1 of 21

EXTENSÕES DE AULA

Decolonialidade e busca por identidade em

TERRA SONÂMBULA

Priscila Pereira Carletti 9822880 matutino

2 of 21

Objetivos

Objetivo 1.

Decolonizar o pensamento em relação a África

Objetivo 2.

Explorar os seguintes temas em Terra Sonâmbula: decolonialidade e busca por identidade

Objetivo 3.

Abordar a linguagem como prática social e possível ferramenta decolonial

Obs:

Essa aula foi pensada para funcionar como extensão da sequência didática “Como trabalhar Terra Sonâmbula”

3 of 21

Decolonialidade

Expansão

4 of 21

AULA 01

01

02

03

Decolonialidade

Retomar o conceito de decolonialidade explorado na aula 1 da sequencia didática

Efeitos

da colonialidade no nosso dia-a-dia

Explorar

outra obra moçambicana decolonial

5 of 21

DECOLONIALIDADE

refere-se aos esforços de quebrar hierarquias de diferenças que desumanizam sujeitos e comunidades e de produzir contra-discursos para desmantelar a colonialidade (MALDONADO-TORRES, 2006)

6 of 21

EXEMPLOS DE ATITUDES DECOLONIAIS

  • Não tomar o norte global como única referência e buscar referências outras
  • Estudar a história das colonizações pela perspectiva dos povos colonizados
  • Valorizar conhecimentos, expressões culturais, artísticas e literárias do sul global
  • Enfrentar o racismo, a xenofobia e a estereotipação
  • Questionar a monocultura

Agora é sua vez, consegue pensar em exemplos

do dia-a-dia?

7 of 21

POEMA: ÁFRICA de José Craveirinha

Em meus lábios grossos fermenta

a farinha do sarcasmo que coloniza minha Mãe África

e meus ouvidos não levam ao coração seco

misturada com o sal dos pensamentos

a sintaxe anglo-latina de novas palavras.

Amam-me com a única verdade dos seus evangelhos

a mística das suas missangas e da sua pólvora

a lógica das suas rajadas de metralhadora

e enchem-me de sons que não sinto

das canções das suas terras

que não conheço.

8 of 21

POEMA: ÁFRICA de José Craveirinha

E dão-me

a única permitida grandeza dos seus heróis

a glória dos seus monumentos de pedra

a sedução dos seus pornográficos Rolls-Royce

e a dádiva quotidiana das suas casas de passe.

Ajoelham-me aos pés dos seus deuses de cabelos lisos

e na minha boca diluem o abstracto

sabor da carne de hóstias em milionésimas

circunferências hipóteses católicas de pão.

.

a técnica de Buchenwald e as bombas V2

acenderam fogos de artifício nas pupilas

de ex-meninos vivos de Varsóvia

criaram Al Capone, Hollywood, Harlem

a seita Ku-Klux-Klan, Cato Manor e Sharpeville*

e emprenharam o pássaro que fez o choco

sobre os ninhos mornos de Hiroshima e Nagasaki

conheciam o segredo das parábolas de Charlie Chaplin

lêem Platão, Marx, Gandhi, Einstein e Jean-Paul Sartre

e sabem que Garcia Lorca não morreu mas foi assassinado

são os filhos dos santos que descobriram a Inquisição

perverteram de labaredas a crucificada nudez

da sua Joana D’Arc e agora vêm

arar os meus campos com charruas ‘Made in Germany’

mas já não ouvem a subtil voz das árvores

nos ouvidos surdos do espasmo das turbinas

não lêem nos meus livros de nuvens

o sinal das cheias e das secas

e nos seus olhos ofuscados pelos clarões metalúrgicos

extinguiu-se a eloquente epidérmica beleza de todas

as cores das flores do universo

e já não entendem o gorjeio romântico das aves de casta

instintos de asas em bando nas pistas do éter

infalíveis e simultâneos bicos trespassando sôfregos

a infinita côdea impalpável de um céu que não existe.

E no colo macio das ondas não adivinham os vermelhos

sulcos das quilhas negreiras e não sentem

como eu sinto o prenúncio mágico sob os transatlânticos

da cólera das catanas de ossos nos batuques do mar.

E no coração deles a grandeza do sentimento

é do tamanho ‘cowboy’ do nimbo dos átomos

desfolhados no duplo rodeo aéreo no Japão.

.

Mas nos verdes caminhos oníricos do nosso desespero

perdoo-lhes a sua bela civilização à custa do sangue

ouro, marfim, améns

e bíceps do meus povo.

.

E ao som másculo dos tantãs tribais o Eros

do meu grito fecunda o húmus dos navios negreiros…

E ergo no equinócio da minha Terra

o moçambicano rubi do nosso mais belo canto xi-ronga

e na insólita brancura dos rins da plena Madrugada

a necessária carícia dos meus dedos selvagens

é a tácita harmonia de azagaias no cio das raças

belas como altivos falos de ouro

erectos no ventre nervoso da noite africana.

