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Um discurso sobre as ciências��IV PARTE

Boaventura de Sousa Santos

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Um discurso sobre as ciências

Boaventura de Sousa Santos (1940)

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Um discurso sobre as ciências

IV

O paradigma emergente

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Um discurso sobre as ciências

PARADIGMA EMERGENTE

  • Só por via especulativa.
  • Fundada nos sinais da crise de paradigma.

RENÉ POIRIER – HEGEL – HEIDEGGER

“A coerência global de nossas verdades físicas e metafísicas só se conhece retrospectivamente.”

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Um discurso sobre as ciências

DIZER do FUTURO

“Uma síntese pessoal embebida na imaginação.”

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Um discurso sobre as ciências

TEÓRICOS

Ilya Prigogine 🡪 nova aliança.

Fritjof Capra 🡪 nova física, taoísmo da física.

Eugene Wigner 🡪 mudanças do segundo tipo.

Erich Jantsch 🡪 paradigma da auto-organização.

Daniel Bell 🡪 Sociedade pós-industrial.

Jürgen Habermas 🡪 sociedade comunicativa.

Boaventura 🡪 paradigma de um conhecimento prudente para uma vida decente.

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Fritjof Capra (1939), físico austríaco

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Daniel Bell (1919-2011), sociólogo americano

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Jürgen Habermas (1929), filósofo e sociólogo alemão

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Um discurso sobre as ciências

REVOLUÇÃO CIENTÍFICA ATUAL

  • Diferente estruturalmente da do século XVI.

“O paradigma a emergir dela não pode ser apenas um paradigma científico (o paradigma de um conhecimento prudente), tem de ser também um paradigma social (o paradigma de uma vida decente).”

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Um discurso sobre as ciências

TESES e JUSTIFICAÇÕES

1 – Todo o conhecimento científico-natural é científico-social.

2 – Todo o conhecimento é local e total.

3 – Todo o conhecimento é autoconhecimento.

4 – Todo o conhecimento científico visa constituir-se em senso comum.

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Um discurso sobre as ciências

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Todo o conhecimento científico-natural é científico-social

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Um discurso sobre as ciências

  • Dicotomia entre ciências naturais e ciências sociais não tem mais sentido nem utilidade.
  • Assentada na concepção mecanicista, contrapõe os conceitos de ser humano, cultura e sociedade.

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Um discurso sobre as ciências

  • Bipolaridades postas em causa pelos avanços da Física e Biologia:

orgânico / inorgânico

seres vivos / matéria inerte

humano / inumano

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Um discurso sobre as ciências

  • Auto-organização, metabolismo, autorreprodução atribuídas aos sistemas pré-celulares de moléculas.
  • Reconhecimento de comportamentos específicos de seres humanos e relações sociais.

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Um discurso sobre as ciências

TEORIAS HOLÍSTICAS

Estruturas dissipativas de Prigogine

Teria sinergética de Haken

Teoria da Ordem implicada de David Bohm.

Teoria da Matriz-S de Geoffrey Chew

Teoria do encontro da Física com a Mística Oriental de Capra.

Orientadas para superar as inconsistências entre a mecânica quântica e a teoria da relatividade de Einstein.

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Um discurso sobre as ciências

Todas introduzem na matéria os conceitos de:

HISTORICIDADE

PROCESSO

LIBERDADE

AUTODETERMINAÇÃO

CONSCIÊNCIA

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Um discurso sobre as ciências

EUGENE WIGNER

O inanimado não era uma qualidade diferente, mas apenas um caso limite.

Distinção CORPO/ALMA deixa de ter sentido.

FÍSICA/PSICOLOGIA fundidas numa única ciência.

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Eugene Wigner (1902-1995), físico húngaro

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Um discurso sobre as ciências

ALÉM DA MECÂNICA QUÂNTICA

Introduziu a consciência no ato de conhecimento.

Deve-se introduzir a consciência no objeto de conhecimento.

Transformação da relação SUJEITO/OBJETO.

