1 of 13

Lenin Bicudo Bárbara, pesquisador bolsista em nível de pós-doutorado, vinculado ao Departamento de Sociologia da FFLCH-USP, com apoio PNPD/CAPES

O programa de Georg Simmel para a sociologia

Módulo III: Institucionalização da Ciência Sociologia (1860-1890)

Organização: Fernanda Henrique Cupertino Alcântara

2 of 13

Georg Simmel (1858-1918)

Algumas obras importantes

Sobre a diferenciação social – 1890

Filosofia do dinheiro – 1900

Sociologia – 1908

Problemas fundamentais da filosofia – 1910

Cultura Filosófica – 1911

3 of 13

O problema da sociologia - variantes

Ano

Título original

Tradução

Publicado como

1890

Einleitung – Zur Erkenntnistheorie der Socialwissenschaft

Introdução: para uma epistemologia da ciência social

Capítulo introdutório do livro de Simmel sobre a diferenciação social

1894

Das Problem der Sociologie

O problema da sociologia

Artigo em periódico

1908

Das Problem der Soziologie

O problema da sociologia

Capítulo introdutório da Sociologia

1917

Das Gebiet der Soziologie

O domínio da sociologia

Capítulo introdutório das Questões Fundamentais da Sociologia

4 of 13

A tarefa da sociologia de 1892 a 1908

“A tarefa da sociologia é descrever as formas da existência comum [Zusammenseins, o “estar-junto”] e identificar as regras de acordo com as quais se comportam entre si os grupos e o indivíduo, na medida em que é membro de um grupo[...]”.

(Simmel. Über sociale Differenzierung, 1892. GSG, v. 2, p. 121)

“A sociedade, portanto, emerge na medida em que as interações entram em operação, por força de certos motivos e interesses; e já que o assunto da ciência social em sentido amplo é a história e as leis da estrutura assim consolidada, então o que resta à sociologia em sentido estrito, que se propõe a uma tarefa específica, é a observação das formas abstratas que não só produzem a socialização [Vergesellschaftung], mas que são socialização [...]”.

(Simmel. Soziologie, 1908. GSG, v. 11, p. 24)

5 of 13

Vergesellschaftung: notas sobre uma tradução

“Finally, there is Simmel’s neologism, Vergesellschaftung. Early translators rendered it ‘socialization,’ but that term has come to mean in English, having an impact on an individual that makes the latter a competent member of a society or group. Midway through the twentieth century, Kurt Wolff translated it with the English neologism ‘sociation’; that term has not generally found its way into common usage, outside of discussions of Simmel’s sociology. Sometimes Simmel means by Vergesellschaftung to refer to social interaction, but at other times he is referring to the creation of social entities; the two meanings pertain to processes that may be empirically the same but are spoken of in different ways in English. Consequently we have translated it as ‘social interaction’ or ‘creating society,’ as the context suggests”.

(“A Note on the translation”, em Simmel, 2009. Sociology: Inquiries into the construction of social forms, p. XV)

6 of 13

Vergesellschaftung (socialização ou sociação)

Componentes da palavra

• o prefixo Ver- (aqui, dá a ideia de processo, emergência);

• o radical Gesellschaft (= sociedade);

• o sufixo -ung (indica que a palavra é um substantivo).

Verbo de origem: vergesellschaften

(= socializar).

Carga semântica

  1. Diferente de socialização como “apropriação pela sociedade” (p. ex.: “socialização dos meios de produção”).
  2. Inclui, mas não se resume à socialização como internalização do social pelo indivíduo (p. ex.: “socialização primária e socialização secundária”).
  3. Conceito abstrato, que se refere, ao mesmo tempo, à interação social e à emergência da sociedade.
  4. As metáforas da criação e construção não fazem justiça ao caráter abstrato do conceito.
  5. Em poucas palavras: Vergesellschaftung é o processo de interação entre indivíduos no qual a sociedade emerge.

7 of 13

Holismo metodológico

N

C

A

B

N

B

C

A

N

B

C

A

Relacionismo metodológico

Individualismo metodológico

Weber

Durkheim

Simmel

Três concepções de sociedade

Isso é apenas um modelo!

8 of 13

Forma e conteúdo da socialização

“É uma tarefa difícil ensinar o olhar sociológico aos estudantes, o que é decisivo; e ensiná-los a distinguir no fenômeno sociológico isolado tanto a forma social como o conteúdo material. Mas assim que se adquire esse olhar, também os fatos sociológicos deixam de ser difíceis de encontrar”.

(Carta de Simmel a Celestin Bouglé. Em GSG, v. 11, p. 882)

“O mesmo interesse, do ponto de vista do conteúdo, pode aparecer em socializações formadas de maneira inteiramente diversa, por exemplo: o interesse econômico se realiza tanto por meio da concorrência como por meio da organização planejada dos produtores [...]; os conteúdos da vida religiosa pedem, sem mudar do ponto de vista do conteúdo, por uma forma comunitária ora mais livre, ora centralizada; os interesses em que se baseiam as relações entre os sexos são satisfeitos numa enorme multiplicidade de formas de família; o interesse pedagógico conduz a uma forma de relação entre professor e alunos quer liberal, no sentido de uma interação individualizada entre o professor e cada aluno, quer mais coletivista, entre ele e a totalidade dos alunos”.

