Arthur Bueno
Universidade de Frankfurt
Georg Simmel (1858 – 1918)
Curso 200 anos de sociologia
Organização: Fernanda Alcântara (UFJF),
Giulle da Mata (UFOP) e Eliana Debia (UBA)
O diagnóstico simmeliano da modernidade: textos e fases
”Para a psicologia do dinheiro” (1889)�”Sobre as exposições de arte” (1890)�”Infelices possidentes!” (1893)�”Viagens aos Alpes” (1895)
”O dinheiro na cultura moderna” (1896)�”Exposição industrial de Berlim” (1896)
Filosofia do dinheiro (1900/07)
”As grandes cidades e a vida do espírito” (1903)�”Da essência da cultura” (1908)�”O futuro de nossa cultura” (1909)
”O conceito e a tragédia da cultura” (1911/12)�”A crise da cultura” (1917)�O conflito da cultura moderna (1918)�
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O diagnóstico simmeliano da modernidade: textos e fases
”Para a psicologia do dinheiro” (1889)�”Sobre as exposições de arte” (1890)�”Infelices possidentes!” (1893)�”Viagens aos Alpes” (1895)
”O dinheiro na cultura moderna” (1896)�”Exposição industrial de Berlim” (1896)
Filosofia do dinheiro (1900/07)
”As grandes cidades e a vida do espírito” (1903)�”Da essência da cultura” (1908)�”O futuro de nossa cultura” (1909)
”O conceito e a tragédia da cultura” (1911/12)�”A crise da cultura” (1917)�O conflito da cultura moderna (1918)�
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racionalidade x irracionalidade
[ fins – meios da ação ]
cultivo x alienação
[ cultura subjetiva – cultura objetiva ]
vitalidade x mecanicismo
[ vida – formas ]�
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O diagnóstico simmeliano da modernidade: atualidade
Nossa sociedade, como a de Simmel, pode ser vista como marcada pela ocorrência disseminada de ”sentimento[s] de tensão, de expectativa, de urgência não resolvida”, em concomitância com experiências também frequentes de "tédio mortal e desilusão" e a impressão de que ”o núcleo e o sentido da vida escorregam uma e outra vez da nossa mão, de que as satisfações definitivas se tornam cada vez mais raras, de que todo esforço e toda agitação não valem propriamente a pena”.
(cf.”Para a psicologia do dinheiro”
e ”O dinheiro na cultura moderna”)
”Neurastenia”:
oscilação entre urgência e exaustão, saturação e insuficiência,
hiperestesia e anestesia
”Interrupção psicológica da cadeia teleológica" ou "colonização dos fins pelos meios"
Quanto mais intrincada e elaborada for a técnica de todos os domínios da vida, “tanto mais próximo se está do perigo de ficar preso nesse labirinto de meios e de esquecer o fim último para além deles”.
(cf.”Para a psicologia do dinheiro”, ”O dinheiro na
cultura moderna” e Filosofia do dinheiro [capítulo 3])
”É interessante [...] como essa interrupção psicológica da série teleológica não vem à tona apenas na avidez imediata por dinheiro e na avareza, mas também em seu aparente oposto: no prazer do mero gastar dinheiro enquanto tal e, finalmente, na satisfação em possuir o máximo possível de coisas, as quais se quer apenas ’ter’, mas cuja utilidade específica, em nome da qual foram produzidas, não é de modo algum aproveitada; o povo compara esse tipo de temperamento ao dos hamsters.
Temos aqui os estágios do processo teleológico: o fim último razoável é somente o gozo com o uso do objeto; os meios para isso são: 1) ter dinheiro; 2) gastar dinheiro; 3) possuir o objeto. A consciência com respeito a fins pode se deter em cada uma dessas três etapas e constituí-las como fim em si; e isso de modo tão enérgico que cada um desses três conteúdos pode degenerar em mania.”
(”Para a psicologia do dinheiro”)
”A unidade dessas investigações não repousa, portanto, na afirmação acerca de um conteúdo singular do saber e suas demonstrações obtidas gradualmente, mas sim na possibilidade, a ser demonstrada, de encontrar em cada singularidade da vida a totalidade de seu sentido.”