E em vez dos meus amuletos de garras de leopardo

vendem-me a sua desinfectante benção

a vergonha de uma certidão de filho de pai incógnito

uma educativa sessão de ‘strip-tease’ e meio litro

de vinho tinto com graduação de álcool de branco

exacta só para negro

um gramofone de magaíza

um filme de heróis de carabina a vencer traiçoeiros

selvagens armados de penas e flechas

e o ósculo das suas balas e dos seus gases lacrimogéneos

civiliza o meu casto impudor africano.

9 of 21

POEMA: ÁFRICA de José Craveirinha

Efígies de Cristo suspendem ao meu pescoço

em rodelas de latão em vez dos meus autênticos

mutovanas de chuva e da fecundidade das virgens

do ciúme e da colheita de amendoim novo.

E aprendo que os homens inventaram

a confortável cadeira eléctrica

a técnica de Buchenwald e as bombas V2

acenderam fogos de artifício nas pupilas

de ex-meninos vivos de Varsóvia

criaram Al Capone, Hollywood, Harlem

a seita Ku-Klux-Klan, Cato Manor e Sharpeville*

e

extinguiu-se a eloquente epidérmica beleza de todas

as cores das flores do universo

e já não entendem o gorjeio romântico das aves de casta

instintos de asas em bando nas pistas do éter

infalíveis e simultâneos bicos trespassando sôfregos

a infinita côdea impalpável de um céu que não existe.

E no colo macio das ondas não adivinham os vermelhos

sulcos das quilhas negreiras e não sentem

como eu sinto o prenúncio mágico sob os transatlânticos

da cólera das catanas de ossos nos batuques do mar.

E no coração deles a grandeza do sentimento

é do tamanho ‘cowboy’ do nimbo dos átomos

desfolhados no duplo rodeo aéreo no Japão.

.

Mas nos verdes caminhos oníricos do nosso desespero

perdoo-lhes a sua bela civilização à custa do sangue

ouro, marfim, améns

e bíceps do meus povo.

.

E ao som másculo dos tantãs tribais o Eros

do meu grito fecunda o húmus dos navios negreiros…

E ergo no equinócio da minha Terra

o moçambicano rubi do nosso mais belo canto xi-ronga

e na insólita brancura dos rins da plena Madrugada

a necessária carícia dos meus dedos selvagens

é a tácita harmonia de azagaias no cio das raças

belas como altivos falos de ouro

erectos no ventre nervoso da noite africana.

emprenharam o pássaro que fez o choco

sobre os ninhos mornos de Hiroshima e Nagasaki

conheciam o segredo das parábolas de Charlie Chaplin

lêem Platão, Marx, Gandhi, Einstein e Jean-Paul Sartre

e sabem que Garcia Lorca não morreu mas foi assassinado

são os filhos dos santos que descobriram a Inquisição

perverteram de labaredas a crucificada nudez

da sua Joana D’Arc e agora vêm

arar os meus campos com charruas ‘Made in Germany’

mas já não ouvem a subtil voz das árvores

nos ouvidos surdos do espasmo das turbinas

não lêem nos meus livros de nuvens

o sinal das cheias e das secas

e nos seus olhos ofuscados pelos clarões metalúrgicos

10 of 21

POEMA: ÁFRICA de José Craveirinha

extinguiu-se a eloquente epidérmica beleza de todas

as cores das flores do universo

e já não entendem o gorjeio romântico das aves de casta

instintos de asas em bando nas pistas do éter

infalíveis e simultâneos bicos trespassando sôfregos

a infinita côdea impalpável de um céu que não existe.

E no colo macio das ondas não adivinham os vermelhos

sulcos das quilhas negreiras e não sentem

como eu sinto o prenúncio mágico sob os transatlânticos

da cólera das catanas de ossos nos batuques do mar.

E no coração deles a grandeza do sentimento

é do tamanho ‘cowboy’ do nimbo dos átomos

desfolhados no duplo rodeo aéreo no Japão.

Mas nos verdes caminhos oníricos do nosso desespero

perdoo-lhes a sua bela civilização à custa do sangue

ouro, marfim, améns

e bíceps do meus povo.

E ao som másculo dos tantãs tribais o Eros

do meu grito fecunda o húmus dos navios negreiros…

E ergo no equinócio da minha Terra

o moçambicano rubi do nosso mais belo canto xi-ronga

e na insólita brancura dos rins da plena Madrugada

a necessária carícia dos meus dedos selvagens

é a tácita harmonia de azagaias no cio das raças

belas como altivos falos de ouro

erectos no ventre nervoso da noite africana.

