Heartless Body

Capítulo 1 - Introdução

Luke acorda na sua cama, abre os olhos cansado, olha para o lado e vê o seu celular tocando o despertador, eram 7:00. Ele levanta e se vê no espelho somente de cueca, um jovem de 17 anos, alto, corpo levemente definido e cabelo loiro e ondulado. O garoto não faz muito, arruma sua cama e veste uma roupa com a camiseta do uniforme da escola e se olha no espelho de novo, percebendo o quão bagunçado está o seu cabelo.

Luke: Quer saber? Não tô nem aí.

Ele passa as mãos no cabelo e ajeita até que o cabelo ficasse de uma forma que ele ficasse satisfeito e vai para a aula. Chegando na escola, ele dá de cara com Kenni, um amigo seu do segundo ano escolar, um abaixo do seu, que o cumprimenta.

Kenni: Luke, Luke, Luke, Luke.

Luke: Que foi, cara?

Kenni: É que a aula vai começar.

Luke: Ah, não me diga, eu vim aqui pra almoçar.

Kenni: Não precisa falar, eu já sei que você me odeia...

Luke: Esse seu tom irônico é uma figura, sabia?

Assim, os dois se despedem e vão cada um para suas salas. Luke entra na sala da sua turma e senta em uma cadeira perto da janela, ao lado do seu melhor amigo, Luiz, que olha para Luke e lança um sorriso para ele.

Luiz: Tu tinha que chegar mais cedo, tanto tédio me dá sono esse horário.

Luke: É só falar com os outros da sala po, eu gosto de dormir até as 7.

Luiz: Eu até converso, mas o meu mano aqui é o mais fodão entre todos.

Luke: Valeu cara, cê também é foda.

Tendo a conversa interrompida, outra amiga e colega deles aparece, puxando o cabelo de Luke, que grita com raiva.

Luke: Ah! Sua puta!

Luiz: Kkkkkkk.

Luke: Depois reclama de violência doméstica, né?

Octávia: Calma, foi só uma brincadeira kkkkk.

Luke: Brinca assim da próxima vez pra tu ver...

Octávia: Ah sim, eu vou agarrar outra coisa da próxima vez.

Luke: E-ei...

Luiz: Querendo agarrar a espada do cara...

Luiz diz com tom de brincadeira, partindo logo para os três olhando a chegada do professor em sala, terminando a conversa.

 Na sala de Kenni, ele entra e coloca sua mochila ao lado de uma mesa e vê Sophia, Luis e Arthur, indo então até seus colegas e amigos para conversar um pouco antes que a aula começasse.

Luis: Por que ficou na rua, Kenni?

Kenni: Eu tava esperando o Luke.

Luis: Mas a gente ficou te esperando.

Arthur: Eu não.

Kenni: Se mata.


Sophia: Eu queria estar em casa jogando...

Kenni: Eu também.

Arthur: Eu quero estudar, vocês vem pra aula esperando o que, hein?

Luis: Mas tu só cola.

Arthur: Só reviso com os outros pra ver se tô certo.

Sophia: E fazer isso no meio da prova não é colar?

Arthur: Depende do que você quer fazer.

Eles continuam conversando mais um pouco, até que o professor entre na sala para que a aula tivesse seu início, e cada um deles sente em seus lugares.

Depois dessas duas conversas em cada uma das salas, poucas horas depois, o sinal do intervalo bate e ambos os alunos amigos de Luke e Kenni vão para o pátio para se encontrar perto da cantina da escola. Eles se cumprimentam e alguns deles compram um lanche para comer.

Luiz: O que vocês vão fazer de tarde?

Luke: Já sabe né, academia.

Luiz: Pois é, não quer ir fazer academia no final de semana?

Luke: Pode ser.

Luis: Eu vou ir ver minha vó.

Kenni: Vai ver ela no formigueiro?

Luiz: Isso é preconceito só porque ele é pequeno, minúsculo e miseravelmente perceptível para nossos olhos...

Luis: A Sophia é menor que eu.

Arthur: Ela é fêmea, então não conta.

Luke: Mas aí, dá pra gente fazer algo esse final de semana, sem ser academia, o que acham?

Luis: Só porquê eu não vou estar...

Kenni: Pode ser, eu não vou fazer nada mesmo.

Octávia: Não sei, eu vou ver com a minha vó, mas acho que dá.

Luiz: Eu acho que posso ir.

Arthur: Vou ver se dá pra eu ir, mas também acho que posso.

Sophia: Eu não vou conseguir, preciso estudar um pouco mais.

Luke: Não pode estudar depois?

Sophia: É que eu vou trabalhar também...

Luke: Se é assim, tudo bem.


Com um silêncio contagiando o grupo, Luke continua a falar, pensando que poderia adicionar algumas coisas sobre o passeio que acabara de marcar.

Luke: A gente podia fazer algo na minha casa mesmo, o que acham? Ver um filme talvez.

Octávia: Sua mãe vai estar em casa?

Luke: Não, ela vai estar fora.

Octávia: De novo?

Luke: Como assim "de novo"?

Luiz: É que sua mãe sempre tá fora de casa, ela realmente te deixa sozinho com a sua irmã assim?

Luke: Sim, mas é normal.

Luiz: Mas o que ela fica fazendo?

Luke: Não sei e nem me importo, vão querer ou não?

Luiz: Ok, se tu tá dizendo...

Após essa conversa, Luke fica um pouco mais pensativo sobre as saídas de sua mãe, Alex, pois há alguns meses ela havia começado a sair de casa à noite quase todos os dias, deixando Luke cuidando de sua irmã mais nova de 11 anos. O pior era que sua mãe nunca explicava para qual lugar iria, o que ele apenas ignora todas as vezes. Luke passa o resto da aula pensando nisso, deixando o garoto inquieto dentro da sua cabeça, mas estava tudo bem, é tudo normal para ele, sua mãe não estava fazendo nada errado, ele quem estava errado em querer contestar a índole de quem o deu a vida, o mínimo que ele deve fazer é continuar a fazer tudo que ela manda, não importa o que seja.

Luke, após a aula e chegando no apartamento, abre a porta e se vê outra vez sozinho ali. Era meio dia, mas pelo menos havia arroz, feijão e carne feitos por sua mãe para que o garoto não precisasse perder tempo cozinhando, um agrado que sua mãe fazia alguns dias sim e outros dias não, mas ainda assim sempre era motivo de alegria para ele, afinal, sua mãe estava dando tempo para ele poder fazer mais o que precisa ou quer.


Ele frita um ovo e esquenta a comida deixada por sua mãe para almoçar, e assim ele faz. Depois que termina de se alimentar, ele continua sua rotina, lava e seca a louça, tira os lixos, varre o apartamento, arruma o quarto de sua mãe, bota as roupas para lavar e secar, estuda por algum tempo, dobra as roupas que já estavam secas no tempo em que ele estava estudando, e guarda as roupas também.

Luke: 17:00, eu tenho que ir buscar a Abigail.

Falando essa afirmativa para si mesmo, ele vai até a escola de sua irmã mais nova, esperando que sua irmã aparecesse no portão. Enquanto esperava ela, percebeu algumas garotas um pouco mais novas que ele, entre 14 a 15 anos, o observando, isso incomoda um pouco ele, achando que elas estariam o julgando, considerando para si que até ano passado ele sempre sofria piadas por causa de seu corpo que era extremamente magro. Mas é surpreendido quando uma delas chega perto dele para tentar conversar.

Garota: O-oi... Eu queria saber se você pode me passar meu instagram- D-DIGO, o-o seu...

Luke: Tudo bem... É... Anota aí.

Após passar a sua rede social para ela, Luke continua esperando sua irmã, indo para dentro dos corredores da escola, apenas para se distanciar das garotas para que sua irmã não acabasse olhando ele conversando com alunas da escola.

Luke: Ela era meio alta e parecia um cara quase, esse estilo tá mais comum hoje em dia mesmo. Enfim, fodase isso, cadê a Abigail?

Abigail: Quem era alta?

Luke: Desgraça, não fica assim por trás de mim, eu tava te esperando.

Abigail: Que seja, tu tava falando com um grupo do nono ano?

Luke: Sei lá? Eu não sei.

Abigail: Tem um grupinho que já te viu algumas vezes, e esse ano começaram a falar que tu tá mais bonito e não sei o que, elas são um bando de piranhas.

Luke: Ei! Não fala assim dessas meninas, ok? Gostaria que elas falassem o mesmo de ti?

Abigail: Eu não fico falando do irmão delas... Aliás, se você falou com a mais alta, vai ter uma surpresa.


Luke: Como assim?

Abigail: Não sei, fala com "ela" pra saber.

Luke: Espera, aquilo é homem?!

Abigail: É sim, sim, twink, femboy, esses negócios.

Luke: Ah... Entendi, eu acho.

Abigail: Vai namorar ele, é? Relaxa, eu não vou contar pra mãe.

Luke: Cala a boca Abigail, não enche o saco, porra. Vamos logo pra casa.

Dito isso, os irmãos vão para o apartamento, quando chegam lá, sua mãe estava indo em direção à porta, ela estava preparada para sair, e já havia enviado uma mensagem para Luke.

Luke: Ah... Mãe, já tá saindo?

Alex: Sim, eu fiz as compras hoje pra que você não precisasse sair à noite, acho que dá pra fazer uma janta pra vocês dois. Eu te enviei um dinheiro pra comprar um copo de açaí pequeno pra cada um dos dois, tá?

Luke: Entendi... Então... Boa noite?

Alex: Eu vou tentar chegar cedo pra gente assistir alguma coisa, mas boa noite pra vocês dois se eu acabar atrasando. Se cuidem, ok?

Luke: Tu também...

Abigail: Se cuida mãe, te amo!

Alex: Também te amo, querida.

Assim, a mãe dos dois sai enquanto Luke ficava na porta e Abigail entrava, mas percebia que o irmão ficava parado.

Abigail: Não vai entrar?

Luke: Claro, só tava pensando.

O jovem entra e fecha a porta. Agora era hora de cuidar de sua irmã, ele começa a cozinhar a janta, carne de gado, purê de batata, alface, cenoura, beterraba, batata doce, arroz e feijão, feito com mais atenção para que sua irmã comesse bem. Eles jantam e compram açaí para eles, e Luke vai um pouco para o seu quarto para poder jogar um pouco, coisa que ele estava podendo fazer cada vez menos. Em 30 minutos, Luke via que era hora de Abigail de dormir e vai até ela para a levar para a cama.

Abigail: Mas a mãe disse que ia chegar pra ver algo com a gente...

Luke: Eu sei, mas ela também disse que poderia atrasar, e já tá na hora de você dormir.

Abigail: Você pode dormir comigo?...

Luke: Você já tem 11 anos, Abigail.

Abigail: Só essa noite, por favor.


Luke: Tudo bem, mas só até você pegar no sono.

Abigail: Obrigada, mano.

Luke deita ao lado da sua irmã na cama do quarto dela, colocando a cabeça dela em seu peito enquanto acaricia seu cabelo ao mesmo tempo que pensa onde sua mãe poderia estar. Abigail abraça o irmão para que não deixasse ele sair da cama, querendo manter ele por perto, já que o via como um pai, mesmo que não entendesse isso, mas Luke sim, e por isso ele decide ficar.

Apesar de estar aquecido nas cobertas e o abraço de sua irmã, Luke ainda não deixava de sentir um calafrio se perguntando o que sua mãe fazia quando saía, já que nunca falou nada, e isso faz ele só pensar nisso, sua mente estava fixada só em querer saber isso, deixando ele acordado por boa parte da noite, até que ouve a porta abrir, sabendo que era sua mãe, e então consegue cair no sono pouco tempo depois.

Capítulo 2: Sentirei saudades

Outro dia, Luke acorda vendo sua irmã dormindo ao seu lado. Ele levanta e vai para o seu quarto, troca a camisa, pega seu moletom preto, seu favorito, e continua se arrumando. Nada mudou, é um dia igual os outros.

Os olhos de Luke pareciam mais cansados que o normal, ele não conseguiu dormir muito bem por conta de só ter realmente adormecido muito tarde, ou cedo, já que eram 2 da manhã pelo que ele lembra. Mesmo assim ele tinha que ir para a aula, por isso, depois de preparado, sai do apartamento e vai para a escola.

Na aula, Luke vê que Luiz não veio, então senta perto apenas de Octávia. Após o primeiro período dos estudos, ela já havia percebido que Luke parecida mais cansado que o normal, e então decide questionar sobre.

Octávia: Parece que viu um fantasma, o que houve?

Luke Nada demais, só fui dormir muito tarde.

Octávia: Tava no 5 contra 1, né?

Luke: Como assim?... Ah é, não, tava não.

Octávia: Enfim, bora numa sorveteria de tarde?

Luke: Hmmmm pode ser, mas que horas?

Octávia: A hora que tu puder.

Luke: Pode ser logo depois da aula mesmo?

Octávia: Tudo bem, claro que pode.

Eles não prolongam a conversa, já que o próximo professor já estava chegando. Já após a aula, os dois vão sozinhos almoçar sem nem avisar os outros amigos do grupo. Chegam em restaurante, já que queriam comer algo antes de ir procurar uma sorveteria, sentam sobre uma mesa e pedem algo para cada um.

Octávia: Hambúrguer? Faz tempo que não vejo você comer isso.

Luke: Quis matar a saudade hehe.

Octávia: Entendo.

Ela olha para Luke com um pouco de vergonha, fazia tempo que eles não ficavam sozinhos, e ela sentia algo por Luke há um bom tempo, mas nunca quis contar, achando que isso podia deixar a amizade dos dois estranha. Ainda assim, ela quis tentar ver se ele sentia algo por ela com uma pergunta, mesmo sabendo que ela podia se frustrar.

Octávia: Você gosta de alguma amiga?

Luke: Do nada? Bem... Pra ser sincero, eu gosto da Sophia até, mas sei lá, é algo genuíno, só que eu não sei... Não fala disso pro resto do grupo, na moral.

Octávia: Tudo bem, mas não tem mais nenhuma não?

Luke: Tá insistindo por quê?

Octávia: Não posso conversar com meu amigo?

Luke: Ok, ok. Mas não, eu não sinto nada por nenhuma outra amiga. E você, curte algum amigo?

Octávia: Eu? Não, eu não.

Mesmo mentindo, a intenção dela era mesmo apenas conversar com seu amigo, ainda que tenha sentido uma pontada de decepção ao ver que ele não estava interessado nela. Não era inveja pela sua outra amiga, não ficou irritada com Luke, mas sentiu a dor de não ser correspondida, e não entendeu isso. Luke não tinha que amar ela de volta, e ela não podia o forçar a gostar, mas ela ainda busca esperança que seu amigo pudesse se apaixonar por ela. Octávia sempre viu Luke como um cara forte e esforçado, um cara engraçado que lida com problemas que não são seus só para que seus amigos ficassem bem, isso a interessava, não por rotular ele como um tipo de herói, mas sim por ele ser alguém genuinamente bom, que não busca apenas ajudar por algo em troca. No fim, ela não pode fazer muito a não ser aceitar a verdade evidente: Luke não a deseja.

Eles terminam o almoço e vão direto para uma sorveteria para aproveitar uma sobremesa. Octávia não parava de pensar que poderia tentar se confessar, mas ainda sentia muita vergonha, e apenas olha para a mão do jovem que poderia estar talvez segurando se apenas falasse a verdade.

Luke: Você já tá estudando pras próximas provas?

Octávia: Eu... Eu tô, comecei por química.

Luke: Dá pra eu te ajudar, eu te ligo mais tarde se quiser.

Octávia: Não precisa, é sério.

Luke: Qual é, eu sei que você tá precisando de uma nota melhor em química.

Octávia: Não ouviu direito? Não precisa.

Luke: Ok, foi mal aí, dona.

Octávia: Desculpa, foi sem querer.

Luke: Tudo bem, às vezes a gente se irrita do nada mesmo, tá de boa.

Octávia: Você é desnecessariamente compreensível.

Luke: Gentileza não é sinal de fraqueza, mas acho que você não entende isso.

Octávia: Tá me chamando de burra, é?

Luke: Não, só desprovida de conhecimento.

Ambos dão uma pequena risada, entram em uma sorveteria. Se servem e novamente sentam sobre uma mesa para comer sorvete.

Octávia: Por que ele não fala nada? Ele não desabafa sobre o que tá passando na própria vida, por quê?

Luke: Eu não quis pegar sorvete, peguei só açaí mesmo. Açaí, leite em pó e cereal.

Octávia: Simples. Eu curto botar mais coisas no sorvete.

Luke: É, às vezes acho que as coisas... Os problemas, poderiam ser mais simples, mas sei que é irreal.

Nesse momento da conversa, os dois percebem um homem alto e de porte físico forte, mas ainda um pouco gordo, chegar na sorveteria e ir até a atendente. O homem começa a gritar com ela com uma garrafa de cerveja meio cheia na mão. Parece que os dois estavam juntos, mas o homem estava reclamando que ela havia terminado o relacionamento. De repente, ele quebra a garrafa de vidro no balcão e ameaça a mulher. Quando Luke vê isso, ele pula da cadeira e avança no homem, derruba ele, fazendo a cabeça dele bater no balcão.

Luke: Seu bosta! Que que tu tá fazendo?!

Bêbado: Guri de merda! Ah... Eu vou te dar uma surra, seu puto!

O homem bêbado se levanta e se vira para tentar cortar Luke com a garrafa, mas com um susto, o garoto desvia. Rapidamente Luke segura o braço do homem que segura a garrafa, mas o bêbado acerta um soco no rosto dele, fazendo Luke ser um pouco retardado e deixar o homem furar seu ombro. Luke grita de dor, mas acerta uma cabeçada no homem e chuta a barriga dele, o que obrigou o bêbado a se curvar enquanto Luke pega a garrafa cravada no seu ombro e bate com ela na nuca do homem, logo agarrando sua cabeça e batendo seu joelho no seu rosto diversas vezes, até que o homem cai no chão desacordado.

Luke: Porra, meu ombro...

Octávia: Luke! Vamos pro hospital agora!

Luke olha para sua amiga e apenas coloca a mão no ombro para estancar seu sangramento. Ele vai andando até a porta do lugar e olha para a atendente.

Luke: Desculpa pelo inconveniente moça. Vamos lá, Octávia.

Os dois vão até um banco próximo dali para sentar e poder ver o machucado. Octávia oferece um pano para Luke que ela tinha na sua mochila.

Octávia: Eu sempre ando com um pano pra limpar minha roupa caso precise, mas pode usar...

Luke: Valeu. Mas não tá doendo mui-

Octávia: É sempre assim, você se arrisca assim e depois fala que não foi nada demais, e se você acabasse sendo atacado no pescoço?

Luke: Não me importo, pelo menos minha intenção foi boa.

