Insulinização na Prática Clínica
Capacitação: Transição Segura e Eficaz de Insulinas: da NPH para
Análogos de Ação Prolongada (Glargina) no Cuidado ao Paciente
com Diabetes no âmbito da APS
Baseado nas Diretrizes SBD 2025, no Protocolo de Manejo da Diabetes Mellitus da
SES/DF e na Nota Técnica Conjunta nº 32/2026-DEPROS/SAPS/DAET/SAES/MS
Dra. Flávia Franca Melo – RTD da Endocrinologia
Dra. Eliziane Brandão Leite – RTD da Endocrinologia Colaboradora
Fevereiro/2026
Objetivos de Aprendizagem
Estratégias DM1 e DM2
Diferenciar abordagens terapêuticas específicas para cada tipo de diabetes
Vencer a Inércia Clínica
Identificar quando e como iniciar insulinização de forma oportuna
Algoritmos de Titulação
Dominar protocolos de ajuste de dose para controle glicêmico ideal
Situações Especiais
Manejo adequado em gestação e prevenção de hipoglicemia
O Objetivo: Mimetizar a Fisiologia Pancreática
Conceito Chave: Pensar como o Pâncreas
Secreção Basal (~50%): Supressão da produção hepática de glicose durante jejum e sono, mantendo níveis glicêmicos estáveis ao longo do dia.
Secreção Prandial (~50%): Cobertura da excursão glicêmica pós-refeição, controlando os picos de glicose após café, almoço e jantar.
Perfil Farmacológico das Insulinas
O gráfico ilustra a farmacocinética de diferentes tipos de insulina ao longo de 24 horas, demonstrando seus perfis de ação.
TIPO | NOME | INÍCIO | PICO | DURAÇÃO |
INSULINAS BASAIS | ||||
Insulina intermediária | NPH | 2-4H | 4-10 | 10-18H |
Análogo de ação longa | Glargina U100 | 2-4h | - | 20-24h |
Análogo de ação ultralonga | Degludeca Glargina U300 | < 4h 6h | - - | 42h 36h |
INSULINAS PRADIAIS | ||||
Insulina rápida | Regular | 30-60min | 2-3h | 5-8h |
Análogos de ação ultrarrápida | Asparte Lispro Glulisina | 5 a 15 min | 30 min -2h | 3-5 |
Fast Aspart | 2-5 min | 1-3h | 5 | |
Diabetes tipo 1
⚠️ RISCO DE CETOACIDOSE (CAD)
Diagnóstico de DM1 = Início Imediato de Insulina.
A prevenção da CAD depende da reposição urgente de insulina.
Protocolo Inicial
Cálculo da Dose Total Diária (DTD)*:
0.4 a 1.0 U/kg/dia
*Basal + Bolus
Distribuição da Dose
50% Basal (NPH ou Análogo de ação longa/
ultralonga)
50% Prandial (Dividido entre as refeições)
Exemplo: 60kg: DTD = 30 U (0,5UI/Kg/dia)
Basal: 15 U | Prandial: 15 U (5 U antes de cada refeição ou conforme contagem de CHO)
Diabetes tipo 2– Vencendo a Inércia Terapêutica
1
Hiperglicemia Grave
Glicose > 300 mg/dL aleatória ou > 250 mg/dL em jejum ou HbA1c > 10% ao diagnóstico
2
Sintomas Catabólicos
Perda de peso, poliúria, polidipsia
3
Falha ao tratamento
com drogas orais
HbA1c fora do alvo após 3-6 meses de dose máxima de antidiabéticos orais
4
Situações Especiais
Gestação, doença renal, infecções, internação
Estratégia Inicial (exceto nas situações especiais) : Manter anti-diabéticos orais + Iniciar Insulina Basal Noturna (Bedtime) 0,2UI/Kg ou 10UI
Quando iniciar a insulinização?
DM2 Passo 1: Iniciação e Titulação Basal
Início
Monitoramento
Ajuste
Insulina Bedtime
💡 Não estacione na dose inicial! A titulação deve continuar até atingir a meta de jejum.
Glicemia capilar (GC) em jejum 3x/sem
2UI a cada 3 dias se GC > 130mg/dL ou 4UI se > 180mg/dL.
Pacientes em uso de NPH: se a dose noturna for > 30UI ou > 0,5UI/Kg/dia, fracionar em 2 doses diárias (1/3 a 1/2 em jejum e ½ a 2/3 antes de dormir)
Se hipoglicemia, reduzir a basal em 4UI ou em 10%, o que for maior
DM2 Passo 2: Intensificação Terapêutica
Apenas insulina basal
GC de jejum controlada, mas HbA1c permanece elevada
Basal + Bolus 1x/dia: Basal Plus
Adicionar 1 injeção rápida/ultrarrápida antes da MAIOR refeição
Dose Inicial: 4 UI ou 10% da dose basal
Basal-Bolus (insulinização intensiva)
Evoluir para bolus em 2 ou 3 refeições, conforme necessidade. Exemplos:
Titulação: Aumentar 2 UI a cada 3 dias se pós-prandial fora da meta.