11 of 21

Para discutir em sala - professor e alunos

  • O poema de Craveirinha versa sobre a África sob o ponto de vista de quem?
  • Como é a estrutura desse poema? (em relação a rimas, versos e estrofes)
  • Você consideraria esse poema uma obra decolonial? Por quê/ Por quê não?
  • Identifique no poema referências à África e seus povos e aos colonizadores. (ex: colonizadores - "sintaxe anglo-latina”; "evagelhos", "pólvora", etc.
  • Há no poema vocábulos que você desconhece? Pesquise seus significados.

12 of 21

Efeitos da colonialidade no poema África

  1. Complete os outros tópicos com algum verso do poema

  • imposição da língua, religião e cultura do colonizador ("sintaxe anglo-latina de novas palavras"; "amam-me com a única verdade dos seus evangelhos"; "enchem-me de sons que não sinto das canções das suas terras que não conheço."
  • violência colonial
  • estereótipo dos povos colonizados
  • culturas de violência cotidiana do norte global

  • suposto processo de civilização europeu e a exploração do continente africano
  • supervalorização dos conhecimentos formais e desvalorização dos conhecimento

13 of 21

E NO SEU DIA-A-DIA VOCÊ PERCEBE AS CONSEQUÊNCIAS DA COLONIALIDADE?

14 of 21

A LINGUAGEM

02

em Terra Sonâmbula

15 of 21

AULA 02

o papel da linguagem em Terra Sonâmbula

Explorar

o tema da construção da identidade em Terra Sonâmbula

Investigar

o papel da linguagem em uma expressão de cultura marginal

Explorar

01

03

02

16 of 21

O PAPEL DA LINGUAGEM EM TERRA SONÂMBULA

  • Linguagem poética fascina o leitor e ameniza os horrores da guerra, sem romantizá-los

“ A morte, afinal, é uma corda que nos amarra as veias. O nó está lá desde que nascemos. O tempo vai esticando as pontas da corda, nos estancando pouco a pouco”. (COUTO,1992)

  • Uso do fantástico têm o mesmo efeito

17 of 21

O PAPEL DA LINGUAGEM EM TERRA SONÂMBULA

  • Metáforas:
  • Vinticinco de Junho = país que surge da esperança na Independência de Moçambique, a 25 de junho de 1975,
  • Transformação de Vinticinco de Junho em animal = brutalidade da guerra civil e o fim da esperança da construção de um país livre e em paz
  • ”O sonho é o olho da vida. Estávamos cegos” (COUTO,1992) = metáfora da falta de perspectiva de futuro

  • Neologismos - criação de novas palavras
  • exemplos: "A canoa se ondeava, adormentada em águas perdidas. Meu peito bumbumbava, acelerado”
  • Mia Couto faz uso de neologismos durante toda a narrativa, construindo uma linguagem própria. Apesar de ser escrito em língua portuguesa, não se pode mais dizer que a obra foi escrita na língua do colonizador, Mia Couto apropriou-se dela e deixou nela diversas marcas africanas e decoloniais. O autor cria palavras novas, inverte a sintaxe e faz uso da linguagem escrita misturada com características da tradição oral africana. - DECOLONIZANDO A LINGUAGEM

18 of 21

A construção da identidade em Terra Sonâmbula

  • Linguagem e contexto histórico fazem com que a obra seja muito característica de Moçambique, a fim de criar uma literatura nacional para uma nação estilhaçada
  • Falta de memória e de identidade de Muidinga- metáfora para o recém-formado país que estava em guerra, destruído, cindido entre dois e sem uma identidade nacional.
  • Uso de linguagem própria da tradição oral - outra tentativa de construir uma identidade africana na obra - desejo de manter as tradições que poderiam se perder com a vinda da guerra = "É que estou grávida, maistravez"

19 of 21

DECOLONIALIDADE E IDENTIDADE EM MUFETE DE EMICIDA

20 of 21

DECOLONIALIDADE E IDENTIDADE EM MANDUME DE EMICIDA

Analise a letra da música e discuta em sala com seus colegas e professor sobre:

  • o contexto social da música
  • discursos e contra-discursos presentes na letra
  • o estilo musical e sua proposta
  • a linguagem empregada e a motivação para o uso dela (falta de concordância, palavrões e gírias)
  • a identidade social que a música ajuda a construir
  • elementos decoloniais presentes na música
  • referências
  • possíveis interlocutores
  • semelhanças com a Terra Sonâmbula (nas intenções e na linguagem)

21 of 21

Referências

COUTO, Mia. Terra Sonâmbula. Companhia de Bolso, São Paulo, 2015.

DUBOC, Ana Paula Martinez. Atitude decolonial na universidade e na escola: por uma educação outra. 2020.

MALDONADO-TORRES, Nelson. Outline of Ten Theses on Coloniality and Decoloniality. Frantz Fanon Foundation, 2016.