1 of 142

O Humanismo�ouo nascimento da filosofia moderna

Luc Ferry

2 of 142

Humanismo

RESUMO

O mundo grego estoico 🡪 salvação na compreensão da ordem cósmica.

O cristianismo 🡪 salvação no amor em Deus e nova ética

3 of 142

Humanismo

“O mundo moderno vai nascer com o desmoronamento da cosmologia antiga e com o nascimento de uma extraordinária reavaliação das autoridades religiosas.”

4 of 142

Humanismo

Dois movimentos com uma mesma raiz:

  • A revolução científica sem precedentes na História, com rupturas profundas.

5 of 142

Humanismo

Copérnico 🡪 Obra Sobre a revolução dos orbes celestes (1543).

6 of 142

Humanismo

Newton 🡪 Obra Principia mathematica (1687).

7 of 142

Humanismo

Descartes 🡪 Obra Princípios de filosofia (1644).

8 of 142

Humanismo

Galilei 🡪 Obra Diálogo sobre os Dois principais sistemas de mundo (1632).

9 of 142

Humanismo

  • Quatro obras, datas e autores que marcam a história do pensamento como nenhum antes.
  • O homem perde sua referência no mundo.
  • O mundo perde sua referência no universo.
  • Um estado geral de estupefação.

10 of 142

Humanismo

Aniquilação dos princípios da cosmologia antiga:

  • O mundo não é acabado, fechado, hierarquizado e ordenado.
  • O mundo é um caos infinito e desprovido de sentido.
  • Um campo de forças e objetos que se chocam.

11 of 142

Humanismo

Fragilizou os princípios religiosos

  • As descobertas da Ciência desautorizam as doutrinas eclesiásticas sobre assuntos de que não tinham competência:

🡪 A idade da Terra.

🡪 A posição da Terra em relação ao Sol.

🡪 Data de nascimento do homem.

🡪 As espécies animais.

12 of 142

Humanismo

A atitude cética

  • A dúvida ou suspeita sobre as verdades cristalizadas.
  • O espírito crítico inaugurado.
  • A palavra crítica significa crise.
  • Drama entre Razão e Fé.

13 of 142

Humanismo

Crise das referências

  • “Que se dane tudo!”

“a polidez e a civilidade, o sentido da história e o interesse pela política, os mínimos conhecimentos sobre literatura, religião, arte...”

  • Perfumaria.

14 of 142

Humanismo

Desorientação

  • O sentimento de desorientação dos homens dos séculos XVI e XVII é incomparável.
  • O homem e perdido.
  • Só do cosmos e de Deus.
  • Humanismo 🡪 só o homem por si mesmo.

15 of 142

Humanismo

Melancolia de

Albrech Dührer

16 of 142

Humanismo

OS TRÊS EIXOS

THEORIA

ÉTICA

SABEDORIA

17 of 142

Humanismo

No plano teórico – Theoria

Como pensar o mundo?

Como compreendê-lo?

Como se situar nele?

18 of 142

Humanismo

Alexandre Koyré

“Destruição da ideia de cosmos[...], da destruição do mundo concebido como um todo acabado e bem ordenado, no qual a estrutura espacial encarnava a hierarquia dos valores e de perfeição... E da substituição deste por um Universo indefinido, e mesmo infinito, não comportando mais nenhuma hierarquia natural [...]”.

19 of 142

Humanismo

“[...] e unido pela identidade das leis que o regem em todas as suas partes assim como pela de seus componentes últimos situados todos no mesmo nível ontológico... Isso agora está esquecido, mas os espíritos da época foram literalmente perturbados pela emergência dessa nova visão de mundo, como dizem os célebres versos que John Donne escreveu em 1611, depois de ter tomado conhecimento dos princípios da revolução copernicana:”

20 of 142

Humanismo

A nova filosofia torna tudo incerto

O elemento do fogo está completamente extinto

O sol se perdeu, e a terra; e ninguém hoje

Pode mais nos dizer onde encontrá-la [...]

