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FECCIF24 – III Feira Estadual de Ciência e Cultura do IFSP – de 21 a 26 de Outubro de 2024

Durante a sua vida, a artista brasileira Maria Lídia Magliani (1946-2012) retratou diversas críticas ao patriarcado que flagela, de diversas formas, as pessoas que realizam a performance de gênero feminina. O presente trabalho analisa, sob a perspectiva feminista interseccional, o desenvolvimento destas coerções sociais na sociedade brasileira e suas relações opressivas a partir das pinturas da artista, destacando a relação que o padrão de beleza exerce sobre o feminino e a sua correlação com a dor e o controle patriarcal que se soma com o racismo.

RESUMO

INTRODUÇÃO

OBJETIVOS

METODOLOGIA

GÊNERO E OPRESSÃO PATRIARCAL: UMA ANÁLISE DAS OBRAS DE MARIA LÍDIA MAGLIANI A PARTIR DAS TEORIAS FEMINISTAS INTERSECCIONAIS

Mikaella Nascimento Silva¹, Marcela Loureiro Alves² (orientadora)

1Instituto Federal de São Paulo, Suzano, Brasil – n.samuel@aluno.ifsp.edu.br

²Instituto Federal de São Paulo, Suzano, Brasil – marcela.loureiro@ifsp.edu.br

Cotidianamente, opressões cruzadas e enraizadas resistem, por séculos, em flagelar o sexo e o gênero feminino, tornando necessária a análise histórica e social dessas relações coercitivas que são expostas de maneira genuína e atemporal por Maria Lídia Magliani por meio de suas pinturas, os objetos de análise deste trabalho. A análise das obras da artista possibilita a compreensão do desenvolvimento e relação que as coerções sociais patriarcais e racistas possuem no contexto feminino brasileiro. O padrão de beleza inalcançável, o controle sexual sobre as mulheres e a hiperssexualização do corpo da mulher negra são exemplos dessas opressões retratadas e expostas por Magliani, as quais analisaremos e relacionaremos com as teorias feministas.

O trabalho visa analisar as obras de Magliani com o objetivo de entender, a partir de uma perspectiva feminista interseccional¹, os mecanismos de opressão do patriarcado, como o controle sexual e o belo idealizado que resultam no autoflagelo feminino, e do racismo, ao mesmo tempo que tem objetivo de evidenciar uma artista brasileira invisibilizada.

Este trabalho se baseou no método de pesquisa artística proposto por Silvio Zamboni no livro “Pesquisa em Arte: Um paralelo entre arte e ciência” (1993)² para realizar a sua análise. Desse modo, para desenvolver a problemática do trabalho e o referencial teórico, foi realizada uma revisão integrativa, que é uma ampla abordagem metodológica de pesquisa que possibilita a análise de conhecimentos não-experimentais, combinando “dados da literatura teórica e empírica, além de incorporar um vasto leque de propósitos: definição de conceitos, revisão de teorias e evidências, e análise de problemas metodológicos de um tópico particular”³. Dessa forma, realizamos uma pesquisa diversa sobre teorias feministas e sociológicas para subsidiar as análises das obras da artista Maria Lídia Magliani. Para determinar a problemática da pesquisa e o critério de pesquisa, utilizamos como pergunta norteadora/problema o seguinte questionamento: “Quais são as críticas retratadas nas obras de Magliani e como se desenvolveram as opressões patriarcais e racistas que refletiram no trabalho da artista?” A partir disso, realizamos o levantamento bibliográfico de livros e artigos de pensadoras feministas que dissertam sobre o padrão de beleza, o controle sobre a sexualidade feminina e a intersecção de raça, classe e gênero e artigos que abordam as obras e a trajetória da artista em questão. A revisão bibliográfica foi realizada utilizando plataformas digitais como o Google Acadêmico e ScieLo e palavras-chaves como “feminismo brasileiro”, “padrão de beleza”, “interseccionalidade” e “Maria Lídia Magliani”.Com essas informações organizadas, desenvolvemos as discussões das teorias feministas e as relacionamos com as obras de Magliani.

casos, eram nocivas e dolorosas, como, por exemplo, o uso de cintas apertadas e procedimentos estéticos que podem resultar em sequelas e até na morte. Portanto, percebe-se que a dor e a performance feminina andam historicamente juntos, já que é completamente inviável possuir e manter de forma natural o padrão de beleza imposto, como retrata Maria em suas obras que ilustram “figuras em estado de opressão, com a boca coberta, como uma espécie de metáfora da ausência de liberdade” (Lopes, 2023, p.31).

