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O PENSAMENTO FILOSÓFICO PENSAMENTO FILOSÓFICO – LITERÁRIO DE BAKHTIN

O PENSAMENTO FILOSÓFICO-LITERÁRIO DE BAKHTIN

MARIA DA PENHA DOS SANTOS DE ASSUNÇÃO

VINÍCIUS RANGEL BERTHO DA SILVA

PUC-SP - DOUTORADO - LCL (LITERATURA E CRÍTICA LITERÁRIA)

DISCIPLINA: BAKHTIN, LITERATURAS E CULTURAS

PROFESSORA DOUTORA ELISABETH BRAIT

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FILME: SOLIDÕES (2013)

Breve resumo:

Segundo longa-metragem do cantor e compositor Oswaldo Montenegro, Solidões conta com as atuações de Vanessa Giácomo, Pedro Nercessian, Renato Góes e grande elenco.

A obra aborda os vários aspectos da solidão por meio de histórias aparentemente desconexas, mas que possuem elementos em comum. A trama gira em torno de uma mulher (Vanessa Giácomo) que perde a memória e passa a se recusar a ter qualquer tipo de contato físico e emocional com os outros. Seu contraponto é a encarnação do demônio (Oswaldo Montenegro), que perambula pelo mundo para combater sua própria solidão, demonstrando o seu sadismo e a sua irreverência.

FONTE: http://www.oswaldomontenegro.com.br/solidoes.php

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ALMA

É o todo esteticamente significativo da vida interior do homem, a sua alma esta é ativamente criada e só enforma positivamente e se conclui na categoria a de outro, que permite afirmar positivamente a presença além do sentido imperativo (Bakhtin, 2020, p.121).

A alma é o todo fechado da vida interior, o qual é igual a si mesmo, coincide consigo mesmo e postula o ativismo amoroso distanciado do outro (Bakhtin, 2020, p.121).

A alma é uma dádiva do meu espírito em outro (Bakhtin, 2020, p.121).

A alma é a imagem do conjunto de todo o efetivamente vivenciado, de tudo o que no tempo é presente na alma (Bakhtin, 2020, p. 101).

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A CONSTRUÇÃO DA ALMA

A alma constrói-se à base de categorias estéticas; é o espírito em sua aparência por fora, no outro (Bakhtin, 2020, p. 91).

O desenvolvimento e o processo de formação da alma ocorrem no tempo (Bakhtin, 2020, p. 92).

Meu autorreflexo por ser meu não pode gerar a alma, mas tão somente uma subjetividade precária e dispersa, algo que não deve acontecer (Bakhtin, 2020, p. 92).

Os princípios de enformação da alma são princípios de informação da vida interior de fora, de outra consciência (Bakhtin, 2020, p. 93).

Aquilo que o outro verdadeiramente nega em si mesmo é o que eu verdadeiramente afirmo e preservo, e com isso crio pela primeira vez a alma dele em um novo plano axiológico de existência (Bakhtin, 2020, p. 117).

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ALMA - ÉTICA - PSICOLOGIA

  • A alma é um todo individual, axiológico e livre (Bakhtin, 2020, p. 92).
  • A alma não pode ser um problema da ética, porque o sujeito ético é antedado para si mesmo como valor e princípio não pode ser dado, estar presente, ser contemplado, é um ser para si (Bakhtin, 2020, p. 92).
  • Minha alma só pode ser protegida por forças que não são minhas (Bakhtin, 2020, p. 92).
  • Em termos metodológicos, o problema da alma é uma questão de estética, não pode ser uma questão de psicologia, ciência causal que despreza o julgamento de valor (Bakhtin, 2020, p. 92).

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ALMA – IMORTALIDADE

O problema da imortalidade concerne a alma e não ao espírito (Bakhtin, 2020, p. 92).

