O ano de 2016 foi o mais quente da história desde que as temperaturas do planeta começaram a ser medidas pelos cientistas. Essa informação evidencia que as mudanças no clima já constituem um dos maiores desafios do nosso tempo.
Estudos apresentados durante a Conferência do Clima de Paris – COP 21 indicaram que um aumento de temperatura acima de 2o C em relação ao início da era industrial trará consequências desastrosas para a economia dos países e o bem-estar da humanidade, em termos de saúde, segurança alimentar, habitabilidade e meio ambiente, comprometendo de forma irreversível o desenvolvimento sustentável.
No Brasil, um aumento de temperatura desta magnitude representa graves reflexos sobre a produção agrícola, a integridade das florestas e da biodiversidade, a segurança das zonas costeiras e a disponibilidade de água limpa. Implicaria, portanto, em retrocessos no combate à pobreza e melhoria na qualidade de vida.
Esse cenário já é uma realidade em diversas cidades ao redor do mundo que já sofrem com a intensificação dos eventos climáticos extremos, os quais afetam a vida de milhões de pessoas, principalmente as mais vulneráveis social e economicamente.
Devido ao desequilíbrio climático o calor extremo e inundações já são sentidos pelas populações ao redor do globo terrestre.
Na perspectiva regional e local para a Baixada Santista, sobretudo olhando as cidades de Mongaguá, Itanhaém e Peruíbe, é possível observar que esses municípios nos últimos anos estão passando por severas transformações em seus territórios devido às influências das mudanças no clima, como as grandes enchentes, alagamentos e fortes tempestades, que se repetem cada vez mais em períodos curtos e influenciam negativamente o dia-a-dia das pessoas.
Hoje, a cidade de Peruíbe está com sua vasta área de preservação ambiental sob risco por conta do projeto de instalação de uma Usina Termoelétrica.
CONSIDERANDO que o uso de combustíveis fósseis para a geração de energia, como é o caso das usinas termoelétrica, é uma das principais fontes de emissões de Gases do Efeito Estufa (GEE), que causam o aumento exponencial do aquecimento global e mudanças no clima;
CONSIDERANDO os impactos ambientais locais e regionais, como poluição do ar e eventualmente a chuva ácida, que podem ocorrer em áreas circundantes as termoelétricas, mudando e destruindo vegetações milenares como a Mata Atlântica, poluindo a água dos rios e seus mananciais;
CONSIDERANDO os impactos ambientais, com o super aquecimento das águas usadas para o resfriamento dos geradores de energia e sua emissão como efluentes no ambiente, sem controle, o que afeta biologicamente a saúde da vida nos rios e no mar;
CONSIDERANDO a cidade de Peruíbe uma Estância Balneária por apresentar características turísticas e condições de lazer, recreação, recursos naturais e culturais específicos, e assim sendo, por gozar desse status recebe vultuosos aportes de recursos financeiros públicos. Com a criação de um parque termoelétrico industrial a cidade pode perder esse titulo e, logo valores extremamente significativos para o erário municipal;
CONSIDERANDO o impacto da construção das linhas de transmissão de energia elétrica e dos dutos de gás para abastecer de combustível a usina estar desenhado para invadir área indígena, legalmente protegida, que traria impactos a Terra Indígena Piaçaguera do povo Guarani Nhandéva, o que é um desrespeito ancestral aos povos originários dessa região;
CONSIDERANDO o Plano Diretor do Município de Peruíbe (Lei Complementar n°100/2007) em que o seu Zoneamento Ecológico Econômico (ZEE) impõe que a área proposta pela empresa para a instalação da referida UTE é de Expansão Urbana Ordenada e não Área Industrial, violando assim diretrizes importantes da organização socioespacial de Peruíbe;
CONSIDERANDO que existe riscos de explosões durante a operação da usina e isso viola o princípio da precaução no que diz respeito a integridade da vida das pessoas;
