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"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível."
Obras da autora publicadas pela Galera Record:
Feitiços e sutiãs Sapos e beijos Férias e encantos Festas e poções
10 coisas que nós fizemos Me liga
Tradução de Maria P. de Lima
1ª edição
2014
CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
M681m
Mlynowski, Sarah, 1977-
A mais bela de todas [recurso eletrônico] / Sarah Mlynowski ; tradução Maria P. de Lima. - 1. ed. - Rio de Janeiro : Galera Record, 2014.
recurso digital (Era outra vez ; 1) Tradução de: Fairest of all Formato: ePub
Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions Modo de acesso: World Wide Web
Prólogo, agradecimentos
ISBN 978-85-01-10255-3 (recurso eletrônico)
1. Ficção infantojuvenil americana. 2. Livros eletrônicos. I. Lima, Maria P. de. II. Título. III. Série.
14-16576
CDD: 028.5
CDU: 087.5
Título original em inglês:
Fairest of all
Copyright © 2012 by Sarah Mlynowski Publicado originalmente por Scholastic Inc.
SCHOLASTIC e logos associados são marcas e/ou marcas registradas de Scholastic Inc.
Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução, no todo ou em parte, através de quaisquer meios. Os direitos morais do autor foram assegurados.
Texto revisado segundo o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.
Direitos exclusivos de publicação em língua portuguesa somente para o Brasil adquiridos pela
EDITORA RECORD LTDA.
Rua Argentina 171 – Rio de Janeiro, RJ – 20921-380 – Tel.: 2585-2000, que se reserva a propriedade literária desta tradução.
Produzido no Brasil
ISBN 978-85-01-10255-3
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Atendimento e venda direta ao leitor mdireto@record.com.br ou (21) 2585-2002.
Para Jessica Braun,
p.s. leia! (sempre!)
Prólogo
Isso não é uma piada
Era uma vez minha vida normal.
Então o espelho do porão nos engoliu.
Acha que estou de brincadeira? Acha que inventei isso tudo? Acha, né?
Você deve estar pensando: “Hum, Abby, espelhos normalmente não saem por aí engolindo pessoas.
Espelhos só ficam pendurados nas paredes e refletem coisas.” Bem, você está errado. Muito, muito ERRADO.
Tudo o que vou contar é a mais pura verdade, e nada além da verdade. Não estou inventando nada. Não sou mentirosa nem o tipo de maluca que pensa estar dizendo a verdade, mas no fundo não está. Na verdade, sou uma pessoa bastante racional. E justa também. Preciso ser justa, pois serei juíza quando crescer. Bem, primeiro vou ser advogada, aí me tornarei juíza. Porque primeiro é preciso advogar. É assim que funciona.
Mas é isso. Sou uma menina de 10 anos extremamente racional, extremamente prática e totalmente não maluca que viu a própria vida ficar bem frenética depois que os pais a obrigaram a se mudar para Smithville.
Ainda não acredita em mim? Vai acreditar quando souber dos fatos. Vai acreditar quando souber de
toda a história.
Deixe-me começar do começo.
Capítulo um
O começo
Quando toca o sinal do recreio, as crianças da minha turma do quinto ano resolvem que querem brincar de pique-pega. Batemos uni-duni-tê, e, sabe-se lá como, o pique começa comigo. A garota nova. Que legal.
Só que não.
Cubro os olhos para dar às demais crianças uns dez segundos de vantagem (tá bom, cinco), então corro em direção à cerca. Logo avisto Penny, que é muito alta. Bem, mais alta que eu, pelo menos. E também usa um casaco de moletom de um tom alaranjado bem vivo, então é difícil não notá-la. Não sei os nomes de todas as crianças, mas o de Penny é fácil de lembrar pois ela sempre usa o rabo de cavalo bem no alto da cabeça e, por causa disso, fica parecendo um pônei. Penny Pônei. Penny Pônei. Penny Pônei.
Eu corro e dou um tapinha no cotovelo dela.
Hein? Não está tão frio assim. Além do mais, o casaco alaranjado parece bem quente.
A última pessoa a ser pega? Se você é o último a ser pego, significa que é o melhor. Se é o melhor, deve fazer uma dancinha feliz enquanto os outros jogam confete sobre sua cabeça. Ser o pegador não é bom porque você não vai ser recompensado.
Sinto um aperto no peito. Se eu tiver que pegar (ou congelar) cada um dos alunos do quinto ano, essa brincadeira vai ser muito, muito, MUITO demorada.
O que acontece. Estou tentando começar do zero, tentando ser flexível em relação a minha nova escola. Mas como isso vai ser possível se as pessoas aqui fazem TUDO errado?
Permitam-me apresentar meu caso:
Senhoras e senhores do júri:
Eu não quero chamar refrigerante de soda. Eu não quero comer meleca de banana.
Eu não quero começar pegando ninguém.
— Tenho certeza de que brinco do jeito certo — digo, sentindo a garganta fechar. Estou certa. Sei
que estou.
Lágrimas fazem meus olhos arderem. Não quero que as coisas fiquem mais difíceis. Quero que as coisas sejam como eram. Normais!
Nem é mentira. Estou mesmo cansada. Cansada de tudo ser diferente. Por que as coisas não podem ser como antes?
Caminho até a Srta. Goldman, a professora de plantão no recreio, e pergunto se posso ir até a biblioteca.
Eu me sinto ainda menor. Nem mesmo a biblioteca é chamada de biblioteca por aqui?
Mas assim que entro na sala de entretenimento, o mundo fica um pouquinho melhor. Respiro fundo.
Ahhhh.
Talvez em Smithville uma sala cheia de livros seja conhecida como sala de entretenimento, mas tem o mesmo cheiro da biblioteca da minha antiga escola normal. Mofo. Poeira. E papel.
Os livros nas prateleiras da biblioteca da escola — sala de entretenimento, argh — são livros que reconheço. São livros que já devorei muitas vezes. Muitas e muitas vezes.
Meus ombros relaxam de alívio porque... Quer saber? Independentemente do número de vezes que esses livros são lidos, suas histórias não mudam.
Herdei esse amor pelos livros da minha avó. Ela costumava ler para mim o tempo todo. É professora de literatura na universidade de Chicago, o lugar normal onde costumávamos morar.
Sinto uma dor no peito quando penso na minha antiga casa. Nos meus amigos distantes. Na minha avó. Nos sanduíches de banana com manteiga de amendoim feitos do jeito certo.
Mas logo afasto essa sensação de tristeza e deslizo meus dedos pelas lombadas dos livros enfileirados. Meu dedo para. Apoia-se em uma coleção chamada “Contos de Fadas”, onde o bem é bom e o mal é mau, onde meninas racionais e lógicas do quinto ano nunca ficam sendo as pegadoras para sempre.
Sinto o aperto no peito passar. Perfeito.
Capítulo dois
Meu despertar irritante
Naquela noite, sonhei com meus antigos amigos. Estávamos brincando de pique do jeito certo quando alguém chamou meu nome.
Entreabro uma pálpebra. É Jonah, meu irmão de 7 anos, então puxo o cobertor sobre a cabeça. É claro que adoro o garoto, mas já estou grandinha. Preciso das minhas horas de sono.
Jonah arranca o cobertor, pressiona a boca de encontro ao meu ouvido e diz:
Ele tem que repetir tudo tantas vezes? Há uma linha tênue entre ser persistente e ser irritante.
Já me disseram que sou meio mandona, mas qual é! É madrugada. Além do mais, como irmã mais velha, é meu dever mandar em Jonah. Só estou desempenhando meu papel.
É também meu dever garantir que ele coma verduras.
No jantar, vi quando ele escondeu um brócolis na meia. Então o dedurei. Depois me senti culpada e dei a ele metade do meu biscoito de chocolate.
Olho de soslaio para ele. Como é que é? Nem sei o que fazer com aquela frase.
Percebo que estou falando em gritinhos estridentes, então abaixo o tom de voz para não acordar meus pais.
Aquele espelho tem algo de esquisito. Parece que me observa aonde quer que eu vá. Como os olhos naquele quadro da Mona Lisa. Mas claro que isso não faz sentido. Espelhos não podem te observar. Eles não têm vida.
Ele dá de ombros.
Dou uma olhada no despertador.
Sinto meu pulso pesar e percebo que esqueci de tirar o relógio quando me deitei. Aperto o botão da luz. Mostra 11h52 também.
Jonah dá de ombros de novo.
Ele está sempre explorando. É difícil acreditar que somos irmãos. Somos tão diferentes. Eu gosto de ler. Ele gosta de aventuras. Gosto de me enroscar na cama com um livro. Ele prefere escalar montanhas. Sério. Minha mãe o leva para aulas de escalada aos domingos.
Com paciência, inspiro profundamente e pergunto:
Quando Jonah tinha 3 anos, meu pai deu a ele um relógio que mudava de cor. Ficava vermelho à noite, e às sete da manhã ficava verde. Jonah deve ficar na cama até que o relógio fique verde.
Mas meu irmão não é muito bom em seguir ordens. Nem cores.
Hein? Ele viu roxo?
Suspiro. Porcaria. Saio da cama, calço minhas pantufas e o sigo.
Ele quebrou um espelho e não tem vidro? Aponto em direção ao armário.
É meu dever proteger meu irmão inteirinho, até seus pés chulezentos.
O quarto de Jonah está iluminado por causa dos adesivos de estrela no teto que brilham no escuro e por causa do relógio de luz vermelha. Nada de roxo. Vermelho. Jonah pega o par de tênis no armário e o enfia no pé.
A porta do quarto de mamãe e papai está fechada, mas o cômodo fica ao final do corredor. Minha mãe não vai gostar se a acordarmos. (Uma vez ela ficou zangada comigo quando eu disse que ela estava seis minutos e quarenta e cinco segundos atrasada para me buscar na escola. Eu não queria que ela se sentisse mal. Mas tenho um cronômetro superlegal no meu relógio e, se não usá-lo para dizer a ela o quanto está atrasada, vou usá-lo pra quê?)
Descemos o primeiro lance da escada. Ela range. Muito. Finalmente consigo alcançar a porta do porão.
Congelo. Congelo como se tivesse, hum... sido pega. Porque a verdade é que provavelmente não sou a menina mais corajosa do mundo. E está tarde. E estamos indo ao porão.
Prefiro ler sobre aventuras em vez de viver uma.
Inspiro lenta e profundamente, acendo a luz do porão e fecho a porta.
Capítulo três
Espelho, espelho meu, pendurado na parede
Um passo. Crec.
Dois passos. Crec. Três. Creeeec!
Paro no início da escada e olho ao redor do porão até encontrar o espelho gigante e assustador. Ele ainda é gigante e assustador, mas, tirando isso, parece em excelente estado.
— Não tem uma única rachadura — falei. — Vamos voltar para a cama. Agora.
— Eu nunca disse que estava rachado — retrucou Jonah. — Falei que ele estava assobiando. — Ele se aproxima do espelho, chegando tão perto que sua respiração embaça o vidro. — Deve ter parado quando saí.