Octávia: Uma intenção boa não é motivo pra se arriscar assim, porra! Eu me importo com você, para de fazer essas coisas.

Luke: Vou tentar, mas não prometo nada.

Octávia: Fodase, sua mãe vai estar em casa hoje?

Luke: É pra estar.

Octávia: Se ela não estiver, me liga. Mas vai no hospital, ok?

Luke: Ok, vou indo lá, posso levar o pano?

Octávia: O pano já tá todo sujo, fica com ele.

Luke: Certo, até amanhã.

Octávia: Até...

Os dois se separam, indo cada um para sua casa. Na casa de Octávia, ela estuda enquanto deixa o celular ao seu lado caso seu amigo o chame.

Octávia: Ele não vai nem avisar se ficou tudo bem, que previsível. Não entendo porquê ele não aceita ajuda de vez em quando, não é como se ele precisasse fazer tudo sozinho, ele prefere não fazer algo do que pedir ajuda, que cara insistente...

Após reclamar para si mesma, continua seus estudos. Quando o céu já está escuro e uma chuva fraca cai sobre a cidade, ela escuta seu celular começar a tocar. Ela pensou que seria uma ligação de um número desconhecido, não pensou que fosse seu amigo, mas se surpreendeu ao ver que era Luke, e arregalou os olhos com um susto de nervosismo espontâneo quando ele soltou suas primeiras palavras diretamente ao ela atender.

Octávia: L-Luke?...

Mais cedo, quando Luke chegou em casa, ele já havia buscado sua irmã, então só teve que fazer suas tarefas de casa também, ele sabia que não iria ter tempo para jogar ou assistir algo além de ter feito academia mais cedo, mas tudo bem pra ele, já que tinha saído com sua amiga.

Abigail: Você queria se mostrar pra ela, não foi?

Luke: O que, como assim?

Abigail: Sua amiga, queria fazer papel de macho na frente dela só pra ela ficar na sua, eu aposto.

Luke: Abigail, tinha uma moça em perigo, é só um ombro sangrando, podia ser uma mulher morta, eu não queria arriscar isso.

Abigail: Prefere arriscar a sua vida pela vida de gente que nem conhece, isso não é justo.

Luke: Foi minha decisão, ok? Se eu tivesse me machucado mais teria sido culpa minha, não precisa ficar assim não.

Abigail: FODASE, EU NÃO QUERO QUE VOCÊ MORRA SÓ PRA DEFENDER UMA VADIA QUE BRIGOU COM O NAMORADO.

Luke: Não grita, eu não tô brigando com você, então fecha a boca, guria.

Abigail: Desculpa por me importar com você.

Abigail vai para o quarto dela pisando forte no chão, e Luke apenas observa ela ir.

Luke: Por que elas ficam putas por eu ter ajudado alguém? Não consigo entender isso.

Depois desse pensamento, Luke vai fazer suas tarefas, e enquanto fazia elas, sua mãe chegou em casa com lágrimas nos olhos. Luke estava na lavanderia no momento, ouve o choramingo de sua mãe e vai ver ela na cozinha só para avistar uma faca na mão dela.

Luke: Que porra é essa, mãe?

Alex: Eu tô cansada, nada dá certo, nada! NADA! NADA!

Luke: E-espera aí, do que que você tá falando? Larga essa faca, por favor...

Ele fala calmamente, mas não é o suficiente para fazer com que sua mãe se convença do que ele fala.

Alex: Depois disso, você vai ir lá pra sua vó com a sua irmã, ok?! Eu não quero mais fazer nada!

Luke: N-não, para!

Sem hesitação, a mãe dele mexe o braço para cravar a faca na própria garganta. Luke corre para segurar a faca, salvar sua mãe, e ele consegue isso.

Mas segurar a faca não significou nada, seu ombro começou a sangrar de novo, seu braço começou a doer e inconscientemente largou a faca. A mulher fincou a faca no próprio pescoço e caiu no chão enquanto o filho rapidamente se agachava para tentar salvá-la, mas não adiantava mais, e ele sabia disso, mas não queria acreditar. A mulher que deu a vida para ele, que cuidou dele, sua mãe, morrendo na sua frente pois seu machucado o impediu. Por culpa de salvar uma pessoa, sua mãe estava morrendo

Luke: Isso é injusto.

Ele pensou consigo. O garoto só queria ajudar uma mulher, defender ela, e ele conseguiu, mas por causa disso, ele não foi capaz de proteger sua mãe. Ele não se derramou em lágrimas, ao contrário, ele não teve reação alguma. Luke olhava para o rosto de sua mãe se contorcendo uma última vez, mas ele não podia aceitar, foi tão rápido, tão repentino.

Luke: P-por favor mãe, não morre, p-por favor. Por que a senhora fez isso? Me desculpa não conseguir segurar a faca, mas não morre, não morre, você não pode morrer, por favor... Por favor...

Ele desaba em cima do corpo da própria mãe enquanto Abigail ouve todo o conflito dentro do próprio quarto, chorando calada. Ela não queria sair e ver sua mãe morta, estava com medo, e por isso continuou onde estava, agachada com os braços abraçados nas pernas e a cabeça enfiada para baixo.

E então, Luke lembrou que Octávia havia pedido para ele ligar caso algo acontecesse. Ele sabia que não adiantaria ligar para algum hospital agora, e por isso ligou para sua amiga. botou o celular no ouvido e nos primeiros segundos ela atendeu.

Luke: Minha mãe morreu.

Capítulo 3: O diabo?

Depois que a mãe de Luke e Abigail se matou, Luke teve que começar a trabalhar, já que não queria aceitar gastar o dinheiro que sua avó ofereceu, até porque o dinheiro não seria capaz de ajudar para pagar sua escola, a de sua irmã ou o aluguel, apenas comprar comida, algo que ele já conseguia fazer.

Teve que deixar a escola antes das últimas provas, pois não teria tempo para trabalhar como lenhador e cozinheiro, na qual essa segunda opção ele optou pois poderia levar o que sobrasse de comida para casa. Ainda assim, a escola na qual ele estudava não foi compreensiva, tornando ele repetente, mesmo que ele não se importasse e logo depois fosse falsificar sua escolarização por não querer repetir um ano inteiro.

Seus amigos acabaram por ir mais ao apartamento dos irmãos, principalmente Luis, Luiz e Octávia. No dia atual, era domingo de tarde, e Luke tinha acabado de voltar da academia com Luiz, e os dois vão para o apartamento para comer alguma coisa.

Luiz: Bem... Eu queria te perguntar uma coisa.

Luke: Pergunta.

Luiz: E o seu pai? Por que ele não te ajuda?

Luke: Eu parei de falar com ele desde que eu era criança, não sei o que aconteceu, ele simplesmente sumiu...

Luiz: Não tava sabendo disso, você nunca falou.

Luke: Eu só não sei o que aconteceu, não me importo muito com isso, mesmo que eu devesse me importar. Só tento ignorar isso, quanto mais dúvidas me surgirem, mais eu vou ficar aflito querendo saber o motivo.

Luiz: Te entendo. Quer jogar?

Luke: Pode ser, vou aproveitar que tô com tempo.

Mais tarde naquele dia, Luiz, na sua casa, cumprimenta seus irmão e irmã e seus pais. Ele entra no próprio quarto e se olha no espelho, um jovem de 18 anos, negro, altura média, levemente bombado, diferente de Luke, ele treina para aumentar o volume do seu corpo, mas os dois ainda são páreos em nível de força. Ainda assim, ele lembra que não fez nada, não pôde ajudar seu melhor amigo, mas ele não se culpa, de certo modo, culpa Luke.

Não culpa ele por não salvar sua mãe, mas por se arriscar, mas diferente de Octávia e Abigail, o que faz ele pensar nisso não é evitar se machucar, mas sim pensar mais naqueles ao seu redor. Luiz queria que ele se importasse com aqueles que fossem importantes para o seu amigo, não ao ponto de ignorar qualquer estranho que precisasse de ajuda, mas não se ferir ao ponto de acabar podendo prejudicar a si mesmo até que não conseguisse ajudar seus amigos e família.

Luiz: Se eu tivesse ao menos coragem pra falar isso pra ele... Mas eu não posso. Não posso fazer isso com o cara que mudou o meu jeito de pensar.

Ele continua olhando pro espelho, encarando o próprio olhar, ele começa a sentir um calafrio no pescoço. Ele sente um leve toque de um dedo na nuca e olha para trás assustado.

Luiz: O que foi isso? Que estranho.

Quando ele vira o rosto de volta, vê que no espelho há uma criatura de mais de 2 metros atrás dele. Luiz congela por um momento. A criatura tinha vários braços em volta do seu corpo, parecia formar uma árvore com vários galhos que podiam ser identificados como braços, tudo era sangrento.

Demônio: Não precisa ficar com medo, eu vim te ajudar, se você quiser, é claro.

Luiz: M-mas como...

Demônio: Me chame de Bijon, só você tá podendo me ver agora.

Luiz: Nunca ouvi falar de você, mas você não tem um tom de voz muito ameaçador pra um demônio.

Bijon: Vou te dizer, você é sortudo. A maioria dos demônios gosta de se alimentar do sofrimento de seus receptáculos, os humanos, mas eu não. Isso é porque eu sou diferente, um demônio nascido pela necessidade. Quando há o desejo muito forte de muitas pessoas em um só lugar, um demônio desse tipo nasce. Eu sou um demônio assim, e não vou pedir muito pra fazermos um pacto.

Luiz: Pacto? Eu não disse que queria isso.

Bijon: Você tem medo de falar para seu amigo o que ele precisa ouvir, então vou te dar a chance de agir.

Luiz: O que eu ganho com esse pacto?

Bijon: Poder.

Luiz: Que poder?

Bijon: O que você precisar.

Luiz: E isso significa o que?

Bijon: É difícil de explicar. Mas vai querer ou não?

Luiz: O que você vai querer em troca?

Bijon: Sua moral.

Luiz: Isso me parece uma troca fácil. É só isso?

Bijon: Sim, você aceita?

Luiz: Aceito.

Nesse momento, Luiz vê o demônio desaparecer e o negão simplesmente apaga.

Já com Luke e Abigail, os dois estavam vendo um filme enquanto comiam pipoca de caramelo. Não estavam muito interessados no filme, então Abigail aproveita isso.

Abigail: E o cara que você passou tua conta?

Luke: Eu converso com ele, por quê?

Abigail: Já viu ele?

Luke: Vi sim, duas vezes, a gente só conversou um pouco. Ele parece um cara legal, apesar de ser bem tímido.

Abigail: Hmmmm entendi.

Luke: Tá, eu vou ir tomar um banho que eu não fiz isso até agora.

Abigail: Chega da academia e nem tomar um banho faz.

Luke: É, sim, tanto faz.

No banheiro, Luke tira suas roupas e olha para o espelho do banheiro. Ele não falou isso, mas havia sido demitido como cozinheiro recentemente, agora ele não teria dinheiro suficiente para pagar a escola de Abigail. Enfurecido, ele não queria aceitar isso, mas sabia que não podia fazer muito sobre isso a não ser procurar outro trabalho. Luke se cansou, se cansou de perder sua juventude, queria aproveitar mais tempo com seus amigos e sua irmã.

Se lamentando ainda, Luke começa a se ver na completa escuridão, podendo enxergar somente a pia e o espelho com clareza, e assim como Luiz, vê um demônio. Esse demônio era diferente, tinha uma forma mais humana e seu corpo lembrava metal. Apesar de ver um demônio, Luke não se intimidou.

Luke: O que você quer de mim?

Demônio: Sou Krallon, um demônio, e quero fazer um pacto.

Luke: É claro que quer fazer um pacto...

Krallon: Interessante, você não sente medo de mim, talvez seja mesmo diferente.

Luke: Fala logo o que você quer, não me irrita, eu só quero tomar meu banho, demônio fudido.

Krallon: Então deixe eu condicionar meus termos...

Voltando para Luiz, ele acordara no meio da estrada. Parece que o demônio usou o corpo dele por alguns momentos, mas aparentemente não causou nada de mal.

Luiz: É claro... Mas que sensação bosta é essa?

Ele pisca os olhos algumas vezes, sentindo uma queimação. Pega o celular para se ver na câmera e se assusta: Seus olhos estavam completamente amarelos com alguns círculos pretos dentro.

Sem tempo para pensar, ele vê, como um flash, uma cobra morder sua perna. Ele então olha para baixo e vê uma cobra se aproximando dele e pega ela pela cabeça, jogando ela longe.

Luiz: Isso parece bem útil, ver o futuro...

Bijon: É legal, né?! Eu falei que você ia gostar, você é sortudo demais.

Luiz leva um susto e olha ao redor, mas não encontra Bijon em lugar nenhum.

Luiz: Não grita do nada assim não. Onde você tá?

Bijon: Não é óbvio? Tô na sua cabecinha.

Luiz: Ah, beleza então, mas por que me trouxe aqui?

Bijon: Dar uma situação de perigo pra que conseguisse usar um dos seus tipos de visões.

Luiz: Então você sabe como funciona?

Bijon: Mais ou menos, eu testei esses olhos, mas você tem outros, seria útil você testá-los.

Luiz: Tá, antes de tudo, tem mais gente assim como eu? Que fizeram pactos.

Bijon: Ah sim, tem sim. Aliás, existem demônios que tem um corpo físico no seu mundo. Antes que me questione como você nunca soube, isso é porque existem organizações no seu mundo que escondem a existência desses demônios, mas recentemente os demônios estão muito mais ativos, e ainda não sei o motivo.

Luiz: Organizações então. Bem, eu me importo com isso depois, eu tenho que ir atrás do Luke pra mudar o pensamento dele, nem que seja à força.

Bijon: Não acha mais interessante testar seu poder antes?

Luiz: E como seria isso?

Bijon: Seu faro sente o cheiro de demônio com facilidade agora, você pode procurar algum demônio por aí, há muitos no seu país, deve ter algum na sua cidade.

Seguindo o conselho de Bijon, Luiz corre para a cidade de volta. Na sua corrida, ele percebe que tem mais energia que antes, permitindo ele correr na sua velocidade máxima por muito tempo. Sua busca por algum demônio dura cerca de meia hora, quando se depara com um cheiro diferente, semelhante com carne podre.

Luiz: Deve ser isso. Ok, acho que-

Novamente com um flash, Luiz vê que seria atacado por uma vinha gigante por baixo de si no lugar em que se encontrava. Quando o flash passa, ele rola pra frente e vira para o lugar que sairia a vinha, vendo que um demônio que se forma por um aglomerado de vinhas surge.

Demônio vinha: Olha só, parece que você foi rápido. Bom, eu sinto muito, mas eu não vou deixar você viver aqui, não um nojento de um receptáculo.

Luiz: Você quer mesmo fazer um estrago aqui? Acha que ninguém vai descobrir?

Demônio vinha: Garoto, diversas explosões no solo ocorrem no mundo inteiro por ano, podem confundir com gás metano ou alguma outra idiotice.

Luiz: Então acho melhor você não se importar mais com isso, porque não vou te deixar vivo. Mesmo que eu ainda não saiba todos os meus poderes, você é só planta, e eu seria um bosta só uma plantinha me matasse.

Bijon: Deixa eu te dar uma ajudinha...

Da visão do demônio vinha, Luiz começa a saltar várias veias em volta do próprio corpo, que crescem cada vez mais até desfigurar o rosto inteiro do receptáculo.

E então, Luiz corre até o demônio, que tenta atingir um soco nele, mas ele pula por cima e desaparece da visão do demônio.

Demônio vinha: Que merda, pra onde esse desgraçado foi?

E voltando por cima com uma barra de ferro, Luiz bate com a barra no demônio, o arremessando longe.

Demônio vinha: Como? eu nem te vi!

Luiz: Eu sei, não viu meus olhos? Eu mudei a coloração agora seu otário. Com esses olhos roxos eu posso ver na visão daqueles que eu já toquei pelo que parece, então quando eu estava na sua visão foi fácil saber aonde eu tinha que ir.

O demônio das vinhas recua, entrando em um beco e se aproximando de um bueiro cada vez mais e Luiz fica parado. Quando o demônio tenta entrar no bueiro, ele simplesmente trava, não consegue tirar os olhos de Luiz, e percebe que agora estão azuis.

Luiz: Acho que você pode me chamar de demônio da visão. Provavelmente esse poder veio por causa da mescla do meu objetivo com a necessidade que cegos tem de olhar, já que o demônio com quem eu fiz pacto é um demônio que nasce conforme necessidades humanas.

Ao mesmo tempo que fala, Luiz chega cada vez mais perto, segurando uma vinha do demônio e puxando ele para si.

Demônio vinha: V-Você... Eu vou te matar, desgraçado!

Demônio da visão: Olhe nos meus olhos, me encare e morra.

Mudando seus olhos para vermelho, o demônio começa a ser queimado, mas cria espinhos em suas vinhas e se liberta para tentar fugir pelo bueiro de novo.

No entanto, Luiz, como demônio da visão, chuta ele para uma parede no fim do beco, só para avançar nele e agarrar o coração do demônio, enfiando o próprio braço dentro do corpo dele e arrancando dali.

Demônio da visão: Você tenta ser ameaçador, mas quem vai ter medo de uma porra dessas?

O demônio vinha apenas permanece calado enquanto desaba todas suas vinhas no chão, apenas se mantendo vivo porque seu coração não foi destruído.

E então Luiz termina a luta, apertando o coração e explodindo. Ele se destransforma e começa a respirar pesado, pois sentiu um nervosismo e grande tensão quando viu o demônio.

Luiz: E agora? O que eu faço?

Bijon: Come ele.

Luiz: Eu não, que nojo, cara.

Bijon: Fresco. Ok, então leva o corpo dele pra longe, não deixa aqui, já teve sorte que nenhum curioso quis vir aqui.

Em uma breve negação, Luiz sabia que não podia levar o corpo do demônio para longe, mas, ao invés de comer aquilo que julgava nojento, decidiu enfiar o corpo inteiro pra dentro do bueiro. Ele pisou e pisou até que o corpo inteiro entrasse, fazendo isso por quase 5 minutos.

Foi preciso apenas um dia para ele descobrir a existência de demônios, fazer pacto com um e matar outro. Só que ele não parecia surpreso, apenas entusiasmado, não por ter descoberto algo tão excepcional, mas sim por ter a chance de conseguir ajudar um amigo com ações, pois em seu pensamento, o mais forte do grupo é quem dá as palavras, e foi por isso que ele sempre deixou Luke lidasse com o problema dos outros sozinho. E agora ele pode fazer o mesmo, pois ele é o mais forte, ele é mais capaz, ele é o demônio da visão.

Capítulo 4: Novo prato: Cachorro cru

Luke: Tá, então deixa eu ver se eu entendi. Você quer ter o controle do meu corpo quando quiser? Se for assim, nada feito.