Atenção: Considerar suspender secretagogos (sulfonilureias) ao iniciar insulina prandial.
�Insulinas Humanas NPH Basal (bedtime)
Adaptado Karla Melo
6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 1 2 3 4 5
Café
Almoço
Jantar
Adaptado Karla Melo
6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 1 2 3 4 5
Café
Almoço
Jantar
�Insulinas Humanas NPH Basal
Adaptado Karla Melo
6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 1 2 3 4 5
Café
Almoço
Jantar
�Insulinas Humanas NPH Basal + Regular 1x/dia (Basal Plus)
Adaptado Karla Melo
6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 1 2 3 4 5
Café
Almoço
Jantar
�Insulinas Humanas NPH + Regular
Plenamente insulinizado
Adaptado Karla Melo
6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 1 2 3 4 5
Café
Almoço
Jantar
�Insulina Glargina - Basal (bedtime)
Adaptado Karla Melo
6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 1 2 3 4 5
Café
Almoço
Jantar
�Insulina Glargina - Basal (bedtime)
Adaptado Karla Melo
6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 1 2 3 4 5
Café
Almoço
Jantar
�Insulina Glargina + insulina análoga rápida
Basal Plus
Adaptado Karla Melo
6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 1 2 3 4 5
Café
Almoço
Jantar
�Insulina Glargina + insulina análoga rápida
Basal Bolus
Adaptado Karla Melo
6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 1 2 3 4 5
Café
Almoço
Jantar
�Insulina Glargina + insulina regular
Basal Bolus
Individualização de Metas Glicêmicas
A definição de metas terapêuticas deve considerar múltiplos fatores individuais para otimizar benefícios e minimizar riscos.
1
Paciente Jovem
HbA1c < 7%, metas mais rigorosas, maior expectativa de vida
2
Comorbidades
HbA1c 7-8%, considerar complicações e polifarmácia
3
Idoso Frágil
HbA1c 8-8.5%, priorizar segurança e qualidade de vida
Metas glicêmicas
*Pessoa idosa saudável: expectativa de vida compatível com a média etária; sem limitações nas atividades diárias; sem comorbidades limitantes; força muscular preservada; sarcopenia mínima ou ausente; sem propensão à hipoglicemia; sem alterações cognitivas, sem doença cardiovascular; pessoa idosa comprometida/frágil: expectativa de vida reduzida; limitação funcional; limitações de autocuidado; força muscular reduzida; sarcopenia ou desnutrição; propensão à hipoglicemia; alterações cognitivas; risco de queda; pessoa idosa muito comprometida: expectativa de vida significativamente reduzida, câncer com metástases, cuidados paliativos, doença crônica irreversível grave, demência grave, paciente terminal.
Fonte:Pititto B, Dias M, Moura F, Lamounier R, Calliari S, Bertoluci M. Metas no tratamento do diabetes. Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes (2023). DOI: 10.29327/557753.2022-3, ISBN: 978-85-5722-906-8.�
Situação Especial: Diabetes Gestacional (DMG)
Segurança Farmacológica
Conduta: Iniciar insulina se > 30% das medições estiverem fora da meta. Dose inicial: 0.5 UI/kg/dia.
Metas Glicêmicas na Gestação
Horário
Meta (mg/dL)
Jejum
< 95
1h Pós-prandial
< 140
2h Pós-prandial
< 120
Escolha da Insulina: Humana vs. Análogos
Insulinas Basais
NPH vs. Glargina/Degludeca
Análogos de Longa Duração
Insulinas Prandiais
Regular vs. Lispro/Asparte
Análogos Rápidos
Projeto Piloto de Migração de Insulinas Humanas para Insulinas Análogas (NPH para glargina)
Nota Técnica nº 22/2026-COPAFB/CGAFB/DAF/ SCTIE/MS
Critérios de Elegibilidade
Crianças e adolescentes com DM1
Idade entre 2 e 18 anos incompletos
Pessoas idosas
com DM1 ou DM2
*80 anos ou mais
Válido para pacientes que já usam NPH (migração) e pacientes novos (início de tratamento), mediante prescrição médica válida.
