O pensamento filosófico bakhtiniano: o ato responsável �
Alauanda de Vasconcelos Fernandes
Cristiane Corsini Lourenção
“Viver é agir” (M. Bakhtin)
Das irmãs
os meus irmãos sujando-se
na lama
e eis-me aqui cercada
de alvura de enxovais
eles se provocando e provando
do fogo
e eu aqui fechada
provendo comida
eles se lambuzando e arrotando
na mesa
e eu temperada
servindo, contida
os meus irmãos jogando-se
na cama
e eis-me afiançada
por dote e marido
Sonia Queiroz
Janus bifronte
Fonte: gravura de Andrey Kokorin. Dísponível em: https://www.behance.net/akok?locale=pt_BR&
“O ato é [...], diz Bakhtin, ‘Um Jano bifronte’, orientado em duas direções diferentes: a singularidade irrepetível, e a unidade objetiva, abstrata.” (Ponzio, 2020, p.21)
O ato responsável é, precisamente, o ato baseado no reconhecimento desta obrigatória singularidade. É essa afirmação do meu não-álibi no existir que constitui a base da existência sendo tanto dada como sendo também real e forçosamente projetada como algo ainda por ser alcançado. É apenas o não-álibi no existir que transforma a possibilidade vazia em ato responsável real (através da referência emotivo-volitiva a mim como aquele que é ativo). [...] É o fundamento da vida como ato, porque ser realmente na vida significa agir, é ser não indiferente ao todo na sua singularidade. (Bakhtin, 2020, p. 99; grifos do autor)
ATO RESPONSÁVEL (postupok):
SÍNTESE DAS IDEIAS�
SINGULARIDADE
[...] a singularidade de cada um, a sua unicidade, a sua insubstituibilidade, a peculiaridade das suas relações, dos seus vividos, das suas coordenadas espaçotemporais e axiológicas, a irrevogabilidade da sua responsabilidade sem álibi - e é esta singularidade, esta unidade, insubstituibilidade, que cada um tem, nos afetos, nas relações relegadas ao privado, nas relações de.amor e de amizade. Do outro lado, as relações de troca entre indivíduos que representam identidades, e, portanto, em cada caso entre conjuntos, gêneros, pertenças, comunidades, classes, aglomerados, coletivos (a identidade individual é inevitavelmente coletiva). Aqui o reconhecimento do outro no máximo alcança o nível da imparcialidade, da paridade, da igualdade, da justiça, do tratamento igual por todos os seus análogos, pelos seus semelhantes, mas sempre de maneira não participativa, indiferente à singularidade, a diferença de cada um - ou antes, com a interdição da não indiferença nos seus confrontos. (Ponzio, 2020, p.19; grifo nosso).
DEVER
[...] o dever se revela apenas na correlação da verdade (válida em si mesma) com a ação cognitiva real de cada um de nós, e tal momento de correlação é historicamente um momento único, é sempre um ato individual, que não afeta em nada a validade teórica objetiva do juízo - é um ato que é avaliável e imputável no contexto único da vida real única de um sujeito. Para o dever não é suficiente apenas a veracidade, <é necessário> o ato de resposta do sujeito, que provém do seu interior, a ação de reconhecimento da veracidade do dever, e também esta ação não penetra, de modo algum, na composição teórica e no significado do juízo (Bakhtin, 2020, p. 46).
CRÍTICA AO TEORICISMO
Toda a filosofia contemporânea nasceu do racionalismo e está inteiramente impregnada do preconceito do racionalismo [...] segundo o qual somente o que é lógico é claro e racional (Bakhtin, 2010, p. 81).