Krallon: Então o que sugere, exigente?

Luke: Que tal o seguinte? Toda vez que eu fechar os olhos, você pode ter o controle do meu corpo, menos de noite.

Krallon: Menos à noite? Isso fica muito abrangente para poder formar um pacto, eu acho.

Luke: Então como vai ser?

Krallon: Quando o céu estiver escuro, não poderei usar seu corpo.

Olhando nos olhos do demônio, Luke estranha a proposta, tentando pensar em algo que ele poderia usar como forma de ignorar a exigência.

Krallon: Se quiser, pode doar alguns anos da juventude da sua irmã-

Luke: Caralho, tu é engraçado. Como se eu fosse aceitar isso. E por que você gostaria de algo assim?

Krallon: Não te interessa, negócio de demônio.

Luke respira fundo, olha para si mesmo e pensa em uma ideia diferente para realizar o acordo.

Luke: Escuta, pensei em algo. Você disse que demônios podem vir para o mundo físico, né? Então eu quero que você dê seu coração para mim, e você terá o meu. Se um dos dois tentar burlar o pacto, o outro poderá acabar com o coração do outro.

Krallon: Você é cheio das ideias, mas tudo bem, por mim não há nenhum problema. Apenas quero que mostre seu sangue.

Sem hesitação, Luke pega uma tesoura de cortar unhas no balcão da pia e corta sua mão, deixando cair gotas de sangue na pia.

Krallon: Nem teve medo? Ok, Eu só queria ver o quão corajoso é. Eu aceito o pacto.

Luke: Eu também.

Assim, o demônio desaparece assim como Bijon, mas Luke não desmaia. Luke apenas ignora com casualidade o que aconteceu e coloca a palma da sua mão ensanguentada na testa, se questionando o que aconteceria agora.

Já noutro momento, Luke se encontra na casa de Luis, sentado em uma cadeira no quarto dele e seu amigo sentado na própria cama.

Luis: Tá, por que tá me chamando pra ir no veterinário?

Luke: Você vai entender, me acompanha que cê vai ver uma coisa foda.

Luis: A gente pode passar pra comer algo antes?

Luke: Tudo bem, mas não vou comer.

Luis: Mas já é quase 1 da tarde.

Luke: Eu sei.

Com esse combinado, os dois chegam em uma clínica veterinária enquanto Luis come um hambúrguer. Ambos lado a lado, o contraste de altura, Luke com 187 centímetros e Luis com 164 centímetros, era motivo pra algumas piadas no grupo por Luis ser pequeno e o mais negro entre os amigos.

Luke chega no balcão e abre a boca para se dirigir ao atendente, mas de repente é interrompido por um homem que estava no corredor, parecia ser um veterinário.

Veterinário: Olá, se veio aqui para adotar algum dos animais que nasceram há pouco tempo. Pode vir falar comigo?

Luke: Hã? Não seria pra eu pegar ticket primeiro ou algo assim?

Veterinário: Não tem tickets, pode vir comigo e seu... amigo, eu acho.

Luis: É. posso entrar com o hambúrguer?

Veterinário: Pode sim...

O veterinário fala com um pouco de desdém, mas acompanha os dois até a sala onde estavam os filhotes de cachorros e gatos para adoção e fecha a porta.

Luke não tinha certeza, mas sentia algo estranho do veterinário. Ele deixa essa incerteza de lado, pensa ser apenas coisa da cabeça, mas o cheiro que ele sente do veterinário é diferente.

Veterinário: Sou Heleno Dias, mas me chamem apenas de Heleno. Eu queria saber qual dos filhotes querem adotar, não precisamos nem ver a papelada para alguns jovens.

Luke: Escuta aqui, por que se meteu assim? E por que parece querer que a gente saia o mais rápido possível daqui?

Heleno: Apenas quero poupar o meu e o seu tempo, não vejo mal nenhum nisso.

Luke: Você é estranho, mas tudo bem. Posso ver um dos filhotes?

Heleno: Claro, vá em frente.

Enquanto Luis e Heleno assistem Luke se agachar até um dos filhotes de cachorro, ele pega o filhote e cheira ele. Ele se vira com o filhote na mão e inesperadamente devora a cabeça do cão em uma mordida.


Luis: QUE PORRA?!

Heleno: Desgraçado...

Luis demonstra uma face assustada, deixando o último pedaço do hambúrguer cair no chão enquanto ele cai sentado no chão pela surpresa. Já Heleno tenta abrir a porta para correr para fora da sala, mas Luke joga o corpo restante do filhote nas costas do veterinário, explodindo o filhote em pura terra.

Luke: Como eu pensei, você fez um pacto com um demônio também, eu sabia. Eu tinha sentido um cheiro estranho daqui mais cedo, mas queria ter a certeza. Pode relaxar Luis, só preciso que você veja isso pois eu prometi pra um "cara" que eu faria algumas pessoas saber sobre o meu novo presente.

Heleno: SAIBA QUE EU VOU TE MATAR AGORA MESMO. EU ATÉ IA DEIXAR SEU AMIGO VIVO, DEPOIS DISSO E-

Tão rápido que Heleno nem consegue perceber direito, Luke atinge um soco na mandíbula dele enquanto seu braço se torna completamente preto. O veterinário cai cuspindo sangue e lacrimejando.

Luke: Só cala a boca, eu não me importo com que demônio você fez pacto, só queria testar meu poder, mas você parece fraco demais, nem se transforma, o que quer dizer que você fez pacto com um demônio que está no mundo físico. Só me fala uma coisa, esse demônio está aqui na cidade ou próximo a ela?

O veterinário, com medo, acena com a cabeça positivamente e se aproxima da parede da sala com medo de Luke.

Luke: Se eu souber que você criou mais animais para qualquer que seja seu objetivo, eu vou te dar uma surra tão grande que vai preferir estar morto. Você não criou eles a toa, coisa boa que não é pra tentar me atrair pra cá. Mas relaxa, eu vou resolver isso com o cara com quem você fez o pacto.

Luis: O que tá acontecendo? Por que o Luke fez... isso?!

Incrédulo e paralisado, Luis tenta entender a situação. Seu amigo acabara de comer a cabeça de um cachorro, arremessar o corpo do animal em um veterinário. O mesmo animal se torna terra e com o braço se tornando totalmente preto agrediu Heleno.

Sua cabeça não conseguia pensar em um motivo daquilo estar ocorrendo. Pensou ser um sonho, mas era real demais, então talvez estivesse louco ele mesmo pensou. Mas não, aquilo foi real, e só lhe restava perguntar o que acabou de aconteceu.

Ficando com o braço normal, Luke apenas olha para o membro por um momento, e quando para, agarra seu amigo pelas costas da camisa e olha para o veterinário uma última vez, fazendo um sinal para ele se silenciar.

Já na rua, Luis não para de olhar Luke, ainda abismado com tudo que acabou de acontecer. Dessa vez, era Luke quem estava comendo um hambúrguer.

Luke: Cara... Pegou mesmo um hambúrguer assim? Esse frango deles é estranho, mas beleza, gosto não se discute.

Luis: Você acabou de dizer e fazer tantas coisas absurdas... O que aconteceu?

Luke: Que que cê quer dizer?

Luis: Falou sobre demônio e não sei o que.

Luke: Ah, isso aí... Eu fiz pacto com um demônio.

Ele fala isso casualmente, se deliciando com mordidas do hambúrguer, mesmo que não estivesse achando o gosto tão bom, há alguns minutos atrás ele havia engolido terra, então frango com gosto estranho não é um problema.

Luke: É o seguinte, eu precisava mostrar pra algumas pessoas que eu fiz esse pacto conforme o demônio pediu, então você foi o primeiro que eu escolhi. Outra coisa, eu tinha passado mais cedo ali antes de ir pra tua casa e eu senti um cheiro estranho, e como eu suspeitei era de demônio, não em si, pensei que os cachorros e gatos eram demônios, mas na verdade só eram o poder dele. Agora não sei se ele só faz isso ou outras coisas, mas com uma coisinha eu consigo achar o demônio.

Luis: Como você consegue falar isso como se fosse algo normal?

Luke: De certa forma, agora vai ser normal pra mim.

Mais tarde, quase anoitecendo, os dois estavam no meio do mato, Luis encostado em uma árvore e Luke tentando sentir o cheiro do demônio que é capaz de criar aqueles animais.


Luis: Cara, tá tarde, dá pra eu ir pra casa?

Luke: Eu tô sentindo um cheiro já, eu vou achar ele a qualquer momento.

Luis: Por que quer tanto achar ele, afinal?

Luke: Como eu falei mais cedo, quero testar meus poderes. E outra, eu vou comer ele.

Luis: Que? Vai comer o capeta?

Luke: Sim, o demônio que eu fiz o pacto falou que eu fico mais forte quanto mais sangue de seres vivos eu consumir, independente de qual for. Eu não quero matar animais a toa, então vou matar esse demônio.

Luis: E se ele for mais forte que você?

Luke: Sem chance de um demônio assim ser mais forte que eu.

Um silêncio toma conta do lugar de novo, até que Luke sente algo e pula na direção do seu amigo, agarrando ele e indo pra longe. Se virando com seu amigo nos braços, Luke fica com os braços e pernas completamente pretos e suas roupas são consumidas. Além disso, seus membros também ficam mais robustos, com garras e maiores, aumentando por volta de 4 centímetros por conta das pernas.

Depois dessa rápida transformação, parte da terra começa a tremer e dela sai um demônio de uns 6 metros pela medida visual de Luke. Ele era gordo, praticamente só gordura, ou ao menos era isso o que parecia, seu corpo poderia ser semelhante ao de um hipopótamo nesse quesito. ele era bípede com quatro pernas curtas e grossas, uma quantidade absurda de braços muito finos que se enrolam para formar um só de cada lado e uma cabeça sem pescoço com um chifre pontudo e longo na região que seria seu queixo.

Luke: Finalmente! Eu tava pensando que tu não ia aparecer ou até que tava com medo.

Demônio: Medo de um receptáculo? Me poupe, você veio aqui apenas para morrer.

Luis: Eu tô fudido...

Luke: Olha, vamos ser rápidos, me fala qual é o seu poder e eu falo o meu. Que tal?

Demônio: Tudo bem, você vai morrer mesmo. Bom, eu sou o demônio réplica, meu poder consiste em pegar matéria inorgânica e transformar em seres vivos dos quais eu já me alimentei.


Luke: Acho que eu não sou o único que come cachorro então, seu desgraçado. Enfim, eu sou o demônio sombra, mas pode me chamar de Lunar, acho mais foda e menks abrangente, eu ainda tô aprendendo a usar meus poderes, mas como poder ver, eu tenho controle das sombras pra imbuir no meu corpo, é só isso que sei até agora.

Demônio réplica: Claro... Eu até sentiria pena se não fosse um receptáculo.

Lunar: Isso é racismo em.

Lunar solta seu amigo no chão e vai pra frente do demônio réplica, aparentando ter dentes mais afiados e um risco preto no pescoço, parecido com uma gargantilha.

Lunar: Vou confessar, você vai ser um lanche e tanto.

Demônio réplica: Aposto que nunca comeu um demônio. Você só está indo direto pra morte.

Lunar: Tudo tem uma primeira vez, por isso que eu vou *degolar* você e ficar todo nojento nas suas tripas.

Demônio réplica: Você é meio perturbado pra um humano, não?

Os dois se encaram e, em uma sincronia, se atacam ao mesmo tempo. O demônio réplica tenta acertar um soco para esmagar Lunar no chão, mas ele desvia e sobe no demônio, cravando as garras nele e o arranhando enquanto corre até suas costas.

No entanto, não é problema, pois o demônio consegue se regenerar desse longo arranhão e de suas costas começam a surgir onças, mas Lunar apenas crava suas garras nos corpos delas. Com o intuito de irritar o réplica, Lunar pula para a cabeça dele e começa a estocar suas garras diversas vezes na testa dele. O demônio grita de dor e agarra Lunar, fazendo seus braços mudarem de lugar para ficar nas escápulas.

Dessa vez, Lunar é preso e começa a ser esmagado, e até geme um pouco de dor, mas não parece estar em pânico.

Demônio réplica: Eu falei que você ia morrer, você é burro pra caralho.

Lunar: Sabe quando eu falei que só aprendi a imbuir sombras em mim? Pois é otário, eu menti!


O demônio réplica sente algo cutucar a testa dele, é quando seus olhos se reviram que ele é perfurado por algo longo e duro, e é isso mesmo que você pensa, é uma
motosserra, que retalha o cérebro do demônio, o deixando retardado por um momento. Lunar apeoveita o momento para escapar dos braços dele e transferir a serra do peito para o braço direito, inteiramente preta e pronta para dilacerar.

O demônio sombra para no chão e pensa em uma forma de matar o seu inimigo.

Lunar: Talvez se for um golpe fatal ele morra...

Luis: Você nem sabe como matar ele?!

Lunar: Não kkkkkk.

Lunar: Krallon desgraçado, ele não aparece nem pra me mandar à merda. O bom é que eu consegui a serra que eu tinha em casa... Isso deve dar conta.

Voltando ao combate, o demônio réplica já estava completamente regenerado e tenta lançar cães e vacas para matar a dupla de amigos, mas Lunar simplesmente corta todos os animais no meio com facilidade.

Em uma chance de abrir espaço para o seu ataque, Lunar agarra Luis com o braço novamente e corre com ele para a frente do demônio, que tenta lançar um conjunto de animais, que Lunar apenas ignora pulando para o alto, jogando Luis em cima da cabeça do réplica.

Luis: EU VOU MORRER, POR QUE ELE FEZ ISSO?!

Demônio réplica: Você é burro demais, não é?

Quando animais emergiam da cabeça do demônio réplica, Lunar e Luis trocam de lugar. Lunar havia criado um ponto de sombra no seu amigo, uma habilidade que acabara de aprender, agora ele tinha a chance perfeita de matar o demônio réplica. Corta todos os animais que estavam surgindo e crava a sua serra na nuca do filho da puta.

Lunar: MORRE, MORRE, PORRAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!

Rindo como uma pessoa doentia, Lunar termina o "serviço" cortando a cabeça do demônio réplica com sua serra e espeta ela na cabeça decepada do demônio, a qual ele joga no chão, esparramando sangue na grama.

Lunar: Agora é hora do meu lanche.

Luis: Você fez bem com aquela troca. Como sabia que ia funcionar?


Lunar: Eu não sabia, fui na fé.

Luis: Sério que arriscou a minha vida assim?!

Lunar: Choro de puta Deus não escuta. Agora me deixa comer que eu já te levo pra casa antes que teu pai encha o teu saco.

Com isso, Lunar se vira e começa a comer a carne nojenta do demônio, se enojando com as primeiras mordidas, mas logo tratando aquilo como carne crua como se fosse um animal comum.

Seu objetivo foi concluído, mostrou a seu amigo que se tornou um receptáculo e ainda por cima conseguiu matar um demônio com um pouco de dificuldade. Mas não é como se fosse comum um demônio comer a carne de outro, já que os mesmos consideram isso nojento. O demônio que devora demônios, Lunar.

Capítulo 5: Tudo é belo

No dia seguinte após a luta entre Luke e o demônio réplica, o mesmo não parava de conversar com Krallon, mas ele não parecia se importar ou ouvir Luke.

Então ele pensou que poderia falar para mais alguns de seus amigos sobre o pacto. Talvez cumprir sua parte dele por completo seria motivo para o demônio voltar a falar com ele.

Em meio a seus pensamentos, ele lembra que fazia quase dois dias que não usava o celular, então aproveita para ver se havia alguma mensagem.

Luke: Isso só pode ser brincadeira...

Luke sai correndo já se transformando. Seu rosto fica preto também dessa vez e seu cabelo fica de coloração preta como se fosse natural, foi proposital. Ele chega quebrando uma parede do presídio da cidade e vai até as celas.

Lunar: Eu quero saber quem de vocês foi o merda que tava de "graça" com a Sophia. Se não falarem, eu vou quebrar os ossos de cada um até que eu ache quem fez.

Policial: Parado!

Lunar: Sinceramente, eu não quero bater um policial.

Policial: E eu não quero arriscar atirar em... você, não sei o que você é.

Lunar: Enfim, me deixa sozinho com esses bostas antes que eu mude de ideia.

Policial: Ok, eu vou ir rezar um pouco...

Ele vê o policial sair e escuta o grito de um dos presidiários. Ele chega mais perto e olha o preso segurando as barras da cela.

Lunar: Foi você?

Preso: Foi sim hehehehe...

Sem nem responder o preso, Lunar faz surgir sua serra para picotar o desgraçado em todos os pedaços que pudesse.

Mas não aconteceu o que ele esperava. No preso surgem cordas em volta de seus braços e seu rosto borra como se fosse uma imagem editada.

Lunar: Q-Que merda?

Preso: Se sua intenção é vingar sua amiga, você na verdade vai ser o próximo, seu bosta metido.

Lunar: Não quero saber seu nome, mas parece que demônio corda fica legal pra te chamar.

Demônio corda: Que seja. Vou te matar mesmo.

Lunar: Convencido. Mas não vai mesmo, acho que não entendeu o que eu posso fazer.

Lunar puxa o receptáculo para fora da cela, quebrando as celas e fazendo o preso sentir dor sendo puxado dessa forma. Logo, ele chuta o preso para o corredor e vê ele do chão. No chao, ele vê uma corda que se estende até o próprio pescoço, que começa a ficar pesado e obrigar Lunar a cair, mas ele corta a corda.

Lunar: Seu poder é um lixo.

Demônio corda: Cala a boca, eu fiz pacto com um demônio.

Lunar: Nossa, que legal! Eu também! Idiota do caralho, você não tem chance alguma de me matar. Você é doente, mas eu adoro machucar gente desse tipo.

Lunar avança no demônio corda, causando um corte com a serra no braço direito dele enquanto ele se levantava, fazendo-o gritar de dor.

Lunar: Ela tinha uma vida, vontades, desejos. Me diz, por quê?

Demônio corda: Não ligo pra ela nem pra você, eu fiz porquê eu quis...

Continuando a luta, Lunar agarra ele pela garganta e leva até uma parede. Ele começa a sufocar o preso com raiva de ele não querer o responder. Logo sente cordas em seus braços, obrigando ele a soltar, deixando que o preso acertasse um golpe no rosto de Lunar.

Lunar, caído no chão, muda a posição da sua motosserra e corta as cordas e levanta. Seus dentes estavam maiores e seu rosto começava a ter uma face mais monstruosa, já demonstrando olhos vermelho escuro agora.

Lunar: Você nem merecia poder, é apenas um arrombado.

Demônio corda: Saiba que eu adorei cada segundo.

Lunar: Irmão, escuta. Eu sei que você é só um doente, e tenho realmente vontade de te matar, mas não vou.