Projeto Piloto de Migração de Insulinas Humanas para Insulinas Análogas (NPH para glargina)
Orientações:
Pacientes atendidos com glargina pelo CEAF (alto custo): manter no CEAF
Pessoas com DM2 > 80 anos que
retiram glargina nas Policlínicas (protocolo
SES/DF): manter nas Policlínicas
No momento não haverá insulinas análogas de ação ultrarrápida na APS
Pessoas > 80 anos em uso de NPH ou com indicação de iniciar isulinoterapia: migrar ou iniciar tratamento com glargina na APS
Casos novos de DM1 com 2-18 anos:
Como migrar?
Na transição dos pacientes em uso de NPH para glargina, recomenda-se:
Exemplo: paciente que usa NPH 20UI pela manhã e 10UI à noite (30UI total), deve migrar para glargina na dose de 24UI
Horário da aplicação: uma vez ao dia, sempre no mesmo horário, preferencialmente no horário correspondente à maior dose anterior de NPH.
Quantitativo de insumos por tipo de DM e situação clínca
Tipo de DM e situação clínica | Tiras reagentes | Lancetas | Agulhas para caneta |
DM2 em uso de insulina ao deitar | 01 caixa (50 tiras) a cada 2 meses | 10 un/mês | 10 un/mês |
DM2 em uso de insulina 2x/dia | 01 caixa/ mês + 01 caixa adicional a cada 3 meses | 10 um/mês | 20 un/mês |
DM2 em uso de insulina ≥ 3x/dia | 03 caixas/mês | 30 un/mês | 30 un/mês |
DM2 em uso de insulina descompensado (comprovado por relatório médico) | 03 caixas/mês | 30 un/mês | 30 un/mês |
DM1 | 03 caixas/mês | 30 un/mês | 30 un/mês |
DM1 gestante | 04 caixas/mês | 40 un/mês | 30 un/mês |
DM1 em uso de SICI | 04 caixas/mês | 40 un/mês | |
DM1 em contagem de CHO | 04 caixas/mês | 40 un/mês | 30 un/mês |
DM1 em uso de sensor de glicose | 01 caixa a cada 2 meses | 10 un/mês | 30 un/mês |
Diabetes gestacional | 02 caixas/mês | 20un/mês | 30 un/mês |
Gestante com DM prévio em uso de insulina | 03 caixas/mês | 20 un/mês | 30 un/mês |
Segurança: Prevenção e Manejo da Hipoglicemia
70
Alerta
mg/dL - Limiar de atenção
54
Clinicamente Significativa
mg/dL - Requer ação imediata
Tratamento Agudo - A Regra dos 15
01
Ingerir 15g de carboidratos simples (1 colher de mel / 150ml suco integral ou refrigerante comum / 3-4 balas mastigáveis )
02
Aguardar 15 minutos
03
Reavaliar glicemia. Se < 70 mg/dL, repetir o ciclo
Ajuste de Dose Pós-Hipoglicemia
Redução Imediata
Reduzir a dose relacionada ao evento em 4 UI ou 10-20%
Hipoglicemia Noturna Recorrente
Trocar NPH por glargina ou glargina por degludeca
A prevenção de hipoglicemias recorrentes requer ajustes proativos no esquema terapêutico, priorizando insulinas com perfil farmacocinético mais estável e previsível.
Segurança do paciente na APS: uso adequado da insulina basal
A prescrição de dose excessiva de insulina basal é causa frequente de hipoglicemia.
Critérios de alerta para excesso de insulina basal
Pessoas com DM2 Insulina basal > 0,5 UI/kg/dia HbA1c acima da meta com glicemia de jejum no alvo Episódios de hipoglicemia, com ou sem sintomas Queda da glicemia > 50 mg/dL entre o horário de dormir e o despertar |
Crianças e adolescentes com DM1 Insulina basal > 50% da DTDI Queda noturna da glicemia > 30 mg/dL (crianças) Queda noturna da glicemia > 50 mg/dL (adolescentes) Hipoglicemia associada a grande variabilidade glicêmica |
Fonte: Stewart-Lynch et al adaptado (2024)
Resumo Prático: Titulação e Segurança
DM2 Titulação
Segurança
Vencendo a Inércia Clínica
A inércia clínica é o maior inimigo do controle glicêmico
Reconheça os Sinais
HbA1c persistentemente elevada, hesitação em intensificar tratamento, espera prolongada entre ajustes
Aja Proativamente
Titule regularmente, não espere consultas de retorno, empodere o paciente para autoajuste
Comunique Claramente
Explique benefícios da insulina, desmistifique medos, estabeleça metas realistas
Mensagens Finais
Insulina não é falha, é evolução terapêutica
A necessidade de insulina reflete a progressão natural do diabetes, não inadequação do paciente ou médico
Titulação progresiva previne complicações
Cada dia de hiperglicemia aumenta risco cardiovascular e microvascular - ajuste sem demora
Segurança primeiro, sempre
Metas individualizadas e prevenção de hipoglicemia garantem sustentabilidade do tratamento