Fico parada, observando cada detalhe do espelho antigo que os ex-proprietários deixaram para trás. Tem o dobro do meu tamanho. O vidro é límpido e liso. A moldura é feita de pedra com entalhes de fadas e varinhas de condão. Não sei por que a pessoa que morava aqui não o levou, a não ser... bem, ele é assustador. E está preso à parede. Com parafusos imensos do tipo usado no Frankenstein.
No reflexo, vejo meu cabelo castanho encaracolado. Meu pijama verde-limão. Minhas pantufas listradas. Mas parece haver algo estranho no meu reflexo, então dou meia-volta. Não sei exatamente o quê é, mas é esquisito.
Um sofá de couro preto. Uma mesa. Uma cadeira giratória. Muitas e muitas prateleiras com livros antigos de Direito dos meus pais, os quais eles nunca consultam, mas também não jogam fora. Minha mãe e meu pai são advogados. Diferentemente de mim, nenhum deles quis ser juiz.
Para que fique registrado: serei uma juíza excelente porque entendo tudo de paz e ordem. Farei com que a justiça seja respeitada, porque é injusto quando pessoas más não se encrencam ou quando coisas ruins acontecem às pessoas boas.
Como meus pais terem me obrigado a me mudar para Smithville.
Pronta para quê? Estou pronta para voltar para minha cama quentinha. No entanto, digo ao meu irmão:
Ele ergueu o pulso e bateu. Aguardamos. Nada aconteceu.
Shhhhhhhhhhh.
Meu corpo fica tenso. Não gosto do som de assobios. Principalmente vindos de espelhos.
Minha boca fica seca. O que está acontecendo? Por que o espelho do porão está emanando cores?
Espelhos não devem mudar de cor. Não gosto de espelhos que mudam de cor!
Tarde demais. Ele já estava batendo no espelho. Nossos reflexos começam a tremer.
Não gosto de espelhos que tremem tanto quanto não gosto de espelhos com luzes roxas que assobiam.
Minha imagem está ondulando como a superfície de um lago. Estou ondulando por dentro também. Já disse que quero ser juíza porque gosto de paz? E de ordem? E não de espelhos ondulantes que assobiam e mudam de cor?!
As ondas no espelho giram em círculo, como um redemoinho.
Mas eles estão dois andares acima e eu fechei a porta do porão. Por que fiz isso? Entro em um porão no meio da noite e fecho a porta? Qual é meu problema? Preciso de ajuda!
Com a mão livre, alcanço o pé de uma mesa. Meus dedos queimam, mas de jeito nenhum que vou soltar meu irmão ou o pé da mesa.
Vushhhh! De repente, o mundo inteiro vira de cabeça para baixo. Jonah e eu estamos na horizontal. Sacudimos no ar como bandeiras humanas, o que não faz sentido algum. Não gosto de coisas que não fazem sentido.
Ele está rindo? Está! Ele está rindo. Como ele pode estar se divertindo em um momento desses? O sapato do meu irmão desaparece. Sai do pé dele e vai em direção ao espelho.
Não! Impossível!
Depois de um zumbido alto, o outro sapato de Jonah também é sugado pelo espelho.
Slurp.
Meu coração está disparado, e sinto frio e calor ao mesmo tempo. Aquilo não pode ter acontecido. Nada disso pode estar acontecendo. E por que os sapatos de Jonah não estavam amarrados? Tenho que fazer tudo sozinha?
De repente as pantufas são arrancadas dos meus pés.
Não é mesmo minha culpa. Não dá para se amarrar uma pantufa.
Um livro voa da prateleira e entra no espelho. Depois outro. Todos os livros de Direito dos meus pais se vão — vuuup — diretamente das prateleiras para o espelho. As páginas virando como se fossem asas de pássaros empolgados demais.
A cadeira giratória corre pelo chão. Slurp! As mãos do meu irmão estão escorregadias.
NÃO! NÃO! NÃO! Eu NÃO vou deixar que o espelho maluco engula meu irmão. Estou no comando aqui! E vou manter meu irmão a salvo!
Solto a perna da mesa e seguro Jonah com as duas mãos. Com um grunhido satisfeito, o espelho nos puxa para dentro.
Capítulo quatro
Árvores demais
B ump.
Caio de cara no chão. Sujeira, folhas e grama. Tem um galho na minha boca. Tiro e limpo a mão na calça do pijama.
Que bom. Estou feliz que meu irmão esteja bem. Agora não preciso me sentir mal quando gritar com ele.
Fico de pé e começo a enumerar as respostas nos dedos.
que já aconteceu conosco.
Balanço a cabeça. Nem tenho certeza do que realmente aconteceu. E onde estamos?
Tento perceber algum aroma. Tem cheiro de natureza. Apoio-me nos cotovelos e olho ao redor.
Então vejo:
Hum, por que há tantas árvores tão grandes no meu porão? Espera. Meu porão não tem árvores.
Eu me viro para Jonah.
— No quintal — digo. — Tem que ser o quintal. Não é? — Só que nosso quintal é pequeno e tem apenas duas árvores. Duas árvores bem magricelas. E não milhares de árvores bem grandes.
Ele é impossível. Esfrego meus olhos.
Ele coça a barriga.
Viro a cabeça. O céu azul espreita acima das copas das árvores. Era noite antes. Agora é dia.
Não entendo o que está acontecendo! Esperneio como uma criança de 2 aninhos fazendo pirraça. Ai. Um galho arranha meu tornozelo porque — ahhhh, agora me lembro — antes do espelho me engolir ele comeu minhas pantufas. Mas cá estou eu, e onde estão minhas pantufas listradas?
Primeiro preciso encontrá-las. Depois vou pensar em como fazer para voltar ao nosso porão. Esse é meu plano. Planos me deixam feliz.
Primeiro passo: achar algo para calçar.
Estico o pescoço e dou uma olhada ao redor. Além de nós dois, vejo a cadeira do porão jogada a poucos metros de onde estamos. Alguns dos livros das prateleiras também estão sobre o gramado. E lá estão minhas pantufas!
Eu me viro para Jonah.
— Bem, calce-os. E amarre os cadarços dessa vez. — Fico aguardando. — Estão amarrados? — Sei que Jonah sabe como amarrar porque fui eu quem ensinou. E o ensinei da maneira certa, não do jeito que bebês amarram fazendo dois laços antes de entrelaçá-los.
Ele resmunga e amarra os cadarços com firmeza.
Bom. O primeiro passo está completo. Agora vamos ao segundo: voltar para o porão. Hum. Isso é mais difícil, mas nada que eu não seja capaz de resolver.
Acho que ajudaria se soubéssemos onde estamos.
Não podemos estar muito longe de casa, já que levou tipo um minuto para chegarmos aqui. Deve ter sido um tornado ou talvez até mesmo um terremoto. É, um terremoto! Um terremoto que nos jogou algumas quadras além da nossa casa! É! Talvez tenhamos batido a cabeça e desmaiado, e por isso já é de manhã!
Agora só preciso encontrar o caminho de volta para casa. Tenho que me concentrar.
Grrrr.
O que foi isso? Nada. Devo ter imaginado.
Crec.
Grrrrrrrr.
Meu coração acelera.
Grrrrr, crec.
Crec, grrrr.
Argh! Como posso me concentrar no segundo passo do plano com esses barulhos assustadores de animais famintos ao redor?
Grrrr, crec, grrrr, crec, grrrr, crec, crec!
Agarro a mão do meu irmãozinho e corremos.
Capítulo cinco
Esconde-esconde
Nunca imaginei que fosse capaz de me movimentar com tanta rapidez.
Se eu estivesse na escola brincando de pique — o certo ou o errado —, ninguém conseguiria me pegar.
Essa é a boa notícia relacionada a minha louca incursão com Jonah. A má notícia é que não faço ideia do caminho de casa, ou em qual região de Smithville estamos.
Também não sei o que está nos perseguindo. Mas adivinha só? Nossos pés velozes devem ter superado quem nos perseguia, porque não ouço mais nada vindo atrás da gente. Mas, novamente, talvez isso se deva ao fato de eu estar ofegando bem alto, barulho que está abafando todos os outros sons.
Sinto uma dor na lateral do corpo e paro.
Inclino-me para a frente e tento recuperar o fôlego.
Obedeço, e meu coração dá um salto quando vejo que é uma pessoa! Uma pessoa adulta do sexo
feminino!
Ela continua caminhando, se esgueirando entre as árvores. Será que não me ouviu?
Ela finalmente se vira. É bem velha — tipo da idade dos meus avós, mas sem o batom rosa-shocking que minha avó usa —, está vestindo uma capa preta e carregando uma cesta.
Aceno e sorrio.
Ela me olha. E continua andando.
Que grosseria. Adultos não devem ser grosseiros. Minha avó nunca agiria dessa maneira. O que devo fazer agora?
Boa, Jonah! Acho que ser insistente pode valer a pena.
Lanço meu sorriso mais charmoso. Dou uma cutucada em Jonah com o cotovelo para mostrar que ele deveria fazer o mesmo.
Ela faz uma careta e começa a caminhar novamente.
Minha avó nunca ignoraria duas crianças perdidas em uma floresta, mesmo se não fôssemos nós. Ela os levaria para casa, pediria que usassem um gorro e daria canja a elas.
Jonah interpreta o gesto como um “Certo, vamos seguir aquela senhora agora mesmo!”, e é o que faz. Eu hesito, mas logo estou correndo para alcançá-lo.
A Velha Malvada contorna uma árvore. Contornamos a mesma árvore, aí nos escondemos. Ela prossegue, nós também. Ela vira para a direita, e nós idem. Sorrateiramente, a seguimos por todo o caminho. Então, ainda mais sorrateiramente, nós nos escondemos. E seguimos e nos escondemos,
seguimos e nos escondemos.
— Espero que ela não esteja perdida também — sussurra Jonah enquanto se abaixa atrás de uma árvore.
Dez minutos depois, ela chega a uma estrada. Oba! Só que ainda não sei onde estamos. E por que Smithville tem florestas e caminhos no meio do nada? Esse lugar é tão esquisito. Primeiro soda em vez de refrigerante, e agora florestas estranhas.
Seguimos a senhora por mais uns cinco minutos até chegarmos a uma casa. É pequena. Está pintada de branco, tem flores plantadas no jardim; a casa é fofa, arrumadinha e acolhedora. Sinto um alívio no peito, pois a Velha Malvada sabe aonde está indo, afinal. Ela vinha para cá. E é melhor seguir uma senhora má que sabe para onde está indo do que não seguir ninguém, não é mesmo?
Puxo Jonah para trás de uma árvore quando a Velha Malvada começa a andar pelo charmoso trajeto de pedras que leva à casa.
Ela bate à porta. Uma vez. Duas. Ninguém atende.
Ela bate de novo.
E, finalmente, a cortina atrás de uma das janelas estremece.
Capítulo seis
Uma maçã ao dia
A cortina estremece, e a janela é aberta.