A alma não pode ser um problema da ética, porque o sujeito ético é antedado para si mesmo como valor e princípio não pode ser dado, estar presente, ser contemplado, é um ser para si (Bakhtin, 2020, p. 92).

A carne mortal do mundo só tem significação axiológica animada pela alma mortal do outro (Bakhtin, 2020, p. 123).

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RELAÇÃO ENTRE ALMA E ESPÍRITO (1/2)

Vivencio a vida interior do outro como alma, em mim mesmo, eu vivo no espírito. A alma é a imagem do conjunto de todo o efetivamente vivenciado, de tudo o que no tempo é presente na alma, ao passo que o espírito é o conjunto de todas as significações de sentido (smilovie znátchimosti), de todos os propósitos de vida, dos atos de procedência de mim mesmo (sem abstração do eu) (Bakhtin, 2020, p. 101).

A alma vivenciada de dentro é espírito, e este é extraestético (assim como o corpo vivenciado de dentro é extraestético): o espírito não pode ser agente do enredo porque este não existe, é antedado em um momento dado, ainda está por vir (Bakhtin, 2020, p. 101).

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RELAÇÃO ENTRE ALMA E ESPÍRITO (2/2)

Em arte, o mundo dos objetos em que vive e se movimenta a alma da personagem é esteticamente significativo como ambiente dessa alma. O mundo da arte não é o horizonte do espírito ascendente mas o ambiente da alma que se afastou ou está se afastando. A relação do mundo com a alma (relação esteticamente significativa e combinação do mundo com a alma) é análoga à relação da sua imagem visual com o corpo, ele não se contrapõe a ela, mas envolve e abarca, combinando-se com as fronteiras dela; o dado do mundo se combina com o dado da alma (Bakhtin, 2020, p. 121).

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RELAÇÃO ENTRE ALMA, ARTE E ESPÍRITO

Pode haver conflito entre o espírito e o corpo interior, mas não pode haver conflito entre alma e corpo, uma vez que estes são constituídos à base das mesmas categorias, traduzem uma relação única e criativamente ativa com o dado do homem (Bakhtin, 2020, p. 126).

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POEMA: “7” (1914)

Eu não sou eu nem o outro,

Sou qualquer coisa de intermédio:

Pilar da ponte de tédio

Que vai de mim para o outro

(Versos: Mário de Sá-Carneiro)

FONTE: https://www.escritas.org/pt/mario-de-sa-carneiro

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UMA RELEITURA DO POEMA (2000)

Eu não sou eu nem o outro,

Sou qualquer coisa de intermédio:

Pilar da ponte de tédio

Que vai de mim para o outro

(Voz: Adriana Calcanhotto)

ADRIANA CALCANHOTTO – PÚBLICO [DVD] (2000)

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TRECHO DE UMA ENTREVISTA �DE CLARICE LISPECTOR (1977)

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CRÔNICA: “MINEIRINHO” (1962 - TRECHO 1/3)

É, suponho que é em mim, como um dos representantes de nós, que devo procurar por que está doendo a morte de um facínora. E por que é que mais me adianta contar os treze tiros que mataram Mineirinho do que os seus crimes. Perguntei à minha cozinheira o que pensava sobre o assunto. Vi no seu rosto a pequena convulsão de um conflito, o mal-estar de não entender o que se sente, o de precisar trair sensações contraditórias por não saber como harmonizá-las. Fatos irredutíveis, mas revolta irre­dutível também, a violenta compaixão da revolta. Sentir-se dividido na própria perplexidade diante de não poder esquecer que Mineirinho era perigoso e já matara demais; e no entanto nós o queríamos vivo. A cozinheira se fechou um pouco, vendo-me talvez como a justiça que se vinga. Com alguma raiva de mim, que estava mexendo na sua alma, respondeu fria: “O que eu sinto não serve para se dizer. Quem não sabe que Mineirinho era criminoso? Mas tenho certeza de que ele se salvou e já entrou no céu”. Respondi-lhe que “mais do que muita gente que não matou”.