Tudo está em pedaços, toda coerência desaparecida.

Nenhuma relação justa, nada se ajusta mais.

John Donne

21 of 142

Humanismo

Uma nova teoria do conhecimento: uma ordem do mundo que não é mais dada, e sim construída

  • Causas da mudança de paradigma: complexas e diversas.
  • Uma delas 🡪 o progresso tecnológico.
  • A Ciência aparelhada 🡪 o telescópio.
  • Visualização do que não era visualizado antes.
  • A descoberta das novae 🡪 estrelas novas.
  • O desaparecimento de estrelas.

22 of 142

Humanismo

O dogma da imutabilidade celeste

A perfeição absoluta do cosmos residia no fato de que ele era eterno e imutável, que nada poderia mudá-lo.

A Ciência moderna contesta, com fatos, esta crença.

23 of 142

Humanismo

Aparecimento de uma supernova, 2009.

24 of 142

Humanismo

Superfície da Lua, 2009.

25 of 142

Humanismo

Sonda Atlantis, 2009.

26 of 142

Humanismo

Telescópio Spitzer

27 of 142

Humanismo

Sonda explorando Marte

28 of 142

Humanismo

Outras causas no âmbito da Economia e Política.

Mas no campo técnico é que ela importa mais.

A Theoria é a primeira atingida.

Muda totalmente de sentido.

KANT 🡪 a obra capital: Crítica da razão pura (1781).

Mundo não mais um cosmos, mas um caos.

Muda a forma de tentar compreendê-lo.

29 of 142

Humanismo

O conhecimento não pode mais assumir a forma de uma theoria no sentido próprio.

Theoria era theion orao = “eu vejo o divino”.

Mas não há mais nada de divino no mundo.

O mundo não está mais para a contemplação.

Ordem, beleza, bondade não mais a priori.

O mundo agora precisa ser “construído” pelo homem.

30 of 142

Humanismo

“Será necessário que o próprio ser humano, no caso, o sábio, por assim dizer, de fora, introduza a ordem nesse universo que, à primeira vista, não oferece nenhuma.”

31 of 142

Humanismo

Nova tarefa da Ciência moderna  TRABALHO e construção de LEIS.

Dar um sentido ao Universo desencantado.

Não mais um espetáculo passivo, mas uma atividade do espírito.

Exemplo:

O princípio da causalidade

32 of 142

Humanismo

Princípio da causalidade

  • Dar coerência e sentido no caos dos fenômenos naturais.
  • O método experimental:

O pensamento é um agir, um trabalho que consiste em ligar fenômenos naturais entre si de modo a que eles se encadeiem e se expliquem uns pelos outros.

33 of 142

Humanismo

Um caso concreto

Claude Bernard: médico e biólogo do século XIX.

Obra Introdução à Medicina Experimental.

Detalhes de uma descoberta 🡪 a função glicogênica do fígado.

O açúcar no sangue dos coelhos.

Origem?

Dos alimentos ou do organismo?

Se do organismo, por qual órgão?

34 of 142

Humanismo

Separação dos coelhos em grupos:

1 – Ingerentes de alimentos doces.

2 – Ingerentes de alimentos sem doce.

3 – Em dieta.

Análise do sangue de todos.

Conclusão do exame: açúcar em todos.

A glicose era produzida pelo organismo.

35 of 142

Humanismo

O que significa o novo método?

A Ciência é um trabalho, uma atividade que consiste em ligar fenômenos entre si, em associar um efeito a uma causa.

36 of 142

Humanismo

KANT

A Ciência vai se definir como um trabalho de associação 🡪 SÍNTESE.

Sin-tese = pôr junto, dispor junto, ligar.

37 of 142

Humanismo

KANT

Juízos sintéticos a priori

Juízos sintéticos a posteriori

38 of 142

Humanismo

II – Uma revolução ética paralela à da teoria:

se o modelo a ser imitado não é mais dado, como era a natureza dos Antigos, agora é preciso inventá-lo...

