Request edit access
Carta-Manifesto: Pré-Candidatura de Bruno Ramos
Eu sou Bruno Ramos, nascido e criado na Zona Leste, estudante de Sociologia e Política, vice-presidente da Liga do Funk, integrante do Conselho Nacional da Juventude e batalhador das periferias. Nessa conversa escrita quero me apresentar para vocês e apresentar as razões pelas quais estou pleiteando uma candidatura a Deputado Federal pelo PT. Não sou pré-candidato de mim mesmo, mas desse povo das periferias, dos coletivos, das comunidades, da juventude, dos negros e das negras e dos pobres. Não quero representar as periferias no Congresso. Quero levar as quebradas para dentro do Congresso.

Toda hora, a gente falando de ficar vivo. Difícil ver que exigir nosso direito de sobreviver ainda é necessário. E sabe o que isso diz sobre nossa sociedade, nossa economia, nossa política? Que além de empatia, humanismo e bom senso, tá faltando inteligência na nossa caminhada. Porque às vezes não parece, mas quem morre e quem mata são parte da mesma espécie. Isso quer dizer que a matança da juventude negra e periférica é um suicídio social do Brasil. É a morte do seu futuro.

Garantir a sobrevivência do nosso povo devia ser o principal compromisso de quem diz defender o Brasil. Mas parece que só pretx e periféricx ta se importando com o bagulho. Sobrevivência é auto-defesa pro descendente de africano. Contra tudo e contra todos, chegamos vivos até aqui. Mas passou a hora do país entender que, social, econômica, moral e filosoficamente, povo preto vivo interessa pra todo mundo.

Vamos falar do que é sobreviver. Sobreviver, no mundo de hoje, é ter moradia, trabalho e acesso à saúde. Viver mesmo é somar cultura, estudo e lazer nessa trinca.

Moradia tá fácil: temos o terceiro maior território do mundo e a maior parte das propriedades privadas é imoral ou ilegal. Imoral é todo terreno herdado de senhor de Engenho, toda propriedade paga com sangue de indígena, de negras e negros, de mulheres, de LGBTs, de nordestinos, de pobres. Quase toda a propriedade da elite é imoral.

E ilegal é toda terra grilada ou improdutiva, rural ou urbana. Toda terra que os ricos – de hoje e do passado – roubaram. Casa na beira do mar, construída em área de interesse nacional. Resort que privatiza rio, nascente, cachoeira. Ilha. Tudo isso é dívida que eles têm com a gente. E passou da hora da gente cobrar.

“Vocês tão falando de expropriação?” Não, quem expropriou foram eles, estamos falando de reparação. De demarcação de terra quilombola e reserva indígena, de passar o papel pros prédios ocupados nos centros urbanos, pros acampamentos de sem teto nas periferias, de sem terra nos campos. Estamos falando de reforma agrária, urbana e tributária.

Encarar essas reformas significa promover igualdade de direitos e, como consequência, admitir que, hoje, os direitos no Brasil não são iguais. Se não temos os mesmos direitos, se não partimos do mesmo lugar, a meritocracia é mentira. Que mérito tem um homem, branco, rico que conquista algo que já estava reservado pra ele desde o berço?

Mérito é exclusividade de pobre, de pretx, de mulher. Mérito só existe pra quem é excluídx, pra quem enfrenta o mundão de peito aberto. Aí sim tem mérito. Quem já tem tudo pronto pra dar certo não tem mérito, tem privilégio. E cada privilegiado é carregado nas costas por milhares de excluídxs, potenciais merecedores. E não queremos apenas igualdade de direitos, no papel. Queremos uma igualdade de fato.

Dia desses, uma professora ouviu da diretora da escola estadual em que trabalha, na Grande São Paulo: “Você tem que parar de se preocupar com o conteúdo da escola, com a falta de material. Afinal, quem estuda aqui neste fim de mundo não vai ser médico, advogado, cientista. Vai ser pedreiro, entregador de pizza, empregada doméstica”.

Se você organiza a escola que nem cadeia, cerca tudo de muro e grade e martela pra molecada que aquilo é uma linha direta pro sub-emprego, o lado de fora vai ser mais sedutor. É a juventude que se perde.

Você confunde a criançada, enche ela de raiva sem oferecer nenhuma válvula de escape: sem esporte, sem arte, sem sonho. Fala e mostra pra ela todo dia que ela é ruim, que é sem-futuro, que tem a cor errada... ela acaba abraçando o estereótipo.

Mas o que mais bota medo na elite não é quando a gente vira bandido. É quando não abraçamos o estereótipo e arrumamos um caminho de ocupar os espaços deles. Porque quem nasce sem sobrenome e sem herança tem uma bala só. Atirou, tem que acertar o alvo. E é com essa única bala que a gente faz revolução.

O que foi o movimento dos secundaristas contra a reforma educacional, senão o levante de quem não abraça o estereótipo? O governo querendo acabar com a escola e a juventude batendo de frente pelo direito de estudar. Essa é a galera que tem que protagonizar a construção de política pública pra educação.

E quando a gente fala de educação, não ta falando só do ambiente da escola. Educação é o tempo todo. É educação pra cidadania, educação pra cultura, educação jurídica pra gente saber se defender das arbitrariedades, educação como parte integral da vida comunitária. Porque, no fim das contas, é isso, né? Comunidade. Sozinho, ninguém vai vencer.

E vencer quer dizer o quê? Ficar rico? No momento da história que nós atravessamos, ficar todo mundo rico significa destruir o planeta – até porque a atividade econômica mais poluente de todas não é a extração de petróleo, não é a carvoaria, não é nem a indústria automobilística. É a financeira, que possibilita e justifica todas as outras.