Tem alguém em casa! E definitivamente é uma garota. Não parece ser uma criança, mas também não soa como um adulto. Uma adolescente, talvez?
A velhinha tira uma maçã brilhante e vermelha do cesto. A fruta reluz sob o sol.
Se eu me inclinar, consigo ver uma parte do rosto dela. Seu cabelo é bem preto e a pele, muito branca, mas não um branco pálido tipo zumbi. Está mais para uma boneca de porcelana. Os lábios são muito vermelhos. Muito, muito vermelhos. Vermelho tipo sangue, mas — de novo — não um vermelho sangue nojento. Na verdade, ela é linda. E também parece familiar. É como se eu já tivesse visto a tal menina... Será que foi nossa babá em algum momento?
Jonah sai de trás da árvore tão rapidamente que não consigo alcançá-lo.
Ele desliza até a porta da frente.
Hum. Uma maçã vermelha. Uma menina de cabelos negros e pele bem branca dentro da casa. Uma sensação esquisita vem a minha mente. Como se meu cérebro estivesse fazendo curvas, como se eu devesse compreender alguma coisa.
A velha puxa a cesta dele com força e grita:
Sinto um formigamento na espinha. Tem algo estranho acontecendo. Eu me viro para a garota na janela.
— É você! — berra ela, apontando para a velha. — Você tentou me enganar com um disfarce! — A voz dela falha, como se estivesse assustada ou prestes a chorar, ou as duas coisas. — Ma-mas não deu certo, então, por favor, simplesmente vá embora!
Ela fecha a janela e puxa a cortina.
A mulher esperneia. Com a maquiagem derretida, não parece mais velha. Só estranha. O rosto está todo manchado, como se tivessem espirrado água em uma pintura. Ela murmura e diz um monte de palavras que minha avó nunca diria. Então sacode a maçã para meu irmão.
A velha derretida tira a capa preta, deixando um vestido longo e preto à vista. Então açoita a capa em direção a Jonah.
De repente, ela parece mais alta, e algo brilha na altura do seu pescoço. Parece um colar, e tem alguma coisa pendurada nele. Acho que é uma chave, mas não consigo enxergar direito para ter
certeza. Em seguida, ela cerra os punhos e os aponta para o céu — uma das mãos agarrando a maçã e a outra vazia —, rugindo como um leão. Ela pirou totalmente.
Lança um olhar ameaçador para meu irmão. Semicerra os olhos, dá dois passos até ele e murmura:
De que plano ela está falando, afinal de contas? Só porque tenho um plano, ela precisa ter um também?
Só que eu não tenho um plano. Não exatamente.
A velha dá uma risada que alcança notas agudas terríveis. Do tipo que faz um espelho não apenas tremer, mas quebrar.
Do tipo que assustaria qualquer um.
Ela joga a cesta no chão e se embrenha de novo na floresta. Sinto que meu irmão está tremendo.
Se Jonah, que ama aventuras, está com medo, então o mundo virou mesmo de cabeça para baixo. E, se o mundo virou de cabeça para baixo, isso me deixa no papel de corajosa, correto? Esse é um pensamento bastante assustador.
Pense, Abby. O plano. Qual é o próximo passo no plano? Espera aí! Eu sei! Vamos usar o telefone da garota. Sim! Ligar para casa! Pedir para mamãe e papai virem nos buscar. Se eles não puderem chegar aqui de carro, ainda podem tentar o espelho. Bato à porta. Uma. Duas vezes. Três. Não vou desistir.
Há um silêncio. Prendo a respiração.
Então, como se por milagre, a porta se abre com um estalo e finalmente vemos a garota. Ela parece
ter a mesma idade da minha prima, por volta dos 16 anos. É mais bonita do que me pareceu a princípio, apesar do cenho franzido vincando a pele branca.
— Vou me encrencar por causa disso — diz ela. Contrai os lábios vermelhos e abre mais a porta. — Mas tudo bem. Vocês podem entrar.
Capítulo sete
Oi, Branca de Neve
Tudo na casa é pequeno. Bem pequeno. Mesas pequenas. Cadeiras pequenas. Abajur pequeno. E está tudo tão arrumadinho. As almofadas do sofá estão afofadas e no lugar. A mesa está posta com perfeição. Garfo, prato, faca; garfo, prato, faca — oito vezes. A família dela deve ser grande. Bem, uma pequena grande família, aliás. Mas onde estão todos?
Branca? Que tipo de nome é esse?
Meu irmão belisca meu braço. Ai!
E aqui está quentinho.
Ele levanta as sobrancelhas.
Oooopa, estou confusa. Mas isso não é pretexto para me esquecer das boas maneiras.
Dou um suspiro. Quem não sabe o que é um telefone? Mas não digo nada. Seria muita grosseria comentar. Talvez ela estude em casa. Ou talvez seja uma dessas adolescentes que nunca podem ver televisão ou usar o celular.
Jonah me belisca mais uma vez.
Não posso levá-lo a lugar algum.
Sim!
Meu corpo inteiro dói. Meus pés estão queimando. Andar de pantufas não foi uma ideia muito boa. Se eu soubesse que teria que caminhar por uma floresta quando Jonah me acordou, teria colocado meus tênis. E amarrado bem os cadarços.
Eu me atiro no sofá. Estou tão cansada. Mas é difícil me sentir confortável ali. As almofadas são tão pequenas. Quem cabe num sofá desses?
Jonah se espreme ao meu lado. E saltita sentado.
Qual é o problema dele? Será que nunca fica cansado?
Os pais dela devem ser neuróticos com saúde também.
Finalmente algo que pode ser importante.
Deixo escapar uma risada.
Esfrego a testa, porque o que ela diz faz sentido e ao mesmo tempo não faz. É como se estivessem me entregando peças de um quebra-cabeça, uma e depois outra e depois outra. E, se eu não estivesse tão cansada, provavelmente conseguiria juntar as peças e entender alguma coisa.
Ele ficou de bico fechado por mais ou menos um minuto. Nada mal para Jonah. Espere aí. O que ele acabou de dizer?
Madrasta. Maçã.
Disfarce. Veneno.
De repente, estou totalmente acordada.
Capítulo oito
Definitivamente, não estamos mais em Smithville
Olho ao redor da cabana e vejo os móveis pequeninos.
Penso na maçã e na mulher disfarçada. Na madrasta disfarçada.
Branca de Neve só existe nos contos de fadas. Isso significa que, se essa aqui for realmente a Branca de Neve, então eu e Jonah também estamos em um… em um… não faz o menor sentido. Ninguém cai dentro de um espelho e vai parar em um conto de fadas.
Não, que convença a ele!
Eu não quero, mas obedeço. Observo a menina na minha frente:
Exatamente como na história.
Olho para o interior da cabana. Sofá pequeno. Mesa pequena. Cadeiras pequenas. Para pessoas pequenas. Exatamente como na história também.
Volto-me para Jonah:
Estou encarando Branca de Neve. A verdadeira Branca de Neve. Estou na sua sala de estar.
Por isso ela parecia tão familiar. Eu tinha uma camiseta estampada com o rosto dela! E não teve uma vez, no Dia das Bruxas, em que me fantasiei de Branca de Neve? E espere aí… seu rosto aparece na minha caixinha de joias também! A que fica na minha penteadeira. É da Branca de Neve com outras princesas de contos de fadas, mas definitivamente é ela ali. E acho que até está vestindo a mesma roupa, a saia rodada e o corpete acinturado.
Uma excelente pergunta.
Ficamos os três em silêncio. Estou achando tudo isso muito confuso, mas ao mesmo tempo não consigo evitar a empolgação. Porque AI MEU DEUS, isso é muito legal ou o quê? Estou ao lado da Branca de Neve! Estou dentro de um conto de fadas!
Branca suspira.
Ouvimos então um barulho vindo de fora, e a porta se abriu. Um homenzinho. Dois homenzinhos. Três.
A voz dele é bem alta.
Tara, Enid e Frances? Três dos anões eram mulheres? Pelo que me lembro, a história não é assim. Talvez o conto nunca tenha especificado se eram homens ou mulheres, então simplesmente supus serem homens. Ops.
E definitivamente não se parecem com os anões do filme da Disney. Nada de Soneca, Feliz e Atchim por aqui.
Meu coração falha por um segundo. Os anões são um pouco assustadores. Empurro Jonah para trás de mim a fim de protegê-lo.
Ele tira meu braço do caminho.
Branca concorda comigo, assentindo.
Tara puxa as tranças. Bob puxa a barba.
Jon continua sendo lindo.
Alan faz que sim com a cabeça.
Jonah fica empertigado.
Pobre Branca de Neve. Eu me viro para meu irmão.
Mas havia um problema: eu me lembrava do caminho de volta? Devia ter deixado migalhas de pão pelo caminho, como fez Maria, de João e Maria. Ei, e se todas as pessoas dos contos de fadas se conhecem?
Imagino que uma menina abandonada e pobre não conheceria uma princesa.
Estou com alguma fome. Andamos mesmo muito hoje.
Sou a irmã mais velha e a responsável. É meu dever garantir que reponhamos as energias antes de seguir em outra jornada.
Para completar, há animais grunhindo lá fora. E madrastas em busca de vingança.
Capítulo nove
E assim caminha a história
Branca de Neve. — Eu me viro para os anões. — Mas vocês definitivamente estão na história.
Pelo menos, acho que foi Bob quem falou. Não consigo ver seus lábios se mexendo por baixo
daquela barba toda.
Frances semicerra os olhos para nós.
Então como saio daqui e vou para Smithville?
Olho para meu irmão e dou de ombros. Acho que posso contar a eles, já que, hum, a história é sobre eles mesmo. Mas não tenho certeza se me lembro dela direito. É a quinta história do livro Contos de fadas que fica na biblioteca. Só li as duas primeiras hoje, e não ouço essa desde que nos mudamos.
— Era uma vez… — paro. — Há alguns anos existia uma rainha. — E depois? Hum. Ah! — Ela cortou o dedo. Então algumas gotas de sangue caíram na… — Esqueci onde elas caíram. Como era mesmo? Ah, certo! — Na neve. E a rainha achou que a combinação entre o sangue e a neve era muito bonita. Espere. Era a combinação do sangue, da neve e de mais alguma coisa também, algo preto. Jonah, você se lembra da importância do preto e de onde ele veio?
Ele balança a cabeça.
Jonah não se envolvia nas histórias da vovó como eu. Em vários momentos, o olhar dele parecia vazio. Ele gostava mais de brincar do que de ouvir.
Uma lágrima escorre pela bochecha de Branca.
Ahhhh. Pobre Branca. Estendo o braço e toco a mão dela.
Branca revira os olhos.
Branca solta um uivo.
Todos na mesa engasgaram. Bob se vira para Branca:
Bob bate o punho na mesa.
Claro, disso ele se lembra.
Stan resmunga por baixo daquele dentão.
Como mais um pouco do cozido. Que nojo. Os anões devem gostar da companhia de Branca, porque a comida é nojenta.
