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Aula 4. Levantamento do campo lexical do 1º capítulo

Coletar elementos coesivos e atribuir significações às formas.

Estamos trabalhando com o conceito presente no livro Estrutura da Língua Portuguesa do autor Joaquim Mattoso Camara Junior. Na edição crítica 2019, pg.146,  do professor da USP Manoel M.Santiago Almeida, pela editora Vozes.

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Alguns elementos coesivos

  • assim,
  • como,
  • com efeito,
  • como resultado,
  • dado que,
  • de fato,
  • de tal forma que,
  • de tal sorte que,
  • em virtude de,
  • já que,
  • logo,
  • pois,
  • por causa de, por conseguinte,
  • por consequência, por isso, porquanto, porque, portanto, que, tão, uma vez que, visto que.

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  • Tenho saudades do meu Save, das águas azul-esverdeadas do seu rio. Tenho saudades do verde canavial balançando ao vento, dos campos de mil cores em harmonia, das mangueiras, dos cajueiros e palmares sem fim. Quem me dera voltar aos matagais da minha infância, galgar as árvores centenárias como os gala-galas e comer frutas silvestres na frescura e liberdade da planície verde. Estou envelhecida e sinto a aproximação do fim da minha jornada mas, cada dia que passa, o peito queima como vela acesa no mês de Maria, o passado desfila como um rosário de recordações que já nem são recordações, mas sim vivências que se repetem no momento em que fecho os olhos transpondo a barreira do tempo. Foi em Mambone, saudosa terra residente nas margens do rio Save, que aprendi a amar a vida e os homens. Foi por esse amor que me perdi, para encontrar-me aqui, nesta Mafalala de casas tristes, paraíso de miséria, onde as pessoas defecam em baldes mesmo à vista de toda a gente e as moscas vivem em fausto na felicidade da terra de promissão. Terei eu amado algum dia? É verdade que o amor existe? Nada sei sobre a verdade do amor, mas há uma coisa que me aconteceu, digo-vos. Aquilo foi uma espécie de feitiço, mistério, loucura, isso é que foi.

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  • Tenho uma filha crescida que ainda estuda embora já tenha estudado muito, Um dia disse-me que a terra é redonda. Por fora é toda verde e lá no fundo tem um , centro vermelho. Como o melão, Que a terra é a mãe da natureza e tudo suporta para parir a vida, Con0 a mulher. Os golpes da vida a mulher suporta no silêncio da terra, Na amargura suave segrega um líquido triste e viscoso como o melão. Quem já viajou no mundo da mulher? Quem ainda não foi, que vá. Basta dar um golpe profundo, profundo, que do centro vermelho explodirá um fogo mesmo igual à erupção de um vulcão. Mas que ideias tristes me assolam hoje; estou apenas em delírio, não me levem a mal. Estou simplesmente recordando, recordando. Estou dispersa: uma parte de mim ficou no Save, outra está aqui nesta Mafalala suja e triste, outra paira no ar, aguardando surpresas que a vida me reserva. Para quê recordar o passado se o presente está presente e o futuro é uma esperança? Espero que me acreditem, mas o passado é que faz o presente, e o presente o futuro. O passado persegue� -nos e vive connosco cada presente. Eu tenho um passado, esta história que quero contar. Será uma história interessante? Tenho as minhas dúvidas, pois afinal não é nada de novo. Há muitas mulheres que vivem assim. Deliro. A vida revolveu o centro do meu mundo. Meu rosto choroso é viscoso como o melão. Estou em explosão furiosa tão igual à erupção de um vulcão. Tudo começa no dia mais bonito do mundo, beleza característica do dia da descoberta do primeiro amor. Todos os animais trajavam-se de fartura, a terra era demasiado generosa. Na aldeia realizava-se a festa de circuncisão dos meninos já tornados homens. Jovens dos lugares mais remotos estavam presentes, pois não há

