Depoimento de Bianca Necci
(Rio de Janeiro - RJ)
1) Nome do parente:
Mario Necci.
2) Grau de parentesco:
Marido.
3) Onde ele trabalhou com amianto e por quanto tempo?
Companhia de navegação, a partir de 1981.
4) Qual a função ou trabalho exercida/o?
Ele ingressou como gerente técnico (depois Diretor técnico). Na realidade, ele trabalhava no navio, sempre viajando, consertando os danos feitos por outros durante a navegação. Uma hora quebrava o eixo, outra a hélice, o portão. O navio tinha 2 anos de vida quando ele começou a trabalhar, mas vivia parado. Um navio parado custa uma fortuna para um armador. Mas este navio não podia parar porque pediram um financiamento ao BNDS para construir mais 4 navios. E, logicamente, o primeiro tinha que viajar: Itália, Peru, Argentina, Chile. Meu marido não parava em casa e nem no escritório. E tiveram o financiamento por mérito de Mario Necci.
5) Primeiros sintomas, quando e quais foram:
Primeiro sintomas: bradicardia e emagrecimento visível. Corrida no clínico-geral. Dezenas de exames, todos ok. Depois veio o resultado da tomografia: discreto derrame pleural (não era muito discreto). Primero passo, internação. pleurodese com talcagem mais biopsia. De imediato se deram conta que era mesotelioma, confirmado maligno no laboratório.
6) Como foi feito o diagnóstico da doença? Foi demorado fazer o diagnóstico?
O diagnóstico foi rapidíssimo.
7) Foi perguntado ou dito pelo médico que tinha relação com o amianto?
Sim, a resposta dele foi mais um sim. Eu mesma vi ele [o marido] manusear, raspar pedaços de um material para mim desconhecido. Perguntei para ele o que era e o que estava fazendo com aquilo. Tudo isso aconteceu em Fortaleza, onde o navio ficou parado 6 meses. O eixo pifou no Rio Grande do Sul e foi rebocado até Fortaleza. Trabalhou sem máscara, sem sapatos apropriados e sem óculos, sem macacão. Era muito gasto para a companhia. Ele trabalhava 8 ou mais horas na sala de máquinas. A temperatura do inferno, fora 40 graus. E lá embaixo? 50 [graus]? A sala de máquinas era cheia de Rolo de amianto.
8) O que seu familiar sabia sobre o amianto até então?
Nada sabia.
9) Durante os anos de trabalho recebeu alguma informação? Sobre os riscos, sobre as doenças?
Nunca. Ninguém abordou este argumento.
10) Como tiveram contato com a ABREA?
Através da Doutora Juliana e de uma reportagem com entrevista a meu marido feita para a UOL depois de 2 anos da doença.
11) Como foi o tratamento?
Tudo que existia foi feito. Cinco anos em quimioterapia, incluindo a imunoterapia. Brigando com a Amil porque era off label, mas o juiz deu a permissão. Foram mais 2 [sessões], mas na terceira sessão a oncologista falou: “Basta! Não está respondendo”.
Dez sessões de radioterapia a altíssima frequência porque o pulmão esquerdo não existia mais. Durante um mês teve uma melhora e, depois. o inferno.
Foi operado de pressa. O Doutor Anderson pneumologista e cirurgião abriu a janelinha no pericárdio, creio, ou miocárdio. Corri na clínica. Estava pesando 11 kg a mais... Tudo líquido. Foi uma noite de horror, mas sobreviveu.
12) Descrever o sofrimento dele até a morte:
Realmente, não tenho palavras. O [sofrimento] dele era o meu. Não dormi durante 5 anos. Media o batimento do pulso e a oxigenação. Ele não sentia muitas dores, era morfinado, mas e o ar? Tinha máquina de oxigênio particular: 600 reais por mês mais os remédios que não sei quantas pessoas poderiam comprar.
Morreu nos meus braços, pedindo ar, com o olhar. Eu soprava a minha [boca], mas... Bom, morreu como um peixe [fora da água]. Estou com pesadelos até hoje. Meu sistema imunológico caiu e hoje estou lutando com um tumor.
13) Falar sobre se houve algum processo de indenização e em que fase ele está?
O processo está com a Doutora Juliana. Há 5 anos que está lutando. Mas, conhecendo o donos, acho que não vai dar em nada. Nem o INSS reconheceu a doença. A minha aposentadoria é ridícula como a das outras viúvas, acredito.