionários de língua portuguesa selecionados;

○ Analisar quais os efeitos de sentido produzidos pelas definições encontradas e perceber como são ideologicamente marcadas;

○ Comparar as definições de “preto” e “negro” a fim de perceber se houve, ou não, diferenças ideológicas quanto ao seu registro ao longo de tempo.

● Referências teóricas:

○ Lexicografia (Biderman, 1984, 2000; Borba, 2003; Nunes, 2005);

○ Análise do Discurso (Brandão, 2004; Maingueneau, 1997; Pêcheux; 1997, 2010; Orlandi, 2005).�

Corpus de pesquisa:

○ Bluteau (1712) ○ Aurélio (1986)

○ Silva (1789) ○ Biderman (1992)

○ Silva (1813) ○ Michaelis (1998)

○ Couto (1842) ○ Aurélio (2004)

○ Figueiredo (1913) ○ Houaiss (2009)

○ Silva (1922) ○ Bechara (2011)

○ Figueiredo (1949) ○ Borba (2011)

○ Silva (1954) ○ Caldas Aulete (2011)

○ ABL (1976)

Quanto ao aspecto discursivo das entradas analisadas, foi possível notar, nos registros encontrados, que não há apenas a descrição de “negro” e de “preto” como “indivíduos” ou “pessoas”, como seria de se esperar em dicionários, mas uma associação a elementos da escravidão no contexto brasileiro, em que esses indivíduos eram comercializados. Nesse sentido, os dicionários selecionados referem-se a “negro” e “preto” (i) como pessoas sem alma; (ii) como sinônimos de escravo; (iii) como indivíduos comercializáveis (isto é, que podem ser vendidos/comprados); (iv) associados a objetos, e (v) a costumes e/ou ações ruins.

Alguns casos chamam a atenção, como o dos dicionários de Antônio de Moraes Silva, que repetem os mesmos discursos entre a primeira (Silva, 1789) e a última publicação neste trabalho (Silva, 1954). Assim, apesar do grande intervalo de tempo (165 anos ao todo), os mesmos discursos foram mantidos e reproduzidos, a despeito da possibilidade de revisão de verbetes (ou dos verbetes analisados, pelo menos) entre uma publicação e outra, como normalmente acontece com reedições de dicionários. Essa manutenção de discursos também foi observada em outras obras impressas, como nos dicionários de Cândido Figueiredo (1913, 1949 – ao todo, 36 anos entre as duas publicações) e de Aurélio (1986 e 2004 – um intervalo de 18 anos).

RESULTADOS E DISCUSSÕES

REFERÊNCIAS

CONCLUSÃO

A partir das análises, chegamos a duas conclusões: (i) a primeira, embora a escravidão tenha sido abolida no Brasil em 1888, os discursos sociais continuam a refletir sua influência até o século XXI. Esses discursos também impactam a produção de verbetes, que são ideologicamente marcados, conforme apontado por Borba (2003), por serem resultado de contextos históricos, valores e crenças da sociedade. (ii) a segunda é que, apesar de quase três séculos de diferença, os dicionários analisados não apresentaram mudanças ideológicas significativas, mantendo, em geral, a associação entre "negro" e "preto" ao contexto da escravidão. No entanto, há exceções, como nos dicionários da Academia Brasileira de Letras (Nascentes, 1976), Biderman (1992) e Bechara (2011), nos quais "negros/pretos" são descritos apenas como indivíduos, sem essa ligação histórica.

BIDERMAN, M. T. C. O dicionário padrão da língua. Alfa, São Paulo, v. 28, p. 27-43, 1984.

BIDERMAN, M. T. C. Aurélio: sinônimo de dicionário? Alfa, São Paulo, v. 44, p. 27-55, 2000.

BORBA, F. S. Organização de dicionários: uma introdução à lexicografia. São Paulo: UNESP, 2003.

BRANDÃO, H. H. N. Introdução à análise do discurso. Campinas: Editora da Unicamp, 2004.

MAINGUENEAU, D. Novas tendências em análise do discurso. 3. ed. Campinas: Pontes, 1997.

NUNES, J. H. Dicionários no Brasil: análise e história. São Paulo: FAPESP, 2006.

ORLANDI, E. P. Análise de discurso: princípios e procedimentos. Campinas, São Paulo: Pontes, 2005.

PÊCHEUX, M. Por uma análise automática do discurso: uma introdução à obra de Michel Pêcheux. 3. ed. Campinas: Editora da UNICAMP, 1997.

PÊCHEUX, M. Papel da memória. Campinas: Pontes, 2010.

Quanto ao aspecto linguístico das entradas analisadas, a pesquisa apontou a existência de diferentes registros de “negro” e de “preto” nos dicionários. Além desses vocábulos, há entradas no gênero feminino (“negra” e “preta”, respectivamente), bem como palavras derivadas (“negrinho”, “negrilho”, “negrice”, “negreira”, “negrume”, “negraço”, “pretinho”, “pretinha”). Também encontramos exemplos de uso dessas palavras (“comprei hum [sic] negro”, por exemplo), de adágios (“Ainda que negros, gente fomos, & alma temos.”) e de expressões idiomáticas (“trabalhar como huma negra”).