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  • nada melhor que uma festa para a diversão, exibição e pesca de namoricos, Eu estava bonita com a minha blusinha cor de limão, capulana mesmo a condizer, enfeitadinha com colares de marfim e missangas. Coloquei-me na rede para ser pescada, e porque não? Já era mulherzinha e tinha cumprido com todos os rituais. As mulheres atarefadas giravam para cá e para lá no preparo do grande banquete. O aroma das carnes excitava o o!facto, fazendo crescer rios de saliva em todas as bocas, desafiando os estômagos, e até as gengivas desdentadas já imaginavam um naco de carne, gordinho, tenrinho e sem ossos, empurrado com toda a arte por uma golada de aguardente. Os homens davam a mão aqui e ali, enquanto os outros preparavam esplanadas nas sombras dos cajueiros. Os tambores rufaram ao sinal do velho Mwalo, erguendo-se cânticos e aclamações. A porta da palhota abriu-se deixando sair cerca de vinte rapazes com aspecto pálido e doentio, provocado pelas duras provas dos ritos de iniciação. Os rapazes já tornados homens passavam entre alas como heróis. As velhotas aclamavam espalhando flores, dinheiro e grãos de milho que as galinhas se apressavam a debicar. Eu assistia ao espectáculo maravilhada quando descobri entre os rapazes um novo rosto. - Quem será? Rindau, conheces aquele ali? - É o filho do Rungo, o que vive no colégio dos padres. - Ah! Dissiparam-se-me as dúvidas. Era mesmo daquele rapaz que os velhotes falavam ontem à noite e eu, curiosa, ouvi tudo. Se eles descobrirem que escutei vão castigar-me à larga, pois em coisas de homens as mulheres não se podem meter. Disseram que ele foi distinto e comportou-se lindamente mesmo nas provas mais difíceis. 1

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  • Aquela imagem maravilhou-me. Mesmo à primeira vista, o meu coração virgem estremeceu. Fiquei hipnotizada, com os olhos perseguindo os passos daquele desconhecido. Uma voz quebrou-me o encanto. ' - Sarnau, Rindau, que fazem aí sentadas suas ..felhas? Retribui à Eni um olhar aborrecido, respondendo de maus modos: - É proibido ficar sentada? - Wê, Sarnau, chocar ovos é para galinha chocadeira. Tira o rabo daí, tenho um segredo para ti. - Não me levanto. Estou a chocar ovos de pata. Vomita lá esse segredo e desaparece. Já sabia do que se tratava. Não sei quem convenceu o Khelu de que é um grande macho, mas ele quer namoriscar toda a gente. Eni ajoelhou-se, segurou o meu pescoço com as duas mãos, encostou os lábios aos meus ouvidos e segredou. Gritei bem alto para que ela desaparecesse dali. Eni levantou voo e pude finalmente contemplar o meu encanto mas só por pouco tempo. Logo a seguir um bando de raparigas fez-me saltar do chão, arrastando-me até às traseiras da casa. - Sarnau, hoje é o dia de arranjar namorados. Em vez de estar ali a chocalhar, ponha-te à vista, ginga, rebola, para as moscas perseguirem as tuas curvas, menina. Olha, eu já arranjei um namorado, e que janota, amiga! - Os meus parabéns, então. - E tu o que esperas? Aposto que estavas a olhar para esse ranhoso filho do Rungo. Como se chama? Ah, é o Mwando. Pois digo-te, menina, estás a perder tempo, aquele está a estudar para padre. Fiquei furiosa. A Eni fora ao encontro dos meus pensamentos e ferira-me a forma como se referira àquele jovem tão distinto. Coloquei as mãos nas ancas e vomitei todo um palavreado provocador, na intenção de