Demônio corda: Nossa, tão gentil. Se é assim, eu posso até dizer que ela já pediu ajuda chamando alguns nomes, talvez o seu seja "Luke", o mais falado?

Lunar: Você tem sorte de eu não ter mais serras.

Em um avanço que ultrapassa o preso, Lunar corta o braço esquerdo do demônio corda tão rápido que ele só sente a dor depois que Lunar fica parado, gritando de dor ajoelhado.

Lunar: Isso me dá uma vontade de continuar, sabe? Esse som é uma delícia pra mim.


Demônio corda: C-Como você é tão forte, seu filho de uma puta?

Lunar: Não sei, eu fiquei um pouco mais forte depois de comer um demônio ontem, mas não foi nada demais.

Demônio corda: Você comeu um demônio?! Você é retardado mental?!

Lunar: Não tava tão ruim. Sabe o que é bom?

Lunar anda até o braço decepado do corda e leva até perto da boca, lambendo os dedos dele como provocação.

Demônio corda: Para! Para! Me dá isso, seu merda!


Lunar: Você fala muito palavrão, né? Não vai ganhar presente de natal.

Assim, ele engole o braço decepado em questão de segundos na frente do preso, que fica abismado na forma que ele simplesmente devora carne humana sem hesitar.

Lunar: Você é tão fraco que nem se regenera direito, né?

O preso não responde, apenas tenta fugir daquela situação, mas Lunar intercepta ele facilmente e o derruba no chão, pisando nas costas dele.

Lunar: Olha, minha amiga tinha uma vida, e você é o principal culpado dela ter feito isso. Mas sabe? Eu não te odeio, eu te abomino. Eu amava aquela garota, e é por isso que eu vou te fazer sofrer dessa forma, lenta e dolorosamente.

Demônio corda: M-Me desculpa, e-eu não vou fazer esse tipo de coisa de novo. Só me solta, eu te imploro!

Lunar: Implorar? Você é burro demais se pensa que vou te soltar. Você não sabe o que é perder alguém que amava pra ter feito algo assim. Todas as vezes que eu falei com ela, toquei nela, participei da vida dela, todas as vezes eu me senti feliz, me senti mais eu. Eu nunca contei o que sentia, mas tudo bem, você vai contar por mim, já que eu vou purificar seus pecados.

Lunar agarra o preso, jogando ele no chão de novo com força, deslocando o ombro dele com o braço inteiro ainda. Chega mais perto e chuta o saco dele.

Lunar: Quantas vezes você fez isso? Quantas vezes se aproveitou daqueles que não podiam se proteger? Me diz o que fez você pensar que isso é certo.

Demônio corda: Tudo é belo nesse mundo, eu adoro fazer isso, até com animais.


Luke: Podia ter deixado de fora a última parte, mas tudo bem. Vai ser mais chute no saco por isso.

Enquanto fica torturando o desgraçado, como Luke, ele começa a pensar consigo mesmo, de forma que talvez achasse que sua amiga pudesse ouvir, apenas talvez.

Luke: Tá ouvindo daí do céu, Sophia? Eu vou achar uma forma de poder te trazer de volta, sei lá. Até alguns dias atrás eu nem acreditava em coisas divinas, mas talvez possa realmente existir uma forma de te trazer de volta. Pode ter certeza que eu vou fazer de tudo pra que você volte.

Lunar: Grita mais alto! Eu não tô ouvindo!

Demônio corda: Vai se fuder, porra!

Lunar: AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHAHAHAHA!

Demônio corda: AAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHH!

Enquanto os dois gritam, um de prazer e o outro de dor, Lunar finalmente para de bater no corda, vendo que um longo arpão havia furado suas costas.

Lunar: Que que será que foi agora?

Da parede quebrada por Lunar ele vê o que parecia ser algum tipo de agente especial, uniformizado com um terno preto com listras vermelhas nos punhos das mangas. Apesar do arpão o perfurando, Lunar só começa a sentir mais dor um pouco depois.

Lunar: Aaar. Quem é você? O que tá fazendo tentando matar um demônio?

Agente: Pode me chamar de Bruno. E relaxa, eu não vou te matar, só vim arrumar a cagada que você tá fazendo.

Lunar: Como assim?

Bruno: Cara, você tá mostrando pra um monte de gente que você é um demônio, o que obrigou esse outro idiota a ter que virar um também.

Lunar: Não sou demônio, só tô transformado.

Bruno: Isso não é o problema... Anda, vem logo.

Lunar: Posso só... terminar isso aqui, por favor?

Bruno: Sério?

Lunar: Prometo que eu não dificulto nada pra você se deixar eu terminar.

Bruno: Beleza, se é assim. Só não demora e nem mata o cara.

Lunar: Perfeito.

Lunar se vira para o demônio corda e estrala os dedos com um sorriso. O corda nem reage mais, apenas aceitando que vai ser espancado pelo que fez.


A partir desse momento, Lunar não se contém. Ele bate no preso de diversas formas, socos e chutes em diversos lugares do corpo, bate com a motosserra, desligada, arrasta ele no chão, arremessa o corda como bola de basquete. Ele não cansa de se vingar pelo que o corda fez, mas no fundo, nem era só por si mesmo, realmente desejava que ele se arrependesse pelo que fez.

Lunar: Me diz, você ainda tá feliz de ter feito o que fez?

Demônio corda: Eu faria tudo de novo, e faria na sua frente...

Lunar: Tem gente que não aprende mesmo. Depois dessa surra eu vou ter que te chamar de demônio hematoma.

Depois de mais 5 minutos de diversão para o Lunar, Bruno toca em seu ombro. O demônio sombra vira para ele e olha para o rosto do suposto agente com tédio, queria bater mais, mas como prometeu, seria rápido.

Bruno: Sei que quer se vingar, mas não acha que já demorou muito?

Lunar: Acho que foi pouco, considerando tudo que ele fez. Não só pra minha amiga, mas também pra qualquer um que ele já tenha ferido, ele é um doente.

Bruno: Eu concordo com você, mas temos que ir, vai ser difícil cobrir o estrago, não pelo dinheiro, mas pelo que você revelou. Mas afinal, por que isso? Apenas pra se vingar?

Lunar: Vingança? Não, eu não me resumo a isso. Eu amava aquela garota, e sabendo agora que existem literais demônios, talvez, só talvez eu possa trazer ela de volta. Ainda assim, ele mereceu essa punição, esse país de bosta prende lixos como esse, sendo que a maioria deles nunca se arrepende, são caras como esse que são protegidos, tratados como vítimas do sistema, mesmo cometendo tantas atrocidades que nem poderiam ser relevadas, apesar de serem. A verdade é que eu fiz isso por ela e por todos que sofreram por culpa dele, mas principalmente por ela, agora que eu tenho poder pra isso, pode ter certeza, vou fazer vermes assim se arrependerem.

Bruno: E o que vai fazer quando não se arrependerem? Não pode garantir que todos vão sentir isso, assim como esse idiota aí.


Lunar: Simples, eu vou bater tanto que ele não vai mais conseguir fazer nada.

Bruno: Não é assim que funciona, você não é quem decide o que é certo ou errado.

Lunar: E quem decide isso? O governo? A polícia? O tribunal? Se até agora não fizeram nada demais que realmente mudou esses caras, não vai ser nesse ritmo que vão mudar. A real é que eu sou só um cara que ganhou poder, e agora posso fazer mais, por que eu não faria?

Bruno: Vamos conversar sobre isso depois. Quero que me acompanhe para me dar algumas informações.

Lunar: A gente vai aonde?

Bruno: Bem... Só vou te dizer que é longe.

Lunar: Dá pra gente ir comer antes?

Bruno: Você quer me atrasar mais ainda?

Lunar: Só bora passar num drive-thru, na moral. Cê disse que vai demorar, com fome eu vou passar mal...

Bruno: Ok, mas você vai pagar e vai comprar pra mim também. Se destransforma.

Lunar: Tá meio difícil...

Bruno: Só pode ser piada.

Os dois entram no carro de Bruno, um carro blindado, nada demais n carro, é apenas um carro prata para seu serviço. Eles chegam em uma loja de drive-thru e a atendente olha para dentro do carro, um homem normal dirigindo e Lunar com sua face e membros monstruosos.

Atendente: Isso... é um cosplay? Caramba, que bem feito, eu até me assustei.

Bruno: É, a gente tá indo pra um evento agora, sabe? me vê dois combos do dia.

Lunar: Eu não pedi combo.

Atendente: A boca dele...

Bruno: É, sim, é no débito.

Bruno pega o cartão de Lunar e passa o cartão na maquininha, passando pra frente enquanto olha para Lunar com raiva. Não era para ele falar nada, era a única coisa que Bruno pediu antes de entrarem no carro.

Bruno: Você é idiota?

Lunar: É que eu não queria o combo do dia, só isso.

Bruno: Você tem sorte que tem muita gente burra por aí.

Lunar cruza os braços, apenas esperando que seu lanche fosse feito, não impaciente, apenas meio puto por ter levado sermão de alguém que conheceu há pouco tempo.


Passando do estado de Rio Grande do Sul para Santa Catarina, a dupla chega em um prédio que parecia ser a sede de uma organização. Bruno estaciona o carro e Lunar o segue, olhando para o grande prédio na sua frente, esperando que virá a seguir lá dentro.


Capítulo 6: Sabor da perda

Lunar: Eu queria tanto que elas estivessem aqui. Por que que vocês foram embora? Mãe, Sophia, será que eu vou esquecer das suas vozes? Eu não quero, mas... é impossível. Juro que eu teria feito mais se eu pudesse, só que eu sou tão inútil às vezes que nem consigo melhorar minha vida. Eu ajudo os outros, apoio, até mesmo salvo, e por que no final sou só eu que continuo a mesma coisa? Talvez eu fosse mais se não ajudasse tanto, mas isso não é quem eu sou.

Com esses pensamentos em sua visão totalmente escura, ele abre os olhos lentamente e percebe estar em uma sala de cirurgia. Seu estômago aberto, uma perna e um braço cortados e corpo anestesiado. Ele ainda estava transformado, então os médicos estavam usando ferramentas especiais apenas para ver se sua anatomia havia mudado na transformação.

Lunar: Que...?

Uma jovem adulta, que parece ter entre 20 a 25 anos, se aproxima de Lunar, segurando a mão monstruosa dele com suas duas mãos, pequenas comparadas à sua.

Mulher: Relaxa, eu sou Letícia, parceira do Bruno. Ele pediu pra eu cuidar de você após a cirurgia. Eu só não esperava que você fosse tão resistente. Uh, que peitinho.

Lunar: Hã?... Eu não me lembro o que aconteceu.

Letícia: Você aceitou fazer essa cirurgia pra gente ver se a sua anatomia mudou algo. Mas relaxa, você vai regenerar daqui a pouco, só usamos uma "coisinha" pra estancar sua regeneração. Tendeu?

Lunar: Eu tô com fome...

Letícia: Sua barriga tá aberta e você se importa com isso? Tudo bem, não vou ficar julgando.

Lunar: Essa mulher... Pele branca sem nenhuma marca, cabelo preto, mas... olhos laranjas? Ela fez um pacto também? Eles fazem pactos? Mas o Bruno não parece ter nada demais, talvez ele apenas não tenha nada demais quando está normal, assim como eu.

Krallon: É gostosa.

Lunar: Agora você fala, né? Me responde, como eu posso ficar mais forte só comendo demônios se é tão difícil achar eles?

Krallon: Espera, você comeu um demônio? Caralho, você é insano mesmo, moleque kkkkkk.

Lunar: E então?

Krallon: Se torne o topo de cadeias alimentares, seja uma espécie invasora. Não tem problema em acabar com um ecossistema só.

Lunar: Isso é meio radical, mas... talvez, só talvez, eu faça.

Krallon: Enfim, vê se faz algo de útil aí, tô vazando.

Lunar permanece quieto por mais alguns minutos, até que vê que seu corpo começa a regenerar. Quando seus membros regeneram completamente e seu estômago também, ele volta ao normal e percebe que nas marcas dos cortes ficaram cicatrizes. Letícia novamente se aproxima do jovem.

Letícia: Eu gostaria que você participasse do nosso grupo de contenção contra demônios.

Luke: Foi mal, eu não tô interessado, fora que eu teria que ficar longe da minha irmã e amigos.

Letícia: Não precisaria disso na verdade, pode continuar vivendo na sua casa, só iríamos manter você no controle. Realmente precisamos de um grupo no Rio Grande do Sul também, a organização começou no sudeste, se espalhou para o centro-oeste, norte e nordeste, mas só recentemente para o sul, e ainda falta o Rio Grande do Sul.

Luke: Qual o salário?

Letícia: Por volta de 60 mil mensal, com seguro.

Luke: Quando vocês se mudam pra lá?

Letícia: Esse garoto parece mesmo estar desesperado por grana... Pelo que parece ele perdeu a mãe e agora tem que trabalhar pra sustentar a irmã. Mas ele ainda é um receptáculo, não posso ter pena.

A agente da organização se encontra fora da sala segundos após essa conversa, ligando para Bruno. Luke assiste a ligação enquanto fica sentado na maca, vendo um cinzeiro com um cigarro ao lado da cabeceira.

Luke: É sério que tavam fumando aqui?

Neiva: Pois é, um absurdo. Sou Neiva.

Com os olhos pouco arregalados, ele olha para trás e vê uma mulher de cabelos brancos e cílios grandes, além de belos olhos azuis. Ele suspeita, mas não questiona sobre quem ela é.

Luke: Quando foi que você entrou aqui?
A mulher de altura relativamente baixa se aproxima dele, sentando no seu colo. Ela não fala nos primeiros momentos, bota as mãos geladas nas bochechas dele.

Neiva: Você é perfeito, sabe? Ferido, mas não se quebra mesmo com tudo que passou, não é só um homem, é a resiliência de alguém que realmente está dedicado a proteger sua família, é lindo, mas ingênuo.

Luke: Aí, tá tirando com a minha cara ou o que?

Do completo nada, Luke sente um aperto no pescoço, e quando olha para baixo, em seu pescoço há uma coleira com uma corda que Neiva segura com a mão.

Neiva: Normalmente pactos são feitos com demônios, mas o demônio coleira tem o poder de manter em ordem aqueles que concordam em ser seus bichos de estimação. Você é o meu mais novo mascote, mas não precisa me chamar de chefe, você é diferente dos outros, não é, Luke? Talvez queira mais do que só proteger os outros. Todos tem vontades, me digas as suas.

Luke: Ô demônia da fuleragem, eu não tô interessado no que cê tá falando, só quero meu dinheiro.

Neiva: Você quer amor, eu sei disso.

Luke: Cala a boca...

Neiva: Sua amiga morreu, mas isso não te impede de ser amado. Entendo como dói perder uma pessoa que você gostava dessa forma, mas outras pessoas ainda podem te amar, te desejar...

Ela chega cada vez mais perto de Luke, quase tocando os lábios dela nos dele. O jovem fica chocado e apenas se afasta para trás. Era estranho, uma mulher que ele acabou de conhecer fazendo isso, mas ele não podia deixar de admitir, ela é atraente. Só que isso nunca foi o que Luke buscou.

Para Luke, a pessoa ideal não é apenas bela, mas sim deve ser conhecida primeiro, desvendar os interesses do seu companheiro, o que ele gosta, o que não gosta, como age, o que precisa. E quase ser beijado aleatoriamente para ele é estranho.

Porém, Neiva não deixa de perceber que ainda outra parte do corpo dele que não rejeitava essa ideia, e isso tira uma risada dela. Ela levanta, e olha para Luke antes de sair pela porta.
Neiva: Você é diferente mesmo. A maioria não iria recuar nessa situação, mas você é diferente mesmo, devorador de demônios.

Olhando suas cicatrizes, ele não responde ela e apenas a deixa sair, pensando em como iria esconder essas cicatrizes para que sua irmã não acabasse enxergando. Uma hora ele teria que falar, mas esse não é o momento, considerando que ela é apenas uma criança.

Mais tarde, Luke já estava de volta em casa e podendo aproveitar o resto do dia com sua irmã. Por outro lado, Bruno havia comprado um apartamento perto de Luke, em outro prédio.

Bruno: Esse cara é mesmo fudido... Perdeu o contato com o pai, a mãe se suicidou na sua frente, teve que deixar os estudos pra começar a trabalhar em dois empregos. Lembra um pouco eu mesmo.

Letícia: Falando sozinho?

Saindo do banheiro, Letícia fala em tom de piada, apenas para zoar um pouco seu colega.

Bruno: Eu tava vendo a ficha do Luke. Pra ser sincero, acho idiotice quando as pessoas pensam em se matar. Elas se vão e deixam esse mundo como se ninguém fosse se importar, mas Luke é um dos maiores exemplos que isso não é verdade.

Letícia: Ele é diferenciado, a Neiva disse. Eu não entendi o motivo, mas ela tentou beijar ele pra testar ele, mas enfim, não vou perguntar nada. A desgraçada é mais nova que eu e é minha chefe.

Bruno: Desde quando ela tá trabalhando, só pra eu saber?

Letícia: Ela tem 18 anos, é bem jovem ainda, e começou parece que há 2 anos. Não sei como alguém com o poder de criar coleiras se tornou tão influente na organização de contenção de demônios. Ninguém sabe muito sobre ela.

Bruno: Demônio coleira... Não é totalmente inútil, poder controlar os outros por aceitar trabalhar com você. Mas eu e você entramos antes dela começar a trabalhar, por isso estamos livres disso.

Num silêncio, Letícia tira uma caixa de cigarros do bolso e Bruno observa com um pouco de desdém. Ele não gosta de quando sua parceira fuma, justamente por ser um hábito prejudicial para a saúde.
Letícia: Qual foi? Sei que você não gosta, mas aí o problema é seu, hein.

Bruno: Tem algumas coisas que me irritam em você, mas tudo bem, eu não posso reclamar de tudo.

Letícia: Você é preocupado demais com essas coisas, sabia?

Bruno acaba por não se importar tanto com a última frase dela, virando sua cabeça para o calendário. Dia 23 de dezembro, quase natal. Ele pensou em como Luke passaria o natal, talvez seus avós fossem até lá, mas ele quis ter certeza.

Bruno: Quer convidar o Luke pra passar o natal com a gente?

Letícia: Você gostou mesmo do garoto, né?

Bruno: Só me dá pena ele ter que passar o natal só com sua irmã.

Letícia: Claro que pode chamar ele.

Com um leve sorriso, Bruno vai até a cozinha e começa a lavar a louça enquanto Letícia fuma perto da janela da sala. Normalmente é assim, Bruno gosta de arrumar a casa para a deixar organizada para poder descansar tranquilo mais tarde.

