Arquitetura da célula de 3ª geração — camadas funcionais sobre suporte metálico poroso (PMS)
WORKSHOP · PRODUÇÃO EFICIENTE DE HIDROGÊNIO E ELETRICIDADE A PARTIR DO BIOGÁS
Barreiras de difusão à base de céria para interconectores de MS-SOFC
Céria dopada com gadolínia (10GDC) e céria–cobalto (Ce–Co) sobre aços inoxidáveis: a proteção contra a evaporação de cromo em ar e umidade nas células a combustível de óxido sólido de 3ª geração, suportadas em metal poroso.
SOFC · 1ª–3ª GERAÇÃO — DBL 10GDC · Ce–Co — AÇO INOXIDÁVEL FERRÍTICO
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ROTEIRO
O caminho desta apresentação
01
Fundamentos: o que é uma SOFC
A célula eletroquímica, suas reações e as três gerações de arquitetura — do eletrólito ao metal como suporte.
02
A terceira geração: MS-SOFC
Anatomia da célula suportada em metal poroso, princípio de funcionamento, manufatura e microestrutura.
03
O problema do interconector
Corrosão de aços ferríticos em ar úmido: crescimento de Cr₂O₃ e evaporação de cromo que envenena o cátodo.
04
As barreiras de difusão Ce–Co
O conceito pré-revestido sobre a bobina de aço e os resultados de longa duração — até 40 000 horas de exposição.
Célula unitária tipo botão fabricada em laboratório
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Roteiro técnico
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01 · FUNDAMENTOS
Célula a combustível de óxido sólido (SOFC)
Dispositivo eletroquímico que converte diretamente a energia química de um combustível (H₂, biogás, bioetanol) em eletricidade e calor — sem combustão, sem partes móveis.
O coração: a estrutura PEN
Três camadas cerâmicas empilhadas: cátodo (P), eletrólito denso (E) e ânodo (N). O eletrólito conduz íons O²⁻ e isola os gases; os eletrodos são porosos.
Cátodo: ½ O₂ + 2e⁻ → O²⁻
Ânodo: H₂ + O²⁻ → H₂O + 2e⁻
Global: H₂ + ½ O₂ → H₂O + eletricidade + calor
Opera em alta temperatura (500–1000 °C): alta eficiência, catalisadores sem metais nobres e flexibilidade de combustível — ideal para biogás.
Figura 1 — Estrutura PEN: cátodo, eletrólito e ânodo.
Figura 2 — Íons O²⁻ atravessam o eletrólito; elétrons fecham o circuito externo.
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01 · FUNDAMENTOS
Três gerações — quem sustenta a célula define a temperatura
1ª geração
suportada pelo eletrólito
> 800 °C
Eletrólito espesso carrega a estrutura; interconector cerâmico
2ª geração
suportada pelo ânodo
800–650 °C
Ânodo espesso, eletrólito fino; interconector metálico — AVL, Elcogen
3ª geração
suportada em metal poroso
700–500 °C
Filmes finos sobre metal poroso; aço ferrítico — Ceres Power
cátodo
eletrólito
ânodo
suporte metálico poroso (PMS)
> 800 °C
800–650 °C
700–500 °C
Temperatura de operação — camadas funcionais mais finas ⇒ menor resistência ôhmica ⇒ operação mais fria
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02 · A TERCEIRA GERAÇÃO
Por que suportar a célula em metal?
Temperatura de operação menor
Filmes cerâmicos finos derrubam a resistência ôhmica — a célula trabalha a 500–700 °C.
Materiais mais baratos
A temperatura mais baixa permite usar aço inoxidável ferrítico no suporte e nos interconectores.
Robustez mecânica
O suporte metálico tolera vibração, choque térmico e ciclos redox melhor que cerâmica maciça.
Partida rápida
Menos massa cerâmica para aquecer: partida e ciclagem térmica mais rápidas, essenciais em mobilidade.
As três gerações em resumo
Geração | Suporte | Temperatura | Interconector |
1ª | Eletrólito | > 800 °C | Cerâmico |
2ª | Ânodo | 650–800 °C | Metálico |
3ª | Metal poroso | 500–700 °C | Aço ferrítico |
O metal resolve a estrutura — mas traz um novo elemento para a célula: o cromo do aço. É aí que entram as barreiras de difusão. → Seção 03
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02 · A TERCEIRA GERAÇÃO
Anatomia da MS-SOFC — cada camada tem uma função
Figura 3 — Vista explodida da célula retangular: do PMS ao cátodo.
PMS — suporte metálico poroso (aço ferrítico): sustenta a célula e distribui o combustível
DBL (10GDC) — barreira de difusão entre o metal e o ânodo
Ânodo base — camada estrutural porosa sobre o suporte
Ânodo ativo — onde o combustível é oxidado
Eletrólito — filme denso, condutor de O²⁻ e estanque aos gases
DBL (10GDC) — protege a interface eletrólito–cátodo
DBL (CoO) — camada de contato sob o cátodo
Cátodo — onde o O₂ do ar é reduzido
DBL = diffusion barrier layer. Filmes de céria — 10GDC (céria com 10 mol% de gadolínia) e CoO — que impedem a interdifusão de espécies entre o aço e as camadas cerâmicas da célula.
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02 · A TERCEIRA GERAÇÃO
Como a célula trabalha: gases, íons e elétrons
Figura 4 — Montagem de teste de célula unitária. Fonte: Y. Gong et al., Catalysts 13 (2023) 1043.
1
Ar (O₂) é alimentado pelo lado do cátodo, em canais sobre a célula.
2
O₂ recebe elétrons e é reduzido a íons O²⁻ na superfície do cátodo.
3
Os íons O²⁻ migram através do eletrólito denso — isolante eletrônico.
4
No ânodo, H₂ reage com O²⁻ formando H₂O e liberando elétrons.
5
Os elétrons retornam pelo circuito externo — essa é a corrente útil.
Bancada experimental de testagem de células unitárias em forno tubular.
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02 · A TERCEIRA GERAÇÃO
Manufatura: do pó cerâmico à célula
1 · O suporte metálico poroso (PMS)
Duas rotas: tape casting próprio — a fita metálica é moldada e sinterizada em laboratório — ou PMS comercial, já pronto para receber as camadas.
2 · A deposição das camadas
Screen printing — serigrafia das camadas de ânodo e cátodo
Spin coating — filmes finos e uniformes de eletrólito
Electron beam (PVD) — filmes densos de eletrólito e DBLs a vácuo, diretamente sobre o metal (LNNANO)
3 · A co-sinterização
As camadas são consolidadas em fornos com atmosfera controlada — etapa crítica quando há metal na estrutura.
pó / fita metálica
deposição
co-sinterização
Tape casting da fita metálica do PMS
Fornos de sinterização com atmosfera controlada
Célula verde (antes da sinterização), ~2 cm
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02 · A TERCEIRA GERAÇÃO
Microestrutura: a célula vista em corte
Figura 5 — Mapeamento EDS (Zr, Y, Ni): eletrólito depositado sobre ânodo por screen printing.
Figura 6 — Seção transversal em MEV: camadas porosas sob o filme denso (1 500×).
Figura 7 — Filme de eletrólito denso por electron beam (6 000×), LNNANO.
A microestrutura mostra o requisito-chave da 3ª geração: filmes de eletrólito e DBL densos, aderentes e de poucos micrômetros sobre uma estrutura porosa — condição para operar a 500–700 °C sem perdas ôhmicas.
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02 · A TERCEIRA GERAÇÃO
A terceira geração já saiu do laboratório
Figura 8 — Stack de MS-SOFC da Ceres Power: placas de aço ferrítico soldadas a laser.