RESULTADOS E DISCUSSÕES

REFERÊNCIAS

CONCLUSÃO

A pesquisa visibiliza a artista e sistematiza e correlaciona as teorias feministas com suas pinturas. Concluiu-se que as relações patriarcais discutidas, juntamente da hipersexualização do corpo negro que surgiu das relações de poder coloniais e racistas, não permitem que as mulheres saiam incólumes, como é retratado nas obras de Magliani.

  1. AKOTIRENE, Carla. Interseccionalidade. Pólen Produção Editorial LTDA, 2019.
  2. ZAMBONI, Silvio Perini. Pesquisa em arte. 1993. Tese (Doutorado) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 1993. . Acesso em: 30 ago. 2024.
  3. SOUZA, Marcela Tavares de; SILVA, Michelly Dias da; CARVALHO, Rachel de. Revisão integrativa: o que é e como fazer. Einstein (São Paulo), v. 8, p. 102-106, 2010.
  4. LOPES, Maria Aparecida de Oliveira. Uma leitura racializada e generificada da arte de Maria Lídia Magliani: . Revista Crítica Histórica, [S. l.], v. 13, n. 25, 2023. DOI: 10.28998/rchv13n25.2022.0004. Disponível em: https://www.seer.ufal.br/index.php/criticahistorica/article/view/13670. Acesso em: 2 set. 2024.
  5. Wolf, Naomi. O mito da beleza: como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres. Editora Record, 2018
  6. BATISTA, Vagner da Silva; SANTOS, Maysa Cristina Magalhães. Sexualidade Feminina: O Condicionamento da Liberdade Sexual da Mulher Casada no Período da Ditadura Militar no Brasil. Revista do CAAP 21.1 (2015).
  7. OLIVEIRA, Luanda Dalmazo de. Maria Lídia Magliani: uma trajetória possível. 2018. 110 fls. Trabalho de conclusão de curso (Bacharelado em História da arte) - Universidade Federal do Rio Grande do Sul Instituto de Artes, Rio Grande do Sul.

Foi possível analisar as críticas retratadas nas pinturas da Magliani, apontando as opressões patriarcais, racistas e a relação entre a performance do feminino e a dor. A mais, comentamos o desenvolvimento dos mecanismos patriarcais em contraposição ao feminismo e como o capitalismo se relaciona com o padrão de beleza. Observando os diferentes padrões de beleza socialmente aceitos durante a história, muitas imposições coercitivas caíram sobre as mulheres, imposições essas que, em muitos dos

Na pintura ao lado observamos um corpo feminino com curvas e volume sentado no que parece ser um parapeito de uma janela. Em cada forte pincelada, o vermelho sangue, predominante na base na pintura, marca o flagelo e a dor infligida em um corpo ressentido, preso em um uma espiral de coerção patriarcal e que é levado a utilizar roupas que a apertam, como, por exemplo, a meia calça usada por ela para se aproximar do ideal de corpo fetichista e patriarcal imposto sobre as mulheres que mais são vistas pelo sistema como objetos submissos e com sexualidade limitada e restrita aos desejos masculinos que as reduzem a pedaços de carne, como o

gancho no lugar da sua cabeça - o que mais chama a atenção na obra - faz alusão. Exposta como uma carapaça, onde sua consciência fica alheia a representação, já que seus desejos e vontades estão em segundo plano, já que “é preciso sofrer para ser linda” (Wolf, 2018, p.290)⁵ e “já que prestava, tão somente, para satisfazer o homem a partir do estabelecimento de uma relação sexual que era útil, aproveitável, especialmente, para ele” (apud Batista; Santos, 2015, página 127), segundo os mecanismos de opressão sexistas e machistas. Por fim, sentimos na obra a solidão tímida e inquietante da casca vazia que nem mais sangra, reflexo do apagamento e esquecimento que mulheres gordas e fora do padrão de beleza sofrem nas grandes mídias. Ademais, observamos à crítica à hiperssexualição do corpo da mulher negra nas obras de Magliani. Com uma perspectiva do feminismo interseccional, podemos relacionar essa opressão às coerções do patriarcado que resultam em um sistema cruzado de controle e opressão que levou a Magliani, afetada por esse sistema, a retratar e expor essas relações.

Janelas, 1999. Fotografia: Fernando Zago/Studio Z. (Oliveira, 2018, p.50)⁷