CONSIDERANDO que não há demanda de energia elétrica necessária a instalação de uma usina termoelétrica na Região Metropolitana da Baixada Santista, tão logo é um empreendimento que capitaliza lucro e socializa prejuízos ambientais na área de influência de operação da usina;
CONSIDERANDO a vocação ecológica e turística da região, onde todo esse potencial de desenvolvimento sustentável ficará comprometido com uma usina poluente instalada;
CONSIDERANDO que a instalação do empreendimento impactará diretamente Unidades de Conservação estaduais e federais, como o Parque Estadual da Serra do Mar (PESM), APA Marinha Litoral Centro (APA-LC), Estação Ecológica dos Tupiniquins (ESEC – Tupiniquins), Estação Ecológica Juréia Itatins (EEJI), ARIE – Área de Relevante Interesse Ecológico Queimada Grande e Queimada Pequena (ARIE – QG, QP), áreas frágeis e com serviços ambientais indispensáveis para qualidade de vida na região;
CONSIDERANDO que o Brasil é signatário do Acordo do Clima de Paris, o qual compromete-se a reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 37% abaixo dos níveis de 2005, em 2025, com uma contribuição indicativa subsequente de reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 43% abaixo dos níveis de 2005, em 2030, e esse tipo de empreendimento coloca o país em desacordo com a comunidade internacional;
CONSIDERANDO que a Organização das Nações Unidas (ONU) confirma que 2016 bateu todos os recordes de temperatura, 2017 mantém a mesma tendência e o clima mundial entrou em “território desconhecido”;
CONSIDERANDO que o país se compromete a aumentar a participação de bioenergia sustentável na sua matriz energética para aproximadamente 18% até 2030, restaurar e reflorestar 12 milhões de hectares de florestas, bem como alcançar uma participação estimada de 45% de energias renováveis na composição da matriz energética em 2030, e a instalação de usinas termoelétricas movidas a combustíveis fósseis são plantas industriais ultrapassadas;
CONSIDERANDO caso esse involutivo projeto não seja revisto, a sociedade arcará com pesados custos sociais e ambientais causados pelas emissões de CO2 e metais pesados desse tipo de usina;
CONSIDERANDO ainda, que as externalidades para a sociedade e para o meio ambiente, como os decorrentes das emissões de gases de efeito estufa (GEE), da contaminação de solos, águas, atmosfera, dos problemas para a saúde pública não estão sendo colocados no centro da proposta.
Frente ao exposto, as pessoas, coletivos, grupos e organizações, abaixo, signatárias desta carta vêm manifestar seu repúdio ao projeto de instalação de usina termelétrica na cidade de Peruíbe e pedem o cancelamento imediato do processo de licenciamento da obra.
Respeitosamente,
Associação Cunhambebe da Ilha AnchietaAssociação de Defesa do Meio Ambiente de Araucária - AMAR Associação Flora BrasilAssociação Itanhaense de Proteção aos Animais – AIPAAssociação MarBrasilAssociação Mico-Leão-DouradoAssociação de Proteção ao Meio Ambiente - APROMACAliança pela InfânciaAmbiente e AçãoAssociação Defensores da TerraColetivo Ativista Litoral Sustentável (CALS)Coletivo Vozes em LutoComissão Pró-Índio de São PauloConselho Nacional da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica (RBMA)Crescente FértilECOPHALTEcofalnteEcosurf - Defensores dos OceanosFórum da Cidadania de SantosFundação SOS Mata AtlânticaGreenpeace - Porto AlegreInstituto CausAmbientalis - ICAInstituto Ernesto Zwarg – IEInstituto PólisInstituto Terra LuminousMais Floresta PRA SPMater Natura - Instituto de Pesquisas AmbientaisMongue - Proteção ao Sistema Costeiro Movimento Contra as Agressões da NaturezaOcean Defender – BrasilOrganização Bio BrasPastoral da Ecologia – Diocese de SantosProjetos Integrados de Desenvolvimento Sustentável do ButantãTOXISPHERA - Associação de Saúde AmbientalVoluntários Greenpeace