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CRÔNICA: “MINEIRINHO” (1962 - TRECHO 2/3)

Por quê? No entanto a primeira lei, a que protege corpo e vida insubstituíveis, é a de que não matarás. Ela é a minha maior garantia: assim não me matam, porque eu não quero morrer, e assim não me deixam matar, porque ter matado será a escuridão para mim.

Esta é a lei. Mas há alguma coisa que, se me faz ouvir o primeiro e o segundo tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina — porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.

Essa justiça que vela meu sono, eu a repudio, humilhada por precisar dela. Enquanto isso durmo e falsamente me salvo. Nós, os sonsos essenciais. Para que minha casa funcione, exijo de mim como primeiro dever que eu seja sonsa, que eu não exerça a minha revolta e o meu amor, guardados. Se eu não for sonsa, minha casa estremece. Eu devo ter esquecido que embaixo da casa está o terreno, o chão onde nova casa poderia ser erguida. Enquanto isso, dormimos e falsamente nos salvamos.

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CRÔNICA: “MINEIRINHO” (1962 - TRECHO 3/3)

Até que treze tiros nos acordam, e com horror digo tarde demais — vinte e oito anos depois que Mineirinho nasceu – que ao homem acuado, que a esse não nos matem. Porque sei que ele é o meu erro. E de uma vida inteira, por Deus, o que se salva às vezes é apenas o erro, e eu sei que não nos salvaremos enquanto nosso erro não nos for precioso. Meu erro é o meu espelho, onde vejo o que em silêncio eu fiz de um homem. Meu erro é o modo como vi a vida se abrir na sua carne e me espantei, e vi a matéria de vida, placenta e sangue, a lama viva. Em Mineirinho se rebentou o meu modo de viver. Como não amá-lo, se ele viveu até o décimo-terceiro tiro o que eu dormia? Sua assustada violência. Sua violência inocente — não nas consequências, mas em si inocente como a de um filho de quem o pai não tomou conta. Tudo o que nele foi violência é em nós furtivo, e um evita o olhar do outro para não corrermos o risco de nos entendermos. Para que a casa não estre­meça na violência rebentada em Mineirinho que só outra mão de homem, a mão da esperança, pousando sobre sua cabeça aturdida e doente, poderia aplacar e fazer com que seus olhos surpreendidos se erguessem e enfim se enchessem de lágrimas. Só depois que um homem é encontrado inerte no chão, sem o gorro e sem os sapatos, vejo que esqueci de lhe ter dito: também eu.

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VIDA E TEMPO (1/2)

Aquele todo individual e axiológico da vida interior que transcorre no tempo e que vivenciamos no outro, que é descrito na arte pela palavra, por cores, sons; concerne à alma que está situada no mesmo plano axiológico com o corpo exterior do outro e do qual não se separa no momento da morte da imortalidade (a ressurreição na carne) (Bakhtin, 2020, p. 92).

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VIDA E TEMPO (2/2)

Minha vida interior transcorre no tempo, não pode condensar-se para mim em algo de valor, caro que devo preservar e perpetuar de dentro em mim, em minha relação pura e solitária comigo mesmo, só e intuitivamente compreensível a condenação eterna da alma (Bakhtin, 2020, p. 93).

Na imagem de si mesmo o homem consegue ser visto/conhecido de forma integral? Qual é a posição de Bakhtin?

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VIDA, TEMPO E HOMEM

  • Todos os vivenciamentos interiores de outro indivíduo são por mim encontrados fora do meu mundo interior (mesmo que eu tenha vivenciado esses sentimentos), fora do meu eu para mim, eles são para mim na existência, são momentos de existência axiológica do outro (Bakhtin, 2020, p. 93).
  • É aconselhável viver cercado (fechado consigo mesmo) na condição de homem interior? Qual é a percepção de Bakhtin?