(Simmel. Soziologie, 1908. GSG, v. 11, p. 21)

9 of 13

Sociologia como ciência

“Contribui para essa representação da sociologia como ciência de tudo que é humano em geral a circunstância de que ela era uma ciência nova que, por isso, atraía para si toda a sorte possível de problemas ainda não devidamente situados – como um domínio recém-descoberto acaba se tornando num primeiro momento um Eldorado para as existências sem pátria e desenraizadas: a indeterminação de partida incontornável e o não resguardo das fronteiras conferem a qualquer um o direito de ali se acomodar”.

(Simmel. Soziologie, 1908. GSG, v. 11, p. 14)

10 of 13

Geometria social

“O conceito de sociedade cobre dois significados que devem ser mantidos, para a discussão científica, fortemente demarcados um do outro. De um lado, ela é [...] o material humano socialmente formado, tal como constituído pela realidade histórica como um todo. Mas, de outro, ‘sociedade’ é também a soma das formas de relação que possibilitam que se faça, a partir de indivíduos, a sociedade na primeira acepção. Assim também, de um lado chamamos de ‘esfera’ uma matéria formada de certo modo, mas, de outro, na acepção matemática, também a mera figura ou forma que possibilita que se faça, a partir da mera matéria, a esfera na primeira acepção. Quando se fala das ciências da sociedade naquele primeiro sentido, toma-se como seu objeto tudo que se passa na sociedade; a ciência da sociedade na segunda acepção toma como objeto as forças, relações e formas pelas quais os homens se socializam e que [...] constituem a ‘sociedade’ sensu strictissimo”.

(Simmel. Soziologie, 1908. GSG, v. 11, p. 23)

11 of 13

O jovem Simmel sobre as formas voláteis de socialização

“Talvez se possa ver a fronteira do ser propriamente social lá onde a interação das pessoas umas com as outras não só se constitui num estado subjetivo ou na ação dessas pessoas, mas sim onde traz à tona uma estrutura objetiva, que tem certa independência diante das personalidades singulares que nela tomam parte. [...] É aí que está a sociedade, é aí que a interação se concretizou na forma de um corpo – um corpo que identifica aquela interação como algo social, distinguindo-a da que desaparece com os sujeitos diretamente em jogo e com seu comportamento momentâneo”.

(Simmel. Über sociale Differenzierung, 1892. GSG, v. 2, pp. 133-4).

12 of 13

Simmel sobre as formas voláteis de socialização

“Em geral, a sociologia limitou-se, na prática, àqueles fenômenos sociais nos quais as forças de interação já estão cristalizadas do lado de fora dos seus suportes imediatos, ao menos como unidades ideais. Os Estados e as associações sindicais, as ordens sacerdotais e as formas familiares, [...] a formação de classe e a divisão industrial do trabalho – estes e os grandes órgãos e sistemas do gênero parecem compor a sociedade e ocupar a esfera de sua ciência. [...] Além dos fenômenos perceptíveis de longe [...] há um número imenso de formas menores de relação e de modos de interação entre as pessoas, em casos singulares aparentemente insignificantes, mas que [...] com efeito realizam a sociedade como a conhecemos. A limitação aos primeiros equivale aos inícios da ciência do interior do corpo humano, que se limitava aos grandes órgãos, claramente circunscritos: o coração, o fígado, o pulmão, o estômago, etc., e que desprezou os tecidos inumeráveis popularmente não nomeados ou não conhecidos, sem os quais aqueles órgãos mais nítidos jamais poderiam ter resultado em um corpo vivo”.

(Simmel. Soziologie, 1908. GSG, v. 2, p. 32).

13 of 13

Algumas referências

As citações contidas neste slide foram baseadas na edição das obras completas de Simmel (GSG: Georg Simmel Gesamtausgabe) da Surkhamp.

Sobre Simmel

Waizbort, Leopoldo. (2000). As aventuras de Georg Simmel. Editora 34.

Vandenberghe, Fréderic. (2005). As Sociologias de Georg Simmel. Editora EDUFPA & EDUSC.

Simmel traduzido

Simmel, G. (1998). Sociología: estudios sobre las formas de socialización (2 vols.), Madrid: Alianza

______ (2009). Sociology: Inquiries into the Construction of Social Forms, Leiden/Boston: Brill, 2009.

______ (1909). “The Problem of Sociology”. In: American Journal of Sociology, 1909, vol. 15 no. 3, pp. 289-320.

Simmel em português

______ (2006). Questões fundamentais da sociologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.

______ (2021). Sociologia: estudos sobre as formas de sociação, Editora Fundação Fênix.

Disponível em: - https://cdea.tche.br/site/?p=6346