Figura 9 — Protótipo Nissan e-Bio Fuel-Cell (e-NV200) abastecendo com bioetanol.
Nissan + Ceres Power + Plansee + AVL: veículo elétrico com sistema SOFC de 5 kW e tanque de 30 L de bioetanol como extensor de autonomia.
Autonomia de 600 km — contra ~150 km sem o extensor SOFC.
Fontes: R.T. Leah et al., ECS Transactions 78 (2017) 87 · insideevs.com (Nissan e-NV200 SOFC) · cerespower.com
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03 · O PROBLEMA DO INTERCONECTOR
O interconector fecha o circuito — e vira o elo frágil
Figura 10 — Células em série no stack: o interconector separa ar e combustível e leva a corrente de uma célula à próxima.
Por que aço inoxidável ferrítico?
· Expansão térmica próxima à das cerâmicas da célula
· Boa condutividade elétrica · Conformável (estampagem)
· Barato de produzir — peça-chave para stacks de baixo custo
O que se exige dele em operação
· ↑ Resistência à oxidação nos lados do cátodo e do ânodo
· ↓ Evaporação de cromo para a atmosfera da célula
· ↓ Resistência elétrica de contato (ASR) ao longo da vida
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03 · O PROBLEMA DO INTERCONECTOR
Em ar úmido a 800 °C, o cromo do aço vira gás
FeCr
O₂ + H₂O(g)
FeCr
Cr₂O₃
CrO₂(OH)₂(g)
espécies voláteis de Cr migram pelo ar da célula
Cr₂O₃(s) + 2 H₂O(g) + 1,5 O₂(g) → 2 CrO₂(OH)₂(g)
A camada de Cr₂O₃, protetora em ar seco, torna-se fonte de cromo volátil na presença de vapor d'água — exatamente a atmosfera do lado do cátodo.
Consequências para a célula
1
Envenenamento do cátodo — o Cr volátil deposita-se no cátodo e bloqueia os sítios de redução do O₂.
2
Consumo de cromo — a camada de Cr₂O₃ cresce continuamente e esgota a reserva de Cr do aço.
3
Resistência crescente (ASR) — o óxido espesso aumenta a resistência elétrica e derruba a potência do stack.
Sem proteção, o interconector de aço ferrítico degrada a célula pelos dois lados: químico (cátodo) e elétrico (ASR).
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03 · O PROBLEMA DO INTERCONECTOR
Três caminhos de proteção — e uma combinação
FeCrMn
(Cr,Mn)₃O₄
Cr₂O₃
A · Modificar o substrato: liga com manganês
A liga FeCrMn forma um espinélio (Cr,Mn)₃O₄ sobre a Cr₂O₃: a evaporação diminui. Mas continua alta demais.
FeCrMn
CrO₂(OH)₂(g)
Co (640 nm)
(Co,Mn)₃O₄ / Cr₂O₃
B · Revestir com cobalto
A camada de Co (~640 nm) vira espinélio (Co,Mn)₃O₄ em operação e minimiza a evaporação de Cr.
FeCrMn
Co (640 nm)
Ce (10 nm)
C · Adicionar cério sob o cobalto
A subcamada de Ce (~10 nm) atua como elemento reativo e retarda o crescimento da Cr₂O₃ — menos ganho de massa, menor ASR.
Co segura o cromo; Ce segura a oxidação. A combinação Ce–Co é a candidata lógica — e foi testada por até 40 000 horas. → Seção 04
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04 · O ESTUDO: REVESTIMENTO CE–CO
Revestir a bobina, estampar depois: o conceito pré-revestido
Bobina de aço inoxidável ferrítico
Revestimento PVD em linha: Ce (10 nm) + Co (640 nm)
Estampagem das placas de fluxo
Interconector conformado e protegido
Figura 11 — Bobinas de aço: o revestimento é aplicado em linha contínua, antes da conformação (conceito Sandvik).
