ENCONTROS SOCIOLÓGICOS
Núcleo de Estudos sobre o Trabalho (NEST)
Programa de Pós-Graduação de Sociologia (PPGS)
Universidade Federal de Goiás (UFG)
“TRABALHO, INSTITUIÇÕES E LIBERDADE EM HARRIET MARTINEAU”
Fernanda H. C. Alcântara (UFJF-GV)
MORAIS
“A usual divisão escolástica de morais está dentro das morais�pessoais, domésticas, e sociais ou políticas. Os três tipos são, porém, tão�aptos a se encontrarem (tão praticamente inseparáveis) que o viajante�encontrará a distinção menos prática para ele do que algumas outras as�quais ele pode tanto originar ou adotar.�Parece-me que as morais e costumes de uma nação podem�ser incluídas no seguinte departamento de pesquisa — a religião das�pessoas; as suas predominantes noções morais; o seu estado doméstico;�a sua ideia de liberdade; e o seu progresso, atual ou em perspectiva.” (Harriet Martineau, Como observar, 2021, p. 89)
O QUE OBSERVAR?
ESTADO DOMÉSTICO
A IDEIA DE LIBERDADE
PROGRESSO
QUAL A RELAÇÃO ENTRE:
“É assunto do viajante observar as características dessas instituições, e refletir se elas são prováveis de ajudar ou retardar o progresso da nação na qual elas se situam.” (Harriet Martineau, Como observar, 2021, p. 204)
INSTITUIÇÕES
INSTITUIÇÕES
“O grande segredo da pesquisa sensata dentro de morais e costumes é começar com o estudo das coisas, usando o discurso das pessoas como um comentário sobre elas.�Apesar de os fatos buscados pelos viajantes se relacionarem a pessoas, eles podem mais facilmente serem aprendidos das coisas. A eloquência de instituições e registros, nos quais a ação da nação é corporificada e perpetuada, é mais compreensiva e mais fiel do que de qualquer variedade de vozes individuais. A voz de um povo inteiro se eleva no trabalho silencioso de uma instituição; a condição das massas é refletida de uma superfície de um registro. As instituições de uma nação (política, religiosa ou social) colocam em evidência dentro das mãos do observador, como para suas capacidades e desejos, o que o estudo de indivíduos não pôde produzir no curso de um tempo de vida. Os registros de qualquer sociedade, sejam eles quais forem, se destroços arquitetônicos, epitáfios, registros cívicos, músicas nacionais, ou quaisquer outras das milhares de manifestações da mente comum, que podem ser encontrados entre todos os povos, proporcionam mais informações sobre morais em um dia do que uma conversa com indivíduos em um ano. Assim também os costumes devem ser julgados, uma vez que nunca existiu uma sociedade até o momento, nem mesmo um convento ou um assentamento da Morávia, que não incluísse uma variedade de costumes. Indicações gerais devem ser procuradas, ao invés de generalizações sendo enquadradas dos costumes de indivíduos.” (Harriet Martineau, Como observar, 2021, p. 87)
INSTITUIÇÕES
“Em uma sociedade, as realizações espirituais serão as mais�honradas, como na maioria das comunidades religiosas. Em outra, as qualidades presentes da eminência intelectual serão adoradas (como agora em países que são os mais avançados em preparação para a liberdade política) França, Germânia, e os Estados Unidos. Em outros, as qualidades morais aliadas ao poder físico ou extrínseco são, principalmente, veneradas — como em todos os países não civilizados, e todos que se assentam sobre instituições feudais.” (Harriet Martineau, Como observar, 2021, p. 121)