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  • aborrecer a minha adversária, enquanto esta, de olhar trocista, limitava-se apenas a murmurar: -Wê, Sarnau, não vale a pena tanta fanfarra. Hoje é dia de festa e não estou para guerrinhas. Tenho um vestido novo que não me apetece machucar. A malta incitava-nos para a luta, mas ao ver que o espectáculo estava perdido pois a Eni não se desfazia, todos se viraram contra mim. Todo o bando me rodeou e troçou. - Mas vocês ainda não viram? A Sarnau é pau de carapau. Nem curva no peito, nem curva no rabo, é estaca de eucalipto, mulher é que não, wâ, wâ, wâ! Fiquei zangada. Finalmente os marotos deixaram-me em paz e pude à vontade contemplar o meu ídolo e preparar planos de abordagem. Aquele Mwando interessava-me, sim senhor. Aproximei-me dele, falei com doçura e, com muita indiferença, respondia às minhas perguntas. Frustradas as minhas tentativas, regressei a casa, entristecida. Pela primeira vez o sono custou-me a vir. Minha mente deliciava-se com a imagem que acabava de descobrir. Aquele olhar distante, penetrante, aquela voz serena ... e rosto sisudo! Bonito não era, comparado com o Khelu, esse zaragateiro, namoradeiro, sempre pronto a provocar qualquer escaramuça e esmurrar toda a gente. O Mwando é um rapaz diferente, fala bem, conversa bem e tem cá umas maneiras!... Estaria eu apaixonada? Ri-me e revirei-me na esteira. Achava graça àquilo tudo, pois nunca antes me tinha acontecido. Adormeci sorrindo. Nos dias seguintes procurei Mwando. Emboscava todas as ruas por onde pudesse passar. Comecei a ir para a igreja só para vê-lo. As poucas vezes que o consegui encontrar, falou comigo sempre com a mesma in

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  • diferença. Preparei outro plano mais perfeito que pus logo em prática. Num belo domingo, vesti-me com todo o esmero, enfeitei-me bem e parti para o ataque. Entrei na igre a com toda a solenidade, sentei-me à frente para que e1e me visse bem, pois estava bonitinha só para ele. O padre disse tanta coisa que não entendia. O coro apresentou uma canção bonita e, de toda as vozes, só ouvia o Mwando. Depois o padre disse ámen, levantei-me pronta para o combate. Ou hoje, ou nunca, dizia de mim para mim. Arrastei o Mwando num passeio até às margens do rio Save. Falámos de muitas coisinhas. Ele falava dos seus planos do futuro, pois queria ser padre, pregar o Evangelho, baptizar, cristianizar. Adeus meus planos, meu tempo perdido, ai de mim, o rapaz não quer nada comigo, só pensa em ser padre. As águas corriam tranquilas, os peixinhos banhavam-se, os canaviais assobiavam embalando a minha tristeza. Sentia a cabeça transtornada e fiquei algum tempo sem conseguir falar. - Sentes-te mal, Sarnau? - Sim, um pouco maldisposta. Deixei que ele me acarinhasse e, a pouco e pouco, aproximei-me dele, encostando a cabeça no seu ombro sem que ele se apercebesse da manobra. - E tu, Sarnau, quais são os teus planos? - Meus planos? Nenhuns. Estou apaixonada por um rapaz que nào me quer. - Não é possível. Mas qual é o homem capaz de desprezar uma rapariga tão bela e tão boa? - E tu eras capaz de gostar de mim, Mwando? És maravilhosa. És a única pessoa na aldeia que me trata com respeito. Todas as moças desprezam-me por viver no colégio. Eu gosto de ti, Sarnau. - E porque não me dizias?

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  • -Tenho medo. O padre pode censurar-me. - Medo de quê? O padre nada tem a ver com isso. De resto já fomos todos iniciados e os velhos não se vão aborrecer. -Tu não sabes, Sarnau, mas o padre! ... - Descansa que ele não saberá de nada. Emudecemos de repente. As mãos encontraram-se. Veio o abraço tímido. Trocámos odores, trocámos calores. Dentro de nós floresceram os prados. Os pássaros cantaram para nós, os caniços dançaram para nós, o céu e a terra uniram-se ao nosso abraço e empreendemos a primeira viagem celestial nas asas das borboletas.

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BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

  • CHIZIANE, Paulina. BALADA DE AMOR AO VENTO (2.' edição) Autor: Paulina Chiziane. Editorial Caminho, SA, Lisboa - 2003.

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