Olho para Branca.
Os olhos dela se enchem de lágrimas de novo.
Todos com exceção de Jonah.
Branca pega o prato de Jonah.
Chegamos em casa e a encontramos jogada no chão. Tiramos as cordas bem a tempo.
Todos engasgam mais uma vez.
Eu concordo com a cabeça, incapaz de pronunciar as palavras. Há um momento de silêncio.
Talvez devêssemos mesmo. Salvamos Branca de Neve. Somos incríveis. Somos heróis! Heróis de verdade! Um viva para a gente!
Quero dizer, o que vai acontecer.
Gamel e Zamel? Isso é sério?
Hummm. Tem só um probleminha com essa comemoração. Branca não comeu a maçã.
O que quer dizer que ela não se envenenou.
E, se ela não se envenenou, então ela não morreu.
E, se ela não morreu, o príncipe provavelmente gatinho não a ressuscitou.
Então ela provavelmente não vai se casar com o príncipe provavelmente gatinho. E isso significa que provavelmente Jonah e eu destruímos a vida dela.
Capítulo dez
Opa
Jonah contorce o lábio inferior.
acontece: Branca perde seu príncipe! E precisa ficar na casa dos anões, limpando e cuidando deles. Pelo restante da vida. Simplesmente não é justo. Juízes são as pessoas que fazem justiça, e é o que vou fazer. — E não é justo que Evelyn Vilã consiga se livrar sendo tão vilanesca. Na sua história, ela é punida.
Branca estremece.
Frances concorda com a cabeça.
Não consigo não rir quando ouço o nome do cavalo. E… um cavalo pode ser genial? Pessoas, tudo bem. Talvez eu seja. Mas um cavalo chamado Yopopa? Duvido muito.
E como saber quem poderia? E como saber o que está acontecendo na minha casa? Olho o relógio no meu pulso. São meia-noite e quinze. Como pode? Faltavam alguns minutos para meia-noite quando fomos sugados pelo espelho. E ficamos vagando por aí por pelo menos algumas horas. Talvez o relógio tenha parado porque a bateria acabou? Ou talvez porque o tempo parou lá em casa. Bem, por que não? Faz tanto sentido quanto qualquer outra coisa. Quando finalmente chegarmos em casa, chegaremos na mesma hora em que saímos e meus pais não vão nem perceber que estivemos fora. Perfeito!
Olho pela janela e percebo que está bem escuro lá fora. E assustador. E, de qualquer modo, não
posso ir embora sem descobrir como consertar a história da Branca de Neve. Simplesmente não posso. Não seria justo.
Olá, festa do pijama dos contos de fadas!
Infelizmente, Alan se esqueceu de avisar que eu e Jonah teríamos que dividir a cama.
Meus pés estão pendurados, e os do meu irmão estão próximos demais da minha boca. Estamos dormindo em lados opostos de uma minicama-de-anão no quarto de Branca.
Como vou conseguir dormir assim? E eu preciso dormir. Estou muito cansada. Passei zilhões de horas acordada. Tá bom, é exagero meu. Na verdade, nem sei por quanto tempo estou acordada, afinal meu relógio parou de funcionar. Mas sei que preciso descansar um pouco se realmente quiser inventar um plano para consertar a história de Branca. E depois disso dar um jeito de nos levar para casa.
Podemos sair para explorar? Quero ver crocodilos. E dragões. E piratas. E…
Suspiro. Eu me sinto tão mal por ela. Precisamos consertar sua história. Não é justo! Por que Branca precisa limpar e cozinhar para os anões quando deveria ter o próprio palácio? Por que Evelyn Vilã deveria se safar de seu comportamento vilanesco? E o príncipe? Se não consertarmos a história de
Branca, ela nunca vai conhecê-lo, nunca vai se apaixonar por ele, nem viver feliz para sempre.
Ela já tentou me matar três vezes.
Verdade.
Branca estremece.
Então espero que use de novo.
Ufa. Estou me sentindo bem melhor agora. Tudo vai continuar como era. É um plano perfeito. Sou muito boa com planos. Tenho certeza de que é preciso ser boa com planos para ser juíza. Porque assim é possível planejar como as pessoas serão punidas e tal.
— Perfeito — digo, animada. — Posso apostar então que ela virá amanhã. — Maravilha.
Cuidaremos de tudo amanhã.
Um: consertamos a história de Branca. Dois: damos um jeito de voltar para casa.
Capítulo onze
Todo mundo gosta de biscoito
Todos os anões estão no trabalho quando ouço uma batida à porta. Não sei ao certo o que eles fazem, mas parecem bastante dedicados.
Ela fica ainda mais branca que o normal.
A história nunca mencionou nada sobre o veneno provocar dor, certo?
Dou uma olhada através da cortina, esperando ver a velhinha do dia anterior, mas, em vez disso, há uma jovem parada ali. Ela usa um vestido branco e maria-chiquinha. Carrega um prato com biscoitos de aspecto grudento.
Em vez de se calar, ele saltita.
Branca inspira profundamente.
Como a porta é do tipo que abre para dentro, ela bloqueia um pouco minha visão. Ainda consigo ver pela janela, entretanto. Há um brilho perverso nos olhos da garota. Também posso ver suas sardas. Evelyn Vilã caprichou neste disfarce. Tenho certeza de que ela arrasa na noite de Dia das Bruxas.
A rainha praticamente esfrega o prato de biscoitos no nariz de Branca.
Meu estômago ronca. Eles realmente têm um cheiro muito bom. Eu meio que quero um biscoito.
Principalmente porque não comi meu mingau todo.
Nada de biscoito envenenado! Nada de biscoito envenenado!
Dou uma bufada. Não acredito que a rainha ache que Branca cairia na mesma história. Está bem
óbvio que ela não é tão esperta assim. Hum. Mas eu também quase caí.
— Tu-tudo bem — diz Branca. — Vou comer. Vou pegar um. Vou pegar um. Aqui vou eu. — Ela sai para pegar um biscoito e, lentamente, muuuuito lentameeeente, o leva à boca.
Não tem volta agora! Ela vai morder o biscoito. A história vai continuar sendo como deveria.
Problema resolvido. Agora tudo que precisamos fazer é pensar em como retornar para casa.
Branca abre a boca e dá uma mordidinha. E é aí que vejo.
A garota esconde um martelo às costas. Um martelo.
Um martelo?
Ela levanta o martelo e inicia um movimento em direção à cabeça de Branca. Nãããããooooo! Não é esse o plano! Não tem martelo algum no meu plano!
Pulo na direção de Branca e a tiro do caminho. Caímos as duas no chão. Branca cospe o biscoito.
Ao mesmo tempo, o martelo da garota voa e erra o alvo.
A maquiagem começa a derreter, e já dá para ver Evelyn Vilã por baixo do disfarce. E, sim, ela de fato está usando uma chave presa a uma corrente no pescoço. Pra que aquilo, afinal? Ela precisa dar corda em si mesma feito uma caixinha de música ou coisa assim?
Evelyn Vilã sacode a unha comprida e pintada de preto na minha cara. Hum. Não vou ser enganada mais uma vez. Se aquela chave não a entregasse, as garras certamente o fariam.
Antes que ela pudesse me acertar com o martelo, chuto a porta com o pé descalço. Evelyn Vilã tenta mantê-la aberta.
Na segunda batida, as dobradiças quase se soltam.
— Boa ideia — digo. — Traga mais! — Nós três pegamos a mesinha de jantar e as cadeirinhas. São muito mais leves (e menores) do que eu gostaria.
Eu empurro, Branca empurra e meu irmão empurra. Não vamos — não, não vamos mesmo — deixar Evelyn Vilã entrar! Do outro lado, ela grita, resmunga e martela. Bloqueamos a porta com todos os móveis e utensílios que conseguimos encontrar. O cesto de lixo. Cadeiras. Uma panela grande. Felizmente, as janelas também são proporcionais aos anões. De jeito nenhum Evelyn Vilã conseguiria passar por uma delas.
Eu nunca jogaria água fervente em alguém. Mas Evelyn Vilã provavelmente acha que todos são tão malvados quanto ela.
Há uma pausa.
Não me sinto muito bem.
— Mas e se ela voltar com um canhão? Ou com um dragão? E se ela continuar voltando até terminar o que pretende? — penso em voz alta.
Precisamos salvar a história de Branca. Antes que não sobre Branca alguma para ser salva.
Capítulo doze
Pulando a poça
Depois que nosso plano com o biscoito envenenado falhou, retorno à floresta e tento refazer nossos passos. Não que esteja pronta para voltar para casa. Não posso ir embora de Zamel antes de descobrir
como voltar a história de Branca para o ponto em que estava. Ela é tão legal. Merece um final feliz. Não é justo que não consiga tê-lo por nossa causa. E, assim que a história for consertada, quero fugir daqui o mais depressa possível. Acho que o tempo parou em Smithville, mas e se não tiver parado? Não quero que meus pais fiquem preocupados.
Porém primeiro consertaremos a história. TEMOS que fazer isso. Se não fizermos, Evelyn Vilã poderia voltar e matar Branca de verdade.
Não posso permitir que isso aconteça. Branca não pode MORRER por nossa causa. Sinto frio e enjoo só de pensar nessa possibilidade.
Ele aponta para uma pilha de objetos no chão:
daquela árvore.
Ah. Tá.
Nós três corremos em direção à poça.
— Espere — digo. — Mas e se funcionar? Ainda não podemos voltar para casa. — E se a poça nos puxar e formos parar em nosso porão de novo? — Ainda não consertamos a história da Branca de Neve.
E se ela for puxada conosco? Como vou explicar para meus pais?
Não que eles fossem se importar. Ela é realmente legal. E sua comida pode ser meio nojenta, mas ela limpa muito bem. Podia até ficar no meu quarto. Poderíamos ser melhores amigas — ela poderia ser a irmã mais velha que eu não tive, mas que sempre quis ter. Isso! Ela me emprestaria suas roupas, faria tranças no meu cabelo e me ensinaria a plantar bananeira.
Só que ela não poderia mandar em Jonah. Essa função é minha. Ela não poderia mandar em mim também.
Talvez, na verdade, eu não queira uma irmã mais velha.
Jonah se ajoelha. E vejo quando ele cerra os dedos. Aí bate uma vez. Ou ao menos tenta bater. E, em vez disso, acaba enfiando o punho na água suja.
Branca e eu damos risadas. Jonah parece confuso. Então diz:
E o faz. Splash. E rimos de novo.
— Não — peço. — Não vamos arriscar. — E se a água estiver marrom demais para vermos que na verdade está roxa? E se a parte do assovio não estiver funcionando? A coisa toda ainda poderia funcionar na terceira batida, e aí seríamos sugados para casa!
Tarde demais. A mão de Jonah atinge a poça. Splash! Nada de roxo. Nada de assobio. Só a mão cheia de lama.
Ufa. Felizmente.
Branca balança a cabeça.
