1 of 17

As parábolas de Jesus�contêm uma EXIGÊNCIA ÉTICA

2 of 17

Entre outras possibilidades, �apresentam-se aqui 3 parábolas:

O bom samaritano

O rico e o pobre Lázaro

O juízo final

3 of 17

Todas estas parábolas apresentam um convite à responsabilidade para com a sorte do ‘outro’, evidenciam uma atenção e compreensão para com o necessitado, o pobre, o sofredor.

Fazem o mesmo apelo inscrito na pergunta de Deus a Caim após o assassínio de Abel:

«ONDE ESTÁ O TEU IRMÃO?» (Gen 4,9s)

4 of 17

Parábola do bom samaritano (Luc. 10, 25-37)

Levantou-se, então, um doutor da Lei e perguntou-lhe, para o experimentar: «Mestre, que hei-de fazer para possuir a vida eterna?». Disse-lhe Jesus: «Que está escrito na Lei? Como lês?». O outro respondeu: «Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo.» Disse-lhe Jesus: «Respondeste bem; faz isso e viverás.». Mas ele, querendo justificar a pergunta feita, disse a Jesus: «E quem é o meu próximo?». Tomando a palavra, Jesus respondeu: «Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos dos salteadores que, depois de o despojarem e encherem de pancadas, o abandonaram, deixando-o meio morto. Por coincidência, descia por aquele caminho um sacerdote que, ao vê-lo, passou ao largo. Do mesmo modo, também um levita passou por aquele lugar e, ao vê-lo, passou adiante. Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão. Aproximou-se, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. No dia seguinte, tirando dois denários, deu-os ao estalajadeiro, dizendo: 'Trata bem dele e, o que gastares a mais, pagar-to-ei quando voltar.' Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?». Respondeu: «O que usou de misericórdia para com ele.» Jesus retorquiu: «Vai e faz tu também o mesmo.»

5 of 17

Parábola do rico e do pobre Lázaro (Luc. 16, 19-31)

«Havia um homem rico que se vestia de púrpura e linho fino e fazia todos os dias esplêndidos banquetes. Um pobre, chamado Lázaro, jazia ao seu portão, coberto de chagas. Bem desejava ele saciar-se com o que caía da mesa do rico; mas eram os cães que vinham lamber-lhe as chagas. Ora, o pobre morreu e foi levado pelos anjos ao seio de Abraão. Morreu também o rico e foi sepultado. Na morada dos mortos, achando-se em tormentos, ergueu os olhos e viu, de longe, Abraão e também Lázaro no seu seio. Então, ergueu a voz e disse: 'Pai Abraão, tem misericórdia de mim e envia Lázaro para molhar em água a ponta de um dedo e refrescar-me a língua, porque estou atormentado nestas chamas.' Abraão respondeu-lhe: 'Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em vida, enquanto Lázaro recebeu somente males. Agora, ele é consolado, enquanto tu és atormentado. Além disso, entre nós e vós há um grande abismo, de modo que, se alguém pretendesse passar daqui para junto de vós, não poderia fazê-lo, nem tão-pouco vir daí para junto de nós.'O rico insistiu: 'Peço-te, pai Abraão, que envies Lázaro à casa do meu pai, pois tenho cinco irmãos; que os previna, a fim de que não venham também para este lugar de tormento.' Disse-lhe Abraão: 'Têm Moisés e os Profetas; que os oiçam!' Replicou-lhe ele: 'Não, pai Abraão; se algum dos mortos for ter com eles, hão-de arrepender-se.' Abraão respondeu-lhe: 'Se não dão ouvidos a Moisés e aos Profetas, tão-pouco se deixarão convencer, se alguém ressuscitar dentre os mortos.'»

6 of 17

Parábola do Juízo Final (Mt. 25, 31-46)

«Quando o Filho do Homem vier na sua glória, acompanhado por todos os seus anjos, há-de sentar-se no seu trono de glória. Perante Ele, vão reunir-se todos os povos e Ele separará as pessoas umas das outras, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. À sua direita porá as ovelhas e à sua esquerda, os cabritos.O Rei dirá, então, aos da sua direita: 'Vinde, benditos de meu Pai! Recebei em herança o Reino que vos está preparado desde a criação do mundo. Porque tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, era peregrino e recolhestes-me, estava nu e destes-me que vestir, adoeci e visitastes-me, estive na prisão e fostes ter comigo.'Então, os justos vão responder-lhe: 'Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos peregrino e te recolhemos, ou nu e te vestimos? E quando te vimos doente ou na prisão, e fomos visitar-te?' E o Rei vai dizer-lhes, em resposta: 'Em verdade vos digo: Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes.’ Em seguida dirá aos da esquerda: 'Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, que está preparado para o diabo e para os seus anjos! Porque tive fome e não me destes de comer, tive sede e não me destes de beber, era peregrino e não me recolhestes, estava nu e não me vestistes, doente e na prisão e não fostes visitar-me.' Por sua vez, eles perguntarão: 'Quando foi que te vimos com fome, ou com sede, ou peregrino, ou nu, ou doente, ou na prisão, e não te socorremos?' Ele responderá, então: 'Em verdade vos digo: Sempre que deixastes de fazer isto a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer.' Estes irão para o suplício eterno, e os justos, para a vida eterna.»