“— Em cada país, chamado civilizado, ele se encontrará com quase todas essas variedades: mas em cada uma existe um tal caráter prevalecente no aspecto da vida doméstica, que a observação inteligente irá capacitá-lo para decidir, sem muito perigo de errar, se o casamento é, simplesmente, um arranjo de conveniência, de acordo com baixas morais, ou uma instituição sagrada, comandando a reverência e afeição de um povo virtuoso. Nenhum alto grau dessa santidade pode ser procurado até que a moderação seja alcançada, durante a prevalência do ascetismo e seu oposto, é atingida somente por uns poucos. Que ainda não existe em parte alguma como a característica de qualquer sociedade (que todas as bençãos da vida doméstica não estejam ainda abertas para todos, assim como obstar o perigo de qualquer invasor sobre seu vizinho), é então muito evidente para o observador viajante.” (Harriet Martineau, Como observar, 2021, p. 179)
“O viajante descobrirá que “Paris é França”, como todos têm ouvido, e que o governo da França é conduzido a partir de uma meia dúzia de apartamentos na capital, com pouca referência a milhares não representados que estão vivendo a algumas centenas de milhas fora: enquanto, se ele lança um relance sobre a Noruega, pode ver os povos sobre a costa dos fiordes, ou nos vales entre os pinheiros, silenciosamente fazendo seus arranjos para controlar a autoridade central, mesmo abolindo a instituição da nobreza hereditária em oposição ao desejo do rei; mas legal, pacificamente, e em toda a simplicidade de determinada independência — o resultado de uma amadurecida ideia de liberdade.” (Harriet Martineau, Como observar, 2021, p. 201)
TRABALHO
“Mas qual trabalho sobre a terra é mais sério do que isto de dar um relatório das coisas mais solenes e importantes, as�quais são transacionadas sobre este globo? Todo relatório verdadeiro é um grande bem; todo falso relatório é um grande dano. Portanto, deixe estar dado nenhum, mas por pessoas em algum bom grau qualificado. Tais viajantes que não irão esforçar-se para prover a si mesmos com os pensamentos e estudos necessários deverão abster-se de relatoriar�em absoluto.” (Harriet Martineau, Como observar, 2021, p. 39)
“O barão vive no castelo, sobre uma rocha ou algum outro relevo, de onde ele pode supervisionar seus domínios, ou onde seu ancestral criou sua morada para propósitos de segurança. Durante esse estágio da sociedade há pouco refinamento e conforto doméstico. A mobília é grosseira; a biblioteca não é tentadora; e a luxúria fácil das cidades está fora de questão. Os prazeres do proprietário estão no exterior. Lá ele devota-se para esportes rudes, e desfruta sua querida luxúria — o exercício de poder. Dentro da residência, sua esposa e seus criados gastam a vida deles em trabalhos manuais, em brincar com as crianças e mantê-las em ordem, em intermináveis conversações sobre os poucos eventos que vêm a sua notícia, e em obediência e companheirismo para com o sacerdote. Enquanto o senhor está caçando, ou reunindo seus partidários para a festa, as mulheres estão fiando ou costurando, bisbilhotando, confessando, ou fazendo penitência; enquanto o sacerdote estuda em sua casa, compartilha na alegria, ou acalma os problemas da famílias, e regula as mentes dos nobres por segurar as confissões de suas esposas. [...]