39 of 142

Humanismo

KANT 🡪 consequências consideráveis no plano moral.

  • A Física de Newton revela um universo a ser ordenado.
  • O mundo não é mais uma esfera fechada sobre si mesma como uma casa aconchegante.
  • Um mundo de forças e choques.
  • Infinito, sem limites no espaço e no tempo.
  • Ele não serve mais como modelo para se pensar uma moral.

40 of 142

Humanismo

Todas as questões filosóficas devem ser retomadas e construídas

O pensamento moderno vai colocar o homem no lugar e na posição do cosmos e da divindade.

ANTROPOCENTRISMO

41 of 142

Humanismo

A doutrina da salvação, da moral e da reconstrução da teoria serão colocadas sobre a ideia de

HUMANIDADE

42 of 142

Humanismo

Cabe ao homem, pelo esforço de seu pensamento, introduzir sentido e coerência num mundo que parece a priori não possuir nenhum sentido.

43 of 142

Humanismo

Exemplo: A Declaração Universal dos Direitos do Homem, de 1789.

  • Instala o homem no centro do mundo
  • Faz dele o único ser sobre a Terra.
  • Digno de respeito.
  • Indistintamente, igual a todos.

A filosofia moderna é um HUMANISMO.

44 of 142

Humanismo

Homem

Animal

45 of 142

Humanismo

Questão pertinente e não menor:

“porque é sempre comparando um ser ao que lhe está mais próximo que melhor se pode delimitar sua ‘diferença específica’, o que propriamente o caracteriza.”

Michelet: os animais seriam como “nossos irmãos inferiores”.

46 of 142

Humanismo

  • A questão do “próprio homem” se torna intelectualmente crucial.
  • O homem é colocado no último patamar de importância.
  • Único ser a ter direitos.
  • Alguma coisa, no homem, o distingue de toda a criação.

“é justamente essa diferença, essa especificidade radical que deve ser trazida à luz...”

47 of 142

Humanismo

A importância de ROUSSEAU

A diferença entre animalidade e humanidade: o nascimento da ética humanista.

O texto: Discurso sobre os fundamentos e a origem da Desigualdade entre os Homens (1755).

48 of 142

Humanismo

Os dois critérios para distinguir homem de animal:

1º - a inteligência.

2º - a sensibilidade.

49 of 142

Humanismo

ARISTÓTELES

O homem é um animal racional.

Foco na inteligência.

DESCARTES

O homem possui razão e sensibilidade.

O homem é máquina.

Corpos autômatos.

Os dois critérios para distinguir homem de animal:

1º - a inteligência.

2º - a sensibilidade.

50 of 142

Humanismo

ROUSSEAU

O homem possui inteligência, sensibilidade e faculdade de se comunicar.

Possibilita um pensamento inédito da salvação “acósmica” e não-ateia”.

A Etologia testemunha casos de inteligência e afetividade em alguns animais.

Rousseau rejeita as teses de Descartes e as teses antigas sobre o privilégio racional no homem.

51 of 142

Humanismo

O critério da distinção reside na:

LIBERDADE

PERFECTIBILIDADE

52 of 142

Humanismo

PERFECTIBILIDADE: “a faculdade de se aperfeiçoar ao longo da vida”.

O animal é perfeito “de imediato”, desde o nascimento.

O animal é por um instinto infalível, comum à sua espécie.

Ele é privado da liberdade e da capacidade de se aperfeiçoar.

53 of 142

Humanismo

“O homem vai se definir ao mesmo tempo por sua liberdade, por sua capacidade de se libertar do programa do instinto natural, por sua faculdade de ter uma história cuja evolução é, a priori, indefinida.”

54 of 142

Humanismo

Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens:

“Em cada animal não vejo senão uma máquina engenhosa, à qual a natureza ofereceu sentidos para recompor-se por si mesma, e para defender-se, até certo ponto, de tudo o que tende a destruí-la ou [...]