7 of 17

Desde já, uma primeira conclusão:

O outro, o próximo, o necessitado, há-de ser visto como um irmão e uma figuração do próprio Deus.

De facto, todo o ser humano é «imagem e semelhança de Deus» (Gen. 1,27) e, quanto à prática do bem, «sempre que o fizeste a um dos pequeninos, foi a Mim que o fizeste» (Mt. 25,40).

Aliás, como diz S.João, «quem diz que ama a Deus e não ama o seu irmão é mentiroso» (I Jo.4,20)

8 of 17

De facto, como «a fé sem obras está morta» (Tg.2,17), há que compreender o anúncio salvífico da Boa Nova como o de uma ‘salvação integral do homem’.

Hoje em dia, a Igreja usa muito a palavra ‘libertação’ para evocar este tema, já que parece mais dinâmica, abrangente e profunda que algumas outras, mas a preocupação com esta dimensão da missão sempre foi vivida pela Igreja e foi apelidada de caridade, promoção humana, assistência, desenvolvimento, justiça e paz, solidariedade, etc.

E tudo isto se encontra condensado na

DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA

9 of 17

Poderíamos dizer que a DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA começa com a encíclica RERUM NOVARUM, do Papa LEÃO XIII (1891), mas as PREOCUPAÇÕES HUMANISTAS E HUMANITÁRIAS VÊM JÁ DA BÍBLIA E DOS PRIMEIROS TEMPOS DO CRISTIANISMO.

Vejamos, a título de exemplo, alguma da perspectiva bíblica, as afirmações de alguns Padres da Igreja (pensadores cristãos dos primeiros séculos) e, depois, de alguns documentos recentes do Magistério da Igreja.

10 of 17

Alguma da perspectiva bíblica

  • O desejo do paraíso para a humanidade e o justo descanso nos relatos da Criação (Gen.1-2)
  • A responsabilidade pela sorte do irmão (Caim e Abel – Gen.4)
  • A defesa do pluralismo e liberdade contra o totalitarismo uniformista (Torre de Babel – Gen.11)
  • A defesa da vida com Abraão e Isaac (Gen.22)
  • Os profetas: crítica social e defesa da justiça
  • Jesus Cristo e o colocar da pessoa humana acima de tudo

… etc, etc

11 of 17

Lembrando alguns Padres da Igreja�sobre a esmola ou o socorro ao necessitado

S. Clemente Romano, Papa, no final do primeiro século, já lembrava que muitos cristãos se vendiam como escravos e com o preço da sua liberdade alimentaram a outros (casos de S. Pedro Colector ou São Serapião). Para alguns Padres da Igreja, a comunicação de bens cristã tem uma medida clara: qualquer supérfluo que tenhamos pertence aos necessitados! São Basílio, assim como S. João Crisóstomo e outros, pensavam e afirmavam que o pão que há na dispensa do rico, na realidade, pertence ao que tem fome, e a roupa que está guardada no seu armário pertence a quem dela necessita… S. Ambrósio iria mais longe, lembrando que quando se dá uma esmola a um necessitado apenas se está devolvendo uma parte do que lhe pertence! S.Agostinho, bem perspicaz, apercebeu-se que mais do que dar de comer a quem tem fome, o importante seria não haver o esfomeado e a necessidade da dádiva. Todo este afã de preocupação com o outro, o necessitado, toda esta atitude de partilha caridosa está bem patente naquilo que o insuspeito apóstata Imperador Juliano dizia dos cristãos, em meados do secúlo IV: que cuidavam respeitosamente dos mortos e não se contentavam em alimentar os seus pobres mas também davam de comer a todos os outros pobres (que estavam privados de qualquer ajuda).

De toda esta tradição se faz eco J.Paulo II, na SRS 31 (onde se citam outros nomes importantes da patrística): «Assim, faz parte do ensinamento e da prática mais antiga da Igreja a convicção de estar obrigada, por vocação – ela própria, os seus ministros e cada um dos seus membros – a aliviar a miséria dos que sofrem, próximos e distantes, não só com o ‘supérfluo’, mas também com o ‘necessário’. Nos casos de necessidade, não se podem preferir os ornamentos supérfluos das igrejas e os objectos de culto divino preciosos; ao contrário, poderia ser obrigatório alienar estes bens para dar de comer, de beber, de vestir e casa a quem disso está carecido».