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VIDA, PASSADO,

HOMEM INTERIOR E MEMÓRIA

Posso esquecer o objeto, mas então ele deixará de existir para mim; só posso recordá-lo axiologicamente no antedado dele (renovando a tarefa), não posso recordar a sua presença. Para mim, a memória, é a memória do futuro, para o outro a do passado (Bakhtin, 2020, p. 114).

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EU, O OUTRO E O TEMPO

  • O outro está mais intimamente ligado ao tempo, está por inteiro inserido no tempo como está inteiramente no espaço, no vivenciamento dele por mim, nada perturba a temporalidade contínua de sua existência (Bakhtin, 2020, p. 100).
  • O apoio me é dado no outro, eu alojo inteiramente enquanto vivencio a mim mesmo no ato que engloba o tempo. O outro sempre se contrapões a mim mesmo como objeto, sua imagem externa está no espaço, sua vida interior está no tempo (Bakhtin, 2020, p. 100).

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O TEMPO, A ARTE E O ARTISTA

  • Meu ativismo prossegue também depois da morte do outro, e nele os elementos estéticos (comparados aos éticos e práticos) começam a prevalecer; tenho a minha frente o todo de sua vida, liberto dos elementos do futuro temporal, dos objetivos e do imperativo. Depois do enterro, depois do monumento tumular vem a memória, tenho toda a vida do outro fora de mim, e aí começa toda a construção estetizante de sua personalidade, sua consolidação e seu acabamento numa imagem esteticamente significativa (Bakhtin, 2020, p. 98).
  • Existe conclusão ou autossuficiência? (Bakhtin, 2020, p. 112).

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CANÇÃO: “TEMPO E ARTISTA” (1993 - 1/3)

Imagino o artista num anfiteatro

Onde o tempo é a grande estrela

Vejo o tempo obrar a sua arte

Tendo o mesmo artista como tela

Modelando o artista ao seu feitio

O tempo, com seu lápis impreciso

Põe-lhe rugas ao redor da boca

Como contrapesos de um sorriso

http://chicobuarque.com.br/obra/album/38

https://www.youtube.com/watch?v=SfIZNdjVQwk

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CANÇÃO: “TEMPO E ARTISTA” (1993 - 2/3)

Já vestindo a pele do artista

O tempo arrebata-lhe a garganta

O velho cantor subindo ao palco

Apenas abre a voz, e o tempo canta

Dança o tempo sem cessar, montando

O dorso do exausto bailarino

Trêmulo, o ator recita um drama

Que ainda está por ser escrito

http://chicobuarque.com.br/obra/album/38

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CANÇÃO: “TEMPO E ARTISTA” (1993 - 3/3)

No anfiteatro, sob o céu de estrelas

Um concerto eu imagino

Onde, num relance, o tempo alcance a glória

E o artista, o infinito

(Chico Buarque)

http://chicobuarque.com.br/obra/album/38

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REFERÊNCIAS

BAKHTIN, Mikhail. Notas sobre literatura, cultura e ciências humanas. Organização, tradução, posfácio e notas: Paulo Bezerra. São Paulo: 34, 2017.

BAKHTIN, Mikhail. O autor e a personagem na atividade estética. In: Estética da criação verbal. Trad. Paulo Bezerra. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2020, p. 3-186.

BUARQUE, Chico. Paratodos. CD. BMG, 1993.

CALCANHOTTO, Adriana. Público. DVD. BMG, 2000.

LISPECTOR, Clarice. Para não esquecer. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

MACHADO, Irene A. Narrativa e combinatória dos gêneros prosaicos: a textualização dialógica. Itinerários. Araraquara, n.12, p. 33-46, 1998.

MONTENEGRO, Oswaldo. Solidões. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=ng9nrA9o0o0Acesso em 26/04/2023.

SÁ-CARNEIRO, Mário de. Poesias. Introdução por Maria Ema Tarracha Ferreira. Porto: Ulisseia, 2000.