Fico de queixo caído. É claro! Evelyn Vilã tem um espelho mágico! Foi assim que Branca se envolveu nessa confusão toda, aliás.
Branca balança a cabeça.
Tenho um no meu porão.
— Veio com o castelo — explica ela. — Passa de uma rainha para outra. — Os olhos dela ficam cheios de lágrimas. — O espelho era da minha mãe.
Posso sentir as lágrimas em meus olhos também. Tadinha da Branca de Neve. Não tem mãe. Nem pai.
Sinto um nó no estômago. Sinto saudade dos meus pais. Muita saudade mesmo. E se eu estiver errada sobre o tempo ter parado na minha casa? E se neste instante ele estiverem sentindo saudade de mim também?
Branca fica ainda mais branca de medo. Algo bem impressionante, já que ela é, bem, branca como a neve.
Jonah arregala os olhos.
No caminho de volta para o chalé, Branca diz:
Espere, acho que não é exatamente isso que ele diz.
Branca parece chateada.
Ela enrosca o cabelo no dedo.
Ela anda por alguns instantes sem dizer nada.
Ela arregala os olhos.
ideia?
Ela apruma os ombros e endireita as costas, parecendo mais alta.
Eu paro de andar e olho para ela.
Ela morde o dedão.
Alguns minutos mais tarde, estamos de novo chalé, batendo no espelho de Enid.
Nada acontece.
Batemos também em todos as panelas que refletem, só por garantia. Nada. Nenhum assobio ou roxo em lugar algum.
Ele dá de ombros.
Capítulo treze
As colinas têm vida
Na manhã seguinte, antes de sairmos, pergunto a Branca se eu e Jonah podemos pegar algumas roupas emprestadas.
— Também precisamos de um banho, mas as banheiras daqui me dão arrepios. E é preciso trazer a água para o banho. Usar o banheiro que ficava do lado de fora da casa já era terrível o suficiente.
Dez minutos depois, estou vestindo uma saia azul, uma blusa cor-de-rosa e sandálias de Branca de Neve. Ela também me emprestou um laço vermelho, o qual estou usando para prender o cabelo como uma faixa. Jonah pegou emprestado de Alan calças e uma camisa com estampa xadrez. Embora Alan fosse o mais alto dos anões, as calças paravam na altura dos joelhos de Jonah. E a camisa estava tão apertada que os botões pareciam prestes a estourar.
— Estou preparando sanduíches de carne ensopada para todos — avisa Branca. — Sobrou tanto ensopado que consegui fazer sanduíches para a semana toda. Temos toneladas deles!
Senhoras e senhores do júri. O que é mais nojento: sanduíches de carne ensopada ou sanduíches de banana amassada? Escolha difícil, hein?
Jonah se oferece para carregar os sanduíches em uma sacola de couro que pegou emprestada de Bob. A bolsa tem duas alças, então ele a usa como se fosse uma mochila.
Os anões concordaram com o plano de Branca e construíram uma urna para ela. Existe um lugar em uma colina próxima do qual eles gostam muito, então imaginam que seria onde colocariam a urna
caso Branca tivesse sido de fato envenenada. Infelizmente, não sabemos ao certo e, por isso, precisamos fazer o melhor possível.
Não estou feliz fazendo o melhor possível.
Eu preferia saber exatamente onde deveríamos estar.
Uma vez que carregamos a urna até o topo da montanha, os anões nos desejam sorte e vão trabalhar.
O plano é: Branca, Jonah e eu aguardaremos até começar a anoitecer, porém iremos embora antes que fique escuro demais. Não é como se o príncipe fosse aparecer no meio da noite. Espero. Ainda assim, à noite ele não conseguiria enxergar Branca, nem mesmo sob a luz da lua.
Branca sobe na urna. Ajeito o cabelo dela e deixo a tampa da caixa aberta. Ele precisa vê-la, certo? Branca pega um livro. Se chama Legislação imobiliária básica.
Ei!
Crec.
Grrrrhhh.
Grrrrrrrrrhhhhhhhhh.
Jogo-me de forma louca em cima dele. Vou salvá-lo! Vou impedir que a besta maligna devore meu irmão! Farei o que for necessário!
A besta que urra sai de trás da árvore. É um porco selvagem.
O porco dá uma olhadinha em nós e, então, sai apressado.
Ele esperneia, porém obedece. Aguardamos. E aguardamos.
Com um graveto, desenho a grade do jogo da velha na terra e faço um gesto para que Jonah comece. Ele ganha. Depois eu ganho. Então ele ganha de novo.
Seria bom se um dicionário tivesse vindo até a terra dos contos de fadas. Branca poderia estudar isso também.
Estou bem.
Venha, saia daí.
Branca sai da urna e se alonga. Nunca que aquela caixa pode ser confortável. Nós três deslocamos a urna alguns metros para a esquerda a fim de que fique embaixo de uma árvore. Então ela volta lá para dentro.
Dou uma bufada. A menina que vive dentro de um conto de fadas está me chamando de sortuda?
Por causa do meu irmão? Do meu irmão-tão-irritante?
Olho para Jonah, que está construindo uma torre de gravetos. Ele tem uma expressão determinada, e seus lábios estão contraídos daquele jeitinho que ele costuma fazer.
Jonah deve ter percebido que eu olhava para ele, porque levantou a cabeça e me lançou um grande sorriso. Um sorriso adorável.
Ahhhh. Ele é fofo.
É claro que ele sabe ser irritante, mas estou feliz por tê-lo aqui comigo. Faz com que Zamel — e qualquer outro lugar, para ser sincera — se torne um pouco mais divertido.
Branca ensina a mim e ao meu irmão como plantar bananeira. Jonah aprende de primeira. Eu demoro um pouco mais.
Estamos nos divertindo tanto que mal percebemos quando começa a escurecer.
cabeça para baixo.
Então vamos embora.
Já é outro dia. Meu relógio mostra que são quase três da manhã no mundo real. Ainda temos quatro horas reais pela frente. E quatro dias Zamel para voltar para casa.
Escalamos até a clareira novamente. Desta vez carrego um cantil imenso de água. Branca coloca mais sanduíches nojentos de carne ensopada na bolsa que Jonah pegou emprestado.
Quando chegamos à clareira, Branca aponta para a urna.
Não foi só culpa dele eu não ter dormido. Não consigo dormir quando estou preocupada. E eu estou preocupada. Preocupada com essa coisa de encontrar o caminho para casa. De salvar a história de Branca de Neve. De salvar a vida dela.
Espere um instante. Eu me viro para Jonah:
Branca dá um berro. Ah! É tarde demais!
Branca se levanta de repente, as pontas dos cabelos queimadas como se ela tivesse ficado muito perto do fogo.
Corro até ela, levanto o cantil e derramo água em sua cabeça. Seu cabelo chia.
Capítulo catorze
Ele chegou, ele chegou... ele se foi
Meu estômago está embrulhado. Estamos esperando faz dois dias.
Para ajudar a passar o tempo, ensinamos a Branca como brincar de pique.
Dou uma olhada para ele.
Brincamos de pique normal. Não é tão legal com apenas três pessoas. Mas tenho certeza de que pique-congela seria ainda menos divertido. Então ficamos entediados. Branca volta a ler Legislação imobiliária básica.
Jonah fica cutucando o chão com um graveto.
Confiro meu relógio de novo. Em casa já passa das três. Não temos meses para ficar aqui esperando. Ainda que os meses na terra dos contos de fadas equivalham a apenas alguns dias do mundo real, não podemos deixar que nossos pais saibam que estamos desaparecidos. Eles vão chamar a polícia! Vão pendurar pôsteres de “Desaparecidos” com nossas fotos pela cidade. E vão morrer de preocupação. Giro um galho nos dedos.
Balanço a cabeça negativamente.
Dou uma bufada.
Jonah dá uma gargalhada.
Branca morde o lábio.
que precisam dele no castelo.
Na terra dos contos de fadas, uma carta é enviada através de um carteiro a cavalo. Escrevemos e enviamos a carta para o príncipe, pedindo que ele venha até o palácio de Zamel imediatamente. Então aguardamos.
E aguardamos. E aguardamos.
Chaaaaaaaatooooooo.
Dois dias depois, meu relógio mostra que são cinco horas na minha casa. E ainda estou sentada na floresta, de pernas cruzadas, esperando.
Mais duas noites com o pé de Jonah na minha cara.
Mais duas noites comendo o mingau nojento e o cozido nojento feitos por Branca. Mais duas noites longe do meu pai e da minha mãe.
Gosto de ficar com Branca e gosto de ficar com os anões à noite, mas estou com saudades dos meus pais. Sinto falta da minha cama. Talvez até sinta falta de Smithville. Definitivamente sinto saudade do meu sofá. Ficar esse tempo todo sentada na floresta está me deixando com dor no bumbum. E não quero nem falar sobre as formigas tentando subir pelas minhas pernas.
Olho para meu irmão, que está fazendo uma careta para um monte de pedras. Até ele está começando a parecer um pouco, bem, impaciente.
Sei que preciso tentar consertar a história da Branca de Neve. É a coisa certa a se fazer. Mas não podemos aguardar muito mais. Precisamos descobrir como voltaremos para casa.
Bum. Bum. Bum. Um estrondo soa à distância. Meu coração acelera.
Branca deve correr para a urna. Jonah e eu devemos subir em uma árvore. Isso aí, subir em árvores. Uma das habilidades aprendidas enquanto ficamos vagando pela floresta. Jonah sabe como fazer. É parecido com escalar pedras. Só que mais fácil. Branca não tentaria. Ela tem medo de altura. Mas pelo menos não é claustrofóbica. Isso seria bem ruim, pois ela precisou passar grande parte do tempo dentro de uma urna nos últimos dias.
Branca volta correndo para a urna. Ajudo Jonah com um impulso, e ele sobe até o topo da árvore.
Ouvimos cascos de cavalo batendo ao longe.
Vejo um rapaz em um cavalo marrom. Ele tem cabelos louros, parece alto e é bem bonito. Usa uma coroa e uma capa vermelha. Deve ser o príncipe. Parece um príncipe. Não que eu já tenha visto um príncipe de verdade, mas ele parece bem principesco para mim.
Ele está cavalgando em direção à urna. Agora está a menos de 1 quilômetro de distância! Cerca de 800 metros agora! Poucos metros agora! Ele está desacelerando! Está olhando para a urna! A qualquer momento agora! A qualquer momento ele verá Branca e se apaixonará por ela! A história vai continuar como deve ser!
Espere. Ele não está parando. Por que ele não está parando? Ele está acelerando. Está indo embora.
Está partindo a galope. Como é que é?
A poeira voa para todo lado enquanto ele passa por nós.
Eu me seguro em um galho e, com todo cuidado possível, pulo da árvore.
Mas ele não me ouve. Como assim, ele está ouvindo música no iPod ou algo assim? Não, com certeza eles não têm iPods por aqui. Um Walkman talvez?
Sei que era ele. Tinha que ser. O que aconteceu então?
Nós corremos até a caixa. Está vazia.