“[...] Fora das portas, existem os partidários, por qualquer nome que eles possam ser chamados. Suas pobres habitações estão lotadas ao redor do castelo do lorde; seus remendos de terra arável ficam mais próximo, e as pastagens além; que, pelo menos, a oferta de comida humana pode ser protegida de algum inimigo. Essas porções de terra são mantidas sobre uma posse dos serviços; e, como os partidários não têm propriedades deles, e não interessam em sua melhoria, e estão, além disso, sujeitos de serem afastados de suas lavouras a qualquer momento, para performances militares ou outros serviços, o rendimento do solo desola colheitas, e o gado magro não está muito ornamental para as pastagens. As esposas dos camponeses são frequentemente deixadas, com aviso de uma hora, na desprotegida carga de seus filhos seminus e sem instrução, assim como o gado e o campo”. (Harriet Martineau, Como observar, 2021, p. 50-51)
ESTADO DOMÉSTICO: MERCADOS
MERCADOS
“Isso, embora um julgamento bastante abrangente, está fundado na verdade, e vale bem a pena de ser considerado na mente ao viajar. Acontece que os negros do Haiti são abundantemente supridos com as necessidades, e com muito dos confortos da vida; que eles não são de forma alguma bárbaros, e longe de serem oprimidos; e mesmo que eles tenham poucas estradas, e dificilmente quaisquer mercados. Eles crescem no meio da abundância; mas quando um compatriota está prestes a matar um porco, envia se filho para circular a cavalo entre seus vizinhos, para dar a notícia a qualquer um que deseje por carne de porco, para enviar-lhe por isso num certo dia. Seus miseráveis, bárbaros, oprimidos compatriotas na Carolina do Sul, enquanto isso, têm excelentes mercados. O mercado noturno de sábado em Charleston pode enganar um descuidado estrangeiro na crença de que aqueles que se aglomeram são um povo livre e próspero. Portanto, a regra acima nem sempre é válida. Ainda assim, é verdade que a existência e a boa qualidade dos mercados testemunham a existência e a boa qualidade de outras desejáveis coisas.” (Harriet Martineau, Como observar, 2021, p. 164)�
ESTADO DOMÉSTICO: CLASSES
CLASSES
“Esse tipo de sociedade (fala sobre a sociedade feudal) é composto de duas classes apenas; aquelas que têm alguma coisa, e aquelas que não têm nada. O chefe tem propriedade, algum conhecimento, e muito poder. Com diferenças individuais, pode-se ser esperar que os chefes sejam imperiosos, por causa da sua liberdade e indulgência de vontade; corajoso, devido a sua exposição ao trabalho e ao perigo; desdenhoso de homens, por conta de sua própria supremacia; supersticioso, devido à influência do sacerdote na família; pródigo, pela permanência de sua propriedade; vaidoso de posição e distinção pessoal, pela ausência de atividades não ligadas a ele; e hospitaleiro, parcialmente pela mesma causa, e parcialmente por sua própria hospitalidade ser o único meio de gratificar a sua disposição social.” (Harriet Martineau, Como observar, 2021, p. 51)
CLASSE AGRÍCOLA
“As outras pesquisas do viajante em regiões agrícolas serão a respeito da posse de terras — quer elas sejam mantidas em pequenas propriedades separadas; — se tais propriedades são mantidas por indivíduos, ou compartilhadas com algum tipo de sócios; — quer porções sejam alugadas de proprietários; e, se for assim, se qualquer tipo de intermediários está preocupado com os negócios; — quer a terra seja, principalmente, detida por grandes proprietários; e, se assim for, se os trabalhadores estão ligados ao solo sob arranjos feudais, ou se são trabalhadores livres laborando por salários.” (Harriet Martineau, Como observar, 2021, p. 165)
CLASSE AGRÍCOLA
CLASSE DE FABRICANTES
“Ele deve fazer o mesmo tipo de observações sobre as classes manufatureiras e comerciais do país que ele visita. Aqui de novo as principais diferenças em morais e costumes surgem da comparativa prosperidade ou adversidade da classe. Tome a manufatura de algodão. Passando por um operador chinês manuseando sua lançadeira enquanto ele se senta sob seu galpão de bambu, e o hindu puxando seu fio fino sob a sombra da palma, que diferenças existem entre os artesãos da mesma raça — europeus e de extração europeia! Em Massachusetts, existem vilas de artesãos, onde ruas inteiras de casas são de sua propriedade; a igreja sobre o verde no centro é deles; o Liceu, com sua biblioteca e aparatos, é deles. Existem filas de moradias organizadas, pintadas de branco ou amarelo, com varandas na frente e atrás, e venezianas para cada janela (tudo crescendo com os rendimentos das meninas, que trazem suas mães viúvas para presidir sobre seus estabelecimentos). Outros estão pagando as hipotecas sobre as fazendas de seus pais. Outros estão adquirindo para seus irmãos uma educação aprendida em um colégio. Nos assentamentos de algodão da Europa, que contraste! [...]”�
CLASSE DE FABRICANTES
“[...] Outros estão pagando as hipotecas sobre as fazendas de seus pais. Outros estão adquirindo para seus irmãos uma educação aprendida em um colégio. Nos assentamentos de algodão da Europa, que contraste! No melhor, operativos podem somente prover para seus desejos, e a colocação para fora de seus filhos, para uma vida de trabalho extenuante. No pior, eles se arrebanham juntos, muitas famílias em uma casa (com frequência em um quarto); a decência é descartada; a imprudência tem sucesso, a tal ponto que, em certas seções da sociedade, existe raramente um homem de 35 anos que não seja avô. Entre tais, existe um barbarismo tão selvagem quanto entre os maiores vícios da aristocracia do pior período�feudal. A inferior população artesã dos dias atuais pode competir em corrupção com a nobreza da França as vésperas da primeira revolução.�Deve o viajante observar qual categoria no amplo intervalo entre os operativos de Massachusetts, e aqueles de Lyons e Stockport, é ocupada pelos artesãos dos lugares que ele visita.” (Harriet Martineau, Como observar, 2021, p. 167)�
CLASSE COMERCIAL
“Uma imagem altamente notável de duas condições do mesmo lugar pode ser obtida ao comparar o relato da senhora Grant, da cidade de Albany, Nova York, em seus jovens dias18 , com o presente estado da cidade. Ela nos conta dos jogos das crianças sobre a encosta verde que é agora a State Street; do beber chás e grupos de trabalho, da fofoca, das brigas, e pequenas inimizades virulentas da jovem sociedade, com sua regularidade geral e ocasional retrocesso; com o gentil despotismo de seus membros opulentos, e a mais ou menos inquieta ou servil obediência dos personagens subordinados. No lugar de tudo isso, o estrangeiro agora vê uma cidade com prédios públicos magníficos, e casas privadas preenchidas com os produtos de todos os países do mundo. Os habitantes estão bastante ocupados para serem dados a fofocas, muito desenfreados em sua relação com números para reter muito pudor; o despotismo social e a subserviência tornaram-se impossíveis; existe um espírito generoso de empreender, um alargamento de conhecimento, uma melhoria de opinião. Existe, por outro lado, possivelmente, uma diminuição da consideração gentil pela vizinhança, e certamente um grande aumento dos vícios baixos que são a praga das cidades comerciais. Tal é a grande transformação forjada pelo comércio.” (Harriet Martineau, Como observar, 2021, p. 168)
TRABALHO E MULHERES
“As mulheres serão ignorantes e supersticiosas, por falta de variada instrução; corajosas, pela presença frequente ou promessa de perigo; eficientes, pela pequena divisão de trabalho que é praticável�na supervisão de cada família; dadas para fofocar e incerteza de temperamento, da mesmice de suas vidas; devotadas a seus maridos e filhos, da ausência de todos os outros importantes objetos; e vaidosas de tais conquistas como elas têm, de uma ignorância do que permanece para ser alcançado.” (Harriet Martineau, Como observar, 2021, p. 52)
ESTADO DOMÉSTICO: CASAMENTO E MULHER
“A mulher indígena carrega o peso da família, caminhando na poeira, enquanto seu marido sobre passos de cavalo diante dela, livre, mas pelas suas próprias vestimentas alegres. Ela carrega o saco com comida, o tapete para o alojamento, a mercadoria (se ela possui qualquer), e seu bebê. Não existe isenção a partir do trabalho para a mulher indígena do mais alardeado chefe. Em outros países, a mulher pode ser encontrada puxando o arado, cortando lenha e carregando água; os homens da família ficam parados, ociosos, testemunhando suas labutas. Aqui o observador pode sentir bastante certeza do seu caso. De uma condição de escravidão como essa, mulheres são encontradas subindo às mais altas condições nas quais elas são no presente vistas, na França, Inglaterra, e nos Estados Unidos — onde elas são menos do que meio educadas, impedidas de ganhar uma subsistência, exceto em uns muitos poucos empregos mal pagos, e proibidas de dar ou reter seu assentimento para leis que elas são ainda limitadas por penalidades para obedecer. Na França, devido à grande destruição de homens nas guerras de Napoleão, as mulheres estão engajadas, e engajadas com sucesso, em uma variedade de ocupações que têm sido em outro lugar supostas impróprias para o sexo. Ainda lá permanece tão amplo um número que não pode, pelo mais extenuante trabalho em empregos femininos, comandar as necessidades da vida, enquanto suas luxúrias podem ser ganhadas pela infâmia, que as morais da sociedade são naturalmente ruins. Grande atenção tem sido dada recentemente para esse assunto na França: a condição social das mulheres é assunto de pensamento e discussão para um grau que promete algumas consideráveis melhorias. [...]”