(Filosofia do dinheiro, prefácio)
”[A]qui também se põe em evidência o que, no final das contas, pode ser a tarefa completa destas considerações: que de qualquer ponto na superfície da existência, por mais que ele pareça brotar apenas nessa superfície e a partir dela, se pode sondar a profundidade da alma; que todas as exterioridades, mesmo as mais banais, estão ligadas, por fim, mediante linhas de direção, com as decisões últimas sobre o sentido e o estilo da vida.”
(”As grandes cidades e a vida do espírito”)
Filosofia do dinheiro
“o dinheiro […] é por assim dizer a própria indiferença, dado que todo o seu significado com respeito a fins não reside nele mesmo, mas somente em sua conversão em outros valores.”
“aqui a oposição entre, por um lado, o que é aparentemente o mais exterior e mais inessencial e, por outro, a substância interior da vida se tensiona ao máximo”
“[o dinheiro] não somente se entrelaça com toda a amplitude do mundo espiritual, suportando-a e sendo por ela suportada, mas também se revela como símbolo das formas essenciais de movimento desse mundo.”
(Filosofia do dinheiro, prefácio)
Relatividade das nossas aspirações
Absolutez da ideia de fim último
Relatividade das nossas aspirações
(Desejo)
Absolutez da ideia de fim último
(Gozo)
’Dialética sem reconciliação’
Ganância e avareza
“Aqui, não é a qualidade da coisa que é o verdadeiro portador de valor; [...] o elemento motivador efetivo é o fato de que a coisa é possuída, a forma da relação que o sujeito estabelece com ela [...], a posse do sujeito como fato puramente objetivo.”
“O caráter abstrato do dinheiro, a distância que ele mantém em si e para si de qualquer gozo específico, favorece um prazer objetivo no dinheiro, a consciência de um valor que vai muito além de todo usufruto individual e pessoal.”
“O avarento ama o dinheiro como se ama uma pessoa altamente admirada que nos alegra simplesmente por sua existência e por conhecermos e estarmos com ela, sem que nossa relação com ela envolva a particularidade de um gozo concreto.”
Ganância e avareza
Para o ganancioso e o avarento, o dinheiro apresenta a possibilidade de uma
"forma abstrata de gozo que, no entanto, não é gozado"
Dinheiro como "meio absoluto”: promessa de possibilidades ilimitadas de satisfação.
Dinheiro como "meio absoluto”: não oferece em si nenhuma forma de gozo concreto.
O ganancioso e o avarento experimentam esses dois aspectos simultaneamente:
eles sentem as possibilidades infinitas que o dinheiro oferece, deixando-as ao mesmo tempo “completamente intocadas”.
Paradoxo: um gozo que é ilimitado precisamente porque nunca é realizado.
Ganância e avareza
“O dinheiro [...] não deve [...] proporcionar ao avarento nada além de sua mera posse.
[...] Como uma coisa absolutamente sem qualidades, [o dinheiro] não pode oferecer o que mesmo o objeto mais desprezível pode proporcionar: ele não contém em seu seio quaisquer surpresas ou desilusões. Aqueles que efetiva e definitivamente só querem dinheiro estão, portanto, absolutamente a salvo delas.”
“Se [...] o desejo não for além [do dinheiro] para uma meta concreta, uma desilusão mortal deve ocorrer; esta é vivenciada inúmeras vezes em que a riqueza monetária, ansiada apaixonadamente como uma felicidade inquestionável, revela-se, após ser alcançada, o que realmente é: um mero meio”.
Esbanjamento
“quando o Príncipe Conti recebeu de volta de uma dama um diamante no valor de 4.000-5.000 francos que havia enviado a ela, ele ordenou que fosse esmagado para que pudesse usá-lo para escrever uma carta em resposta. Taine acrescenta a esta história a seguinte observação sobre as convenções daquele período: ‘É-se tanto mais um homem do mundo quanto menos se é um homem do dinheiro’”
Esbanjamento
“a indiferença em relação ao valor monetário, que constitui a essência e a atração do esbanjamento, só pode ser exercida na medida em que esse valor [monetário] é pressuposto como algo sentido e estimado. Pois, obviamente, jogar fora o que é indiferente seria em si mesmo algo completamente indiferente.”