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GREGOR BATESON

  • “a mente mais ampla”, imanente, global, ecológica planetária.
  • Mente humana tomando parte neste mente geral.

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Gregor Bateson (1904-1980), �antropólogo, cientista social, linguista e semiólogo inglês

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Um discurso sobre as ciências

GEOFFREY CHEW

  • Existência da consciência na natureza.
  • Necessária à autoconsciência própria.
  • Futuras teorias da matéria terão de incluir o estudo da consciência humana.

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Um discurso sobre as ciências

CARL G. JUNG

  • Renovado interesse pelo INCONSCIENTE COLETIVO, imanente à humanidade em geral.

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Carl Gustav Jung (1875-1961), psicoterapeuta suíço

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Um discurso sobre as ciências

FRITJOF CAPRA

  • Adoção da sincronia jungiana para explicar a relação entre a realidade exterior e a realidade interior.
  • Confirmada pelos recentes conceitos de interações locais e não locais na física das partículas.
  • Instantâneas, não previsíveis em termos matemáticos precisos.

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Um discurso sobre as ciências

CAPRA: alternativa para FREUD e BATESON

Freud 🡪 ampliou o conceito de mente para dentro (subconsciente, inconsciente).

Bateson 🡪 ampliou o conceito de mente para fora (além dos indivíduos humanos).

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DAVID BOHM: TEORIA DA ODEM IMPLICADA

  • Uma base comum tanto à teoria quântica como à teoria da relatividade.
  • Consciência e matéria interdependentes, não ligadas pelo nexo da causalidade.
  • Duas projeções, mutuamente envolventes, de uma realidade mais alta distinta da matéria e da consciência.

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Um discurso sobre as ciências

CONHECIMENTO DO PARADIGMA EMERGENTE

  • Não dualista.
  • Fundado na superação das distinções familiares e óbvias:

natureza/ / cultura

natural / artificial

vivo / inanimado

mente / matéria

coletivo / individual

animal / pessoa

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Um discurso sobre as ciências

COLAPSO das DICOTOMIAS

  • repercute nas disciplinas científicas
  • Sempre houve ciências que sempre se reconheceram mal nestas dualidades.
  • Antropologia, Geografia, Psicologia.
  • Condensação das contradições da separação ciências naturais / ciências sociais.

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Um discurso sobre as ciências

SENTIDO E CONTEÚDO DAS SUPERAÇÕES

  • É preciso conhecer o sentido e o conteúdo dessa superação.
  • Saber qual será o “parâmetro de ordem”, segundo Haken, ou o “atrator”, segundo Prigogine.
  • Se ciências naturais, se ciências sociais.

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Um discurso sobre as ciências

  • Sinais de turbulência 🡪 repercussão desigual nas várias regiões do paradigma vigente.
  • Sinais do futuro ainda ambíguos.
  • Alguns veem a emergência de um novo naturalismo, com privilégio dos pressupostos biológicos do comportamento humano.

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Um discurso sobre as ciências

KONRAD LORENZ: SOCIOBIOLOGIA

  • Superação da dicotomia ciências sociais/ciências naturais ocorre sob a égide das ciências naturais.
  • Contra ela: o argumento de que ainda reproduz o paradigma vigente.

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Um discurso sobre as ciências

KONRAD LORENZ: SOCIOBIOLOGIA

  • Numa reflexão mais aprofundada: do conteúdo teórico das ciências que mais progrediu no conhecimento da matéria, pode-se verificar que a emergente inteligibilidade da natureza é presidida por conceitos, teorias, metáforas e analogias das ciências sociais.

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Konrad Zacharias Lorenz (1903-1989), �zoólogo, etólogo e ornitólogo austríaco

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Um discurso sobre as ciências

HAKEN e PRIGOGINE

  • Explicam o comportamento das partículas através dos conceitos de revolução social, violência, escravatura, dominação, democracia nuclear 🡪 oriundos das ciências sociais (sociologia, ciência política, história etc.).