“[...] Já mulheres podem fazer mais na França do que em qualquer outro lugar; elas podem tentar mais sem impedimento ridículo ou arbitrário: e as mulheres da França são, provavelmente, destinadas a liderar o caminho no avanço que o sexo deve daqui em diante fazer. No momento, a sociedade está passando por uma transição de um estado feudal a um de governo mútuo; e as mulheres, ganhando em alguns caminhos, sofrendo em outros durante o processo. Elas, felizmente para si mesmas, perderam muito do tipo peculiar de observação que foi a mais marcante característica do período cavalheiresco; e tem sido impossível prevenir seu compartilhamento nos benefícios da melhoria e difusão de conhecimento. Todo cultivo de seus poderes garantiu-lhes o uso de novo poder; de modo que sua condição é bem superior do que foi em qualquer tempo anterior. Mas novas dificuldades sobre garantir uma manutenção surgiram. O casamento é menos geral; e os maridos do mais amplo número de mulheres não estão seguros de uma manutenção dos senhores da terra, não mais do que as mulheres estão por estarem casadas. A carga de sua própria manutenção é jogada sobre amplos números de mulheres, sem o requisito da variedade de empregos ter sido aberta para elas, ou a necessária educação transmitida. Uma consequência natural disso é que as mulheres são educadas para considerar o casamento o único objeto na vida, e, portanto, ser extremamente impacientes para assegurá-lo.” (Harriet Martineau, Como observar, 2021, p. 180-181)
“Na América, mulheres podem ganhar uma manutenção somente por lecionar, costurar, ser empregada em fábricas, mantendo pensões, e serviço doméstico. Algumas governantas são toleravelmente bem pagas — comparando seus ganhos com aqueles dos homens. O emprego nas fábricas e o serviço doméstico são bem pagos. Costurar é uma ocupação tão miserável, em todo lugar, que é de ser esperado que a maquinaria em breve substituirá o uso dos dedos humanos em um trabalho tão pouco lucrativo. Em Boston, Massachusetts, uma mulher recebe 9 pences (6 pences ingleses) para fazer uma camisa. — Na Inglaterra, além dessas ocupações, outras estão abrindo; e, o que é de ainda maior consequência, a mente pública está despertando para a necessidade de ampliar a esfera da indústria feminina. Alguns dos ramos inferiores das belas artes têm oferecido, ultimamente, empregos lucrativos para muitas mulheres. A adversidade comercial para cujo país tem sido exposto de tempos em tempos, tem sido útil ao sexo, por jogar centenas e milhares delas sobre seus próprios recursos, e, assim, impulsioná-las para urgir reivindicações e mostrar poderes os quais são mais respeitados todos os dias. — Na França, isso é ainda mais visivelmente o caso. Lá, mulheres são lojistas, comerciantes, contadoras profissionais, editoras de jornais, e empregadas em muitas outras formas, sem comparação em outro lugar, mas natural e respeitável o suficiente no local.” (Harriet Martineau, Como observar, 2021, p. 182)