55 of 142

Humanismo

“Percebo exatamente as mesmas coisas na máquina humana, com a diferença de que a natureza faz tudo nas ações do animal, enquanto o homem concorre para as suas, na qualidade de agente livre. Um escolhe ou rejeita por instinto, e o outro, por um ato de liberdade: o que faz com que o animal não se afaste da regra que lhe é prescrita, mesmo quando lhe fosse vantajoso fazê-lo, e que o homem se afaste frequentemente [...]’

56 of 142

Humanismo

“Assim é que um pombo morreria de fome perto de uma vasilha repleta das melhores carnes, e um gato, diante de uma porção de frutos ou grãos, embora tanto um quanto o outro pudesse perfeitamente se nutrir com o alimento que desdenha, se ousasse experimentá-lo.”

57 of 142

Humanismo

“É assim que os homens dissolutos se entregam a excessos que lhes provocam febre e morte porque o espírito deprava os sentidos, e a vontade fala ainda quando a natureza se cala...”

58 of 142

Humanismo

“Mas, mesmo que as dificuldades que cercam todas essas questões permitissem a discussão sobre essa diferença entre o homem e o animal, há outra qualidade muito específica que os distingue, e sobre a qual não pode haver contestação: é a faculdade de se aperfeiçoar, faculdade que, com a ajuda de circunstâncias, desenvolve sucessivamente todas as outras e reside em nós, tanto na espécie quanto no indivíduo.”

59 of 142

Humanismo

Enquanto um animal é, ao fim de alguns meses, o que será durante toda a sua vida, e sua espécie, ao fim de mil anos, o que era no princípio desses mil anos. Por que o homem está sujeito a se tornar imbecil? Não é absolutamente porque retorna assim a seu estado primitivo, e o animal, que nada adquiriu e nada tem a perder, permanece sempre com seu instinto, e o homem, perdendo com a velhice e outros acidentes tudo o que sua perfectibilidade lhe havia feito adquirir, torna a cair mais baixo do que o próprio animal?

60 of 142

Humanismo

O pombo e o gato

  • A natureza lhes oferece códigos intangíveis, softwares dos quais são incapazes de fugir.
  • A marca da liberdade deles: cativos no seu programa de granívoro e carnívoro.
  • Pouca margem de manobra.

61 of 142

Humanismo

O ser humano

  • Situação proporcionalmente inversa.
  • Ele é livre e perfectível.
  • Ele pode evoluir.
  • Pouco programado, pode contrariar a natureza.
  • Ele pode cometer excessos: beber e fumar até morrer.

“A vontade fala ainda quando a natureza se cala”.

62 of 142

Humanismo

  • No animal, a natureza fala o tempo todo e fortemente, tão fortemente que ele não tem a liberdade de fazer nada além de obedecer-lhe.

  • No homem, domina certa indeterminação. Ele pode afastar-se das regras naturais, e até mesmo criar uma cultura que se opõe a ela termo a termo.

63 of 142

Humanismo

  • O homem é determinado também muito pela natureza.
  • Tem um corpo e um programa genético, o DNA.
  • Mas pode criar a cultura que contraria a constituição biológica.

Exemplo: a democracia X a lógica da seleção natural para garantir a proteção dos mais fracos.

64 of 142

Humanismo

O caráter antinatural da liberdade humana

  • Transcendência da vontade em relação aos programas naturais.
  • Afastamento ou excesso.
  • Não defende efetivamente a humanidade do homem.

O fenômeno do mal

Só o ser humano é capaz de se mostrar diabólico.

65 of 142

Humanismo

A agressividade dos animais

  • Os animais são agressivos, à primeira vista.
  • O comportamento dos gatos com pássaros e camundongos.

66 of 142

Humanismo

A agressividade humana

O mal radical 🡪 não consiste simplesmente em “fazer maldade”, mas de fazer uso do mal como projeto.

Maldade: o próprio demoníaco em nós.

CRUELDADE

67 of 142

Humanismo

O demoníaco parece ser específico do homem.

Prova: não existe nada no mundo animal, no universo natural, portanto, que se aparente à tortura.