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Um discurso sobre as ciências

FÍSICA TEÓRICA de CAPRA

  • Relação entre Física e Psicanálise.
  • Padrões da matéria e padrões da mente: reflexos uns dos outros.

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Um discurso sobre as ciências

BIOLOGIA RECEPTIVA

“Apesar de estas teorias diluírem as fronteiras entre os objetos da física e os objetos da biologia, foi sem dúvida no domínio desta última que os modelos explicativos das ciências sociais mais se enraizaram nas décadas recentes.”

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Um discurso sobre as ciências

CONCEITOS de LOVELOCK

Teleomorfismo

Autopoieses

Auto-organização

Potencialidade organizada

Originalidade

Individualidade

Historicidade

“Nossos corpos são constituídos por cooperativas de células.”

Atribuem à Natureza

COMPORTAMENTO

HUMANO

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James Lovelock (1919), �pesquisador independente e ambientalista inglês

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Um discurso sobre as ciências

CIÊNCIAS SOCIAIS SUBJACENTES ÀS NATURAIS

  • Facilidade com que as teorias físico-naturais se prestam a explicar os fenômenos sociais.
  • PETER ALLEN 🡪 aplicar a teoria das estruturas dissipativas aos processos econômicos e à evolução das cidades regiões.
  • HAKEN 🡪 as potencialidades da sinergética para explicar situações revolucionárias na sociedade.

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Um discurso sobre as ciências

DURKHEIM INVERTIDO

Fenômenos sociais estudados como fenômenos naturais.

Fenômenos naturais estudados como fenômenos sociais.

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Um discurso sobre as ciências

SUPERAÇÃO DA DICOTOMIA AINDA NÃO-SUFICIENTE

  • Tal superação ainda não é suficiente.
  • Pelo histórico da subordinação às ciências naturais.
  • Afirmada simplesmente, pode ser ilusória.

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Um discurso sobre as ciências

  • As duas vertentes referidas atrás:

1 – Vinculadas ao POSITIVISMO das ciências naturais.

2 – ANTIPOSITIVISTA, numa tradição filosófica complexa, fenomenológica, interacionista, mitossimbólica, hermenêutica, existencialistas, pragmática.

  • Pujança desta indica ser ela o modelo das ciências sociais.
  • Modelo de transição.

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Um discurso sobre as ciências

“Em resumo, à medida que as ciências naturais se aproximam das ciências sociais estas se aproximam das humanidades. O sujeito, que a ciência moderna lançara na diáspora do conhecimento irracional, regressa investido da tarefa de fazer erguer sobre si uma nova ordem científica.”

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Um discurso sobre as ciências

SENTIDO GLOBAL DA REVOLUÇÃO

  • Atraso das ciências sociais?
  • “O avanço do conhecimento das ciências naturais e a reflexão epistemológica que ele tem suscitado têm vindo a mostrar que os obstáculos ao conhecimento científico da sociedade e da cultura são de fato condições de conhecimento em geral, tanto do científico-social como científico-natural.”

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Um discurso sobre as ciências

CONCEPÇÃO de THOMAS KUHN

  • Sobre o caráter pré-paradigmático das ciências sociais.
  • Deve ser abandonada ou seriamente revista.

(crítica)

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Um discurso sobre as ciências

REVALORIZAÇÃO DAS HUMANIDADES

  • Superação da dicotomia deve revalorizar as Humanidades.
  • Revalorização exige também transformação profunda delas próprias.

COMPREENSÃO x MANIPULAÇÃO

  • Resistência à separação sujeito/objeto é o que há nelas de futuro.
  • Preferência pela compreensão do mundo à manipulação do mundo.

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Um discurso sobre as ciências

GUETO DAS HUMANIDADES

  • Elas se meteram num gueto.
  • Preocupações mistificadoras (esoterismo, erudição).
  • Defesa contra o assédio das ciências sociais, armadas do viés cientista triunfalmente brandido.
  • Fruto do esvaziamento sofrido pela invasão do modelo cientista.