“Morais domésticas são afetadas em dois aspectos principais por essas diferenças. Onde ocupações femininas de uma natureza lucrativa são poucas, e, sendo assim, oferta excessiva, e, portanto, produzindo�uma escassa manutenção com dificuldade, existe a mais forte tentação a preferir a luxúria com infâmia à dificuldade com honra não reconhecível. Daí surgem muitas das corrupções das cidades (menos nos Estados Unidos do que na Europa, da prevalência do casamento), mas, enorme na extensão em qualquer lugar. Onde o vício é feito para aparecer o interesse da ampla classe de mulheres, o observador pode estar bastante certo de que as morais domésticas serão encontradas impuras. Se ele pode encontrar-se com qualquer sociedade onde os objetos da vida são tão variados e tão livremente abertos para mulheres quanto para homens, lá ele pode estar certo de encontrar a maior quantidade de pureza doméstica e paz; pois, se as mulheres não estavam desamparadas, homens as encontrariam bem menos fácil a serem viciadas.” (Harriet Martineau, Como observar: morais e costumes, 2021, p. 182-183)
A IDEIA DE LIBERDADE
LIBERDADE
⬄ vínculos despóticos ou de autogoverno
A IDEIA DE LIBERDADE: CLASSE NA SOCIEDADE
“É óbvio o suficiente que a ideia de liberdade, que pode se originar apenas na relação de muitas mentes, como a própria liberdade pode ser elaborada apenas pelos trabalhos de muitas mãos unidas, não é para ser procurada por onde o povo vive separado e é destituído de qualquer conhecimento dos interesses e desejos da comunidade em geral.” (Harriet Martineau, Como observar, 2021, p. 196)
“Em tempos antigos, a maioria dos homens era igualmente de proprietários e trabalhadores; mas sob regras despóticas. Sociedades que já chegaram ao ponto dos princípios representativos não serem prováveis de retroceder a esse estado; enquanto existem influências sempre agindo para exaltar a função do trabalho, e para ampliar essa de propriedade. Onde quer que essa mistura de funções tenha ido mais longe — onde quer que as classes mecânicas estejam se tornando capitalistas, e proprietários sejam suscetíveis de afundar de sua antiga honra, a menos que eles possam assegurar respeito pelas qualificações pessoais, a ideia de liberdade é, para um considerável grau, confirmada e elevada. Em tal caso, é claro que tanto o poder e o desejo de invasão sobre a parte da classe superiora devem ser diminuídos, e que a resistência sobre a parte do mais baixo aumentou. — A outra melhoria segue-se a essa. O direito à propriedade, com sua influência feudal, tendo perdido casta (embora tenha ganhado em verdadeira dignidade), alguma outra base de distinção deve ter sucesso. Se nós podemos julgar pelo que está diante dos nossos olhos no mundo ocidental, o talento é provável de ser o próximo sucessor. É de se esperar que o talento, por sua vez, dê lugar ao valor moral — o grau superior de que implica, entretanto, superioridade de poder mental. A preferência das qualificações pessoais àquelas de talentos externos já começou no mundo, e está rápido fazendo seu caminho. [...]
