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Mesa 5 - Emergências Climáticas, Justiça Socioambiental e�os desafios do PNE.

Luiz Fernando Scheibe – UFSC

Florianópolis, 28/06/2024 www.rgsgsc.wordpress.com

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A primeira interrogação que se fazem os astrônomos, quando descobrem um novo e longínquo planeta, é pela presença de água livre na sua superfície. Este será considerado o primeiro indício da possibilidade de existência, lá, de formas de vida semelhantes às que conhecemos na Terra.

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Apesar de contemplarmos muitas vezes a natureza de uma forma romântica e sonhadora, dependemos diretamente de aproveitar e transformar o ambiente natural para nele viver, e passamos a considera-lo como o meio ambiente do homem.

E as mudanças climáticas nada mais são do que uma das consequências de nossa atuação no Planeta.

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Como exemplo, em sua aparente simplicidade, formada apenas pelo Oxigênio e o Hidrogênio, a molécula da água esconde propriedades que a tornam indispensável para todas as formas de vida em nosso planeta, que tem também as características de uma “improbabilidade estatística” no universo. Pois são essas características, a sua força de gravidade, a rotação a cada 24 horas, a translação anual ao redor do sol, o relevo e até as fases da lua, que possibilitam a coexistência, junto à superfície terrestre, de um ciclo entre a água líquida, o vapor d’água e o gelo.

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É através deste ciclo que acontece, dia após dia, o “milagre” da renovação da pureza da água, que pela evaporação desde o oceano, pela evapotranspiração das árvores ou pela filtração em seu caminho através do solo até os aquíferos, volta a oferecer-se com suas qualidades originais .

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Mas é, também, graças a este Ciclo, além de sua polaridade, que a água, além de ser indispensável à vida, constitui o veículo das constantes mudanças que fazem com que a Terra, ao contrário dos demais planetas até agora conhecidos, possa ser considerada, conforme a Hipótese Gaia, de James Lovelock, como um superorganismo, composto por uma rede vivente que, através de sua interação, configura o delicado equilíbrio da biosfera; um ser vivente, um sistema que se autorregula com base na cooperação ou na colaboração entre todos os seres, dos mais simples (incluindo minerais e rochas) aos mais complexos organismos.

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Raízes entrelaçadas de árvores do mangue, expostas pela erosão na praia Daniela, Ilha de Santa Catarina, evidenciando as trocas de substâncias, bactérias, informações entre elas.

Foto L. F. Scheibe

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A Vida seria então, não o resultado da competição – como tem sido injustamente atribuído a Darwin - mas um triunfo da cooperação e da criatividade, e é, ela mesma, parte essencial dos mecanismos da regulação do próprio Planeta Terra.

Logo, como humanos, não somos “hóspedes” da Terra – ou de Gaia – mas partes dela, e nos cabe contribuir para sua regulação, e não, perturbar o seu fino equilíbrio.

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Da teoria de Gaia, derivaria uma ética, que implica em reconhecer os direitos de todos os outros seres com quem compartilhamos a Terra, e reconhecer seu direito á existência e ao pacífico desenvolvimento de sua vida– até como as rochas que, graças à água, se transformam no solo que suporta as plantas, responsáveis pela fotossíntese – a mais eficiente forma de captar e armazenar a energia do sol - com a qual somos brindados na medida exata – tendo ainda, como consequência a extração do carbono e a renovação dos estoques de oxigênio da atmosfera.

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[6CO2 + 6H2O + Luz Solar = C6H12O6 + 6O2 ]

(GLICOSE, CELULOSE...)

(Aqui, a origem de praticamente todos os combustíveis, desde a

madeira e a cana, até os “fósseis”, como o carvão, o petróleo e o gás natural –

“convencionais” e “não convencionais”).

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E é assim que os nutrientes dos solos são incorporados à seiva das árvores e plantas, e ocorre a produção primária de praticamente todos os alimentos (glicose, outros carbo-hidratos, proteínas, etc.), de cuja energia dependemos para nosso crescimento e sobrevivência.

Cabe, aqui, lembrar a “Geografia da Fome”, de Josué de Castro, livro que escancarou para o Brasil e o mundo o drama da fome e da subnutrição, confirmando que “a questão da fome deve-se à má distribuição das riquezas e dos produtos, e não à sua escassez em termos quantitativos”.

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Nosso grande teólogo brasileiro Leonardo Boff, citado por Eugenio Raúl Zaffaroni , autor do livro “La Pachamama y el Humano (2011), lembra que, se a ética da cooperação é indispensável à sobrevivência, o maior obstáculo para a salvação da humanidade sobre a Terra seria o Capitalismo, cuja essência é, dele sim, a competição – e, no caso do neoliberalismo, o predomínio dos “direitos do indivíduo”- em especial os lucros - sobre os do conjunto da sociedade. Veja-se o apelo que tantos fazem, hoje, à “liberdade individual”, mesmo que em detrimento da saúde pública, como no caso da vacinação contra o Covid-19 no Brasil.

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Para Leonardo Boff, a Gaia, de Lovelock, é a Pachamama dos indígenas latino-americanos, e o consequente “Buen vivir”. Essa teoria, ou cosmologia, não nos vem como uma divindade, mas como uma manifestação do saber milenar, da cultura ancestral de convivência com a natureza: segundo esse saber, nós seres humanos não “vivemos sobre” a Terra, nós somos terra (e somos água!), somos uma parte do sistema Terra. .

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Entre os seres vivos e os inertes, a atmosfera, os oceanos, as montanhas, o solo, a biosfera e a antroposfera, assim como entre cada uma das trilhões de células de nosso corpo e os milhões/bilhões de micróbios e bactérias que o habitam, há interrelações. Não há uma simples soma de todas essas partes, mas uma interação de colaboração entre elas.

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Assim, essa teoria e sua ética consequente, aplicadas aos estudos da assim chamada “questão ambiental”, pode nos ajudar a reforçar a necessidade da substituição da competitividade neoliberal por uma colaboração equitativa entre todos os seres humanos, mas também entre nós e todos os seres da natureza, da qual fazemos parte.

Aplicada ao contexto de um Sistema Nacional de Educação, reforçaria, também, a importância da colaboração entre todos os seus integrantes.