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Um discurso sobre as ciências

RECUPERAÇÃO

  • Necessidade de recuperar o núcleo genuíno.
  • Colocá-lo a serviço de uma reflexão global sobre o mundo.

FILOLOGIA

  • Uma das analogias matriciais com que se construirá no paradigma emergente o conhecimento sobre a sociedade e a natureza.

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Um discurso sobre as ciências

CONCEPÇÃO HUMANÍSTICA DAS CIÊNCIAS SOCIAIS

  • Agente catalisador da fusão.
  • Coloca a pessoa (sujeito e autor) no centro do conhecimento.
  • Mais além: coloca a natureza no centro da pessoa.

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Um discurso sobre as ciências

CIÊNCIA PÓS-MODERNA

  • Analógica: conhece o que conhece pior através do que conhece melhor.
  • Analogias: TEXTUAL, LÚDICA, DRAMÁTICA, BIOGRÁFICA.
  • Como categorias matriciais do paradigma emergente.

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Um discurso sobre as ciências

CLIFFORD GEERTZ

  • Restringe estas analogias às ciências sociais.
  • Boaventura as concebe como categorias de inteligibilidade universais.
  • Cada uma dessas analogias desvela uma ponta do mundo.

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Clifford Geertz (1926-2006), antropólogo americano

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Um discurso sobre as ciências

JÜRGEN HABERMAS

  • Jogo, palco, texto, biografia.
  • Mundo é comunicação.
  • A lógica existencial da ciência pós-moderna é promover a “situação comunicativa”.

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Um discurso sobre as ciências

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Todo o conhecimento é local e total

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Um discurso sobre as ciências

CIÊNCIA MODERNA: ESPECIALIZAÇÃO

  • Conhecimento tanto mais rigoroso quanto mais restrito o objeto.
  • Dilema clássico: seu rigor aumenta na proporção direta da arbitrariedade com que espartilha o real.“
  • Conhecimento disciplinar e disciplinado.
  • Segrega a organização do saber orientada para policiar as fronteiras entre disciplinas e reprimir os que as transpuserem.

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Um discurso sobre as ciências

CIENTISTA: IGNORANTE ESPECIALIZADO

  • A excessiva parcelização e disciplinarização do saber faz do cientista um ignorante especializado.
  • Com efeitos negativos, visíveis nas ciências aplicadas.

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Um discurso sobre as ciências

TECNOLOGIA 🡪 impactos nos ecossistemas.

MEDICINA 🡪 doente numa quadrícula sem sentido.

FARMÁCIA 🡪 o lado destrutivo dos remédios.

DIREITO 🡪 reduziu a complexidade da vida à secura dogmática.

ECONOMIA 🡪 legitimou o reducionismo quantitativo e tecnocrático com o pretendido êxito das previsões econômicas.

PSICOLOGIA 🡪 expedientes e testes que se reduziram a riqueza da personalidade a exigências funcionais de instituições unidimensionais.

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Um discurso sobre as ciências

MALES RECONHECIDOS, MAS AINDA REPRODUZIDOS

  • Males da especialização são reconhecidos.
  • Medidas propostas para correção os reproduzem por outra forma.
  • Criação de novas disciplinas.
  • Exemplo: o médico generalista.
  • Não há solução do problema no seio do paradigma dominante.

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Um discurso sobre as ciências

TOTAL e LOCAL

  • Paradigma emergente 🡪 conhecimento total

TOTALIDADE UNIVERSAL (Wigner)

TOTALIDADE INDIVISA (Bohm)

  • Total, mas também local.

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Um discurso sobre as ciências

“Constitui-se em redor de temas que em dado momento são adotados por grupos sociais concretos como projetos de vida locais, sejam eles reconstituir a história de um lugar, manter um espeço verde, construir um computador adequado às necessidades locais, fazer baixar a taxa de mortalidade infantil, inventar um novo instrumento musical, erradicar uma doença etc., etc.”