Nada de Branca.
Guinchhhh.
Hein? O que foi aquilo? Jonah puxa meu braço e aponta para uma árvore. Uma manga branca desponta de trás do tronco.
Guinchhhh.
Suas bochechas estão rosadas.
O que eu vou fazer com essa menina? E agora? O príncipe — assim como a oportunidade — se foi. E agora que não encontrou Branca na urna, ele não vai se apaixonar por ela. A história da Branca de Neve vai ser totalmente diferente! E o destino?
Olho de relance para meu irmão.
Ele chuta uma pedra.
Ela fica ainda mais pálida.
Ela cruza os braços.
Bato o pé no chão. Estou zangada. Tão zangada. Em vez de voltar para casa para ver minha família, estou dividindo a cama com meu irmão e vivendo no meio da floresta para tentar ajudar Branca de Neve. E ela nem mesmo quer ser ajudada. Se ela não se importa em conseguir seu final feliz, por que eu deveria me importar? Não deveria. Eu deveria apenas ir para casa. É quase de manhã! E se o tempo não tiver desacelerado na minha casa? E se meu relógio simplesmente estiver quebrado? Quebrado tipo com defeito e não só parado. E se mamãe e papai estiverem procurando por nós há dias? E se estiverem tão preocupados a ponto de ficarem realmente doentes e precisarem parar no hospital?
Capítulo quinze
A casa da Branca de Neve
Estamos escondidos atrás de uma árvore. Aguardando.
Evelyn Vilã está a caminho do massagista. Branca nos explica que ela faz massagem nas costas duas vezes por semana. Aparentemente, ser malvada é estressante.
Cavalgamos com Yopopa, o cavalo, em direção aos portões do castelo. Para nossa sorte, é um cavalo imenso, e nós três cabemos em seu lombo. Estou atrás, Jonah no meio e Branca de Neve segura as rédeas. Jonah implorou para ficar na frente, mas não tínhamos tempo para Branca ensiná-lo a guiar e coisa e tal. Quero ir para casa. Agora. Já deu!
A não ser por…
E não é culpa dela sua história ter ficado tão enrolada, para começo de conversa.
você sabe se não vou ter meu “felizes para sempre” no fim das contas? Posso continuar a ter algumas ideias também, sabe.
Uau. Esta é mesmo a doce e frágil Branca de Neve? Ela está ficando mais durona!
E é mesmo. Um castelo lindo e gigantesco. Com guardas, uma ponte levadiça e um fosso.
A ponte é bem comprida. Mais de 5 metros de comprimento e uns 3 de largura. E está pendurada ao castelo por correntes bem grossas. Seria legal se tivéssemos uma ponte levadiça em casa. Temos apenas arbustos e uma porta de tela que range. Se bem que a ponte dificultaria bastante para fazer amigos.
Estamos tentando invadir um castelo. Quais são as chances de isso dar certo?
Eu estava preocupada, achando que poderia ser muito perigoso caso Branca viesse conosco, mas ela disse que queria ajudar. Além do mais, é ela quem sabe andar dentro do castelo. E a rainha nem está aqui. Em relação aos demais moradores, não sabemos direito se eles têm noção do que aconteceu com Branca. Será que acham que ela morreu? Ou acham que está escondida? Vai saber o que Evelyn Vilã disse a eles.
Decidimos disfarçar Branca, só por garantia. Enid emprestou um chapéu cor-de-rosa pontudo, que usamos para esconder o cabelo, e eu cobri os lábios muito vermelhos da princesa com um pouco de farinha. E ela está usando meu pijama verde-limão em vez de um vestido. Não é um disfarce tão bom quanto os da rainha, mas deve resolver.
Estamos prontos. Branca até nos preparou mais uma cesta de piquenique com sanduíches de carne ensopada. Eca. Para o almoço e para o jantar. Jonah os está carregando na sacola que pegou emprestado. De novo. Os sanduíches estão meio fedorentos.
Chegamos ao guarda parado ao lado da ponte. Felizmente, a ponte ainda está abaixada, pois a rainha acabou de sair.
Arnaldo é bem grandão. Bem, bem grandão. E está usando uma arma com a ponta afiada para coçar as sobrancelhas negras e cabeludas.
Tudo bem, menti. Isso não é legal, eu sei. Mentir é ruim. Mas precisamos entrar no castelo, e parece ser o melhor a fazer. Branca disse que decoradores entravam e saíam do castelo, então concluímos que se nos identificássemos assim, ninguém prestaria muita atenção na gente.
Arnaldo nos encara. Depois olha mais demoradamente para Branca. Dá pra notar que ele está olhando com atenção. Seu olhar vai e volta pelo menos umas cinco vezes.
Sinto um frio na barriga. Ele a reconhece.
Amarramos Yopopa em uma árvore próxima, então cruzamos a ponte levadiça e nos aproximamos do palácio.
Há um imenso cadeado dourado na porta.
Uma empregada bonita de cabelos negros e uniforme cinza atende a porta.
— Ah — diz Madeline, franzindo a testa. — Estávamos esperando vocês daqui a uma hora. — Ela lança um olhar esquisito para Branca. — Eu conheço você?
Dou um beliscão nela. Que furo!
Mas Madeline parece acreditar, pois nos conduz à sala de estar.
O ambiente inteiro está decorado com listras. O chão de mármore tem listras pretas. O teto tem listras roxas. Minhas pantufas combinariam direitinho com o lugar. Dá para entender por que Evelyn Vilã quer redecorar. Estou aqui há quatro segundos e já estou com dor de cabeça.
Sério?
A cozinha é toda vermelha. Pia vermelha, mesa vermelha, tigelas vermelhas. Sinto que estou presa em um pote gigante cheio de gelatina de cereja.
Esperamos ela sair antes de nos esgueirarmos cozinha afora. Seguimos Branca por dois lances de escadas em espiral.
— É aqui — diz ela ao final de um corredor longo e sombrio. — O quarto dela. — Ela empurra a porta, e nos arrastamos lá para dentro.
O espelho está pendurado na parede.
Capítulo dezesseis
É só isso?
Oespelho é do meu tamanho, e a moldura é dourada. Se eu não soubesse que ele é capaz de falar, o consideraria um espelho bem comum. Mas aí percebo uma fada entalhada no canto superior direito da moldura. Hummm. Talvez não seja tão comum assim.
Espero que ele saiba como nos mandar de volta para casa. Jonah corre na direção do espelho e bate no vidro.
A princípio nenhuma resposta, mas logo uma voz bem alta grita lá de dentro:
Definitivamente o tom é de irritação, mas não consigo identificar se é uma voz masculina ou feminina. Dois olhos azuis zangados surgem no reflexo. Não há nariz, lábios ou queixo. Só os olhos.
Jonah congela.
Esse espelho é dos meus. Sei lidar com regras. Então me viro para Branca:
exemplo: “Espelho, espelho meu, como vai você?”
Reviro os olhos.
Não tenho um bom pressentimento quanto a isso.
COMO É? Agora nós três engasgamos.
ARGH! Isso não é bom. Dou uma olhada no meu relógio. Faltam poucos minutos para as seis em Smithville. Temos que voltar para casa. Meus pais vão levantar em menos de uma hora! Temos que voltar HOJE. Mas o príncipe está nas masmorras. Por nossa causa. Foi ideia minha escrever aquela carta para ele. A culpa é minha.
Branca pousa a mão em meu braço.
Não posso ir para casa sabendo que alguém está em um calabouço por minha culpa. Meu coração dá um salto.
Sério? Não há tempo para “Espelho, espelho meu”!
um guarda-roupas, uma mesa e uma cama de dossel. — Jonah, por acaso você tem uma corda na mochila?
Ele balança a cabeça.
Ele olha pelo quarto também.
— Tem razão — diz Branca, que me ajuda a desarrumar a cama. — E agora? — pergunta ela quando terminamos.
Tum, tum, tum. Passos ecoam da escada.
Ouvimos a voz de Evelyn Vilã à medida que ela atravessa o corredor.
Parece que Branca vai desmaiar, mas eu a incentivo. Ela precisa ser a primeira porque é mais pesada, e Jonah pode me ajudar a segurar o lençol enquanto ela desce. Além disso, eu a quero no chão caso Jonah precise de ajuda. Jonah e eu seguramos o lençol com tanta força que os nós de nossos dedos ficam brancos.
Branca hesita.
Ela respira fundo e passa pela janela. Escorrega até quase o fim do lençol e depois se balança no ar a alguns metros do chão.
Ela fecha os olhos, e não tenho certeza se isso ajuda, mas ela pula. E cai de bunda no chão. Uma
expressão assustada toma seu rosto, e em seguida ela sorri.
Ele franze o rosto.
Branca acena para ele do chão, e o medo percorre minha espinha num arrepio. Ele vai ficar bem, certo? Tem que ficar! Dou-lhe um breve abraço. Jonah sobe na janela e escorrega pelo lençol. Então pula até o chão, com um sorriso imenso.
Agora é a parte complicada. Tenho que descer.
Branca e Jonah estão de frente um para o outro, esticando o lençol o quanto podem para que eu tenha espaço para pousar.
Olho para baixo. Ai, ai, ai. Consigo mesmo fazer isso? Eu me viro para o espelho.
Porcaria. Desarrumamos a cama. Ela vai perguntar. Ouço a maçaneta girar. Ela chegou! Está entrando! Tento mirar o melhor que consigo e…
Pulo.
Capítulo dezessete
Aterrissagem suave
Estou voando! Estou voando! É sério, estou voando mesmo!
Tá, talvez não voando voando, já que estou indo para baixo, e não horizontalmente. Sempre que me imagino voando, geralmente plano pelos céus em vez de me esborrachar no chão. Mas ainda assim.
Iei!
Bump. Caio no lençol e, quando me dou conta, estou toda embolada nele. Tem cheiro de naftalina. Você pode achar que uma rainha elegante faria com que suas coisas tivessem cheiro de flores ou pelo menos amaciante. Quando tiro o lençol da cabeça, eu a vejo na janela.
Antes que qualquer um dos guardas percebesse o que estava acontecendo, seguimos de volta pela ponte. E me diga uma coisa: qual é o objetivo de se ter uma ponte levadiça se ela jamais está levantada? Estou segurando Jonah pela mão para ter certeza de que não vou perdê-lo de vista, e Branca vem logo atrás de nós. Ela perdeu o chapéu em algum lugar durante a fuga, mas acho que o disfarce já era
mesmo.
Yopopa. Onde está Yopopa? Yopopa sumiu.
Corremos pela floresta. E não olho para trás. Sinceramente, nunca corri tanto na vida. Vuuuuush. Uma flecha passa pela minha cabeça e se crava na árvore atrás de mim. Ahhh! Outra flecha! E mais uma!
Flechas voam em nossa direção, vindas de todos os lados. Nós nos abaixamos, nos esquivamos e corremos.
Uma flecha passa zunindo. Ela acerta parte da manga da camisa de Jonah, rasgando um pedaço, o qual fica pregado em um tronco de árvore.