De certa forma, Luke e Bruno tem uma rota parecida, mas com ordens diferentes. Os dois perderam a família, os dois perderam parte da sua positividade e racionalidade por um momento. Mas continuam tentando proteger aqueles que amam, a diferença é que Bruno sente medo demais, enquanto Luke é corajoso em excesso, tornando essa coragem uma forma de imprudência.

A resistência de dois homens que perderam pessoas amadas e a decadência ao agir por impulso, apenas para preencher de água um copo invisível, que só existe para eles. Criaram objetivos desnecessários, e agora sofrem mais ainda por isso.

Luke foi imprudente ao mostrar o que fez, um segredo que não podia ser revelado, se tornou um receptáculo, e agora usa do poder para lidar com as coisas de um novo jeito. Mas Bruno? Ele não sabe como ajudar Luke, mesmo que quisesse, ele não sabe a resposta, pois tem o mesmo problema que ele. É isso que faz Bruno se ver em Luke, os dois são como um espelho que cria uma imagem distorcida. Parecidos, mas tem suas diferenças claras.

No quarto de Luke, ele dormia em um sono leve, pegou no sono há poucos minutos, e sente algo em cima dele, na sua barriga. A sensação de peso é estranha, e ele acorda.

Neiva: Falei sério quando disse que você é diferente. Mas agora eu quero mesmo saber de uma coisa, quero que você mesmo diga. O que você deseja, Luke? Eu não quero saber de suas promessas para os outros, eu quero saber suas vontades para si mesmo.

Com o choque, ele olha nos olhos dela e pensa por alguns segundos, não se importando com a posição em que os dois se encontram.

Luke: Eu quero uma vida feliz. Eu quero dar uma vida boa para a minha irmã até que ela possa viver por si mesma, e depois eu vou procurar alguém que possa me amar, ter realmente uma casa legal com coisas legais. Quero ter algumas coisas que desejo, objetos, experiências, até comidas. Mas eu quero mesmo alguém que faça eu me sentir especial.

Neiva: Eu posso te dar isso se você de devotar para mim. Se me ajudar, eu vou te amar, e vou te fazer sentir amor, vou tocar em você, conhecer cada centímetro do seu corpo, fazer suas vontades mais sujas. Não precisa sentir vergonha, eu estou aqui para tentar te entender.

Ela deita em cima do corpo do adolescente, o que faz ele ficar corado e endurecer o seu corpo. Ele já tinha feito esse tipo de coisa, mas sentiu muita vergonha, e agora que está fazendo de novo, nada mudou nele, mas sim na situação. Agora ele realmente sente algo, pois a mulher que está colada em seu corpo se importa com ele.

E sem esperar isso, Luke sente os frios lábios de Neiva tocarem os seus, e simplesmente se deixa levar pelo acontecimento. Finalmente achou alguém que havia se declarado para ele, o amor de uma mulher misteriosa por um devorador de demônios.


Capítulo 7: Frio como você

???: Se tivessem me dito que eu era estranho antes, talvez eu não fosse o que sou agora por vergonha de não ser aceito. Mas será que eu ainda seria eu mesmo?

Na perspectiva de alguém, esse alguém estava andando por uma floresta nevada. Sentia o frio tocar em seu corpo, se ajoelhando e enterrando as mãos na neve.

???: Eu não sou forte como ele, eu nunca fui e nunca vou ser. Por que eu sou tão idiota?

Ele se pergunta aos prantos. A dor de se comparar com sua inspiração e se sentir um nada. Essa sensação machuca, te deixa vulnerável, mas é uma dor que você mesmo cria, um fardo que você aplica a si mesmo.

No frio dessa floresta, a pessoa finalmente cai na neve. Às vezes sonhos querem nos dizer alguma coisa, nem que seja em um enigma que não entendemos que precisamos decifrar, e Kenni acorda do seu sonho. O garoto nem levanta da sua cama e pega seu celular, havia uma notificação de Luis o chamando para ir até sua casa, que ele aceita ir.

Kenni: É isso?

Luis: "É isso"? Eu disse que ele virou o demônio e tu só reage bem de boa?

Kenni: Sei lá, eu não me importo tanto.

Mesmo após Luis falar coisas absurdas das quais ele viu, Kenni não reage com surpresa. Não foi forçado, Kenni simplesmente não se interessou, ele já via Luke como alguém melhor que ele, e tratou isso apenas como algo extra que apenas destaca ele ainda mais.

Kenni: Quer jogar?

Luis: Kenni, isso não é piada. Eu não sei o que a gente faz agora, mas foi o Luke que pediu pra eu te avisar disso. Além disso, a Sophia morreu.

Kenni: Ué, e por que ela morreu eu não posso jogar?

Luis: É estranho eu ter que ser a voz da razão, mas eu não tô pedindo pra que você chore pelo que tá acontecendo, só mostra o mínimo de respeito.

Kenni: E eu respeitava a Sophia, e também respeito o Luke, ele é foda.

Luis: Não é só sobre falar, você tem que agir da forma que você tá falando que pensa. Por exemplo, não pode dizer ser inocente e cometer um crime.
Kenni simplesmente começa a pensar em outras coisas enquanto Luis falava com ele. Ele não se importa tanto quando o assunto acaba ficando contra seu conforto, mesmo que ainda não quisesse admitir.

Mas em meio aos seus pensamentos de qualquer outra coisa que fosse, ele acaba sentindo o toque do seu amigo em seu braço.

Luis: Kenni, por que você tá tão frio?

Kenni: Eu só tô ouvindo, que foi agora?

Luis: Não é isso, você tá MUITO gelado, é sério, seus dedos tão bem pálidos.

Kenni: Ah, sei lá, eu tô assim faz alguns dias. Mas agora que você falou, você também tá gelado.

Luis solta o braço do amigo, tocando a própria pele e sentindo, quase na mesma intensidade, mas ainda menor, o alto frio em sua pele.

Luis: É verdade... Vamos pedir ajuda pro Luke?

Kenni: Não é melhor a gente falar com os nossos pais?

Luis: Eu quero ver se ele consegue fazer algo pra nos ajudar com algum poder foda, sei lá.

Kenni: Ok, eu também quero agora.

Kenni vai até a porta do quarto para a abrir. Quando isso ele vira a maçaneta, sua mente rapidamente entra em um curto colapso, sua visão fica turva e sua visão inteira fica branca e vê uma mulher em sua frente, Neiva, mas borrada e desconhecida para ele.

Neiva: Oh, doente? Eu posso te ajudar.

Kenni: Quem é você?

Com um sorriso de canto destacado em sua pele pálida, ela se aproxima e fala no ouvido dele, não em um tom sedutor, mas sério.

Neiva: Você quer poder também? Aceite ser meu que eu te darei a chance de ter.

Kenni: M-Mas do que você tá falando?

Neiva: Vamos logo, aceite.

Kenni: Eu... É que... Isso... Aceito.

Ele fica confuso, ele não queria falar que estava a aceitar o contrato, mas sua vontade falou mais alto. O anseio de ter a chance de ser igual seu amigo? Talvez, mas Kenni não entendeu.

Novamente a visão de Kenni se altera, novamente naquela floresta nevada, dessa vez, Luke estava na sua frente há poucos metros com um olhar neutro. Kenni se posturou, ainda sem entender o que acontecia.
Luke: Você ainda se afoga na sua própria e vaga mente?

Kenni: Eu não... C-Cala a boca, eu sei que não é você.

Luke: Mas ainda te faço tremer, não é? É esse o frio que você sente, não o do frio, o de ser pequeno comparado aos outros. Mas tudo bem, você não precisa tentar, você nem mesmo vai chegar a ser metade do que ele é agora, é só mais um idiota.

Kenni: É mentira, e-eu posso mais!

Luke: Vai tentar mentir para si mesmo? Isso é seu sonho, o sonho que você sempre tem. Se até sua mente tenta te dizer, por que ainda não aceita o fardo de ser irrelevante?

Em seu próprio sonho foi calado, e por isso assim fica. Os flocos de neve caem cada vez mais, Kenni treme mais, mas finalmente aceita, não é frio, é insuficiência.

"Talvez eu pudesse ser mais forte", "Talvez eu pudesse ter feito diferente", são pensamentos que Kenni tem. Muitas vezes pensamos assim, mas ignoramos o fato que o passado não volta mais, e nossa realidade é só uma. Temos infinitas decisões e infinitas possibilidades em nossas vidas, mas nunca pensamos que poderia ter sido pior, a verdade é que ansiamos pela perfeição de nós mesmos, como se isso fosse humano ou natural.

Nunca seremos 100% o que desejamos, o que basta é esperar que a decisão que tomemos seja a melhor, ainda que não saibamos por completo totalmente isso. Em uma infinitude de caminhos para se traçar não temos um guia, apenas vemos estradas, longas e impossíveis de ver seu final.

E por que Kenni continua se julgando? Simples: Ele não sabe. Julga a si mesmo como se fosse a escória de si mesmo, preso às possibilidades que poderiam ter ocorrido, e não ao que pode se tornar. Preso ao seu passado, ele sufoca seu presente, e consequentemente, seu futuro.

Luke: Nem mesmo consegue se sentir feliz consigo mesmo, como espera ser alguém? Fique com isso.

Enquanto a figura de Luke some na frente do garoto, ele desaba no chão, fazendo cair do seu cabelo moreno a neve nele. Agora só lhe restava chorar por fraqueza.
Kenni: Eu só não queria ser fraco, é pedir demais?...

Pela última vez, A visão de Kenni se altera, dessa vez, ele acorda e se vê na casa de Octávia, parece que Luis o levou até lá para que ela ajudasse, já que ambos moram perto um do outro.

Com Luiz, o rumo se mostra diferente, ele está no meio de uma floresta com os olhos na cor cinza, apenas explorando visões rápidas como se estivesse correndo por fora de seu próprio corpo.

Ele corre com sua visão por vários quilômetros, chegando até na casa de Luke. Ele vê Luke deitado com Neiva na cama, os dois conversando.

Luke: Quando você falou de eu ser seu novo mascote, o que quis dizer com isso?

Neiva: Não é óbvio? Eu sou o demônio coleira, posso comandar aqueles que aceitam meus contratos, sendo praticamente mascotes. Mas não entenda mal.

Luiz: Porra, tudo tá acinzentado e eu não consigo ouvir nada, mas quem é essa mulher? Ele não me falou que tava pegando uma gostosa. Ele não fala comigo há uns dias na verdade.

Nesse momento, ele volta à sua visão normal e pensa em esperar algumas horas para conversar com seu amigo.

Agora que ele tinha poder, ia convencer seu amigo, o controle da situação finalmente seria dele, triunfante como um líder, é isso que ele quer senti agora.

Chegado essa hora, ele bate na porta do apartamento de Luke, esperando que ele abrisse a porta. Passam alguns segundos e Luke abre a porta, os dois se encaram. Mas estranhamente nenhum dos dois sentiam o cheiro de demônio vindo um do outro. Pelo tipo de demônio com quem ele fez o pacto, Luiz não tem cheiro de demônio, mas Luke tem o cheiro de um demônio ainda mais forte que receptáculos normais por conta do coração de Krallon.

Luiz: E aí, irmão? Faz uns dias. Continuou indo na academia, né?

Luke: Óbvio cara kkkk, que dúvida, mas acabei faltando uns dias atualmente, nada demais, apenas fiquei ocupado.

Luiz: Bem ocupado no seu quarto né...

Luke: Em? Não entendi não.

Luiz: Nada não, deixa isso de lado.
Eles sentam em duas das cadeiras na cozinha, pegando um cereal para comer puramente como se fosse um salgadinho. Luiz finalmente começa a falar o que quer.

Luiz: Olha só, você sempre se arrisca bastante, né?

Luke: É... Tão reclamando disso bastante esses dias.

Luiz: Eu também fiquei pensando nisso. Luke, não dá pra você continuar se arriscando assim, não pensa que isso pode acontecer de novo? Proteger uma pessoa aleatória e acabar ficando incapacitado de ajudar até mesmo sua irmã.

Luke: Vocês são muito precipitados, se eu posso ajudar alguém que precisa, por que eu não faria? Eu posso até acabar machucado, mas ainda assim, a decisão é minha, eu não me conformaria em deixar aquela atendente ser machucada por aquele homem, por exemplo.

Luiz: Não se arrepende? Não salvou sua mãe por isso.

Luke: Espera aí, tá pesando demais as coisas agora, cara.

Luiz: Como eu pensei, não vai concordar.

No meio da conversa, Luiz muda a coloração de seus olhos, que antes naturalmente castanhos, agora mudam para azuis com os círculos em volta. Luke instintivamente deixa seus olhos vermelhos. Os dois levantam e se encaram.

Luiz: Não é possível isso não.

Luke: Com que demônio você fez pacto?

Luiz: Bijon. Mas por que eu não senti o seu cheiro?

Luke: Então não é físico... Mas não sei, também não senti o seu.

Luiz: Isso é por conta do tipo de demônio quem eu fiz pacto. Agora me diz você, me diz o demônio.

Luke: Foi pacto espiritual também, Krallon é o nome do demônio.

Eles continuam com a encarada. Eles observam atentamente se qualquer um dos dois vai fazer algo, mas não existe hostilidade, não querem se machucar. Depois de muitos segundos olhando para a face um do outro, eles começam a rir.

Luiz: Sabe o mais engraçado? Eu virei demônio pra tentar convencer, mas parece que não vai ser hoje kkkkk.

Luke: É... Ha...

Luiz: Parece que a gente vai ter que brigar, não é?

Luke: E-Espera aí, não precisa disso. Desculpa cara, mas não vou concordar.
Luiz: É, eu sei, e por isso eu vou te dar uma surra tão forte que vai ser obrigado a fazer o que eu quero. Mas eu não vou fazer isso aqui, não na sua casa. E só mais uma coisa: Preste atenção em como os outros dão atenção pra você. A gente se vê em até um mês.

Luke não responde, ele fica parado e não toma uma atitude em relação a um amigo seu pela primeira vez em anos. Quando ele hesitava, era com sua mãe, ele pensava como responder, mas nunca respondia, tendo medo que ela pudesse discordar e se irritar.

Mas o que aconteceu agora é uma declaração de luta, e Luke sabe disso, mas é questão de tempo, Luke deve aceitar ou derrotar seu amigo.

Não é como se Luke estivesse com medo, embora com sua mãe tenha se sentido assim, por seu amigo é apenas não saber o que fazer, ainda que o sentimento do medo que sentia nas vezes que isso acontece com sua mãe. Dessa vez o dilema não é só sobre família, se Luiz estiver mais louco, mais que Luke, eles podem acabar fazendo pior do que somente uma luta entre os dois, uma catástrofe que pode destruir mais do que uma casa só, dois demônios competindo pela liderança, isso é uma cruzada do inferno.

 
Capítulo 8: Acordo?
 

 
Da última vez que Luiz e Luke discutiram, foi quando ainda não eram amigos. Embora sejam melhores amigos, os dois já se odiaram, há 5 anos, Luke já estava cansado de todas as vezes que Luiz implicava com ele na escola. Luke não podia evitar, pois Luke ainda falava com o irmão mais velho do seu amigo.

Quando Luke decidiu tomar uma decisão, acabou fazendo algo bruto demais, se exaltou, humilhou Luiz com palavras, todos os fracassos que Luiz havia tido, seus erros, imperfeições. Luiz nunca esqueceu, mas não se irrita, apenas guarda isso como uma memória de que também havia sido cruel com Luke, e aquela teria sido apenas a resposta.

No caminho para a sua casa, Luiz dá de cara com Octávia. Ele chega perto dela e a cumprimenta.

Luiz: Opa, tá indo aonde?

Octávia: Na verdade eu tava indo na sua casa agora, pensei que tava lá. O Kenni e o Luis tão no hospital agora.

Luiz: O que aconteceu com eles?

Octávia: É que os dois tão bem gelados, sério, é como encostar em uma lata de cerveja que o seu pai escolheu.

Na frente de Luiz, uma explosão repentina acontece na sua frente, no quarteirão da sua casa, que devasta a área inteira. A cena acontece em câmera lenta, toda sua família estava em casa quando ele saiu para ver Luke.

Sem hesitar, Luiz se transforma, agora com veias por todo o corpo, que se formam como tranças de uma corda em seus braços e pernas, enquanto seu rosto continua com a aparência deformada da última vez. Ele corre, corre o máximo que pode, só para chegar e ver um demônio preto com uma máscara, peitoral, braçadeiras e uma fustanella estilo soldado grego, todas com a cor vermelho carmesim um pouco saturado, sem contar nas grandes chamas vermelhas que formam um grande cabelo e também em seus ombros.

O demônio tinha por volta a altura de três homens aos olhos de Luiz, mas isso não o assusta, o que o assusta são as manchas de sangue que aparecem em volta do demônio. Até que o demônio olha diretamente para ele.
Demônio: Ha! Finalmente voltou! Eu estava te esperando. Sem demoras, agora será o demônio da visão contra o demônio carmesim, mas também pode chamar de Crimson!

Demônio da visão: EU VOU TE MATAR SEU FILHO DA PUTA, VOCÊ DESTRUIU MINHA CASA E MATOU MINHA FAMÍLIA.

Crimson: Deixa dessa, você é um demônio, demônios não tem família.

Demônio da visão: Ah seu corno, você vai se arrepender do que fez!

Crimson, com uma face entediada olha para o demônio da visão e mira a palma da mão para ele.

Crimson: Você é chato. Sangue, flua.

Em um disparo fino e veloz, sangue é disparado pela mão de Crimson. Sem conseguir reagir direito, o demônio da visão bota seus braços na frente e é empurrado para trás, rolando pelo chão entre destroços da explosão anterior.

Demônio da visão: Droga, por que esse cara tá aqui? Por que ele fez isso? E como eu vou derrotar ele?

Bijon: Tá precisando de ajuda, né?

Demônio da visão: Se você vai falar sobre assumir meu corpo, eu só quero que não mate a garota que tá aqui perto, ela é minha amiga.

Bijon: Tudo bem. Minha vez.

Bijon assume o controle do corpo, transformando o corpo com mais veias, que saem da pele e se enrolam no corpo inteiro até formar uma casca parecida com a de uma árvore de carvalhos e criando um grande olho no peito, além de que seu cabelo preto continua, com mais pelos nos cotovelos.

Ele avança no demônio carmesim, a diferença de tamanho agora é um pouco menor. O corpo de Luiz, antes com 174 centímetros, agora estava em torno de 12% maior. O demônio carmesim consegue interceptar a chegada do oponente, mas ainda é acertado por um soco na barriga, o que faz ele se curvar.

Crimson: Nem parece o mesmo de antes, literalmente.

Bijon: Escuta, essa agora é a sua vez de perder algo. Eu sou justo, você tirou coisas do garoto, você vai perder sua vida.

Crimson: Chato pra caralho irmão, pelo menos você quer lutar. Vai sentir sangue carmesim perfurar seu crânio.
Enquanto os dois volta à luta, Octávia não consegue deixar de olhar para os dois, abismada. Ela não sente um medo extremo, apenas um pouco, mas vê como se fosse entretenimento.