“o comportamento negativo consciente e enfático em relação ao dinheiro fundamenta-se, como em um processo dialético, em seu oposto, que é o único que pode lhe conferir algum sentido e atração.”
Esbanjamento
Quanto mais um objeto nos aparece como necessário, tanto mais o desejo por ele é sentido como urgente, mas também como limitado. Por sua vez, algo supérfluo é experimentado como menos urgente, mas também como ilimitado.
O dinheiro combina o máximo destes dois polos: é o objeto mais indispensável, pois fornece os meios para as necessidades mais básicas da vida; no entanto, é também o objeto mais dispensável, pois, por si só, não pode satisfazer qualquer necessidade.
Nessa medida, o dinheiro associa a intensa urgência das necessidades mais básicas com a extensa ilimitação dos desejos mais supérfluos.
Experiência paradoxal de uma necessidade urgente que não pode ser satisfeita;
um luxo que, no entanto, parece indispensável.
Esbanjamento
”Na medida em que o autêntico esbanjador [...] se torna indiferente ao objeto uma vez que ele está em sua posse, seu gozo é afligido pela maldição de nunca encontrar repouso e permanência; o instante de seu surgimento contém, ao mesmo tempo, sua supressão.
A vida tem aqui a mesma fórmula demoníaca que a do avarento: cada momento alcançado desperta a sede por sua intensificação, a qual, no entanto, nunca pode ser saciada; pois todo o movimento busca a satisfação [...] numa categoria que, afinal, negou a si mesma o fim desde o início e se limitou ao meio.”
Ascetismo
”Por estar pronto para ser utilizado a qualquer instante, [o dinheiro] é a pior armadilha dos momentos de fraqueza, e por servir para obter tudo, oferece à alma o que há de mais sedutor; e tudo isso constitui um perigo ainda mais sinistro porque o dinheiro [...] é a coisa mais indiferente e inocente do mundo.”
”Assim, para sensibilidades ascéticas, ele se torna o próprio símbolo do diabo que nos seduz sob a máscara do inofensivo e do imparcial; de modo que, em relação ao diabo assim como ao dinheiro, a única salvaguarda está em manter-se à distância absoluta, em rejeitar toda relação, por mais inofensiva que possa parecer.”
Ascetismo
”[Para os franciscanos] a pobreza já era de modo inteiramente imediato um lado ou uma expressão do fato de que o mundo pertencia num sentido superior, no sentido mais elevado, àquele que renuncia; este não era na verdade um renunciador, mas na pobreza ele possuía o mais puro, o mais fino extrato das coisas, como o avarento o possui no dinheiro.”
”Assim como os monges budistas diziam ‘Em grande alegria vivemos nós que não possuímos nada [...]’, caracterizavam-se os franciscanos como nihil habentes, omnia possidentes [nada tendo, mas tudo possuindo]. A pobreza perdeu aqui sua essência ascética: [...] a renúncia ao meio [monetário] [...] sofreu a mesma elevação a um valor definitivo.”
”O poder imenso e abrangente do processo por meio do qual o dinheiro eleva-se de sua posição de meio para a importância de algo absoluto não pode ser iluminado de maneira mais nítida do que pelo fato de que a negação de seu significado se eleva à mesma forma.”
Cinismo
”Na atitude que hoje caracterizamos como cínica, parece-me decisivo que também para ela não existem diferenças de altura entre valores, e que a única significação do que é em geral altamente valorizado está em ser degradado ao nível do mais baixo, mas que o fim último positivo e ético-ideal dessa nivelação desapareceu.”
”Quanto mais o próprio dinheiro se torna o único centro de interesse, quanto mais se vê a honra e as convicções, o talento e a virtude, a beleza e a salvação da alma serem trocados por dinheiro, tanto mais uma atitude zombeteira e frívola irá emergir em relação a esses bens vitais superiores, que estão à venda pelo mesmo tipo de valor que as mercadorias da feira, recebendo assim também, enfim, um ‘preço de mercado’.”
“o cínico é ainda movido por uma reação na esfera do valor, mesmo que no sentido perverso de que ele encontra uma atração vital no movimento descendente dos valores”
Atitude blasé
”a pessoa blasé, segundo seu conceito decerto nunca inteiramente realizado, está mortificada no que diz respeito às diferenças do sentimento de valor; ela percebe todas as coisas em um tom uniformemente baço e cinza, indignas de suscitarem uma reação”.