Alexis Philonenko, historiador da filosofia 🡪 o museu da tortura em Gand, Bélgica.

Vitrine dos instrumentos de tortura.

68 of 142

Humanismo

  • O animal, por mais cruéis que aparentam, não almejam o mal.
  • A crueldade suposta se deve à indiferença sobre o sofrimento do outro.
  • Não exercem prazer no ato de matar, apenas a necessidade.
  • O homem é diferente.
  • Faz o mal e sabe que o faz e, às vezes, se compraz no mal.

69 of 142

Humanismo

A tortura gratuita está em excesso a toda lógica natural.

O sadismo: um prazer natural?

O gozo mediante o sofrimento do outro.

Questão: por que tanto prazer gratuito em transgredir o interdito; por que esse excesso no mal, mesmo que ele seja inútil?

70 of 142

Humanismo

Marquês de Sade (1740-1814)

71 of 142

Humanismo

Sacher-Masoch (1836-1895)

72 of 142

Humanismo

  • O homem tortura outro homem sem nenhum objetivo além do própria tortura.
  • Exemplo: milicianos sérvios que obrigaram o avô croata a comer o fígado do próprio neto.
  • Hutus que cortam os membros de recém-nascidos tutsis por prazer.
  • Cozinheiros e as rãs e enguias.
  • A culpa sobre o animal quando a natureza humana falha.

73 of 142

Humanismo

  • A escolha do mal, o demoníaco, parece pertencer a uma ordem outra que não a natureza. De nada serve, e na maioria das vezes é contraprodutivo.
  • O olho humano: não reflete apenas a natureza.
  • Nele podemos descobrir o pior, mas também pela mesma razão, o melhor; o mal absoluto e a mais espantosa generosidade.

74 of 142

Humanismo

  • Esse excesso é chamado por Rousseau de LIBERDADE.
  • Não estamos aprisionados à natureza como os animais.

75 of 142

Humanismo

TRÊS CONSEQUÊNCIAS

Portadores de História

Portadores de igual dignidade

Portadores de inquietação moral

76 of 142

Humanismo

PRIMEIRA CONSEQUÊNCIA

  • Os homens são portadores de dupla historicidade.
  • A história do indivíduo ou pessoa 🡪 EDUCAÇÃO.
  • A história da espécie humana 🡪 CULTURA e POLÍTICA.

77 of 142

Humanismo

  • Os animais, mesmo em colônias, pouco mudam de seu habitat.
  • Os homens transformam e descaracterizam os lugares.
  • Aprendizagem ≠ Educação.
  • A educação humana não tem fim e só se encerra com a morte.
  • O caso de filhotes que já nascem órfãos ou abandonados.
  • A liberdade e a perfectibilidade humana passa pela historicidade.

78 of 142

Humanismo

SEGUNDA CONSEQUÊNCIA

Sartre: O existencialismo é um humanismo.

Se o homem é livre, então não existe uma “natureza humana”, “essência de homem”, definição de humanidade que precederia e determinaria sua existência.

79 of 142

Humanismo

“A existência precede a essência”.

  • É a mesma ideia de Rousseau.
  • Os animais têm uma essência comum à espécie que precede sua existência.
  • Ao homem, nenhuma essência o predermina.
  • O homem pode se emancipar de suas prisões naturais.
  • Fundamenta uma crítica ao racismo e ao sexismo.

80 of 142

Humanismo

“Já que não há natureza humana, já que nenhum programa natural ou social pode prendê-lo totalmente, o ser humano, homem e mulher, é livre, indefinidamente perfectível, e não é absolutamente programado pelas pretensas determinações ligadas à raça ou ao sexo.”

81 of 142

Humanismo

O homem:

um ser “em situação”.

82 of 142

Humanismo

TERCEIRA CONSEQUÊNCIA

Porque é livre, o homem é um ser moral.

Não fosse livre, o homem não seria culpável.

Animais e coisas não são culpáveis.