[...] o mundo como objeto de conhecimento teórico procura se fazer passar como o mundo como tal, isto é, não só como unidade abstrata, mas também como concretamente único em sua possível totalidade (Bakhtin, 2010, p.50)
CRÍTICA À FILOSOFIA MODERNA
Ao fazer uma dura crítica à filosofia moderna, que vai de Descartes a Kant, com a noção de sujeito como princípio da unidade do mundo, em que o mundo se converteu para o sujeito em imagem ou representação, Bakhtin faz uma crítica ao princípio monístico, visto que o princípio da unidade do ser se torna em princípio da unidade da consciência (Nascimento, 2021, p.79).
EXOTOPIA / EMPATIA ATIVA
[...] o reflexo estético da vida viva não é por princípio autorreflexo da vida em movimento, da vida em sua real vitalidade: tal reflexo pressupõe um outro sujeito da empatia, que é extralocalizado. Naturalmente, não há necessidade de pensar que ao puro momento da empatia segue cronologicamente o momento da objetivação, da formação; ambos são, na realidade, inseparáveis: a pura empatia é um momento abstrato do ato unitário da atividade estética, que não deve ser pensado como período temporal: os momentos da empatia e da objetivação se interpenetram. Eu vivo ativamente a empatia com uma individualidade, e, por conseguinte, nem por um instante sequer perco completamente a mim mesmo, nem perco o meu lugar único fora dela (Bakhtin, 2020, p. 61-62; grifos nossos).
EMPATIA ATIVA
[...] é literalmente, como diz-nos Alina Wyman, ‘living into’ another self ‘ (Viver em outro eu). Assim, a noção de Vzhivanie de Bakhtin, que é esse movimento feito em direção à consciência do outro, sem no entanto o sujeito perder o excedente produtivo de seu lugar no mundo, tem uma relação frutífera com a noção de empatia ativa (Mitgefühl) de Max Scheler (1942), proposta em Wesen und Formen der Sympathie (“Essência e forma da simpatia”). Dessa maneira, ambos os pensadores trabalham sob a perspectiva de uma empatia ativa, cujo resultado mostra-nos que ao invés de ser uma fusão entre as consciências, como era comum os filósofos contemporâneos de ambos proporem, tem-se uma compreensão ativa do sujeito, em que há uma soberania do empatizar, de maneira que a individualidade não se dissolve no processo empático (Nascimento, 2021, p.77).
VALORAÇÃO
[...] é importante lembrar que, para o Círculo, a significação dos enunciados tem sempre uma dimensão avaliativa, expressa sempre um posicionamento social valorativo. Desse modo, qualquer enunciado é, na concepção do Círculo, sempre ideológico — para eles, não existe enunciado não-ideológico. E ideológico em dois sentidos: qualquer enunciado se dá na esfera de uma das ideologias (i.e., no interior de uma das áreas da atividade intelectual humana) e expressa sempre uma posição avaliativa (i.e., não há enunciado neutro; a própria retórica da neutralidade é também uma posição axiológica) (Faraco, 2009, p. 47; grifo do autor).
ARQUITETÔNICA DO EU-OUTRO
Um valor igual a si mesmo, reconhecido como universalmente válido, não existe, porquanto a sua validade reconhecida é condicionada não pelo conteúdo tomado abstratamente, mas por sua correlação com o lugar singular daquele que participa; mas deste lugar singular pode-se reconhecer todos os valores, e também qualquer outro ser humano com todos os seus valores; esta é a condição para que este reconhecimento aconteça. A simples constatação teórica em que qualquer um reconhece esses ou aqueles valores não obriga ninguém a nada, nem conduz para fora das fronteiras do ser como simplesmente dado, da possibilidade vazia, até que eu não tenha afirmado em relação com eles a minha própria participação singular (Bakhtin, 2010, p. 107).
ISTINA E PRAVDA
Istina
valor abstrato, a veracidade, o verdadeiro, como ideal universalmente incontestável, mas do qual não há no ato o reconhecimento efetivo (Ponzio, 2020, p. 17).
Pravda
verdade una e única: “[...] exige que eu, do meu lugar único, realize plenamente a minha participação singular no existir” (Bakhtin, 2020, p. 103).