“A nuance decisiva aqui não é [...] a desvalorização das coisas em geral, mas a indiferença às suas diferenças específicas, já que é precisamente delas que brota toda a vivacidade dos sentimentos e da vontade, o que é negado ao blasé.”
Mais do que nivelar o diferenças entre valores – como o cínico –, a pessoa blasé é indiferente às diferenças na natureza das próprias coisas.
Atitude blasé
Uma vez que não é mais possível encontrar uma 'atração vital’ na esfera do valor, o indivíduo pode buscá-la no mero aumento quantitativo da excitação:
”Daí o desejo atual por estímulo e excitação, por impressões extremas, pela maior rapidez de sua mudança – uma daquelas típicas tentativas de remediar os perigos ou os sofrimentos de uma situação por meio da exageração quantitativa de seu conteúdo; [...] logo, porém, a condição anterior será restabelecida, agora piorada pela medida aumentada de seus elementos.”
”a valorização moderna do ’estimulante’ como tal [...], sem que se considere necessário ressaltar por que ele nos estimula, revela também apenas aquela característica condição de estar preso nos meios [....] A cultura do dinheiro significa um tal aprisionamento da vida em seus meios que a liberação de seu cansaço é buscada também […] em um mero meio que oculta seu significado último: no fato da mera ’estimulação’.”
A crise e a guerra
”não tenho a menor dúvida de que a guerra, dentro dessas limitações, possui tal significado positivo para a forma cultural, independentemente de sua destruição da substância cultural. Como [...] a elevação e o excitamento inauditos da vida em cada um de nós favoreceram essa fusão, essa confluência em uma corrente, esta fornecerá também aos conteúdos culturais objetivos por algum tempo uma nova comoção e, com isso, uma nova possibilidade e um impulso para se congregarem, uma ruptura de toda rigidez e insularidade que fizeram de nossa cultura um caos de singularidades desvinculadas, destituídas de qualquer estilo comum.”
(”A crise da cultura”)
Accumulation of money (i.e. potential) as absolute actuality
Greed & Avarice
Accumulation of money as
mere potential
Expenditure of money (i.e. superfluous) as absolute necessity
Expenditure of money as mere superfluity
Squandering
Moral opposition to money (i.e. evil) as absolute redemption
Moral opposition to money as mere renunciation
Levelling of all value distinctions (i.e. common) as absolute distinction
Levelling of all value distinctions as mere levelling
Ascetic poverty
Cynicism
Blasé attitude
Craving for pure, absolute stimulation in (indifferent) things
Pure stimulation as mere indifference to the specific qualities of things
Accumulation of money (i.e. potential) as absolute actuality
Greed & Avarice
Accumulation of money as
mere potential
Expenditure of money (i.e. superfluous) as absolute necessity
Expenditure of money as mere superfluity
Squandering
Moral opposition to money (i.e. evil) as absolute redemption
Moral opposition to money as mere renunciation
Levelling of all value distinctions (i.e. common) as absolute distinction
Levelling of all value distinctions as mere levelling
Ascetic poverty
Cynicism
Blasé attitude
Craving for pure, absolute stimulation in (indifferent) things
Pure stimulation as mere indifference to the specific qualities of things
Relativity of our aspirations
Absoluteness of the idea of ultimate purpose
Accumulation of money (i.e. potential) as absolute actuality
Greed & Avarice
Accumulation of money as
mere potential
Expenditure of money (i.e. superfluous) as absolute necessity
Expenditure of money as mere superfluity
Squandering
Moral opposition to money (i.e. evil) as absolute redemption
Moral opposition to money as mere renunciation
Levelling of all value distinctions (i.e. common) as absolute distinction
Levelling of all value distinctions as mere levelling
Ascetic poverty
Cynicism
Blasé attitude
Craving for pure, absolute stimulation in (indifferent) things
Pure stimulation as mere indifference to the specific qualities of things
Anesthesia
Hyperes-thesia
Referências bibliográficas
Argumentos centrais desta apresentação:
Textos de Simmel mencionados nesta apresentação:
Comentadores relevantes neste contexto:
Referências bibliográficas
Outras publicações próprias sobre Simmel: