AS PARÁBOLAS DE JESUS�� Fr. José Nunes,OP – ISTA (Instituto São Tomás de Aquino – www.ista.pt)�
PROGRAMA
Pequena bibliografia
A importância das parábolas
- Este breve curso sobre as parábolas foi-me pedido por um pequeno grupo para a sua formação cristã permanente, mas não há dúvida que o tema representa um conjunto de textos muito importantes para os cristãos (e talvez não só…) e, por isso, resolvi propô-lo nesta modalidade em que aqui nos encontramos.
- Assim como o conjunto dos milagres, também as parábolas constituem cerca de 25% do total dos evangelhos (neste caso dos evangelhos ‘sinópticos’: Mateus, Marcos, Lucas), num total de 44 parábolas, das quais 16 são repetidas em 2 ou 3 dos evangelhos. E, tudo isto, sem contar com muitas passagens evangélicas que são linguagem parabólica.
LISTA COMPLETA DAS 44 PARÁBOLAS DE JESUS
A NOSSA PERSPECTIVA NA ABORDAGEM DAS PARÁBOLAS
- que permitam ser agrupadas segundo um tema
- que sejam bem significativas para o nosso tempo e
para a nossa cultura: a Bíblia tem de ser lida segundo
os critérios da actualização e da inculturação (cfr IBI)
Afinal, o que são ‘parábolas’ ?
Há muitas definições, mas quase todas apontando para narrativas alegóricas ou metafóricas e com algum ensino conclusivo. Vejamos duas aproximações: uma da Wikipédia (sobre a ‘parábola) e outra do filósofo Ortega e Gasset (sobre a ‘metáfora’).
«As Parábolas de Jesus são narrativas breves, dotadas de um conteúdo alegórico, utilizadas nas pregações e sermões de Jesus com a finalidade de transmitirem um ensinamento.
Quanto à sua definição exacta, a parábola pode ser uma narração alegórica na qual o conjunto de elementos evoca outra realidade de ordem superior ou uma espécie de alegoria apresentada sob forma de uma narração, relatando factos naturais ou acontecimentos possíveis, sempre com o objetivo de declarar ou ilustrar uma ou várias verdades» (Wikipédia).
«A metáfora é o maior poder de que o homem dispõe pois raia a magia e é como um instrumento de criação que Deus tivesse esquecido no interior das suas criaturas» (Ortega y Gasset).
A origem das parábolas
Quem não se lembra das fábulas de Esopo, re-escritas por La Fontaine, com as histórias
da cigarra e da formiga,
ou da tartaruga e da lebre,
ou de Pedro e o lobo… ?
A grande diferença entre parábolas e fábulas consistiria em que as fábulas, ao contrário das parábolas, são histórias construídas com animais (salvo raras excepções), os quais se comportam como pessoas (portanto, ao género literário da fábula, junta-se a recorrente figura de estilo da personificação)
A parábola em Israel – uma tradição bem antiga !
Já no livro bíblico dos Juízes (talvez dos séculos VIII-VII a.C.), encontramos uma bela parábola (ou fábula, já que são árvores a falar), que é uma crítica à instituição da realeza (Jz 9,8-15):
«As árvores puseram-se a caminho para ungirem um rei para si próprias. Disseram, então, à oliveira: 'Reina sobre nós.' Disse-lhes a oliveira: 'Irei eu renunciar ao meu óleo, com que se honram os deuses e os homens, para me agitar por cima das árvores?' As árvores disseram, depois, à figueira: 'Vem tu, então, reinar sobre nós.' Disse-lhes a figueira: 'Irei eu renunciar à minha doçura e aos meus bons frutos, para me agitar sobre as árvores?' Disseram, então, as árvores à videira: 'Vem tu reinar sobre nós.' Disse-lhes a videira: 'Irei eu renunciar ao meu mosto, que alegra os deuses e os homens, para me agitar sobre as árvores?' Então, todas as árvores disseram ao espinheiro: 'Vem tu, reina tu sobre nós.' Disse o espinheiro às árvores: 'Se é de boa mente que me ungis rei sobre vós, vinde, abrigai-vos à minha sombra; mas, se não é assim, sairá do espinheiro um fogo que há-de devorar os cedros do Líbano!’»