Só o homem é culpável.

83 of 142

Humanismo

Kant: Rousseau é o “Newton do mundo moral”.

Com sua ideia sobre liberdade humana ele foi o que Newton se tornara para a Física moderna.

O pai fundador da moral moderna.

84 of 142

Humanismo

A HERANÇA DE ROUSSEAU

Uma definição do homem como “animal desnaturado”.

85 of 142

Humanismo

Vercors 🡪 Os animais desnaturados 🡪 romance.

Enredo:

1950, uma equipe de cientistas britânicos vai para Nova Guiné em busca do “elo perdido”, do intermediário entre o homem e o animal. Buscam por fóssil de um macaco. Topam com uma aldeia de Tropis: quadrúmanos. Vivem como trogloditas, mas enterram seus mortos. Esse fato alumbra a equipe. Possuem um embrião de linguagem.

86 of 142

Humanismo

Vercors – pseudônimo de Jean Bruller, escritor francês (1902-1991).

87 of 142

Humanismo

  • Como situá-los: entre o humano e o animal?
  • Os interesses sobre eles, urgem decidir.
  • O protagonista engravida uma das fêmeas.
  • Como definir o novo ser?
  • Apenas seres de mesma espécie podem procriar.
  • O pai decidiu matar o filho, para obrigar a justiça a se pronunciar.
  • Um processo que apaixona a Inglaterra.

88 of 142

Humanismo

  • Critério decisivo vem da esposa do juiz: se eles enterram seus mortos, são humanos.
  • O animal e a natureza são um só.
  • O homem e a natureza são dois.
  • O animal é um ser da natureza.
  • O homem é um excesso, por excelência, antinatural.

89 of 142

Humanismo

  • Por que o critério da distância em relação à natureza é mais importante que qualquer outro?
  • Porque se trata do único critério inteiramente distintivo no plano ético e cultural.

90 of 142

Humanismo

KANT (1724-1804)

A mais importante moral laica

dos dois últimos séculos.

91 of 142

Humanismo

A moral kantiana e os fundamentos da ideia republicana:

A “boa vontade”

A ação desinteressada

A universalidade dos valores

92 of 142

Humanismo

A ideia de que a virtude reside na ação ao mesmo tempo desinteressada e orientada não para o interesse particular e egoísta, mas para o bem comum e “universal”.

=

Não vale apenas para mim, mas também para os outros.

93 of 142

Humanismo

Os dois pilares da Crítica da razão prática:

DESINTERESSE

UNIVERSALIDADE

Definidores da Moral Moderna

94 of 142

Humanismo

Desinteresse

  • A ação desinteressada: a liberdade entendida como faculdade de se libertar da lógica das tendências naturais.
  • As tendências naturais nos levam ao egoísmo.
  • A boa vontade: a capacidade de resistir do egoísmo.

95 of 142

Humanismo

Enquanto minha natureza tende à satisfação dos interesses pessoais, tenho também a possibilidade de escapar de seu imperativo.

Eu posso lutar contra meu egoísmo.

96 of 142

Humanismo

Moral antinatural e antiaristocrática.

Capacidade supostamente igual para todos os homens.

Marco: o valor ético do desinteresse se impõe com tal evidência, que não nos damos mais trabalho de pensar nele.

97 of 142

Humanismo

Exemplos de interesse e desinteresse

A pessoa bajuladora

O taxista que me conduz

A carona

O mutirão

98 of 142

Humanismo

  • Virtude e ação desinteressada são inseparáveis.
  • Sentido fundado na definição rousseauniana de homem.
  • É preciso poder agir livremente, sem ser programado por um código natural ou histórico para se chegar à esfera do desinteresse e da generosidade voluntária.

99 of 142

Humanismo

Segunda dedução ética fundamental:

insistência no ideal do bem comum, na universalidade das ações morais entendidas como a superação dos exclusivos interesses particulares.