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Um discurso sobre as ciências

  • A fragmentação pós-moderna não é disciplinar; é temática.
  • Temas são galerias por onde os conhecimentos progridem ao encontro uns dos outros.
  • Avança à medida que seu objeto amplia.

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Um discurso sobre as ciências

  • Local, mas também total:

“porque reconstitui os projetos cognitivos locais, salientando-lhes a sua exemplaridade, e por essa via transforma-os em pensamento total ilustrado.

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Um discurso sobre as ciências

ANALÓGICA e TRADUTORA

  • Incentiva os conceitos e as teorias desenvolvidas localmente a emigrarem para outros lugares cognitivos, de modo a poderem ser utilizados fora de seu contexto de origem.
  • Normal numa forma de conhecimento que concebe através da imaginação e generalização através da qualidade e exemplaridade.

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Um discurso sobre as ciências

CONHECIMENTO PÓS-MODERNO

  • Total, sem ser determinístico.
  • Local, sem ser descritivista.
  • Conhecimento sobre as condições de possibilidade da ação humana projetada no mundo a partir de um espaço-tempo local.
  • Relativamente IMETÓDICO.

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Um discurso sobre as ciências

PLURALIDADE METODOLÓGICA

“Cada método é uma linguagem e a realidade responde na língua em que é perguntada.”

Constelação de métodos.

Pluralidade só possível mediante transgressão metodológica.

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Um discurso sobre as ciências

TRANSFRESSÃO METODOLÓGICA

  • Repercutida nos estilos e gêneros literários que presidem a escrita científica.
  • A ciência pós-moderna não segue um estilo unidimensional.
  • Seu estilo é uma configuração de estilos construída segundo o critério e a imaginação pessoal do cientista.

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Um discurso sobre as ciências

TOLERÂNCIA DISCURSIVA

O outro lado da pluralidade metodológica.

GEERTZ na Sociologia:

  • Investigação filosófica parecendo crítica literária em Sartre.
  • Fantasias barrocas sob a forma de observações empíricas em Borges.

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Um discurso sobre as ciências

GEERTZ na Sociologia:

  • Parábolas apresentadas como investigações etnográficas em Carlos Castañeda.
  • Estudos epistemológicos sob a forma de textos políticos em Paul Feyerabend.

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Um discurso sobre as ciências

CASO FOUCAULT

Historiador? Filósofo? Sociólogo? Cientista político?

COMPOSIÇÃO TRANSDICIPLINAR e INDIVIDUALIZADA, para que estes textos apontam, sugere um movimento no sentido da maior personalização do trabalho científico.

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Um discurso sobre as ciências

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Todo o conhecimento é auto-conhecimento

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Um discurso sobre as ciências

HUMANISMO DA CIÊNCIA MODERNA

  • Consagrou o homem como sujeito epistêmico.
  • Mas expulsou o sujeito empírico.
  • Conhecimento objetivo, factual e rigoroso não tolerava a interferência dos valores humanos e religiosos.

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Um discurso sobre as ciências

DICOTOMIA SUJEITO/OBJETO

  • Distinção entre sujeito e objeto.
  • Pacífica tanto nas sociais quanto nas naturais.
  • Questão:

Como foi pacífica nas sociais?

Se sujeito e objeto são homens?

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Um discurso sobre as ciências

ANTROPOLOGIA

  • Enorme distância entre sujeito e objeto.
  • Diminuição na ETNOGRAFIA.

SOCIOLOGIA

  • Pequena ou quase nula distância.
  • Cientistas europeus a estudar concidadãos.
  • Aumentada pela EPISTEMOLOGIA

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Um discurso sobre as ciências

QUESTIONAMENTO DA DISTÂNCIA

  • Antropologia: descolonização depois da II Guerra e Guerra do Vietnã.
  • Sociologia: depois de 1960.
  • Os selvagens foram vistos na civilização.
  • A civilização foi vista nos selvagens.
  • Sociologia passou a usar métodos da Antropologia (observação participante).
  • Nativos tornados concidadãos, protegidos pela ONU.