“[...] Tal distinção de classificação como existe na América se origina em qualificações mentais. Estadistas, que se erguem por seu próprio poder, se classificam mais alto; e, então, autores. O mais rico capitalista dá lugar, na estimativa de tudo, para um orador popular, um autor de sucesso ou um eminente clérigo. — Na França, as honras da nobreza e os ofícios do Estado são dadas a homens da ciência, filosofia e literatura. Assim também é o caso em algumas partes da Germânia: e, mesmo, na aristocracia inglesa, os jovens membros de sua Casa dos Lordes estão insatisfeitos em ser meramente pares, e estão ansiosos para empurrar seu caminho na literatura, tão bem quanto em política. — O viajante deve dar uma atenção séria para sintomas como esse, sabendo que as barreiras dessas classificações estão desmoronando, e pessoalmente obtém o ascendente sobre as qualificações hereditárias, a coerção social deve ser relaxada, e o sentimento de liberdade exaltado.” (Harriet Martineau, Como observar, 2021, p. 197-198)
A IDEIA DE LIBERDADE: SERVIÇAIS
“O tratamento e a conduta dos domésticos dependem de causas que estão muito mais profundas do que os princípios e temperamentos de funcionários particulares e senhores, como pode ser visto por um relance de serviço doméstico na Inglaterra, Escócia e Irlanda. Na Inglaterra, o velho feudo saxão e normando está latente (entretanto, as partes podem ser inconscientes do fato), na relação de senhores e serviçais. Domésticos que nunca ouviram falar de quaisquer normandos ou saxões entretêm uma convicção profundamente enraizada dos interesses de seus senhores e seu próprio estando diretamente opostos, e estão sujeitos a um forte senso de injúria. Senhores que nunca doam um pensamento sobre as transações do século doze, reclamam da obstinação, egoísmo, e casos endurecidos pela indiferença na classe de domésticos, os quais a gentileza não pode penetrar, ou penetra apenas para perverter. A relação é, portanto, dolorosa na Inglaterra. Existe pouca satisfação a ser obtida entre os extremos de servilidade e desafio, pelos quais a conduta dos serviçais é quase tão distintamente marcada agora quanto quando a nação foi mais jovem por sete séculos. As donas de casa inglesas reclamam que a confiança somente faz suas criadas vaidosas, e que a indulgência as estraga. [...]” (Harriet Martineau, Como observar, 2021, p. 198)
“— Na Irlanda, o caso é da mesma natureza, mas muito agravado. A injúria de ter uma aristocracia de estrangeiros forçada sobre o país, para quem os nativos estão a render serviço, é mais recente, e a impressão mais conscientemente retida. Os serviçais são maltratados, e eles rendem maus serviços em troca. É pesaroso ver o arranjo das casas de Dublin. As salas de estar são como palácios, enquanto os aposentos dos serviçais são masmorras escuras e úmidas. É cansativo ouvir as reclamações de sujeira, falsidade e falta de fé dos serviçais irlandeses — reclamações que suas senhoras têm sempre prontas para o ouvido do estrangeiro; e é repulsivo testemunhar os efeitos nas famílias. É igualmente triste e ridículo ver a senhora de algumas famílias entrar na sala do café da manhã, com uma fatia de pão sobre seus braços, o prato de manteiga em uma mão, e um molho de chaves na outra; — para vê-la cortar do pão o número de fatias requeridas, e mandá-las para baixo para serem tostadas — explicando que ela é obrigada a trancar o próprio pão do roubo de seus serviçais, e informando contra eles como se ela os esperasse para serem dignos de confiança, enquanto ela diariamente insulta-os com a recusa de toda confiança, mesmo para cuidar do pão de forma. Na Escócia, o caso é amplamente diferente. Servidão e clã estão lá conectados, ao invés de servidão e conquista. O serviço está disposto em proporção; e as falhas de domésticos não são aquelas comuns para o oprimido, mas antes aquelas de proceder por orgulho e vontade própria. O doméstico escocês ainda tem orgulho do nome do chefe que preza o autorrespeito de todo membro de um clã; e no serviço do chefe existe, raramente, qualquer esforço que seja o mais humilde de que seu nome não faria. Os resultados são óbvios. Existe um melhor entendimento entre as duas classes do que em outras divisões do reino: e os senhores e senhoras escoceses obtêm uma satisfação de seus domésticos, que nenhum grau de justiça e bondade nas governantas inglesas e irlandesas pode assegurar.” (Harriet Martineau, Como observar, 2021, p. 199)