“entonação do ato” (Ponzio, 2020, p. 17).
�
PENSAMENTO É ATO
O dado abstrato, universal [istina], que é em si parcial, deve ser pensado por um sujeito para tornar-se ato. [...] Portanto, todo ato do pensamento ou criativo é um ato responsável (Nascimento, 2021, p. 74; grifo nosso).
ATO NÃO É AÇÃO
Ação pode ser prescindir do pensamento e ser mecânica. “Todavia, o ato compreende o pensar, portanto, o agir responsavelmente, dado que Bakhtin está tratando do ato de pensar e de criar como unidades da cultura, ato no qual o sujeito se revela, assina e por ele responde.” (Nascimento, 2021, p.74; grifo nosso).
�ENTONAÇÃO COMO MARCA DE ALTERIDADE E DE SINGULARIDADE�
O princípio arquitetonicamente supremo do mundo real do ato é a contraposição concreta, arquitetonicamente válida, entre eu e outro. [...] Um mesmo objeto, idêntico por conteúdo, é um momento do existir que apresenta um aspecto valorativo diferente, quando correlacionado comigo ou com o outro; e o mundo inteiro, conteudisticamente uno, correlacionado comigo e com o outro, é permeado de um tom emotivo-volitivo diferente (Bakhtin, 2020, p. 142; grifos nossos).
O tom como marca de valor não pertence ao conteúdo e não é mera expressão do locutor, mas é algo que se dá em relação de alteridade. É face ao outro que me singularizo em ato (Amorim, 2009, p.19).
Das irmãs
os meus irmãos sujando-se
na lama
e eis-me aqui cercada
de alvura de enxovais
eles se provocando e provando
do fogo
e eu aqui fechada
provendo comida
eles se lambuzando e arrotando
na mesa
e eu temperada
servindo, contida
- momentos valorativos concretos do ato de existir;
- visão da heroína de um lugar singular (mulher) – exotopia;
- tom emotivo-volitivo como marca de alteridade;
- os círculos valorativos interagem entre eles mas não há fusão
os meus irmãos jogando-se
na cama
e eis-me afiançada
por dote e marido
Sonia Queiroz
sujando lambuzando lama provando
jogando-se
fechada temperada servindo alheia contida
fogo
tempero
cama
mesa
comida
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REFERÊNCIAS
AMORIM, Marilia. Memória do objeto – uma transposição bakhtiniana e algumas questões para a educação. Bakhtiniana. Revista de estudos do discurso. n.1, 2009. p. 8-22. Disponível em: : https://revistas.pucsp.br/bakhtiniana/article/download/2993/1927/6701. Acesso em 11/03/2023.
BAKHTIN, Mikhail. Para uma filosofia do ato responsável. Trad. aos cuidados de Valdemir Miotello e Carlos Albert Faraco. 3 ed. São Paulo: Pedro & João editores, 2020.
FARACO, Carlos Alberto. Linguagem & diálogo: as ideias linguísticas do Círculo de Bakhtin. São Paulo: Parábola, 2009.
NASCIMENTO, Lucas. Da filosofia ao discurso: Mikhail Bakhtin. Interfaces. v.12, n1, 2021. p.69-82.Disponível em:https://revistas.unicentro.br/index.php/revista_interfaces/article/view/6503. Acesso em 08/03/2023.
PONZIO, Augusto. A concepção bakhtiniana do ato como dar um passo. In: BAKHTIN, Mikhail. Para uma filosofia do ato responsável. Trad. aos cuidados de Valdemir Miotello e Carlos Albert Faraco. 3 ed. São Paulo: Pedro & João editores, 2020.
QUEIROZ, Sonia. O sacro ofício. Belo Horizonte: Comunicação, 1999.
SOBRAL, Adail. Ato/atividade/evento. In: BRAIT, Beth (org.). Bakhtin: conceitos-chave. 5 ed. São Paulo: Contexto, 2020.