Viagem Imersiva do Plano
de Visitação à Aldeia Pykany
Julho de 2025
OS KAYAPÓ
Os Kayapó vivem em aldeias dispersas ao longo do curso superior dos rios Iriri, Bacajá, Fresco e de outros afluentes do caudaloso rio Xingu, desenhando no Brasil Central um território quase tão grande quanto a Áustria. É praticamente recoberto pela floresta equatorial, com exceção da porção oriental, preenchida por algumas áreas de cerrado.
No século XIX os Kayapó estavam divididos em três grandes grupos, os Irã'ãmranh-re, Goroti Kumrenhtx e Porekry. Destes, descendem os sete subgrupos Kayapó atuais: Gorotire, Kuben-Krân-Krên, Kôkraimôrô, Kararaô, Mekrãgnotí, Metyktire e Xikrin. A língua falada pelos Kayapó pertence à família linguística Jê, do tronco Macro-Jê.
As aldeias Kayapó tradicionais são compostas por um círculo de casas construídas em torno de uma grande praça descampada; origem e coração da organização social e ritual dos Kayapó, célebre por sua complexidade. A periferia da aldeia é constituída por casas dispostas em círculo, repartidas de modo regular, nas quais habitam famílias extensas.
Os rituais Kayapó são numerosos e diversos, dividem-se em três categorias principais: as grandes cerimônias de confirmação de nomes pessoais, certos ritos agrícolas, de caça, de pesca e de ocasião, além dos solenes ritos de passagem.
Fonte: pib.socioambiental.org
ALDEIA PYKANY
A Aldeia Pykany é uma das 12 aldeias das Terras Indígenas Baú Menkragnoti, localizada no município de Altamira/PA, na bacia do Xingu.
A Aldeia Pykany é formada por um grande círculo, onde vivem aproximadamente 20 famílias às margens do rio Jabuí.
TERRITÓRIO
Os Kayapó Mekrãgnotí ocupam as Terras Indígenas Baú e Menkragnoti com 6,5 milhões de hectares, situadas no oeste do bloco de TIs Kayapó, ao norte do Mato Grosso e sul do Pará.
O extinto Serviço de Proteção ao Índio (SPI) iniciou o contato com os Kayapó há pouco mais de 70 anos, após relatos de conflitos com seringueiros, que subiam o rio Xingu para se fixar na bacia. Em 1967, epidemias de gripe e sarampo mataram 30% da população original.
A partir de 1971, foi iniciada a construção da rodovia BR-163 rasgando a floresta de Cuiabá a Santarém. A obra era parte do Plano de Integração Nacional implantado pela ditadura militar. Sob o lema “Integrar para não Entregar” o objetivo era ocupar a Amazônia, ignorando a presença de indígenas na região. Os Kayapó Mekrãgnotí resistiram e, quando a BR-163 foi inaugurada (1976), só 20% da população original da TI Baú havia sobrevivido.
A TI Menkragnoti, na bacia do Xingu, é uma Terra Indígena de 4.914.255 hectares, onde vivem 1.264 indivíduos. Homologada em agosto de 1993, abrange parte do Pará (municípios de Altamira e São Félix do Xingu) e do Mato Grosso (municípios de Matupá e Peixoto de Azevedo).
O assédio dos madeireiros e o roubo de madeira da TI Menkragnoti só foi controlado com a instalação de bases de vigilância nas estradas vicinais de acesso à TI. As bases são financiadas com doações e fazem parte de um projeto conjunto do Instituto Kabu, Associação Floresta Protegida e Instituto Raoni. Outra fonte de pressão é a soja, cuja expansão para o norte já chegou aos limites do território indígena. Durante a época de chuvas, os agrotóxicos chegam aos rios e os indígenas se queixam de coceiras e alergias.