100 of 142

Humanismo

  • O bem não se associa a um só indivíduo, mas ao interesse do outro, mesmo da humanidade toda.
  • Ligação clara com a ideia de liberdade:
  • a natureza é particular.
  • a natureza não é altruísta.

101 of 142

Humanismo

Liberdade:

  • Se sou livre, tenho a faculdade de me afastar de minha natureza.
  • Porque me distancio de mim, posso me aproximar dos outros e comungar com eles, levando em consideração suas exigências.
  • Condição mínima de uma vida respeitosa e pacificada.

102 of 142

Humanismo

Morais modernas do DEVER

Liberdade

Virtude da ação desinteressada

Preocupação com o interesse geral

103 of 142

Humanismo

KANT 🡪 a definição moderna da moralidade vai se expressar daí em diante sob a forma de ordens indiscutíveis:

imperativos categóricos.

104 of 142

Humanismo

Dado que a natureza não é mais modelo e contra ela precisamos lutar, a realização do bem não é mais evidente. Daí seu caráter imperativo.

105 of 142

Humanismo

Se fôssemos naturalmente bons, naturalmente orientados para o bem, não haveria necessidade de recorrer a ordens imperativas.

106 of 142

Humanismo

Não temos nenhuma dificuldade em saber o que seria necessário fazer para agir bem, mas nos concedemos sempre exceções, simplesmente porque nos preferimos aos outros.

107 of 142

Humanismo

Intenção desinteressada e universalidade do fim escolhido se reúnem na definição do homem como “perfectibilidade”.

Liberdade é capacidade de agir além dos imperativos do interesse privado.

Distância que faz caminhar rumo ao universal.

108 of 142

Humanismo

MERITOCRACIA

Ética repousada inteiramente na ideia do mérito.

Dada a dificuldade em seguir os mandamentos da moral, apesar de reconhecê-los, há mérito em agir bem, em preferir o interesse geral ao particular, o bem comum ao egoísmo.

109 of 142

Humanismo

Ética meritocrática de inspiração democrática.

Oposta em tudo às concepções aristocráticas da virtude.

110 of 142

Humanismo

Razões:

  • A desigualdade reina sem restrições quanto aos talentos inatos: força, inteligência, beleza, etc.
  • O mérito põe todos em igualdade, pois trata-se de “boa vontade”.

111 of 142

Humanismo

Moral aristocrática e Moral meritocrática

  • A pergunta: O que devo fazer?
  • A natureza não nos ajuda a responder, pois precisa ser combatida.
  • Em nós e fora de nós.

112 of 142

Humanismo

Fora de nós:

O terremoto de Lisboa de 1755, com milhares de mortos.

Na época, interrogaram os filósofos: essa hostilidade da natureza serviria como modelo?

113 of 142

Humanismo

Em nós:

  • Em nós, as coisas são, se possíveis, piores ainda.
  • Se atendo à minha natureza, é meu egoísmo que fala por mim.
  • Como almejar um bem comum, o interesse geral, se apenas ouço minha natureza?
  • Para minha natureza, os outros podem esperar.

114 of 142

Humanismo

Como refazer um mundo coerente entre humanos, sem recorrer para isso à natureza?

Exclusivamente na vontade dos homens, desde que eles aceitem se restringir a si mesmos, estabelecer seus limites, compreendendo que a liberdade de cada um deve, às vezes, terminar onde começa a liberdade do outro.

115 of 142

Humanismo

Reino dos fins

  • Essa “segunda natureza”, essa coerência inventada e produzida pela vontade livre dos homens em nome dos valores comuns, Kant designa como “reino dos fins”.
  • Porque, aqui, os homens serão tratados como fins e não como meios.
  • Como seres de dignidade absoluta.

116 of 142

Humanismo

O homem se torna o centro do universo, o ser por excelência digno de respeito absoluto.

117 of 142

Humanismo

Revolução extraordinária na época:

  • A definição da noção de “virtude” se inverteu.
  • A sabedoria cosmológica definiam a virtude ou a excelência como prolongamento da natureza.
  • Na natureza inata de cada um, o destino último.
  • Exemplo: Aristóteles em Ética a Nicômaco: a finalidade específica do homem entre os seres.