Precisamos mudar o conceito do que é vencer. Ou vencemos todos juntos ou não vence ninguém. E isso passa pela ideia de empreendedorismo. Se sua ideia de empreender é criar um negócio pra não servir patrão, tamo junto. Se é desenvolver uma habilidade ou um serviço que não tem na sua quebrada, tamo junto. Agora, se a sua ideia é criar um negócio pra se vingar dos outros, pra mostrar que você é mais foda que todo mundo, sai andando.

O certo é trazer o dinheiro de fora pra dentro da quebrada (não o contrário) e fazer ele girar dentro da quebrada, de maneira inteligente e empoderadora, com compartilhamento dos conhecimentos e habilidades que só nós temos.

É a nossa criatividade, nossa cultura, nossa inteligência e nosso senso de coletividade que vão fazer o bagulho andar. Não queremos criar uma elite dentro da quebrada, queremos que a quebrada inteira seja A elite. Em outras palavras, empreender tem que significar somar e não dividir.

E uma comunidade unida em torno do bem comum é uma comunidade mais segura, mais independente do capitão-do-mato que nunca serviu e nunca vai servir nosso povo. A política de segurança pública não pode ser pensada nem de dentro do gabinete com ar condicionado, onde o pobre é visto como voto no período eleitoral e estatística no resto do ano; nem do quartel, onde o pobre é visto como alvo.

Cada lugar, um lugar.

Cada área sabe quais são as suas demandas de segurança, o que ta caminhando, o que não ta. As associações de bairro, as ONGs que atuam nos territórios, os grupos de moradores têm que ter o voto decisivo pra qualquer política de segurança na sua região. Precisa ter proximidade com o poder público, precisa conhecer a cara do soldado e do comandante que atuam na área, saber com quem eles conversam dentro e fora da quebrada. Com política feita de cima pra baixo, ninguém resolve problema de população nenhuma – no máximo ganha mídia pra pagar de boladão no jornal. Eles querem manchete, a gente quer deixar de ser manchete.

Deixar de ser criminalizado. Tipo a cultura do funk, a maior expressão popular do Brasil hoje. Uma saída pra essa mesma molecada que eles vêm tratando na base da aprovação automática. Engraçado que, na escola, é aprovação automática. Na cultura, é reprovação automática. Tudo que vem do gueto, do povo preto, vocês chamam de coisa de bandido. Foi assim com o samba, foi assim com o rap. Até o jazz, que hoje é tipo música clássica, já foi chamado de som de bandido.

E a bola da vez é o funk. Só que vagabundo ta batendo no funk só com preconceito. Sem entender que esse é o jeito da molecada sentir, entender e interagir com o mundo. Hoje, é a arte que reflete a quebrada e é a arte que a quebrada usa pra refletir sobre ela mesma. Aqueles que têm preconceito e medo (é a mesma coisa) deviam dar graças a Deus por existir o funk. Sem funk, não ia ter escoamento pros sentimentos da juventude.

Porque a rua é cruel, não tem amor na rua. Se não tiver arte e lazer, a gente fica incapaz de expressar sentimento. Só sobra a revolta. Tudo fica confuso, menos a raiva. Aí, você se agarra na raiva, que é sua única certeza. Fórmula de fazer vilão. Quer reduzir criminalidade? Tem que investir em arte, esporte e, mais que tudo, garantir direitos.

Esporte, aliás, outro tema que é pancada. Toda vez que algum guerreiro conquista uma medalha nas Olimpíadas, no Pan, em qualquer competição que seja, a televisão mostra a história de superação: a mina corria descalça 50 quilômetros em estrada de terra, sem equipamento nem patrocínio, fazendo jornada tripla pra sustentar mãe e filhos. E apesar de tudo isso, venceu. Cantou o hino nacional com o rosto coberto de lágrima, emocionada com o hasteamento de uma bandeira que não moveu um dedo por ela.

A história é linda porque nóis é foda memo, mas devia causar vergonha em qualquer pessoa que já foi eleita pra qualquer coisa. País rico é país que investe no seu povo, não país que investe nos seus ricos. Aliás, investir em rico é a definição de país miserável, covarde, sem auto-estima. Esse é o país que nós temos.

Geral sabe que esporte gera renda. Mas a política de esporte tem que ser sustentável, garantir carreira a longo prazo e deixar o dinheiro na mão de quem gera renda e não dos exploradores de sempre. E outra: não é coisa só de homem, não. Tem que ter política ativa pra inclusão das minas no esporte. Do mesmo jeito que o rico, por preconceito, falta de investimento e empatia, causa o desperdício de muito talento, o homem, por machismo, deixa ir pelo ralo muita mina e muita mona de potencial. Isso aí tem que acabar, pra ontem. O esporte é uma das melhores ferramentas de combate ao preconceito e precisa ser tratado assim pelo poder público.

Enfim, a rima é mais ou menos essa aí: aproximar nosso povo das decisões, acreditar no nosso talento, no nosso trabalho, na nossa força de vontade coletiva, jogar o dinheiro pra dentro da quebrada, botar fé nos manos, nas nossas minas, nas nossas monas, na nossa molecada, nos nossos ancestrais, vivos ou mortos. Tratar o povo no papo-reto e no respeito. Caminhar junto e mostrar que, sem nós, não tem Brasil.

Nosso povo em primeiro lugar, nosso povo em segundo lugar, em terceiro lugar e, lá pro décimo lugar, nosso povo de novo.

Bruno Ramos

Nome *
Your answer
E-mail *
Your answer
Whatsapp
Your answer
Submit
Never submit passwords through Google Forms.
This content is neither created nor endorsed by Google. Report Abuse - Terms of Service