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Um discurso sobre as ciências

CIÊNCIAS FÍSICO-NATURAIS

  • Avanços da astrofísica, Microfísica e Biologia restituíram à natureza as propriedades de que a ciência moderna a expropriara.
  • Efeitos negativos da tecnociência.

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Um discurso sobre as ciências

“A nova dignidade da natureza mais se consolidou quando se verificou que o desenvolvimento tecnológico desordenado nos tinha separado da natureza em vez de nos unir a ele e que a exploração da natureza tinha sido o veículo da exploração do homem.”

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Um discurso sobre as ciências

DESCONFORTO PROPAGADO NAS CIÊNCIAS NATURAIS

“O sujeito regressava na veste de objeto.”

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Um discurso sobre as ciências

DEUS, O FORAGIDO

Conceitos de Bateson:

MENTE IMANENTE

MENTE MAIS AMPLA

MENTE COLETIVA

Retorno do deus foragido.

Deus transfigurado: nada de divino.

Harmonia e comunhão

Nova GNOSE em gestação.

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Um discurso sobre as ciências

CLAUSEWITZ parafraseado

  • O objeto é a continuação do sujeito por outros meios.
  • Todo conhecimento científico é autoconhecimento.
  • Ciência é um ato criativo.
  • Pressupostos são partes integrantes da mesma explicação.
  • Ciência não é a única nem a melhor explicação sobre a realidade.

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Um discurso sobre as ciências

CIÊNCIA É AUTOBIOGRÁFICA

  • A razão porque se privilegia uma forma de conhecimento assente na previsão e no controle dos fenômenos nada tem de científico.
  • É um juízo de valor.
  • É uma autojustificativa da ciência.
  • É autobiografia.

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Um discurso sobre as ciências

CONSAGRAÇÃO e NATURALIZAÇÃO

“A consagração da ciência moderna nestes últimos quatrocentos anos naturalizou a explicação do real, a ponto de não o podermos conceber senão nos termos por ela propostos.”

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Um discurso sobre as ciências

METÁFORAS CARDEAIS DA FÍSICA MODERNA

Categorias do ESPAÇO – TEMPO – MATÉRIA – NÚMERO.

Sem elas, somos incapazes de pensar.

Mesmo sabendo-as convencionais, arbitrárias, metafóricas.

Processo lento de naturalização.

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Um discurso sobre as ciências

DESCARTES: CARÁTER AUTOBIOGRÁFICO

(citação, p. 91)

  • Trajetórias de vida pessoais e coletivas diligenciando o conhecimento.
  • Saberes que correm subterraneamente e clandestinamente.

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Um discurso sobre as ciências

PARADIGMA EMERGENTE

  • Assume plenamente o caráter autobiográfico e autorreferenciável.
  • Não se trata de sobreviver como de saber viver.
  • Conhecimento compreensivo e íntimo que não nos separe.
  • Que nos una pessoalmente ao que estudamos.
  • Mais contemplativo que ativo.
  • Qualidade mais no que compartilha do que no que controla.

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Um discurso sobre as ciências

DIMENSÃO ESTÉTICA DA CIÊNCIA

  • Reconhecida por cientistas e filósofos.
  • De Poincaré a Kuhn, de Polanyi a Popper.
  • Roger Jones: sistema de Newton é também obra de arte.
  • Criação científica = criação literária ou artística.
  • Razão: a dimensão ativa da transformação do real (escultor trabalhando a pedra) seja subordinada à contemplação do resultado (obra de arte).
  • Discurso científico aproximado da crítica literária.

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Um discurso sobre as ciências

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Todo o conhecimento científico vida constituir-se em senso comum

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Um discurso sobre as ciências

FUNDAMENTO NÃO-CIENTÍFICO

O fundamento do estatuto privilegiado da racionalidade científica não é em si mesmo científico.