Octávia: Por que que tô gostando disso? Eu devia estar preocupado com o Luiz...

Correndo do sangue carmesim, Bijon passa em uma rasteira por baixo de Crimson. Agora, ele muda seus olhos para vermelho e olha para as costas dele, começando a queimar o corpo do demônio carmesim, que se vira e atira a própria mão nele, atingindo ele como um míssil pelo impulsionamento de sangue, logo regenerando a mão.

Bijon: Isso doeu, eu admito, mas a luta parece bem equilibrada.

Crimson: Entendeu agora? É diversão!

Bijon: Bem, vejo que eu vou ter que apelar.

Crimson: Então se é assim, vem! Ha haaaa!

O demônio fica em uma pose de caratê, esperando apenas que Bijon reagisse, e isso ele faz, correndo até o demônio carmesim. No meio do caminho ele cria uma lâmina com o próprio corpo, enrijecendo e friccionando o material até que queime, ele disfere um corte no braço de Crimson, que falha em tentar se defender com um disparo de sangue carmesim. Finalmente Crimson perde o sorriso do rosto, abaixando a cabeça e botando a palma da mão no rosto.

Crimson: Ok, você falou que ia apelar, né? Vou ter que fazer o mesmo. FIW, DEMÔNIO FURA FURA COM SANGUE, ARROMBADO KKKKKKKK.

Imitando o som do próprio sangue, ele dispara sangue com a mão que estava no rosto, agora o sangue causa uma explosão quando Bijon desvia para o lado, o mandando para longe. Dessa vez o sangue era rígido, como um pedaço de aço que explode por repentinamente aumentar seu calor de forma absurda ao encostar no chão.

Crimson: Esse é o poder do meu carmesim! HAAAAAAAA!

Bijon: Isso não faz sentido, não é o poder de um demônio físico.

Crimson: Talvez você não saiba, mas existem demônio que são criados pela pura vontade de humanos. A criatividade deles é incrível, não acha?

Bijon: Que se foda, vou te partir, desgraçado.
Numa contínua intenção assassina, Bijon pula em Crimson, que se impulsiona para trás e mira mais sangue, mas Bijon muda a cor dos olhos para amarelo, prevendo que seu futuro seria de ser explodido se tentasse defender com a lâmina. Então ele prefere atirar a lâmina no sangue, que explode no meio do caminho.

A luta continua com um avanço de Crimson, que tenta pisar em Bijon, mas é afetado pelos olhos azuis, que impedem que ele termine de pisar, permitindo que Bijon desvie e Crimson termine de pisar no chão. Ele muda os olhos novamente, usando os olhos vermelhos para causar dano de queimação, que Crimson já entende e fecha os olhos, atira sangue carmesim no chão, o explodindo, joga Bijon para trás.

A única pessoa por perto, Octávia, não conseguia deixar de assistir a luta dos dois demônios. Ela se imagina participando daquilo, um desejo que ela não sabia que tinha, mas que estava dentro dela, participar de tal brutalidade, um desejo fantasioso e diferente para uma mulher.

Octávia: Talvez eu pudesse estar no mesmo lugar que o Luiz, é só eu...

Ela começa a caminhar até os dois, ficando há poucos metros deles, até que Bijon passa por ela e a agarra, começando a correr por ela. Ele desvia do sangue de Crimson passando por trás de prédios que são explodidos.

Bijon: Você é retardada ou o que? Sai de perto daqui, seu amigo disse que não é pra você morrer.

Octávia: Me dá poder também.

Bijon: Não é assim que funciona, mas-

Tendo que pular para cima de uma casa para desvia de uma explosão, Bijon continua sua fala percebendo que Crimson não o viu chegar ali.

Bijon: Talvez possámos acabar com essa situação se você pedir um pacto, e aí você fica com um pouco de poder daquele cara. Apenas desce dessa merda e diz que você quer um pacto...

Ele pensa mais um pouco, fecha os olhos e pensa na imagem da garota. Ela não se importa em se arriscar nessa situação, então ele reformula o que quis dizer.
Bijon: Você vai comer o coração dele.

Octávia: Espera aí, isso aí não é um pouco demais?

Bijon: Faça o que eu digo, sem questionar.

Octávia: Tanto faz, cara.

Ela desce do telhado da casa, machucando um pouco as pernas, mas não dá importância. Ela começa a caminhar na direção do demônio carmesim, Crimson, que vê ela e para de procurar por Bijon.

Crimson: Que foi, porra? Eu tô ocupado aqui, tá cego? Meu faro tá todo confuso por causa do sangue, talvez ele tenha fugido porque EU SOU FODA!

Octávia: Eu quero um pacto.

Crimson: Fiw, engraçadão você.

Octávia: Pode me reconhecer como garota?

Crimson: Foi mal, é que tu é nanica, sabe? Eu não vejo diferença nenhuma entre vocês. Eu não vou fazer pacto algum.

Octávia: Eu podia... ficar forte o suficiente pra poder lutar contra você. Isso não iria te satisfazer?

Crimson: AH SIM, EU VOU DOAR PARTE DO MEU PODER SÓ PRA VOCÊ TENTAR LUTAR CONTRA MIM, EU SOU IDIOTA.

Octávia: É sério, me dá uma chance, eu sei que eu posso conseguir...

Crimson: Bem, me conta sobre você, talvez eu fique com remorso... Ha ha, piada.

Octávia olha para o demônio e vira suas pupilas para o lado, parecendo estar meio envergonhada em falar sobre si mesma.

Crimson: Seu passado talvez? Vontade? Já sei! Me fala se você ama algum cara e ele te humilha ou não sei o que, aí eu vou querer ver você esfregar na cara dele!

Octávia: Ok, tem um amigo que eu gosto. O nome dele é Luke, mas ele... gostava de outra, ela morreu. E eu não sei, seria certo eu me declarar pra ele? Seria certo eu me aproveitar que a outra já não tá mais viva? O que ele vai pensar?

Crimson: Garota, chega nele e segura na rola dele e fala assim: Ó o carro do leite passando! KKKKKKKK.

Octávia: Isso é realmente uma dica horrível, mas acho que em uma coisa cê tá certo, eu tenho que falar pra ele, mesmo que ele não vá dizer que sente mesmo.

Crimson: Hm, isso é uma atitude. Mas eu ainda quero que me conte mais. Traumas, que tal?

Octávia: Quando eu era menor, eu já fui "tocada" por um primo, e isso me traumatizou ao ponto de eu tratar aquilo como normal. Mas o Luke me mostrou que essa merda não é comum, hoje eu sei o quão desgraçado ele foi, mas eu não busco vingança, mas eu bateria nele se tivesse a chance...

Crimson: Eu pensei aqui, você vai ficar com 1% do meu poder, isso já é bastante coisa pra um humano otário, não acha?

Octávia: Acho sim.

Crimson: Então... Temos um pacto?

Ele estende sua mão para que ela aperte, ainda que sua mão seja muito maior que a dela. Octávia abre um sorriso no rosto e responde com otimismo.

Octávia: Não.

Ele recua poucos centímetros para trás em confusão, mas quando ele vai falar algo, seu pescoço é cortado e sua cabeça cai.

A sua vista para em Bijon, que agora estava com uma katana conectada a si mesmo. Bijon vira o rosto para o inimigo, estalando a língua com um sorriso de vitória antecipada.

Bijon: Eu diria que agora pode chamar o garoto de... Wushi.

 


 
Capítulo 9: Acho que não!

Com a cabeça no chão, Crimson se ajoelha com o seu corpo para tentar pegar ela. Ele estava visivelmente assustado, pois não esperava um ataque tão rápido.

Crimson: Ok, agora eu me caguei.

Tomando a consciência de volta, Luiz, agora como Wushi, já entende a situação pelo que ouviu e viu pela visão de Bijon. Agora ele já sabe o que fazer.

Wushi: Pode me emprestar um negócio rapidinho, cara?

Crimson: Tá falando do que?

Em uma estocada na qual Wushi fura o peito até chegar no coração de Crimson, se apoiando no peito do demônio e socando. Com o peito furado pelo braço e espada de Wushi, Crimson consegue finalmente pegar sua cabeça e socar o próprio músculo aonde Wushi está... Ou estava.

Wushi: Seguinte, teu coração é grandão cara, dá pra fazer um churrasco só com isso aqui.

Crimson enxerga seu coração na mão de Wushi, pulsando e espirrando sangue. Aquilo o deixa nervoso, pela primeira vez, ele estava perdendo, e isso coloca sua vida em jogo.

Colocando as mãos nas chamas de seus ombros, ele cria duas lanças de sangue flamejantes, agora decidido em matar a humana e o receptáculo.

Crimson: Agora eu entendo porque tem demônio que odeia tanto assim os receptáculos. Mas pra falar a verdade, ESSA SENSAÇÃO É ÓTIMA!

Wushi: Beleza kkkkkk. Agora vamos ver se você aguenta de verdade!

Crimson: Finalmente alguém completamente interessante!

Crimson cruza as lanças em um X na sua frente, lançando logo um corte de fogo na direção de Wushi, que pula por cima e teleporta até a cabeça do demônio carmesim com seus olhos verdes, possibilitando cravar a katana na testa dele.

E FIW, DEMÔNIO CARMESIM FURA SUA PRESA. Com sangue saindo do buraco criado pela katana, sangue é espirrado e fura Wushi, que cai, mas cai rasgando a pele do carmesim, cravando a katana no peito dele e agora correndo pelo corpo dele até a cintura, pulando de volta para o chão, se defendendo então das lanças de Crimson com a lâmina da katana apoiada no outro braço.
O choque do encontro das armas causa um impacto no chão, estremecendo o bairro inteiro só com a força deles. A luta tomou uma proporção perigosa, nenhum dos dois desejam ser descoberto, mas também não querem morrer, e sabem muito bem a intenção de cada um.

Wushi: Aí, só vai ficar empurrando essa bosta?!

Crimson: Cala a boca, só tô tentando ficar vivo!

Ao mesmo tempo que os dois estão na luta, Octávia, segurando o coração de Crimson, se vê no lugar de Wushi, tendo finalmente a oportunidade de ser a próxima a arriscar sua vida somente por diversão. Talvez ela não entenda, mas isso é completamente idiota.

Com as duas mãos no coração, ela morde o órgão e arranca um pedaço com dificuldade e extremo nojo do gosto, causando grande dor a Crimson, que ruge e acaba tendo um deslize, que dá brecha para Wushi avançar contra o pescoço dele e o cortar com sua katana, mas não sendo o suficiente para cortar sua cabeça novamente.

Wushi pousa no chão, se distanciando um pouco do demônio carmesim, que fica em posição de luta de novo, com raiva por ter sido atordoado.

Crimson: Covardia demais isso aí, eu já entendi o que quer fazer, mas não vai me fazer desistir.

Sua katana ensanguentada e sua confiança no alto, Wushi não responde, ele ri, ri genuinamente. Octávia e Crimson não entendem, mas Wushi estava, ele se deixou levar pela insanidade. Um homem pobre normalmente não sente confiança o suficiente para arriscar seu dinheiro, mas se esse mesmo homem fosse rico, ele apostaria mais fichas para tentar ganhar ainda mais. Agora que tem poder, Wushi não precisa ter medo de perder membros do corpo, por que ele não faria então? Se suas ações não têm consequências físicas, pra ele não faz diferença.

Crimson: Se já enlouqueceu, eu só peço para continuar essa luta, eu tô curtindo, sabe? Mesmo com... chance de morrer.

Wushi segura sua katana em pose correta novamente, ele não responde com palavras, mas com sua ação. Dessa vez, ele vai garantir que o que ele quer, aconteça.

Ele pisca seus olhos, mudando para o vermelho, agora vai ser totalmente brutal, sem efeitos diferentes, Wushi não quer brincar, vai ser na porrada, ou melhor, corte!

Os dois avançam contra si, Crimson tenta bater em Wushi com suas lanças pegando fogo, mas é bloqueado com a lâmina da katana todas as vezes, até que Wushi pula em uma das lanças e pula até a cabeça do carmesim, que ainda consegue reagir e cabecear, afundando Wushi no chão, e ainda o perfura no peito com sua arma.

Crimson: Já pode desistir, não vai fugir.

Wushi: Enquanto eu não me ver no inferno, não tô morto!

Ouvindo um corte, Crimson percebe que Wushi foge dele em um piscar de seus olhos cortando uma das lanças. Arrancando a parte da lança do peito, Wushi regenera seu corpo e continua lutando, correndo e fatiando os dedos de Crimson, que tenta socar ele, mas erra.

Com um corte em diagonal, Wushi consegue cortar a cabeça de Crimson novamente, deixando ele ver o próprio corpo com a cabeça lá em baixo enquanto ele permanece em cima do resto de sua cabeça que está conectada ao corpo.

Wushi: Eu vou te dar uma última chance de viver, cara, aceita fazer um pacto com ela ou não?

Crimson: Até parece, acha que eu não tenho mais nenhum truque mesmo?

Em uma espirrada rápida, sangue sai da cabeça cortada de baixo de Wushi, que explode com o sangue carmesim logo o atingindo, também empurrando o corpo de Crimson, mas agora sua cabeça regenera e a antiga, no chão, se torna inútil.

Da explosão do sangue carmesim, Wushi cai em pé no chão, ferido e com queimaduras, mas logo se regenera sem problemas, pelo visto danos fatais não são perigosos para nenhum dois se for no coração.

A visão de Octávia era conturbada, dois demônios lutando mais rápido que a velocidade do som, então ela nem mesmo conseguia acompanhar a velocidade agora, já que antes não estavam tão velozes, e isso só a deixara mais ansiosa por poder, mas não conseguia comer o coração do demônio pelo nojo de seu gosto horrendo.

Wushi: Eu já tô cansado disso, vou acabar com isso de uma vez.

Crimson: Se é assim, eu vou usar tudo que tenho também.

Wushi: Então já sabe no que estou pensando...

Os dois, longe um do outro, pegam suas armas, Crimson cria uma outra segunda lança, carregando ela com chamas carmesim. Ele fica um pé atrás e outro na frente pressionando o chão com um tremor que quebra vidros de construções há vários quilômetros enquanto mira as lanças em Wushi com os braços cruzados para trás da nuca.

Ao mesmo tempo, Wushi muda a cor de seus olhos para branco, observando a lâmina da katana, o que faz com quem ela comece a vibrar por alguma reação desconhecida, mas aquilo também esquentava a lâmina visivelmente.

Eles gritam, Crimson joga suas lanças em Wushi e o demônio da visão ataca juntamente com um corte vertical na direção do carmesim. Octávia viu aquilo tudo, tendo a felicidade de ficar fora da área dos ataques, que devastaram tudo que tocaram em uma linha de dezenas de quilômetros.

Wushi permaneceu em pé, as lanças não chegaram até lá, se quebraram com o impacto do corte poderoso desferido. Por outro lado, Crimson teve metade do seu corpo apagado, caindo no chão.

Wushi: Não vai se regenerar?

Crimson: Como? Minha energia acabou, ainda demoraria um pouco pra eu poder me recuperar disso, gastei muito do meu poder.

Wushi: É, acho que é isso. Vou acabar com essa merda logo.

Crimson: Espera, eu quero fazer o pacto.

Octávia e Wushi ficam alertas ao ouvir isso, duvidaram. Crimson não parece ser o tipo de demônio que sente medo, remorso ou sentimentos de arrependimento. Então, o demônio da visão pega na mão de Octávia e leva ela até Crimson, a deixando em cima do peito dele.

Crimson: Eu não tenho arrependimento de perder, foi a luta mais linda que já tive, mas... quero continuar, quero ainda ver mais disso, mais lutas, mais beleza, a arte do caos... Por favor, leve a minha arte dos caos consigo e me deixe participar quando eu puder.

Octávia: Parece perfeito, eu vou poder lutar mesmo... como vocês. Prometo que vou lutar contra demônios muito fortes. Eu aceito esse pacto.

Crimson: Fiw, obrigado por aceitar.

O corpo de Crimson some sendo transformado em pó. Octávia cai do corpo que estava deitado, tenta andar, mas assim como Wushi ao fazer o pacto, ela apaga.

...

Quantas vezes você já sentiu que sua vida não faz sentido? Não achou um propósito, um motivo, apenas sofreu sem aprender nada. Essas dores te fazem sentir um vazio, um pedaço de você incompleto.

É assim que Octávia se sente, se encontrando num imenso espaço preto, apenas com uma banheira cheia de água na qual ela está imersa, sem roupas, seus cabelos pretos e longos.

Ela olha em volta, confusa. "Onde eu estou?" se pergunta, mas só presta atenção na água, que começa a avermelhar, se assusta. Coloca suas mãos na água e sente um cabo de faca, estava cravada no seu peito, entretanto, sem dor.

Ela tenta sair da banheira, mas quando percebe, estava acorrentada, e começa a ser puxada para dentro da água, sem força alguma para poder subir.

Octávia: Socorro! Alguém me ajuda! Eu não quero morrer! SOCORRO!

Ela clama por ajuda, mas não havia esperança, apenas sua cabeça faltava para estar totalmente dentro da água da banheira.

Já totalmente submersa, se passaram segundos sem sinais de Octávia, até que a água toda começa a desaparecer, entrando pelo ralo.

E seu corpo estava lá, cabelos vermelhos, olhos antes castanhos agora também vermelhos, ela se tornou o demônio carmesim.

Crimson: Vejo que aceitou, não é? Teve medo no início, mas aceitou quando viu que não havia esperança. Agora pouco senti o mesmo, mas tudo bem, eu te darei toda a força que tenho, não irá mais se preocupar em ser fraca. Não se preocupará em não poder se defender, meu receptáculo. Irônico, acho que sou o primeiro demônio físico em milênios que faz isso.

Apesar de ouvir Crimson, ela não faz movimento algum para se levantar, apenas responde com neutralidade.

Octávia: E qual será minha face demoníaca?

Crimson: Tsugui, é um nome que combina com o vermelho, eu acho.

Octávia: Se você diz, eu não vou negar...

O silêncio toma conta do lugar de novo, Octávia levanta e fica de frente com Crimson. Ele estava menor, mas ainda consideravelmente maior que um homem alto, sendo isso por estar nesse lugar desconhecido.

Octávia: O que a gente vai fazer depois disso?

Crimson: Não é óbvio? Lutar e lutar até que a morte chegue.

Octávia: Tô falando do estrago, é impossível ficarmos como desconhecidos depois de devastar metade de uma cidade praticamente.

Crimson: A era dos demônios começou, não precisamos esconder nada, apenas lutar sem preocupação.

Octávia: Que seja, eu vou me preocupar em não fuder tudo ainda. Como eu acordo agora?