Jesus assume a sua cultura judaica nas parábolas
Parábola de Elisha
Elisha dizia: um homem que pratica boas acções e estudou bem a Torah, a que se pode comparar? A um homem que primeiramente constrói a casa com pedras e logo de seguida com tijolos; ainda que as águas subam de todos os lados não a conseguem demolir. Mas um homem que não pratica boas acções, embora tenha estudado a Torah, a que se poderá comparar? A um homem que primeiro constrói com tijolos e depois com pedras. Mesmo que as águas subam em pouca quantidade, imediatamente farão derrubar o edifício. (Abot de Rabbi Naran 22)
Parábola de Jesus
Todo aquele que escuta estas minhas palavras e as põe em prática é como o homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha. Caíu a chuva, engrossaram os rios, sopraram os ventos contra aquela casa; mas não caiu, porque estava fundada sobre a rocha. Porém, todo aquele que escuta estas minhas palavras e não as põe em prática poderá comparar-se ao insensato que edificou a sua casa sobre a areia. Caíu a chuva, engrossaram os rios, sopraram os ventos contra aquela casa; ela desmoronou-se, e grande foi a sua ruína. (Mt 7,24-27)
Veja-se ainda, a título de exemplo, a semelhança entre esta parábola escrita pelo Rabbi Eliazer (finais do sec.I) e as parábolas de Jesus a convidar para um banquete, em que muitos recusam e outro se apresenta sem traje apropriado (ou ainda a parábola das virgens sensatas e virgens néscias):
«Parábola de um rei que convidou os seus servos para um banquete, mas sem fixar a data certa. Os que dentre eles eram sábios vestiram-se e sentaram-se à entrada do palácio, dizendo: faltará algo na casa do rei? Os que entre eles eram insensatos foram para o seu trabalho dizendo: qual é o banquete que não precisa de um longo período de preparação? De repente, o rei mandou chamar os seus servos. Os sábios apresentaram-se diante dele como estavam, bem vestidos, e os insensatos igualmente se apresentaram, sujos! O rei alegrou-se ao ver os sábios e enfureceu-se contra os insensatos, dizendo-lhes: os que se vestiram para o banquete, sentem-se, comam e bebam; mas aqueles que não se prepararam para o banquete, fiquem de pé e olhem» (Shabbat 153a)
Parábola das bodas (Mt.22,1-14)
«Tendo Jesus recomeçado a falar em parábolas, disse-lhes: O Reino do Céu é comparável a um rei que preparou um banquete nupcial para o seu filho. Mandou os servos chamar os convidados para as bodas, mas eles não quiseram comparecer. De novo mandou outros servos, ordenando-lhes: 'Dizei aos convidados: O meu banquete está pronto; abateram-se os meus bois e as minhas reses gordas; tudo está preparado. Vinde às bodas.' Mas eles, sem se importarem, foram um para o seu campo, outro para o seu negócio. Os restantes, apoderando-se dos servos, maltrataram-nos e mataram-nos. O rei ficou irado e enviou as suas tropas, que exterminaram aqueles assassinos e incendiaram a sua cidade. Disse, depois, aos servos: 'O banquete das núpcias está pronto, mas os convidados não eram dignos. Ide, pois, às saídas dos caminhos e convidai para as bodas todos quantos encontrardes.’ Os servos, saindo pelos caminhos, reuniram todos aqueles que encontraram, maus e bons, e a sala do banquete encheu-se de convidados. Quando o rei entrou para ver os convidados, viu um homem que não trazia o traje nupcial. E disse-lhe: 'Amigo, como entraste aqui sem o traje nupcial?' Mas ele emudeceu. O rei disse, então, aos servos: 'Amarrai-lhe os pés e as mãos e lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes.' Porque muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos.»
Parábola das 10 virgens (Mt.25,1-13)
« O Reino dos céus será, pois, semelhante a dez virgens que pegaram nas suas candeias e saíram para encontrar-se com o noivo. Cinco delas eram insensatas, e cinco eram prudentes. As insensatas pegaram as candeias, mas não levaram óleo. As prudentes, porém, levaram óleo em vasilhas, junto com suas candeias. O noivo demorou a chegar, e todas ficaram com sono e adormeceram. À meia-noite, ouviu-se um grito: 'O noivo aproxima-se! Saiam para encontrá-lo!' Então todas as virgens acordaram e prepararam suas candeias. As insensatas disseram às prudentes: 'Deem-nos um pouco do vosso óleo, pois as nossas candeias estão a apagar-se'. Elas responderam: 'Não, pois pode ser que não haja o suficiente para nós e para vós. Vão comprar óleo para as vossas'. E saindo elas para comprar o óleo, chegou o noivo. As virgens que estavam preparadas entraram com ele para o banquete nupcial. E a porta foi fechada. Mais tarde vieram também as outras e disseram: 'Senhor! Senhor! Abre a porta para nós!' Mas ele respondeu: 'A verdade é que não vos conheço!' Portanto, vigiem, porque vocês não sabem o dia nem a hora! »
Como classificar ou agrupar �as PARÁBOLAS de Jesus ?
Esta tarefa não é fácil, já que as parábolas são muitas e diversas! Por isso, há inúmeras opiniões entre os especialistas…
Talvez as pudéssemos classificar, de forma simples, tal como nos sugere a Wikipédia, em 4 grupos:
Parábolas verídicas – ilustração tirada da vida diária, cujo ensino pode ser reconhecido de forma universal. Ex: os meninos que brincam na praça (Mateus 11,16-19); a ovelha separada do rebanho (Parábola da Ovelha Perdida); uma moeda perdida numa casa (Parábola da Dracma Perdida).
Parábolas em forma de histórias – refere-se a acontecimentos passados que são centralizados diretamente numa pessoa. Ex: o mordomo sagaz que endireitou a sua situação depois de ter esbanjado o património do seu senhor (Parábola do Mordomo Infiel); o juiz que acabou finalmente administrando justiça após as repetidas súplicas de uma viúva (Parábola do Juiz Iníquo).
Ilustrações – são histórias que focalizam exemplos a serem imitados. Ex: a Parábola do Bom Samaritano.
Parábolas do Reino – O Reino de Deus é um tema recorrente nas parábolas de Jesus. Muitos não o compreendiam (Mateus 13,13) por estarem com os seus corações endurecidos, cheios de incredulidade.
2 constantes nas parábolas