“A escória de uma opressão de séculos não pode ser expurgada pela ação de temperamentos individuais, sejam eles do melhor. As causas do mal entendido, como nós temos dito, assentam-se profundamente.” (Harriet Martineau, Como observar, 2021, p. 199)
PROGRESSO: CARIDADE
CARIDADE
“A mais alta caridade de todas é aquela que objetiva à prevenção ao invés do alívio do mal. Quando qualquer considerável número da sociedade está engajado nesse trabalho, o espírito de fraternidade está ocupado lá, e a progressão da sociedade é apurada. Em tal comunidade, é permitido que, embora seja bom aliviar a fome, é melhor tomar cuidado para que todos que trabalham devam comer, como um padrão de direito: que embora seja bom prover para o conforto e reformação do culpado, é melhor obviar a culpa: que embora seja bom ensinar o ignorante que vem em seu caminho, é melhor prover os meios de conhecimento, como de comida, para todos. Em resumo, é uma caridade muito nobre prevenir a destituição, o crime, e a ignorância, do que aliviar indivíduos que nunca deveriam ter sido feitos destituídos, criminosos e ignorantes.” (Harriet Martineau, Como observar, 2021, p. 219)
“Essa guerra contra os próprios males, em preferência, mas acompanhados pelo alívio das vítimas, começou em muitos países; e aqueles que são os mais ocupados no trabalho serão considerados os mais avançados, e os mais certos de avançar. O observador deve notar o estado do trabalho em todo lugar. Em um país, ele verá os pobres alimentados e vestidos pela caridade, sem qualquer esforço sendo feito para aliviá-los da pressão pela qual eles estão afundados em miséria. O espírito de irmandade não está lá; e tal caridade não tem do espírito de esperança e progresso nela. Em outro país, ele verá o independente insistindo sobre o direito dos destituídos à reparação, e provendo por lei ou costume tal alívio. Esse é o grande passo, na medida em que os interesses dos desamparados são assumidos pelos poderosos — um movimento que deve ter alguma coisa do espírito fraternal para seu impulso. Em um terceiro, ele ouve de sociedades de disciplina de prisão, sociedades missionárias, sociedades de temperança, e sociedades da�abolição da escravidão. Isso é melhor ainda. Está parecendo amplo (tão amplo como aquele espírito de caridade age como vendo o invisível), o tremor pagão sobre o tabu, o negro indignado em suas melhores afeições, e o criminoso escondido no recuo sujo da cadeia comum. É também um treinamento para olhar profundamente; para todos esses [...]”
“[...] métodos de caridade prevenirem as aflições das futuras gerações pagãs, dos futuros escravos, bêbados, e criminosos, tão bem quanto para suavizar o lote daqueles que existem. Se, em uma quarta sociedade, o observador encontra que a caridade foi tão profunda quanto se espalhou amplamente, e que a benevolência está puxando as raízes da indigência e do crime, ele pode localizar essa sociedade acima de todo o resto como para o brilho de suas perspectivas. Tal movimento pode continuar somente do espírito de fraternidade — dos motores sentindo seus próprios interesses que quaisquer que estejam deprimidos e em perigo como eles próprios se recusariam a ser. A elevação das classes deprimidas em tal sociedade, e a consequente progressão do todo, pode ser considerada certa; pois “mais cedo a mãe esquecerá seu filho que está mamando” do que os amigos de sua raça abandonarão aqueles para quem eles se importaram e laboraram com desinteressado amor e labuta. Os criminosos nunca estarão mergulhados de volta dentro de seu antigo estado na América, nem mulheres na França, nem negros nas colônias da Inglaterra. O espírito de justiça (que está em última análise junto com a caridade) saiu adiante, não apenas conquistando, mas ainda a conquistar.” (Harriet Martineau, Como observar, 2021, p. 220)
“Uma fome na Índia, como um tremor de terra na Síria, causa tristeza. Os habitantes se encontram para peticionar contra os erros infligidos sobre os povos que eles nunca tinham visto, e dão dos frutos de seu�trabalho a sofredores que nunca ouviram falar deles, e de quem eles não podem receber nenhum retorno de reconhecimento. Verifica-se que quanto mais buscas e objetivos são multiplicados, quanto mais a�apreciação da felicidade humana expande, até que se torne o interesse que predomina sobre todo o resto. Esse é um interesse que resolve sua própria gratificação, mais certamente do que qualquer outra. Onde quer que seja que, portanto, a maior variedade de buscas é encontrada, é justo concluir que o espírito fraternal da sociedade é o mais vigoroso, e a sociedade em si mesma a mais progressiva.” (Harriet Martineau, Como observar, 2021, p. 223)
REFERÊNCIAS