Figura 12 — Fissuras no revestimento de Co após a deformação mecânica.
A deformação da estampagem aumenta a evaporação de cromo?
A dúvida central do conceito pré-revestido — respondida pelos resultados a seguir. →
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04 · O ESTUDO: REVESTIMENTO CE–CO
Resultado 1 — estampar não piora: o Co se regenera
Figura 13 — Evaporação cumulativa de Cr: aço sem revestimento × revestido com 600 nm de Co (não deformado, pré-revestido + estampado, estampado + pós-revestido). À direita, MEV da superfície: as fissuras da estampagem (0 h) desaparecem após 336 h.
O que o gráfico mostra
· Sem revestimento, a evaporação sobe sem parar: ~0,09 mg cm⁻² em 350 h
· Com Co — antes ou depois da estampagem — cai cerca de 10×
· Pré-revestido + estampado ≈ não deformado: sem sinais de aumento
Por quê
Efeito self-healing: o Co reage e fecha as fissuras geradas pela deformação durante a oxidação inicial.
Condições: Crofer 22 APU, 850 °C, ar + 3% H₂O, 6 sL min⁻¹.
Fonte: H. Falk-Windisch, M. Sattari, J.-E. Svensson, J. Froitzheim — J. Power Sources 297 (2015) 217.
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04 · O ESTUDO: REVESTIMENTO CE–CO
Resultado 2 — o cério retarda a oxidação do aço
Figura 14 — Ganho de massa por oxidação: Co × Co/Ce (Sanergy HT, 850 °C).
Figura 15 — Evaporação cumulativa de Cr em 1 000 h: sem revestimento × Co × Co/Ce (850 °C).
Em 3 000 h, Co+Ce ganha ~metade da massa do Co (Cr₂O₃ cresce mais devagar) — e segura a evaporação de Cr tão bem quanto o Co puro.
Fonte: Sandvik — Sanergy HT, 850 °C, 6 000 ml min⁻¹.
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04 · O ESTUDO: REVESTIMENTO CE–CO
Resultado 3 — estável por 40 000 horas
Figura 16 — Taxa de evaporação de Cr: aço sem revestimento (média de 1 000 h) × Co/Ce até 37 000 h (FSS, 800 °C, ar).
Figura 17 — Resistência de área específica (ASR) do aço Ce/Co até 35 000 h (800 °C).
Sem revestimento: 1,85 × 10⁻⁴ mg cm⁻² h⁻¹. Com Ce–Co: taxa ≈ zero e constante — e ASR baixa (20–40 mΩ cm²) mesmo após 35 000 h.
Fonte: Sandvik — aço inoxidável ferrítico (FSS), 800 °C, 6 000 ml min⁻¹ de ar.
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RESUMO
O que fica desta apresentação
1
A 3ª geração opera a 500–700 °C graças ao suporte metálico poroso — e depende de DBLs de céria (10GDC, CoO) entre o metal e os eletrodos da célula.
2
Ar + umidade atacam o aço ferrítico: a Cr₂O₃ cresce e vira CrO₂(OH)₂ gasoso — o cromo envenena o cátodo e eleva a resistência do interconector.
3
O revestimento de Co reduz drasticamente a evaporação de Cr e se regenera após a estampagem (self-healing) — viabilizando o conceito pré-revestido em bobina.
4
A camada de Ce (10 nm) sob o Co retarda o crescimento da Cr₂O₃: metade do ganho de massa em 3 000 h, mantendo a mesma barreira à evaporação.
5
Estabilidade comprovada: Ce–Co manteve evaporação de Cr e ASR baixas por ~37 000 h a 800 °C — com bom desempenho confirmado em stack (Elcogen).
Barreiras de difusão à base de céria — 10GDC dentro da célula, Ce–Co sobre o aço — são o que torna a MS-SOFC durável em ar e umidade.
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Obrigado pela atenção
Perguntas e discussão
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