12 of 17

Algumas referências recentes de textos do Magistério

Gaudium et Spes (Concílio Vaticano II)

  • «Deus destinou a terra e tudo o que ela contém para o uso de todos os homens e povos»(GS 69)
  • «Para satisfazer as exigências da justiça e da equidade (…) que se eliminem as grandes e crescentes desigualdades económicas (GS 66)
  • Esta tarefa não se pode deixar «ao livre arbítrio de alguns poucos indivíduos ou grupos economicamente mais fortes (…) ou de algumas nações mais poderosas» (GS 65)

13 of 17

-«A Igreja tem de escutar as vozes de milhões de filhos... empenhados com todas as suas forças na luta para superar tudo aquilo que os condena a ficar à margem da vida: fomes, doenças crónicas, analfabetismo, pobreza, injustiça nas relações internacionais, e especialmente nos intercâmbios comerciais, situações de neocolonialismo económico e cultural, por vezes tão cruel com o político... Tudo isso não é estranho à evangelização» (EN 30).

-Mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial da Paz (1 Jan 2015): «Já não escravos, mas irmãos». Ali se denunciam as escravaturas actuais: trabalho escravo, migração ilegal e clandestina, abusos sexuais (mesmo a menores), tráfico e comercialização de órgãos humanos, raptados para a vida militar ou grupos terroristas, venda de seres humanos. «Nesta perspectiva, desejo convidar cada um, segundo a respectiva missão e responsabilidades particulares, a realizar gestos de fraternidade a bem de quantos são mantidos em estado de servidão».

14 of 17

Papa Francisco, Evangelii Gaudium nº53

«Assim como o mandamento ‘não matar’ põe um limite claro para assegurar o valor da vida humana, assim também hoje devemos dizer ‘não a uma economia da exclusão e da desigualdade social’. Esta economia mata. Não é possível que a morte por enregelamento dum idoso sem abrigo não seja notícia, enquanto o é a descida de dois pontos na Bolsa. Isto é exclusão. Não se pode tolerar mais o facto de se lançar comida no lixo, quando há pessoas que passam fome. Isto é desigualdade social».

15 of 17

Afirmações importantes do Papa Francisco na Laudato Si

UM OLHAR PREOCUPADO SOBRE A CRIAÇÃO E UMA DENÚNCIA

  • Poluição, resíduos perigosos, cultura do descartável (LS 20-26)
  • Água: os recursos são limitados e os pobres são os que mais sofrem (morte, doenças) com a falta de água ou a sua pouca qualidade (LS 27-31)
  • Perda da biodiversidade: florestas que desaparecem, espécies animais que se extinguem (LS 32-42)
  • Deterioração da qualidade de vida humana e degradação social: crescimento desmedido e descontrolado de muitas cidades, exclusão social, desigualdade no fornecimento e consumo de energia, aumento de violência, agressividade social, narcotráfico, perda de identidade (LS 44-46)
  • Desigualdade planetária: « Tanto a experiência comum da vida quotidiana como a investigação científica demonstram que os efeitos mais graves de todas as agressões ambientais recaem sobre as pessoas mais pobres» (LS 48)

16 of 17

  • «Estas situações provocam os gemidos da irmã Terra, que se unem aos gemidos dos abandonados do mundo, com um lamento que reclama de nós outro rumo. Nunca maltratámos e ferimos a nossa casa comum como nos últimos dois séculos. Mas somos chamados a tornar-nos os instrumentos de Deus Pai para que o nosso planeta seja o que Ele sonhou ao criá-lo e corresponda ao seu projecto de paz, beleza e plenitude» (LS 53)
  • «Preocupa a fraqueza da reacção política internacional. A submissão da política à tecnologia e à finança demonstra-se na falência das cimeiras mundiais sobre o meio ambiente. Há demasiados interesses particulares e, com muita facilidade, o interesse económico chega a prevalecer sobre o bem comum e manipular a informação para não ver afectados os seus projectos» (LS 54)

17 of 17

O SER HUMANO NO CENTRO DA CRIAÇÃO�E O DESTINO COMUM DOS BENS

«Hoje, crentes e não-crentes estão de acordo que a terra é, essencialmente, uma herança comum, cujos frutos devem beneficiar a todos. Para os crentes, isto torna-se uma questão de fidelidade ao Criador, porque Deus criou o mundo para todos. Por conseguinte, toda a abordagem ecológica deve integrar uma perspectiva social que tenha em conta os direitos fundamentais dos mais desfavorecidos. O princípio da subordinação da propriedade privada ao destino universal dos bens e, consequentemente, o direito universal ao seu uso é uma ‘regra de ouro’ do comportamento social e o ‘primeiro princípio de toda a ordem ético-social’(…) J.Paulo II lembrou esta doutrina, com grande ênfase, dizendo que Deus deu a terra a todo o género humano, para que ela sustente todos os seus membros, sem excluir nem privilegiar ninguém» (LS 93)