118 of 142

Humanismo

Moral antiga 🡪 É a natureza que estabelece os fins do homem e à ética.

Hans Jonas 🡪 “os fins moram na natureza”.

A prática da virtude exige exercício 🡪 como no exercício de um talento.

A justa medida 🡪 mediania.

O ser monstruoso 🡪 dos extremos.

119 of 142

Humanismo

Aristóteles

A virtude do olho torna o olho e a sua função igualmente perfeitos, pois é pela virtude do olho que a visão se completa em nós como deve.

120 of 142

Humanismo

Na visão aristocrática, o virtuoso não é aquele que merece, que atinge a perfeição graças a esforços consentidos, mas aquele que funciona bem segundo a natureza e a finalidade que lhe é própria.

121 of 142

Humanismo

Antigos 🡪 uma atualização bem-sucedida das disposições naturais de um ser.

Modernos 🡪 uma luta da liberdade contra a naturalidade em nós.

122 of 142

Humanismo

No plano político:

Três marcas características:

Igualdade formal

Individualismo

Valorização da ideia de trabalho

123 of 142

Humanismo

IGUALDADE

Todos os homens se equivalem.

A democracia se impõe.

124 of 142

Humanismo

INDIVIDUALISMO

Não se tem mais o direito de sacrificar os indivíduos para proteger o Todo, pois o Todo é a soma dos indivíduos que não podem ser tratados como meios.

125 of 142

Humanismo

TRABALHO

O trabalho se torna próprio do homem.

Aquele que não trabalha não é um homem pobre, mas um pobre homem.

Ele deve construir o mundo, torná-lo melhor por sua vontade.

126 of 142

Humanismo

EDUCAÇÃO

O trabalho é o veículo essencial da realização de si.

Não há educação sem trabalho.

127 of 142

Humanismo

O “COGITO” de DESCARTES

ou

a primeira origem da filosofia moderna

128 of 142

Humanismo

René Descartes (1596-1650)

129 of 142

Humanismo

COGITO ERGO SUM

“Penso; logo, existo”

130 of 142

Humanismo

A noção de SUJEITO

Obras:

Discurso do Método (1637)

Meditações metafísicas (1641)

131 of 142

Humanismo

Três ideias fundamentais

132 of 142

Humanismo

PRIMEIRA IDEIA

CERTEZA torna-se o novo critério da verdade.

133 of 142

Humanismo

SEGUNDA IDEIA

Rejeição absoluta de todos os preconceitos e de todas as crenças herdadas das tradições e do passado.

Sujeito livre e autônomo.

134 of 142

Humanismo

TERCEIRA IDEIA

Invenção do espírito crítico.

Liberdade de pensamento.

135 of 142

Humanismo

III – Da interrogação moral à questão da salvação: o ponto em que essas duas esferas jamais poderiam se confundir.

136 of 142

Humanismo

Emergência de morais leigas

Ética insuficiente

137 of 142

Humanismo

Emergência de uma

ESPIRITUALIDADE MODERNA:

como pensar a salvação se o mundo não é mais uma ordem harmoniosa e Deus está morto?

138 of 142

Humanismo

DUAS GRANDES LINHAS:

1 – Religiões de salvação terrestre:

CIENTIFICISMO

PATRIOTISMO

COMUNISMO

139 of 142

Humanismo

Religiões de substituições, espiritualidades sem Deus, ideologias ateístas radicais.

140 of 142

Humanismo

NIETZSCHE

Revolução, pátria e ciência: com estes três ídolos foi possível salvar a fé.

141 of 142

Humanismo

2 – Sacralização da HUMANIDADE:

Secularização ou humanização do mundo.

KANT: pensamento alargado.

Mais HUMANIDADE.

142 of 142

Humanismo

Referência Bibliográfica:

FERRY, Luc. Aprender a viver. Filosofia para os novos tempos. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012, p.115-173.