INSTITUTO KABU
Criado em 27 de março de 2008 por três aldeias pioneiras – Baú, Pykany e Kubemkokre – com a finalidade de implementar o componente indígena do Plano Básico Ambiental (PBA) da BR-163 sob supervisão da Funai, o Instituto foi batizado em homenagem a um pequeno e valente guerreiro do passado, cuja história foi preservada pela tradição oral. Desde 2010, o Instituto Kabu trabalha para reduzir os impactos causados pelo asfaltamento da BR-163, principal via de escoamento dos grãos do Centro-Oeste. É uma das poucas instituições indígenas capazes de executar seu próprio PBA, reconhecido como um dos mais bem sucedidos do país.
Entre 2010 e 2024, o Instituto Kabu foi capaz de manter o desmatamento dentro das duas TIs em menos de 1%. No entorno, ele é superior a 16%. Os municípios de Altamira e Novo Progresso, onde se encontram os territórios dos Mekrãgnotí, estão em primeiro e sétimo lugar no ranking dos municípios campeões de desmatamento (2020).
Com sede em Novo Progresso, o Instituto atua em várias frentes para defender os direitos dos Kayapó Mekrãgnotí, a integridade da floresta, além de criar soluções sustentáveis para garantir melhores condições de vida e a manutenção da rica cultura Kayapó.
PROJETO MENIRE
O Projeto Menire, visa a valorização do trabalho da mulher Kayapó e faz parte do Programa de Alternativas Econômicas Sustentáveis do Instituto Kabu. Foi criado por Carmem Figueiredo em 2006 que, junto com as lideranças Kayapó, também fundou o Instituto Kabu.
Recomendado pela antropóloga Carmem antes do seu falecimento, Marcelo Rosenbaum e o Instituto A Gente Transforma atuam, desde 2017, na coordenação do projeto junto a Aldeia Pykany e Instituto Kabu, tendo como foco a criação de novas oportunidades de negócios para as Mulheres Kayapó e captação de novas parcerias estratégicas.
TURISMO DE BASE COMUNITÁRIA
A iniciativa de visitação na Aldeia Pykany é uma estratégia proposta para o fortalecimento dos saberes e do território Kayapó Mekrãgnotí, considerando a oportunidade de promover o registro e repasse de conhecimento entre as gerações, a geração de renda e repartição coletiva de benefícios para a sustentabilidade da aldeia e de suas famílias.
A proposta de imersão foi idealizada por Marcelo Rosenbaum e desenvolvida por Camila Barra, Mestre em Antropologia Social (Unicamp) e especialista em estruturação de iniciativas de turismo indígena, a partir de modelos de negócio alinhados com os objetivos da gestão territorial e ambiental.
O turismo na Aldeia Pykany promove a conexão e engajamento dos visitantes com a proteção dos territórios, com o propósito de fortalecer os aspectos culturais e a proteção da floresta durante a visitação e, em contrapartida, apoia na busca de parcerias para solucionar questões de infraestrutura, acesso a serviços e direitos e para o desenvolvimento de tecnologias sociais adequadas às necessidades e realidade da aldeia.
VIAGEM DE ESTRUTURAÇÃO
Viagem de estruturação do projeto imersão e vivência cultural com as mulheres Kayapó na Aldeia da Pykany da Terra Indígena Menkragnoti.
O Plano de Visitação da Aldeia Pykany começou a ser construído em 2019 com a Aldeia Pykany, sob a condução de Marcelo Rosenbaum e Camila Barra. A assessoria técnica, tinha por objetivo de impacto, apoiar as mulheres Kayapó – proponentes e protagonistas da visitação – e seus parceiros em três aspectos: compreensão dos aspectos operacionais, financeiros e de governança da imersão piloto (julho de 2023); percepção dos resultados e desafios para a continuidade; e validação e proposição de ações para aprimoramento e ajuste da iniciativa.
O roteiro da imersão piloto foi montado com o objetivo de explorar os diversos aspectos da vida cotidiana Kayapó, sendo cada dia focado em uma temática: a roça e sua cultura; a floresta e sua biodiversidade; a ancestralidade Kayapó e a culinária Kayapó.