Jonah aponta para o topo da mais alta das árvores.
Dá para ver o medo em seus olhos. Mas em vez de dizer não, ela pula no galho. E consegue. Viva!
Vou em seguida.
Quando os guardas passam por nós, estamos seguros, ocultos por um monte de galhos e folhas. Então nos acalmamos e recuperamos o fôlego. Os guardas continuam seguindo pela floresta.
Capítulo dezoito
Castelo, parte dois
Nós nos escondemos nas árvores, e eu tento pensar em um novo plano.
Nosso objetivo é salvar Xavier e o príncipe das masmorras.
Estou me equilibrando entre dois galhos.
Rio sozinha.
Definitivamente terei que mudar essa chave de lugar. Uma lembrança passa pela minha mente.
Uma chave. Eu vi uma chave. Onde foi que vi uma chave? Ah!
Branca grita, mas consigo me equilibrar antes de cair.
Algumas horas mais tarde, seguimos de volta ao castelo. Mas já é noite. Felizmente, tanto a lua quanto as estrelas estão superbrilhantes, e por isso conseguimos enxergar os arredores.
Nosso plano consiste em nos esgueirarmos até o quarto de Evelyn Vilã enquanto ela estiver dormindo para pegarmos a chave. A boa notícia: parece que os guardas sumiram. A má notícia: pela primeira vez no dia, a ponte levadiça está levantada.
Opa. Tudo bem, admito. Não sou a Pequena Sereia.
Pelo menos não teremos que nadar muito. A água se estende apenas por uns 5 metros. Posso fazer isso. Talvez.
Jonah continua com a sacola-mochila nas costas. Os sanduíches vão ficar encharcados.
Engasgo, engolindo um monte de água.
Jonah aponta adiante.
Ai. Meu. Deus. À frente, temos um crocodilo. Um crocodilo imenso. Um crocodilo imenso e cheio de escamas, que nesse momento mastiga ruidosamente um grande pássaro como se este fosse um pedaço de aipo.
Aquele é um filhote? É enorme! Eu me viro para Branca, sem acreditar.
À minha esquerda, surge um crocodilo ainda mais imenso. Que abre a imensa mandíbula com um estalo.
Bebê Crocodilo bloqueia nosso caminho de volta e bate seus dentes de leite. Provavelmente eu acharia um bebê crocodilo fofo, se ele não estivesse tentando nos matar.
Mamãe Crocodilo dá uma nova investida. Depois é a vez do Bebê Crocodilo.
E Mamãe. E, dessa vez, ela quase sai voando pelos ares.
Legal? Legal nada! Os dentes dele parecem facas de carne afiadas! Mamãe Crocodilo investe em nossa direção.
Jonah alcança a sacola-mochila e tira de lá os agora realmente ensopados sanduíches. Ele joga dois na direção da Mamãe. Um terceiro vai para o Bebê. Vai dar certo?
O Bebê parece assustado. Mamãe cutuca um dos sanduíches com aquela boca gigante. Repete o gesto. Será que está cheirando o sanduíche?
De repente, Mamãe mastiga o dela ruidosamente. O Bebê experimenta o dele em seguida.
Quando meu pé finalmente encosta no chão, eu e Branca nos jogamos na margem, aliviadas. Jonah não. Ele está dando adeus para os crocodilos como um louco.
Encharcada, eu me levanto. Minhas pernas ainda tremem.
Tento abrir três das janelas. Elas estão bem fechadas.
Branca aponta para cima.
Ele dá de ombros e olha para trás, em direção ao castelo.
deixasse, o que faríamos depois?
— Evelyn Vilã está dormindo, certo? Então vou tirar o colar dela com cuidado, depois descer pela escada e abrir as janelas do primeiro andar. Vocês entram e resgatamos Xavier e o príncipe. E depois voltamos para casa. — Ele esfrega as mãos como se as estivesse limpando. — Tudo resolvido.
Não gosto de pensar que:
— Branca, você fica de vigia — ordeno. — Vou escalar também. Não pode ser tão difícil, não é mesmo?
Capítulo dezenove
É difícil. É muito, muito difícil
Meus dedos dos pés doem. Meus dedos das mãos doem. Meu corpo inteiro dói. E não estamos nem meio metro acima do chão.
Jonah faz um sinal de positivo para mim.
Subimos, subimos e subimos mais um pouco.
Ele aparece um segundo depois e levanta o braço, seus dedos mostrando o V de vitória.
Ele se inclina para fora e me ajuda a passar pelo peitoril.
Evelyn Vilã está bem na nossa frente. Por sorte, ela dorme profundamente.
Evelyn Vilã ronca. Hahahahaha. Eu e Jonah damos uma risada. Não dá para segurar.
Meu coração congela. Giro a cabeça em direção ao espelho. Como pude me esquecer do espelho falante?
— Rooooooooooonnnnnnncccccccccccccc! Jonah pressiona a mão contra o vidro.
Sigo na ponta dos pés até a cama da rainha. Ela está dormindo de barriga para cima. As cobertas estão puxadas até o queixo, então as abaixo devagar até ver o colar.
Dou um pulo. Mas logo em seguida me abaixo de novo. Estou vendo! Vejo a chave. Mas onde está o fecho do colar? Ai, não! Deve estar na nuca. Como vou alcançar o fecho atrás da cabeça dela sem acordá-la? Espere aí! Alguém que usa tantos disfarces deve ter uma tesoura por perto para ajustes de última hora, não?
Na ponta dos pés, sigo até o outro lado do quarto e abro a gaveta. Está uma bagunça! Papéis, tecidos, vidros de tinta e… — a-ha! — tesouras!
Pego um dos papéis. Nele está escrito “A mais bela de todas” muitas e muitas vezes. Penso no que Branca tinha comentado mais cedo e pergunto:
Jonah e eu erguemos o espelho, com cuidado, e depois o baixamos gentilmente até o chão. A parede atrás do espelho está coberta com pedras meio soltas.
De novo, na pontinha dos pés, vou até a cama da rainha. E me inclino sobre seu corpo…
Dou um pulo de novo. O ronco dela é aterrorizante. Preciso me concentrar! Preciso cortar o colar!
Snap!
Pronto! Pego a chave e a seguro com firmeza.
Jonah está encarando um buraco redondo na parede.
Descemos rapidamente os dois lances sinuosos de escadas até chegar ao térreo. Abrimos as venezianas. Branca entra rastejando e a seguimos até uma porta ao final do corredor.
Eu destranco a porta e dou uma olhada adiante.
Escuridão total.
Ele coça o nariz.
Alguma coisa passa correndo pelo meu pé. Um rato. Ponho a mão sobre a boca para conter um grito.
A distância, ouvimos um barulho e então:
Passamos por uma porta oval larga. Nós três colocamos as cabeças nas janelinhas sem vidros e vemos o príncipe. Ele é bonitinho. Alto. Cabelo claro. Parece bem princepesco, até mesmo sob a luz fraca das masmorras.
Nós nos cumprimentamos.
Branca arqueja de novo.
Acho que ela gosta dele. Oh! Talvez agora que ele a esteja vendo, vá se apaixonar, e Branca enfim terá seu “felizes para sempre”!
Ela ainda arqueja.
Hum. Ele não vai se apaixonar por Branca se ela não conseguir falar. Embora ele tenha se apaixonado por ela na história original, e definitivamente ela também não falasse nada lá. Provavelmente o fato de estar morta tivesse alguma coisa a ver com isso. E também estava bonita. Neste momento, ela está um desastre. Tem alga na testa, e eu gostaria que ela não estivesse usando meu pijama. Espero que, depois de terminarmos de resgatá-lo, eles relaxem e brinquem, daí tenham a oportunidade de conversar e se apaixonar.
Nós a seguimos por um corredor sinuoso e escuro. Ela espia por uma janela.
Dentro da cela está um sujeito da idade do meu pai. O cabelo é comprido. Bem comprido mesmo.
A barba é bem comprida também. Ele se parece com Bob, só que mais alto.
Quando chegamos ao piso principal, Jonah me segura pelo braço.
Bleeeeeeem! Bleeeeeeem!
Capítulo vinte
Corram!
Bleeeeeeeem! Bleeeeeeeeeem! Bleeeeeeeeeeeem!
Não importa o quão pesado seja o sono de Evelyn Vilã. De jeito nenhum ela vai continuar dormindo com toda essa barulheira.
Ele puxa, ela puxa. A ponte de mais de 5 metros de comprimento vai descendo até chegar ao chão com um BUM.
Se Evelyn Vilã já não estivesse acordada, agora certamente está.
Nós cinco saímos correndo. Jonah e eu seguimos na frente, Xavier vem logo atrás, e príncipe Trevor e Branca de Neve são os últimos.
Arnaldo e dois guardas estão bloqueando a ponte levadiça. Os três são grandões. Bem grandões mesmo. Acho que têm até umas tatuagens. Tatuagens de cobra. Ou talvez sejam cobras de verdade. Não tenho certeza. De qualquer modo, eles dão medo. E suas flechas estão apontadas para nós.
Paramos. Parece que os guardas estavam rondando o terreno, afinal. Ops.
Novo plano! Damos meia-volta. Só que Evelyn Vilã está na entrada. E tem dois seguranças musculosos de cada lado. Com mais tatuagens de cobra. E mais flechas apontadas para nós.
E agora? Olho para baixo à direita. Mamãe Crocodilo está de boca aberta e com um brilho faminto nos olhos. Bebê Crocodilo está à esquerda, parecendo igualmente faminto.
É oficial. Estamos cercados.
E meus planos acabaram. Oficialmente.
Ai, não! Não podemos ir para as masmorras! Como vamos voltar para casa se estivermos na masmorra?
Não voltaremos. Se ficarmos na masmorra, não voltaremos para casa. Nunquinha.
A rainha ri.
Os anões! Talvez eles apareçam para nos salvar! Não é assim que acontece nos filmes? Quando a heroína acha que é o fim, seus amigos chegam saltando de galhos para salvá-la. Os anões já haviam salvado Branca. Vão fazer isso de novo, não vão?
Mas como eles vão saber que precisam nos salvar? Hummm. Yopopa deveria ser um gênio. Provavelmente por isso ele foi embora antes da hora — para chamar os anões! E agora eles aparecerão na hora certa!
A qualquer instante. Agora.
Jonah cutuca minhas costelas.
O testamento? Ah! O testamento!
Dou uma olhadinha na primeira página, depois na segunda e na terceira. Por favor, que haja algo aqui para ajudar Branca. Por favorzinho duas vezes? Três vezes, com uma cereja no topo? Quatro, com várias cerejas?
Folheio as páginas enlouquecidamente. Nada aqui, nada aqui… Ah! Aqui! Achei! Na página 11, segunda cláusula! Achei! Dou um pigarro dramático antes de começar:
Todos arfam de surpresa.
Então todos os guardas tatuados seguem em direção à rainha. Isso!
Ela aponta uma lança na direção de Branca e dispara.