Crimson: Antes disso, por que não lembra de uma coisa que já aconteceu com você?

A recém-receptáculo se vira. Crimson vagou pelas memórias dela, e escolheu uma memória de 6 anos atrás para mostrar para ela. Ela no quarto chorando sentada em sua cama. Não estava falando nada, apenas se lamentando.

Octávia vai até sua versão da lembrança, se agachando até a altura da criança, que continua chorando.

Octávia: Eu não queria ficar lembrando disso...

Abaixa a cabeça, com remorso de tal lembrança que a afetou tanto. Não consegue olhar para ela mesma, mas olha quando sua criança fala.

Octávia: Você ainda fala com ele? Ele ainda faz isso?

Octávia: E-Eu... Não, eu n-não falo mais com ele, felizmente...

Octávia: Então ele já recebeu o que merece?

Octávia: A gente nunca falou disso pra família, então não...

Octávia: Você vai usar esse poder pra nos proteger, né?

Octávia: Sim, pode ficar tranquila, nunca mais vamos ter que sentir aquela sensação de medo e corpo trêmulo.

Finalmente, ela levanta e vai até Crimson. O cenário de seu quarto desapareceu, tudo preto novamente, sem nada, apenas um demônio e um receptáculo se encarando. Eles são diferentes, mas iguais.

E finalmente, Octávia volta à realidade, Luiz no colo dela no seu colo na casa dela. Ele estava no sofá chorando com os braços apoiados nas pernas dela e o rosto enterrado nos braços.

Era claro o motivo, sua família inteira morreu, não é como se ele pudesse trazer eles de volta, ele ainda tinha tios, avós e primos, mas não era o mesmo, e ninguém substituiria pais ou irmãos.

Octávia: Ei... Eu tô aqui com você, pode chorar, eu vou ficar com você.

Luiz ouve ela e levanta a cabeça, olha para ela e demonstra uma face mórbida. Não é como se ela entendesse a perda dele nos pensamentos de Luiz, mas ele não ia jogar isso na cara dela.

Luiz: A gente ainda pode salvar o Luke...

E ele levanta após sua fala, se apoia na parede rapidamente e vai para a cozinha pegar um copo de água enquanto Octávia apenas observa. Ela sabia que devia dar um espaço para o amigo, e por isso, simplesmente deita no sofá e dorme.
 
 

Capítulo 10: Aquilo que me faltava
 
 

No hospital, Kenni e Luis se encontram sentados em uma sala, os dois juntos ali esperando que o médico que os analisava voltasse.

Luis: Será que ele volta rápido?

Kenni: Sei lá, já tá começando a doer isso aqui.

Enquanto iniciam a conversa, a porta se abria e eles se perguntavam se o médico já havia voltado. Mas para a surpresa de ambos, não era o médico, era Neiva, a mulher que Kenni viu mas ainda não sabia o nome.

Ela se aproxima dos dois e fica de frente para eles, mostrando seu sorriso amigável só para olhar para as mãos congeladas deles.

Neiva: São amigos do Luke, não é?

Luis: Você conhece ele?

Neiva: Sim, eu vim aqui para levar vocês. O que acham?

Kenni: Mas você...

Neiva interrompe Kenni, apenas querendo sair dali o mais rápido possível para que o médico não acabasse retornando e vendo ela ali.

Neiva: Bem, vamos logo, vou curar vocês.

Luis: Aonde a gente vai?

Neiva: Acho que já deu de perguntas, venham.

A mulher acompanha os adolescentes para fora do hospital. Quando o médico volta poucos minutos depois, ele acaba ficando confuso, mas aproveita para chamar seu próximo paciente.

No meio da rua, eles ouvem uma explosão no meio da cidade, e os garotos ficam assustados, mas Neiva apenas continua andando, parando apenas quando Kenni a questiona.

Kenni: Ei, você apareceu no meu sonho, você não tem poderes também?

Ela encara o garoto com uma face séria e um pouco irritada, mas responde com tom calmo, ignorando completamente a explosão, que sim, o causador foi Crimson.

Neiva: Por que não cala a boca e me segue antes que eu arranque a sua língua, em?

Eles então continuam, até que chegam no apartamento de Bruno. Neiva bate na porta, quem abre é Letícia, que olha para os garotos com as mãos congeladas.

Letícia: Quem são esses?

Neiva: Amigos do Luke, já sabem do "segredo" dele.

Letícia: Não vai me dizer que vai fazer isso, né?

Neiva: Bem, tem um demônio destruindo a cidade agora e você tá aqui, precisamos de gente que lute, não temos muitos...

Letícia: Espera, um demônio?!

Letícia corre para a janela e abre a cortina, vendo a destruição ocorrendo. Um demônio de mais de 5 metros lutando contra um aparente receptáculo. Ela passa a mão na testa com vergonha pois mesmo com sons estrondosos, a idiota estava prestando atenção na televisão.

Letícia: O bruno e o Luke não estão aqui, eles saíram, mas deixa pra esse receptáculo. Caso a gente precise, lidamos com ele depois.

Neiva: Justificável. Vamos cuidar desses dois.

Luis: Tô começando a achar que vou virar cartaz de poste.

Todos os quatro vão até a cozinha, e Neiva pega dois copos de vidro, os quais ela coloca na mesa. Kenni e Luis olham para aquilo, achando que seria somente um remédio.

Letícia: Você mesma faz?

Neiva não responde a pergunta. Ela assusta Luis ao morder o próprio braço, jorrando sangue que começa a ser derramado nos copos. Kenni apenas observa como se aquilo fosse normal, não temendo que aquilo pudesse ser algo perigoso para eles.

Eles ficam de frente para os copos cheios do sangue de Neiva, que enrola ataduras no braço para estancar o sangramento, não demonstrando sinais de dor.

Neiva: Se eu me regenerar agora, o sangue vai sumir automaticamente, bebam.

Letícia: Não se preocupem, isso vai curar a doença de vocês. Só não perguntem como isso funciona, é difícil de explicar.

Nenhum deles pergunta, apenas pegam os corpo, Luis olha para o copo e fecha os olhos, bebendo o sangue sem muita hesitação, apenas tendo nojo, mas não era tão ruim quanto ele pensava.

Já Kenni bebeu sem hesitação alguma, ele terminou de beber o sangue e rapidamente sentiu seu corpo esquentar, seus dedos já estavam normais. Viu Luis, ele também havia ficado bem, um alívio que seu amigo também foi curado.

Kenni: Mas... a gente ganha poder ou algo assim com isso?

Letícia: O que? Nã-

Neiva: Sim. Eu disse, não foi? Precisamos de mais que ajam para nos ajudar a lidar com demônios. Se vocês consumirem carne animal e treinarem seus corpos até a exaustão, poderão obter poder.

Kenni: Isso é... rápido, mas eu quero, eu quero isso.

Luis: Será que eu vou ganhar um poder fodão? Mas será que meu pai vai deixar eu participar disso...? Tanto faz, eu vejo isso depois.

Letícia olha com os olhos arregalados e avança contra Neiva, empurrando ela até a parede, a prendendo no lugar. Ela não acreditava que Neiva faria eles perderem a juventude para ajudar a lutar contra demônios.

Letícia: Você é doente, tá ouvindo, sua maluca?!

Neiva: Solta.

Sem questionar, Letícia segue o comando de Neiva e dá um passo para trás, deixando Neiva ir até os dois. Letícia ainda demonstrava raiva, mas ficou de costas para os outros com a cabeça baixa.

O ambiente se demonstra desconcertante, duas mulheres que acabam com demônios e dois adolescentes que são "convidados" a participar desses problemas desconhecidos pelo resto do mundo, que, bem... Daqui algum tempo não serão, graças a Crimson.

Neiva: Em um mundo como o nosso, é certo que nossa vida possa virar de cabeça pra baixo a qualquer momento, e acho que esse é o caso de vocês, mas não se apavorem, afinal, seu amigo é um receptáculo muito forte. A petulância dele é clara, e talvez vocês tenham um pouco disso, espero não me decepcionar.

De cabeça levantada e olhar frio, Neiva toca nos dois com sua pele gelada, segurando o queixo de cada um e analisando suas faces. Kenni, um cara que simplesmente que ser mais forte, pois se sente inútil. E Luis, outro jovem, ele não tem um objetivo, e por isso aceita a proposta, para ter algo a servir, acreditar e seguir.

Neiva: Eu quero que os dois se batam, se batam até sangrar, até chorar, mas só parem quando eu mandar. Esse é o primeiro passo, não se importem com a dor se quiserem ter esse poder, ele não virá de graça.

Luis: Espera aí, eu não sei se quero isso não...

Sem deixar que Luis reagisse, Kenni atinge um soco no rosto do seu amigo, que faz ele cair no chão, botando as mãos no nariz e gemer de dor enquanto se levanta.

Luis: Caralho, cara! É sério isso?!

Kenni: Só vamos fazer isso logo.

Os dois ficam de frente um para o outro. Ainda que fossem amigos, Luis viu uma oportunidade, uma vingança contra seu amigo. Kenni é o membro do grupo deles que mais o zoa, e isso desencadeou a ideia de poder extravasar essa raiva que ele sente por essas brincadeiras batendo em Kenni.

Eles começam, Luis acerta um soco, também no rosto, em Kenni. Não param, um soca, o outro devolve, é uma sequência incessante de murros.

Luis ainda queria descontar sua raiva, e fez dessa forma pois Kenni queria e isso o beneficiaria. Mas Kenni sabia que socar Luis irritaria ele, sendo egoísta, deixando Luis o acertar socos apenas para que possa se tornar forte como diz almejar.

Na visão de Letícia, dois amigos, um branco moreno de altura média, e um negro de cabelo preto e altura baixa, não pareciam ter esse vínculo, mas ela não fez nada para impedir, sabendo que, se tentasse, Neiva a impediria.

Após alguns minutos, ambos já sangravam e arfavam, começava a se tornar um castigo o que antes era um objetivo para Kenni, pois o garoto que ele diminuía agora o espanca na parede. Socos, socos e socos no estômago de Kenni, o adolescente grita e solta bile de sua boca pela fúria das investidas do amigo.

Luis: Eu. Vou. Te. Bater. Até. Não. Aguentar. Mais!

Kenni: You're. Not. Sigma. Bro!

Eles repetem com pausas cada palavras enquanto Kenni recebe as pancadas. Até que finalmente elas cessam e Kenni contra-ataca, puxando Luis pelo pescoço e batendo sua cara na parede enquanto o garoto tenta se soltar.

Os dois estão tão sérios que obrigou Neiva a se sentar em uma cadeira para assistir enquanto bebe suco de laranja em um copo, assistindo o espetáculo de cuspes e vômitos em meio a todos os socos amigáveis.

Neiva: Vocês são homens, mas não é pra tanto, garotos, deixem a brutalidade de lado um pouco por agora. É hora de comer um pouquinho.

Parando a agressividade dos dois, que levantam e olham para ela, Neiva vai até a geladeira e mostra dezenas de quilos de carne crua, mas não congelada.

A mulher tira a carne da geladeira pouco a pouco sem ajuda de ninguém ali presente, deixando tudo em cima da mesa. A carne estava em temperatura ambiente e Letícia parecia não saber que essa carne estava ali, mas não questiona, apenas se importando onde sua comida antiga está agora, mas isso é uma questão futura...

Neiva: Já ouviram aquele ditado "O que não me mata, me fortalece"? Bem, haha, eu acho que vão concordar com isso daqui alguns minutos.

Luis: A gente vai ter que comer quanto?

Neiva: Tudo.

Luis engole seco, mas senta na mesa e Kenni também. Olham para os quilos de carne crua, gado, porco, cordeiro, haviam alguns tipos diferentes, mas não pareciam cortes tão bem definidos como em um mercado e nem mesmo limpos.

Mesmo quando escutam um som ensurdecedor do ataque final de Wushi e Crimson, eles não desviam a atenção do que estão fazendo, não conseguem, é como se seus olhos fixassem em comer aquilo, embora nem quisessem comer toda a carne.

Neiva: O que estão esperando? Deleitem-se.

Sem hesitação, começam a comer. Cada mordida parece ser insignificante, eram por volta 30 quilos de carne, levariam horas para comer tudo, mas Neiva não parecia se importar, ela tem tempo para esperar de sobra.

Se passam 5, 10, 30 minutos, mas a carne não estava na metade, os dois já estavam começando a cansar de tentar comer o mais rápido possível, só que nenhuma das mulheres parecem demonstrar sinal de interromper a "competição" de quem come mais. E quando ouvem a porta se abrir, Letícia anda até lá, vendo que Luke e Bruno chegaram.

Letícia: Sério, onde vocês estavam? A Neiva tá fazendo dois garotos se meterem com a organização!

Bruno: Espera, como assim?

Luke: Que garotos?

Letícia: Eu sei lá, dois aleatórios.

Acompanhados de Letícia, os homens veem Luis e Kenni se enchendo com carne crua enquanto Neiva apenas vê.

Luke: Que?! O que vocês tão fazendo aqui?! Que porra é essa, Neiva?!

Neiva: Me desculpe, mas eles estavam doentes, eu só ajudei.

Ela fala com um sorriso, mas Luke não se sente melhor, ao contrário, Luke apenas chega mais perto dela e grita com ela.

Luke: Neiva, eles são meus amigos! Não mete eles nisso!

Neiva: Escuta, é melhor você só aceitar, pois uma hora ou outra pessoas vão descobrir que você é um receptáculos e usar disso para te afetar, e aqueles que você tem carinho viram os maiores alvos. Agradeça.

Luke: ...Obrigado então, eu acho.

Ele responde com ressentimento, não tendo certeza do que realmente falar agora. Ele vê seus amigos comendo só para ficar fortes, ação consequente de Neiva.

Ela agarra o queixo dele, o puxando para que que agache, colocando a cabeça dele no seu colo e começa a brincar com seu cabelo ondulado, deixando Luke ver seus amigos enquanto continua pensando.

Bruno: Bem, parece que agora vão ter mais como eu no grupo.

Kenni: Cê quer dizer o que com isso?

Bruno: Vocês não vão ter poderes providos de demônios, mas vão ter armas acopladas com um sistema pra usar o próprio sangue que se regenera como munição para balas ou o próprio uso da arma.

Kenni: Parece legal. Eu vou ganhar uma arma quando?

Bruno: Demora um pouco pra fazer, mas acredito que em algumas semanas vão estar prontas para os dois, mas vamos precisar realizar testes, claro. Assim como eu fiz testes e ganhei meu arpão, vocês terão uma ou duas armas específicas só para vocês.

Já no céu escuro, os garotos terminam de comer enquanto todos esperavam fazendo suas tarefas, ou no caso de Letícia, vendo televisão. E é então que, com um grito de Kenni dizendo que terminaram, Neiva bate palmas contente com eles.

Neiva: Vocês serão úteis. Mas vamos ver como se sairão nos testes.

Eles se olham, ouvindo sobre o tal teste. Kenni não via a hora de dormir assim como Luis, além da vontade de ir ao banheiro, então simplesmente derruba o seu amigo da cadeira e sai correndo para o banheiro cumprir suas necessidades antes dele.

 
 
Capítulo 11: Mas a culpa é minha
 
 

No meio de uma floresta à noite, Bruno, Letícia e o resto do grupo não apresentado estavam no meio de uma missão, a qual seria de caçar um demônio avistado no Vale do Taquari.

Bruno: Então, já que chegaram há pouco tempo, como foi o ano novo de vocês?

Massimo: É, eu já tava aqui.

Bruno: Tanto faz, o resto não tava.

Massimo é o garoto que chamou Luke na escola que sua irmã estuda, ele é o mais novo do grupo e também é o mais recente membro fora o grupo de Luke. Aparência andrógena, cabelos ruivos bem avermelhados e olhos azuis, além de um corpo definido. Além disso, ele é o mais novo do grupo, tendo 16 anos, quase 17.

Sarah: A gente aproveitou nós três juntos, não fizemos muita questão de algo diferente. Fomos num restaurante perto da praia e ficamos vendo os fogos de artifício de lá.

Julia: É, mas foi divertido, eu gosto de passar tempo com vocês...

Bruno: Bom, a gente passou o ano novo com o Luke e a irmã dele, a Neiva estava ocupada, infelizmente.

Sarah, uma mulher de 27 anos, cabelo moreno e olhos laranjas, assim como Letícia. Julia é mais nova, tem 18 anos, loira, assim como Sarah ela tem altura média, pouco mais baixa que a mulher mais velha.

Liam: Olha, o maior problema foi que a conta de todos quem pagou fui eu. Esses caras comem mais que porco, é sério.

Letícia: E o Bruno aqui não come nada.

Bruno: Eu preciso comer um pouco menos por agora, só isso.

Por último, Liam, um homem alto de cabelo moreno assim como os olhos, ele tem várias cicatrizes também, arranhões principalmente. Liam tem 26 anos, mas entrou no grupo há 2 anos, menos tempo que Bruno e Letícia.

Eles param de conversar, não podiam fazer muito barulho, e em alguns minutos de caminhada Julia sente algo pingar em seu cabelo, quando olha para cima, vê corpos perfurados por galhos de uma árvore alta e toma um susto, botando as mãos na boca para não gritar. Bruno percebe seu susto e olha os corpos com uma cara fechada.

Bruno: São da organização, mas eram um grupo de exploração. Isso foi obra de um demônio, vamos achar esse desgraçado...

Ansiosa, Julia começa a respirar pesado, ela não sente que ficaria tudo bem com eles. Ela se sente mal ainda por normalmente não fazer muito comparado aos outros, e agora estão em busca de um demônio com alto potencial de perigo para eles. Bruno se aproxima dela e coloca as mãos nos ombros dela.

Bruno: Sei que você tá com medo, mas pode ter certeza que esse demônio não é tão poderoso. Quando eles são fortes mesmo, os corpos nunca ficam expostos, os mais fracos usam os corpos para assustar, então pode relaxar.

Julia: Tudo bem, obrigada...

Ela se acalma um pouco, continuando a caminhar, mas percebem passos de outro alguém nas proximidades, o que faz com que Liam arremesse uma de suas facas na direção do som, mas nada de uma resposta.

Liam: Jurei que tinha algo lá.

Sarah: Mas tinha, melhor não chegarmos per-

No meio da frase, a faca retorna, ela vai diretamente em Liam, mas ele consegue colocar o braço na frente, evitando que seu pescoço fosse perfurado. Mesmo com dor, ele deixa a faca dentro do braço para que não comece a sangrar.

Liam: Merda, ele realmente tá por aqui.

Chegando por trás de Liam, o demônio aparece, mas ele não parecia totalmente demônio, era um receptáculo? Bom, é o que pensaram, mas não estão errados em pensar assim, já que o demônio não aparece com intenção agressiva.