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Um discurso sobre as ciências

CIÊNCIA e IGNORÂNCIA

  • A ciência ensina pouco.
  • Por mais ampliado que seja, é exíguo.
  • Exiguidade está na forma do conhecimento.
  • Ela produz conhecimento e desconhecimento.
  • Cientista 🡪 ignorante especializado.
  • Cidadão comum 🡪 ignorante generalizado.

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Um discurso sobre as ciências

CIÊNCIA MODERNA

  • Sabe que nenhuma forma de conhecimento é racional.
  • Diálogo com as outras formas, deixando-se interpenetrar por elas.
  • Senso comum, vulgar, prática 🡪 mais importante.
  • Procura reabilitar o senso comum.

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Um discurso sobre as ciências

SENSO COMUM

  • Caráter mistificado e mistificador, conservador.
  • Tem uma dimensão utópica e libertadora, possível de ampliação no diálogo.

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Um discurso sobre as ciências

EXCELÊNCIA DO SENSO COMUM

  • Faz coincidir causa e intenção.
  • Visão de mundo assente na ação, na criatividade e responsabilidade.
  • Prático e pragmático.
  • Reproduz-se colado às trajetórias e às experiências da vida do grupo social.
  • Fiável e securizante.
  • Desconfia da opacidade dos objetivos tecnológicos e do esoterismo da ciência.

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Um discurso sobre as ciências

SUPERFICIAL e PROFUNDO

  • Desdenha das estruturas que estão para além da consciência.
  • Exímio em captar a profundidade das relações conscientes entre pessoas e entre pessoas e coisas.

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Um discurso sobre as ciências

INDISCIPLINAR e IMETÓDICO

  • Não resulta de uma prática especificamente orientada para o produzir.
  • Reproduz-se espontaneamente no suceder quotidiano da vida.
  • Aceita o que existe tal como existe.
  • Privilegia a ação que não produza rupturas significativas no real.

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Um discurso sobre as ciências

RETÓRICO e METAFÓRICO

Não ensina, persuade.

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Um discurso sobre as ciências

VIRTUDE ANTECIPATÓRIA

  • Deixado a si mesmo, é conservador e legitima prepotências.
  • Interpenetrado pelo conhecimento científico, ode estar na origem de uma nova racionalidade.
  • Uma racionalidade feita de racionalidades plurais.

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Um discurso sobre as ciências

INVERTER A RUPTURA EPISTEMOLÓGICA

Na moderna 🡪 senso comum para o conhecimento científico.

Na pós-moderna 🡪 conhecimento científico para o senso comum.

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Um discurso sobre as ciências

WITTGENSTEIN: Ciência clara

“Tudo o que se deixa dizer deixa-se dizer claramente.”

NIETZSCHE: Ciência transparente

“Todo o comércio entre os homens visa que cada um possas ler na alma do outro, e a língua comum é a expressão sonora dessa alma comum.”

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Um discurso sobre as ciências

TECNOLOGIA e SABEDORIA DE VIDA

  • Não se despreza o conhecimento que produz tecnologia.
  • O desenvolvimento tecnológico deve traduzir-se em sabedoria de vida.
  • Marcos de PRUDÊNCIA.
  • Prudência: insegurança assumida e controlada.

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Um discurso sobre as ciências

COM DESCARTES

Exercer a dúvida, sem a sofrer.

Exercer a insegurança, sem a sofrer.

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Um discurso sobre as ciências

FASE DE TRANSIÇÃO E INSEGURANÇA

“Duvidamos suficientemente do passado para imaginarmos o futuro, mas vivemos demasiadamente o presente para podermos realizar nele o futuro. Estamos divididos, fragmentados. Sabemo-nos a caminho, mas não exatamente onde estamos na jornada. A condição epistemológica da ciência repercute-se na condição existencial dos cientistas. Afinal, se todo o conhecimento é autoconhecimento, também todo desconhecimento é autodesconhecimento.