Branca de Neve está a salvo! Viva!
Mas a flecha acerta o príncipe no meio do peito.
Há uma gritaria generalizada. Boa parte dela vem de mim.
O príncipe Trevor continua de pé, mas seus joelhos tremem. Depois de alguns segundos dramáticos, os joelhos dele cedem e ele cai da ponte, dentro da água. Splash!
Splash! Xavier pula também. Agora estamos todos no fosso.
Infelizmente, os crocodilos também estão.
Nhoc. Nhoc, nhoc.
Branca luta para segurar o príncipe Trevor pelos ombros, mas ele sangra e ela engole água. Xavier tenta boiar também, segurando os pés do príncipe. Eu seguro Jonah. A Mamãe e o Bebê Crocodilo vêm em nossa direção.
Suas bocas estão bem abertas. Estão rosnando.
Estão com fome.
Minha boca fica seca. Meu coração está martelando.
É isso. É o fim. Nunca mais voltaremos para casa. Nunca mais vamos ver nossos pais.
Abraço meu irmão com força; ele está tremendo. Fecho meus olhos e espero virar comida de crocodilo.
Capítulo vinte e um
Ainda à deriva
Alguma coisa acerta meu rosto.
Dente de crocodilo? Não. É gosmento. Língua de crocodilo? Sou atingida mais uma vez.
Meus olhos se abrem de súbito. Há sanduíches de carne ensopada caindo na água. Os crocodilos estão felizes, mastigando cada um deles. Hein?
Jonah aponta para a margem, onde vejo os sete anões jogando sanduíches na água.
Eles vieram! Eba! Yopopa está exultante ao lado deles. Ele deve ter ido buscá-los, no fim das contas.
Acho que é mesmo um gênio.
Enquanto os crocodilos estão ocupados se entupindo de comida, tiramos o príncipe Trevor da água e o colocamos na margem do fosso.
Xavier tira a flecha. Mas a situação não é nada boa.
Os olhos do príncipe estão fechados. Ele não está respirando.
isso.
Não posso acreditar. Ele morreu mesmo. E a culpa é minha. Se não tivéssemos escrito aquela carta para ele, ele não teria vindo para o palácio, para começo de conversa.
Ele nunca vai ser rei.
Ele nunca vai se apaixonar por Branca de Neve. Ele nunca mais vai fazer nada.
Lágrimas rolam pelas minhas bochechas. Pobre príncipe Trevor. Pobrezinho.
Eu me viro e vejo Branca. Ela está se ajoelhando ao lado do príncipe, as lágrimas molham seu rosto.
Este NÃO é um final feliz!
Então uma expressão de extrema determinação surge no rosto dela. Ela se ajoelha ao lado do príncipe e pressiona os lábios contra os dele. E é aí que acontece.
Uma das pálpebras se abre.
Depois nota-se um tremor na outra. Então os dois olhos dele estão abertos. Ele está vivo! Ele está vivo?
Branca concorda com a cabeça e sorri.
O príncipe Trevor senta-se e sorri.
Os dois se encaram com um brilho sonhador nos olhos.
Ela realmente salvou a vida dele. E ele salvou a dela. Eles se salvaram.
Devíamos festejar!
Só que com certeza não era assim na história. É meio que o oposto do que acontece na história. Ou, no mínimo, é a história, mas toda embaralhada.
Hum. Essa versão é diferente da versão no meu livro. Mas e daí? Branca de Neve conseguiu seu final feliz, não foi?
Talvez seja legal ser diferentes às vezes, não? O príncipe Trevor se apoia em um dos joelhos.
A garota tem razão. E, além do mais, ela só tem 16 anos. É muito nova para se casar. Pelo menos no meu mundo.
Branca vira o rosto para a esquerda.
E por falar em Evelyn Vilã… A distância, vejo que Xavier a está carregando. Ela grita e esperneia até entrar no palácio.
Preciso me concentrar nas minhas responsabilidades aqui. Agora sou a rainha.
Perfeito! Talvez demore mais tempo para que eles cheguem lá, mas Branca de Neve e o príncipe Trevor vão se casar um dia. Simplesmente sei que vão.
Os olhos de Branca se iluminam.
Capítulo vinte e dois
De volta a Gabrielle, Gabrielle
Branca dá um abraço em Tara.
Fico nervosa à medida que subimos as escadas. O espelho vai conseguir nos levar de volta para casa, não vai?
Branca balança a cabeça.
Estou feliz e triste ao mesmo tempo. Abraço Alan primeiro.
Quando abraço Tara, não consigo segurar e sussurro:
Ele fica todo empertigado.
Noto quando Tara segura a mão de Jon. Viva! Acenamos quando todos saem do quarto.
Eu suspiro. Quero saber mais. Preciso entender o que aconteceu! Mas nesse instante só quero muito, muito, muito ir para casa.
O reflexo no espelho começa a girar e girar e girar. Começo a enxergar algumas imagens em um redemoinho: uma mesa, caixas… É o nosso porão!
Zum.
Estamos em nosso porão.
Eu me viro para ver o espelho. Está parado. Normal. Um espelho qualquer. Como se nada tivesse acontecido. Como se nada estivesse estranho.
Ninguém responde. Acabou. Acabou mesmo.
Bem, mais ou menos. O porão está uma bagunça. E todos os livros de Direito desapareceram. Assim como a cadeira giratória. Ops.
Interrompo o movimento dele.
Sigo meu irmão pelos degraus. No topo da escada, fecho a porta atrás de mim delicadamente. O andar seguinte está tomado pela luz da manhã. Entro de fininho na cozinha para ver o relógio do micro-ondas. Marca 6h30. Mesmo horário do meu relógio. Então eu estava certa, no fim das contas. O tempo aqui passou mais lentamente. A menos que vários dias tenham se passado?
Vejo o iPhone da minha mãe. De acordo com a data, é a manhã seguinte ao dia que partimos.
Perfeito!
Concordo com a cabeça, mas pressiono o dedo contra os lábios. Rastejamos pelo último lance de escadas. Abro a porta do quarto com gentileza.
— Eu também — sussurro de volta. — Mas estamos fedidos e usando roupas de estranhos. — E sandálias. Opa, deixei minhas pantufas na casa de Branca de Neve. Adeus, pantufas. Sentirei saudades.
Jonah olha para baixo e vê a roupa muito apertada que veste.
Quando entro em meu quarto, tiro as roupas sujas e as jogo dentro do cesto. Chuto os sapatos de Branca. Pego pijamas limpos e me deito. Tenho trinta minutos antes de meus pais me acordarem. E pretendo usufruir deles.
Capítulo vinte e três
Talvez as histórias possam mudar
Abro os olhos. Estou na minha cama.
Isso! Estou em casa! Estou em casa! Meu relógio e o alarme marcam sete da manhã. Não consigo evitar o pensamento: será que foi tudo um sonho?
Corro até o cesto de roupa suja. A saia e a blusa de Branca de Neve estão emboladas ali. As sandálias dela estão ao lado da cômoda. Aconteceu! Aconteceu DE VERDADE!
Olho para cima e vejo minha caixinha de joias em cima da penteadeira. Ah, Branca de Neve ali! Espere um minutinho, ela está com uma roupa diferente. Ela está com… meu pijama verde-limão! Ai meu deus! Mudamos mesmo a história!
Corro até o quarto de Jonah. O relógio deve estar verde, mas ele está dormindo profundamente.
Puxo suas cobertas.
Desço as escadas correndo. Mamãe e Papai estão na cozinha. Bebem café e folheiam o jornal. Jogo
meus braços ao redor dos dois.
Minha mãe me dá uma tigela com cereal. Oba! Como senti falta dessas delícias de marshmallow!
Oba! Nada de mingau nojento!
Jonah chega correndo na cozinha e grita:
Abaixo a colher cheia de cereal e dou uma olhada nele. O espelho pediu que guardássemos segredo. Não que eu queira mentir para meus pais. Mas e se isso os colocar em perigo? E se contar colocar a todos nós em perigo? Terei que repreendê-lo mais tarde.
— Uau, Jonah — diz minha mãe. — Você está meio sujo. — Ela me olha. — Você também, querida. Vocês não tomaram banho ontem à noite?
Meu irmão assente.
Abby, você primeiro. Rápido, tá?
Como o restante do cereal e abraço mamãe com força.
Mudar é difícil. Mas nem sempre é ruim. Branca de Neve, por exemplo. A história dela é diferente agora, mas ainda é uma boa história.
E Smithville é outro exemplo. Ainda é nossa casa. Só que é uma casa diferente. E pique-congela ainda é um tipo de pique, só que um pouquinho diferente.
Tá, tudo bem. Pique-congela ainda é estranho, mas talvez seja divertido. Vou ter que experimentar de novo.
Meu pai aperta meu ombro.
Estou disposta a experimentar novas coisas, mas um mingau de banana com manteiga de amendoim é nojento, independentemente de como for feito.
Subo as escadas para tomar uma chuveirada e escovar meus dentes imundos. Nem me lembro quando foi a última vez que usei uma escova de dentes. Mas, no caminho, ouço um som estranho e paro à porta do porão.
Chamaram meu nome? Devo descer as escadas e ver o que está acontecendo? Seria Branca de Neve? Ela está tentando me dizer alguma coisa? Seria Gabrielle? Ou Maryrose? Onde está Maryrose? Em nosso espelho?
Estou prestes a abrir a porta quando vejo minha mãe vindo pelo corredor.
À noite, decido. À noite vou descobrir por que o espelho em nosso porão nos levou para dentro de um conto de fadas.
Shhhhhhh.
Hoje à noite, com certeza.
Agradecimentos
Obrigada, obrigada e obrigada a: Laura Dail, Tamar Rydzinski, AnnMarie Anderson, Abby McAden, Debra Dorfman, Becky Shapiro, Jennifer Black, Lizette Serrano, Becky Amsel, David Levithan, Elissa Ambrose; Tori, Carly e Carol Adams; E. Lockhart; Lauren Myracle; Avery Carmichael; Courtney Sheinmel; Tricia Ready; Emily Bender; Aviva Mlynowski; Louisa Weiss; Larry Mlynowski; Targia Clarke; Anojja Shah; Lauren Kisilevsky; Susan Finkelberg-Sohmer; Judy Batalion; John e Vickie Swidler; Shari e Heather Endleman; Leslie Margolis; Meg Cabot e BOB.
Ainda mais amor e beijos para Chloe e para meu marido, Todd.
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A mais bela de todas
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Sumário
Capa
Obras da autora publicadas pela Galera Record Rosto
Créditos Dedicatória Prólogo Capítulo Um Capítulo dois Capítulo três Capítulo quatro Capítulo cinco Capítulo seis Capítulo sete Capítulo oito Capítulo nove Capítulo dez Capítulo onze Capítulo doze Capítulo treze Capítulo catorze Capítulo quinze
Capítulo dezesseis Capítulo dezessete Capítulo dezoito Capítulo dezenove Capítulo vinte Capítulo vinte e um