O cardápio com alimentação tradicional teve a consultoria da nutricionista Neide Rigo, que identificou e mapeou, junto com as mulheres Kayapó, os hábitos culturais e culinários do plantio e coleta de alimentos à sua forma de preparo, técnicas, gestos e consumo.
Para receber os visitantes, Marcelo Rosenbaum projetou junto com os homens Kayapó que também foram os construtores das novas edificações: Casa de Hóspedes, Banheiro e Casa das Mulheres, espaço para o artesanato, conversas e atividades coletivas, que partiram dos conhecimentos tradicionais e da materialidade local com uso da terra, palhas e madeiras. Os banheiros, possuem sistema de evapotranspiração, tecnologia de tratamento das águas cinzas que chegam à aldeia como um novo conhecimento e nova prática.
Tive o privilégio de acompanhar de perto parte desse processo ao participar da viagem de estruturação do grupo-piloto do projeto, em julho de 2023, quando vivenciamos o cotidiano da aldeia guiados pelas mulheres – a lida na roça, a relação com o rio, o preparo dos alimentos, a pintura corporal, os rituais de canto e dança. Ao final da semana, todos muito impactados, pudemos entender como os indígenas “seguram o céu”, na expressão do líder yanomami Davi Kopenawa, enquanto nós nas cidades insistimos em arranhá-lo.
Foi muito bonito ver como a equipe de design entrou apenas para criar uma infraestrutura para propiciar essa imersão, sem agredir a cultura originária, mas, ao contrário, trabalhando para trazer de novo modos de fazer que já estavam esquecidos na dinâmica da aculturação e evidenciando a riqueza de uma cultura com a qual temos muito a aprender.
Esse movimento de aproximação respeitosa e colaboração vem de duas décadas atrás, quando Carmem Figueiredo (1966-2017), indigenista e consultora em gestão social de recursos naturais, criou o projeto Menire (coletivo de mulheres em língua Kayapó), que transpôs a pintura corporal para os tecidos e com isso criou uma nova fonte de renda para as mulheres.
O design não está apartado da sociedade. Cada projeto – tenhamos ou não consciência disso – diz em que direção queremos que o mundo caminhe. Este aqui defende a permanência dos povos indígenas em seus territórios, incentiva alternativas econômicas para a manutenção da floresta em pé e é uma resposta ao desafio do colapso climático. A exposição é um convite a todos nós usarmos nossa energia criativa e nossa capacidade de trabalho na construção de um mundo mais digno e menos desigual.
Adélia Borges
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para participar e receber todo material a respeito da
Viagem imersiva do Plano de Visitação à Aldeia Pykany
Julho de 2025
Textos
Adélia Borges
Leticia Leite
Moderação e entrevista com as mulheres Kayapó
Cleber Oliveira de Araújo
Fotos
Loiro Cunha
Fotos da p. 12, 13, 14
Mario Daloia
Design gráfico
Fabiana Zanin
Apoio
Somauma
Aldeia Pykany
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Instituto Kabu: fortalecemos nossa cultura material e imaterial. Atendemos mais de 350 famílias Kayapó e Panará. Geramos e distribuímos renda para artesãs e artesãos. Protegemos mais de 6 milhões de hectares de floresta Amazônica.
Gestores
Presidente | Doto Takak Ire
Vice-Presidente | Kokoba Mekrâgnotire
Diretora-Financeira | Panh Ô Kayapó
Relações Públicas | Mydjere Mekrãgnotire Kayapó
Projeto Menire | Programa de Alternativas Econômicas Sustentáveis | Componente Indígena do Plano Básico Ambiental (PBA-CI ou PBAI) da BR-163
Coordenação
Marcelo Rosenbaum | Instituto A Gente Transforma
Assessoria para Construção do Plano de Turismo de Base Comunitária
Camila Barra | Negócios Comunitários
Assessoria para cardápio da vivência
Neide Rigo
Exposição Menire
Edifício Misericórdia
Conceito
Rosenbaum Arquitetura
Marcelo Rosenbaum | Adriana Benguela | Marcelo Anaf
Guilherme Paschoal | Fabiana Zanin
FICHA TÉCNICA