Ele parece ser a imagem genérica de um demônio. Ele tem a pele vermelha, chifres, marcas escuras pelo corpo, um cristal dourado em forma de losango no peito e cabelo preto, além de 188 centímetros e corpo extremamente definido.

???: Sei que estranham minha chegada, mas podem me chamar de Lucifer, juro que posso ser amigo de vocês... se me ajudarem.

Bruno: Sai de perto dele que eu penso em te deixar vivo, desgraçado. Você é todo genérico, pacto com um espiritual, não foi? Pelo seu jeito, aposto que seja.

Lucifer: É, talvez me notem mais se apenas mostrar o mais básico, e tenho certeza que isso funciona. Com você funcionou.

Bruno: Tá me irritando, sai de perto dele.

Lucifer se aproxima de Liam, agarrando o braço direito dele, mas Bruno rapidamente avança nele, preparando seu arpão para perfurar o peito do receptáculo.

No entanto, Bruno é recebido com um soco no rosto com fogo imbuído, que queima um pouco o rosto do agente. Apesar disso, ele é apenas empurrado para trás, mas sente dor.

Lucifer: Você parece diferente dos outros, eles não tiveram graça alguma de enfrentar, mas você é forte, não é? Vou testar.

Ele chuta Liam para longe e vai diretamente em Bruno, que bloqueia o avanço de Lucifer com seu arpão, mas é agarrado por ele, que corre com ele, batendo em várias árvores e as derrubando, fazendo com que Bruno se sinta incomodado pela dor, mas não sente muito, já que seus atributos físicos são muito elevados.

Para dar suporte ao seu companheiro, Letícia e Sarah criam parasitas que começam a devorar Lucifer de pouco em pouco, obrigando ele a soltar Bruno e pegar fogo para matar os parasitas, ainda dando a chance para Bruno de perfurar Lucifer pelas costas com seu arpão na forma de sangue em ponta longa, demonstrando que o arpão tem a habilidade de moldar sua ponta conforme o sangue é inserido na arma.

Ainda com o arpão sendo utilizado com o sangue fluindo como poder adicional, o receptáculo é superficialmente perfurado, se mostrando desapontado com Bruno, empurrando o arpão para trás com sua mão em volta do cabo.

Letícia: O que você come, desgraçado?!

Lucifer: Animais, mas eu vou manter vocês vivos pra que sejam a próxima refeição. Essa luta já terminou, haha.

De repente, Lucifer vê Bruno sumir da sua frente, segurando uma faca que Liam joga nele e tentando achar Bruno enquanto Liam tenta correr até ele e queima parasitas que novamente eram criados nele, sendo recebido com o arpão de Bruno o perfurando pelas costas.

Lucifer: Q-Que?!

Bruno: A LUTA JÁ TERMINOU? EU AINDA TENHO ALGO PRA TE MOSTRAR!

Bruno avança em Lucifer, que se vira tempo suficiente para bloquear o soco que receberia, mas novamente Bruno some de sua visão, aparecendo por cima com uma rajada de sangue pela ponta do arpão.

Lucifer acaba recebendo dano, mas vai para trás com um pulo e vê Julia com olhos dourados, entendendo que era a garota quem estava fazendo Bruno se mover tão rápido, como um tipo de teleporte, e então corre até ela para acertá-la com um chute, mas é impedido por Massimo, que puxa ele para o chão com correntes que são amarradas em suas pernas e em volta do seu corpo quando no chão.

Bruno: Meu estresse pode me deixar mais forte, acho que não devia ter me provocado.

Bruno: É bom que ele nem saiba que esse estresse pode me desmaiar.

Lucifer: Sempre chega mais um que acha que pode me derrotar, mas eu venço, sempre.

Com mais fogo, Lucifer derrete as correntes e se solta, conseguindo ir até Julia para acertar ela, mas ela começa a desviar, e assim ele começa a seguir ela em alta velocidade, sem deixar que nenhum dos outros consiga acompanhar, apenas Julia, que estava teleportando sem ver ao certo onde Lucifer estava.

Finalmente, Lucifer consegue chegar até ela, mas Liam joga uma faca que atinge Lucifer, o fazendo se irritar e pegar a faca na mão e arremessar em Julia, que é atingida no estômago e cai no chão.

O receptáculo continua, indo até Liam para tentar matar ele, mas Bruno, Massimo e Letícia vão até ele para ajudar enquanto Sarah permanece criando parasitas em Lucifer, que não para de atear fogo em si mesmo.

Sarah: A energia desse cara não acaba?! A minha já tá no fim, e ele nem se cansou.

Os quatro membros do grupo tentam lutar contra Lucifer corpo a corpo, Bruno com seu arpão batendo como bastão, Liam tentando o cortar pelas costas, Massimo com manoplas metálicas mirando em desnorteá-lo em socos e Letícia o tateando para criar parasitas mais poderosos. Ainda assim, Lucifer consegue se defender de quase todos os golpes, até que ele agarra um dos braços de Massimo e bate com ele em Letícia, fazendo com que ela seja arremessada em uma grande pedra e fique inconsciente, indo para trás com Massimo, parando as chamas de seu corpo vendo que Sarah já não criava mais parasitas nele.

Lucifer: Olha só, eu vou ser sincero, essa luta tá legal, mas eu tô interessado em uma coisa. Percebi que dois de vocês são bem fortes para humanos comuns, então me digam como isso funciona.

Bruno: Recebemos sangue de receptáculo, é só isso, não me interessa em especificar mais.

Lucifer: Que pena, eu queria saber mais sobre, então vou matar esse cara.

Bruno: NÃO!

Bruno começa a correr enquanto Lucifer preparava para morder o pescoço de Massimo que já não tinha mais forças para tentar se defender, mas não daria tempo. Entretanto, Liam joga sua outra faca em Lucifer, acertando o peito dele com uma linha de sangue no cabo, puxando Lucifer para si, só para Lucifer soltar Massimo e gerar fogo no seu punho, acertando o rosto de Liam com força e o empurrando contra a terra.

Lucifer: É um idiota, achou mesmo que eu deixaria algo assim acontecer?

Com o arpão mirado no receptáculo, Bruno o arremessa, desviando da arma e a deixando ser acertada em uma árvore, que explode ao ser perfurada, assim como Lucifer esperava, um truque de Bruno.

Lucifer: Esse bosta acha mesmo que eu sou idiota.

Lucifer: Melhor aceitar que agora seu amigo vai morrer.

Bruno: Quanto mais me provoca, mais me dá força pra continuar lutando.

Lucifer: E se eu te matar antes disso, hein?!

Lucifer corre até o agente, que arranca a camisa do seu uniforme e joga no receptáculo. Surpreso com algo tão banal, Lucifer apenas empurra o uniforme dele com o braço, mas é respondido com um soco de Bruno no estômago. Uma tática simples, mas funcional contra Lucifer, alguém arrogante que não esperava algo assim vindo de um humano.

Bruno ainda continua seu ataque, atingindo mais socos em Lucifer, o que deixa o receptáculo irritado e segura os punhos dele. Ambos se empurram por alguns segundos, mas Lucifer joga Bruno para longe o soltando e chutando ele.

E com a chance, Lucifer corre até o arpão de Bruno para arremessar em Liam, que tenta desviar enquanto estava encostado em uma árvore, mas é perfurado no peito pela arma, fazendo com que todos do grupo gritem em um susto. Não havia forma de salvá-lo, Liam morreu.

Bruno: SEU DESGRAÇADO, EU VOU TE MATAR, COM TUDO, TUDO QUE EU TENHO!

Lucifer: Chora mais alto, eu ainda não tô te ouvindo.

Com raiva e escorrendo lágrimas dos olhos, Bruno corre até Lucifer, que o recebe com um soco em chamas, mas dessa vez, com menor intensidade, parece que finalmente sua energia estava se esgotando. Mesmo sendo atacado no rosto, Bruno fica aliviado por certa parte agora que Lucifer não teria como se regenerar nem gerar ataques com seu fogo.

Mas sabendo que estava em vantagem e logo os aliados de Bruno poderiam o ajudar, Lucifer agarra ele pela garganta e começa a correr com ele pela floresta. Nesse momento Letícia acorda com Sarah ao seu lado e vê Liam perfurado pelo arpão de Bruno.

Letícia: O que...?

Sarah: Lucifer tá levando o Bruno pra longe, nós duas precisamos ir até ele, preciso da sua ajuda pra apoiar ele.

Letícia: Claro, vamos correndo. Massimo, liga pra alguém buscar vocês e... o Liam.

De volta para Lucifer e Bruno, eles chegam em um lago, no qual Bruno é afundado por seu inimigo, começando a afogar o homem cansado e ferido, que tenta empurrar os braços do receptáculo para cima, mas era inútil, Bruno morreria, mas pelo menos morreria sabendo que Lucifer não iria terminar o combate, já que sua energia estava no fim e a chance dele seria fugir.

Bruno: Obrigado por tudo Neiva, mas eu não consegui ser forte o suficiente para viver para salvar o resto deles.

Lucifer: Morre! Morre! Morre logo, desgraçado!

E então, com Lucifer praticamente desaparecendo da visão de Bruno, ele consegue ter esperanças novamente, se levantando e tossindo enquanto se pergunta o que aconteceu.

Lunar: Bem, eu não podia deixar você fazer tudo sozinho.

Em uma nova forma, Lunar fala isso casualmente, mas com um tom de ironia. Assim como Wushi, ele atingiu sua forma completa de receptáculo, estando com a substância preta por todo o corpo, garras de tom roxo escuro nas mãos e pés, linhas em espirais por seus braços da mesma cor, dentes de fera gigantes, uma marca distorcida de cor roxa também no peito, três listras como a de um tigre roxas nas coxas e substância sombria que parecia imitar o pelo de um animal, deixando ele com a aparência de espetado nos braços, ombros, costas, nuca e parte do rosto, apenas deixando espaço para os olhos e a boca monstruosa com a sua grande língua de duas pontas. Não pode ser esquecido que também há sua motosserra grudada em seu braço direito e seus imponentes 210 centímetros de altura com braços e pernas mais parrudos.

Lucifer: Mas que merda é essa? Isso é um receptáculo?!

Bruno: Não, isso é o Lunar.

  
  
Capítulo 12: Vamos en"serrar" isso

Continuando o ataque, Lunar avança em Lucifer em um soco que o receptáculo desvia por pouco, fazendo com que ele destrua a pedra em que Lucifer bateu anteriormente. Lunar estava visivelmente mais forte que Lucifer, ainda mais porque ele não esperava que Lunar chegasse ali, então não economizou a sua energia, e agora não tinha chances.

Lunar: Você é forte, então eu posso testar tudo que eu tenho, não é?

Lucifer: Acho melhor você tomar cuidado com o que diz...

Lunar: Se vai chorar, manda áudio.

Tirando sarro da situação, Lunar continua, ele corre até Lucifer que tenta segurar Lunar, mas é como se fosse uma pessoa normal tentando parar uma parede de cair em si. Uma luta entre dois receptáculos, na qual o resultado já estava decidido, Lunar venceria.

Lucifer: Eu não vou perder, eu não posso, VOU MOSTRAR QUE EU SOU MAIS DO FALAM.

Lunar: Se tá aqui só pra provar um ponto, seu motivo é um lixo.

Lucifer: Você não entenderia.

Lunar: Não entendo mesmo, eu aceitei esse demônio para fazer algo a mais, não por puro egoísmo, é isso que gente como você evitam, usam desculpas como "me humilham" ou "não compreendem meu esforço" como se fosse motivo de verdade para fazer algo assim, quando na verdade é só uma forma e facilitar suas vidas.

Prestando atenção na fala de Lunar, o receptáculo do fogo fica irritado ao ouvir algo que ele considera ofensivo contra seus pensamentos, o que faz ele correr contra Lunar, mesmo sabendo da sua desvantagem colossal. E com o resultado óbvio, Lucifer é derrubado no chão com um soco, que Lunar aproveita para ficar em cima do peito do receptáculo e o prendendo com suas pernas nas suas costelas.

Lunar: Acho que não é seu dia de sorte, né?

Lucifer: Você vai ver, a vontade de um demônio não tem fim.

Lunar: Só que você não é um demônio, é um retardado fingindo ser um, quando na verdade vai só sentir o peso de suas ações. Vai por mim, as consequências chegam, e doem.

De forma grosseira, Lunar finalmente termina com aquilo, acertando um soco em Lucifer bem no rosto, que tenta defender com fogo nos braços, sabendo que não seria muito útil, mas era melhor que nada. No fim, Lucifer, que antes estava na sua forma completa, agora volta a ser um humano comum, cabelo castanho e longo, que termina nos ombros, o que faz Lunar estranhar com o olhar, achando ele um esquisitão por ele ter as unhas pintadas de preto.

Lunar: Qual é, estavam perdendo pra esse cara?

Bruno: Cala a boca, Luke, vamos voltar, e da próxima vez, não fica se exibindo.

Lunar: Foi mal, é que eu fiquei meio excêntrico nessa forma.

Bruno: É, e bem grandão, do tamanho de urso, caramba.

Lunar olha em volta do próprio corpo, ele havia acabado de se transformar assim pela primeira vez, mas não foi sem querer, Neiva o ajudou a chegar nisso com controle da sua própria energia demoníaca. Ele olha para Bruno, agora parecendo pequeno perto de si mesmo, uma ressalva do quão grande ele está agora.

Lunar: O único problema é que eu sinto que minha energia vai se esgotando de pouco a pouco quando tô assim.

Bruno: Um problema dos receptáculos que se transformam. Bem, uma vantagem de ser sanguíneo, não dependo de energia.

Lunar: Transformar meus amigos nisso aí também não é muito legal, na real, mas tanto faz agora. Mas me diz algo, por que a Letícia também não se transforma?

Bruno: Olha, ela não tem porcentagem suficiente do demônio pra isso, ela é usuária mais poderosa que fez pacto com o demônio dos parasitas, mas ela não tem nem 1% do poder dele, isso que tem alguns que tem 0%, ficando apenas com a vantagem dos poderes. Bem, vamos atrás da Letícia e os outros.

Com Bruno começando a correr, Lunar vai logo atrás com Lucifer sendo arrastado pelo cabelo na sua mão, agora alterando para sua forma híbrida, conseguindo recuperar sua energia agora, mas menos do que recuperaria na sua forma humana.
Pensando no que Lunar disse, Bruno se questiona como Lunar e Neiva parecem ser diferentes no quesito energia, já que nunca viu ela reclamar sobre isso em todo o tempo que conhece ela, mas Letícia, Sarah, Massimo e Julia sofrem do mesmo problema que Lunar, ainda com mais intensidade pelo que parece.

No meio do caminho, Sarah e Letícia se encontram com eles, Sarah se assustando um pouco com o rosto de Lunar e ficando com a guarda alta por um instante, mas lembrando que aquele é o garoto que lutou contra o demônio corda no final do ano passado.

Letícia: Por que ele tá aqui? O Luke não pode se arriscar em uma missão assim, precisa de mais algumas semanas pra controlar totalmente as formas.

Bruno: Ele chegou aqui por vontade própria, então não é culpa minha, entende?

Lunar: Sinceramente, eu acho mais importante a gente continuar antes que esse cara acorde.

Bruno: A gente sabe, ok? Um dos nossos morreu, não vamos ter tanta pressa assim.

Lunar: Bem... Ok.

Ficando um pouco mal com a afirmativa de Bruno, ele acaba ficando calado enquanto levava Lucifer. Eles voltaram a correr até o resto do grupo, Lunar fica atrás dos três enquanto leva Lucifer, sua dúvida sobre como aquele cara chegou naquele ponto da vida perdura, o que leva alguém a agir de forma tão imprudente assim? Ele não acredita que alguém possa ser tão egoísta ao ponto de acreditar que o mundo deve pedir desculpas a ele.

Sua mente pode até estar afundada no seu próprio mar de escuridão, mas ele ainda não aceita o fato de também ter sido tolo ao aceitar um pacto com um demônio da forma que fez. Ele não pensou direito, não pensou em si mesmo, pensou nos outros.

E isso é o que torna
Luke alguém tão potencialmente perigoso para seus oponentes, já que sua devoção genuína pode tornar ele literalmente um monstro que destrói e machuca, mesmo que essas sejam coisas que vão contra seus ideais só para manter o seu maior intacto: Família. Para ele, família não é puramente sangue, seus amigos são como família para ele, e ele não deixará que eles sofram.

A capacidade de Luke de reconhecer os problemas dos outros e os ajudar sempre foi uma habilidade que ele usou com seus amigos, e mesmo com isso, ele não reconhece os seus problemas. E é por isso que Luke tem o poder que tem, suas sombras o enganam, distanciando ele da luz do sol, o mantendo preso no escuro, como se o sol não existisse. Não é como se ele não soubesse que o sol não existe, mas o ignora e não busca vê-lo, sua ignorância não é por achar que é melhor, mas por diminuir a dor como se fosse nada, mentindo para si mesmo sem que nem perceba, o que torna ele a presa perfeita de Krallon, um garoto que sofre pelos outros ao seu redor como se parcela da dor também fosse sua, e ignorando as próprias dores.

A pior forma de mentir não é sabendo da mentira, e nem quando está em dúvida se é uma verdade ou não, mas sim quando você acredita que a mentira é sua realidade, mesmo que pareça óbvio depois que você percebe, no momento que você está confiando na sua falsa realidade, na maioria das vezes não questiona o porquê das coisas serem como são.

Letícia e Bruno também tem problemas, mas eles sabem disso, pois são problemas óbvios para qualquer um, problemas grandes que não podem ser ignorados. Letícia luta contra demônios para salvar mais crianças que podem sofrer assim como ela sofreu. Ela sabe a sensação do medo, estar perdida, confusa, sozinha, crianças não devem passar por isso na sua idealização, devem ser ensinadas, punidas sem dor, pois essas mesmas crianças que se tornaram os adultos que sentirão orgulho ou ódio de seus antecessores.

Apesar disso, Luke não entende ainda totalmente essa mulher. Letícia é um certo mistério, ela parece ter um trauma que não quer contar, o que ele entende, pois há pessoas que não querem falar de problemas passados, mas parece que esse trauma é o motivo dela ser quem é hoje, e isso não seria nada demais se o trabalho dela significa arriscar a vida lutando contra demônios.

Já bruno é diferente, ele deixa claro que a perda de sua família foi o que fez com que ele se tornasse um dos principais da organização na luta contra esses que ele considera monstros, e ainda que tenha ódio por eles, sabe que receptáculos também são humanos, até porque sua melhor amiga é um.

O que faz ele ser diferente não é sua vocação, força ou vontade, mas sim que ele é naturalmente justo, ele odeia os demônios? Sim, mas só os mata porque sabe que eles não são justos, matam por matar e causam dor por diversão, isso não é sobrevivência, é sadismo, algo que Bruno não permite.

Talvez Luke não concorde por completo com Bruno, mas ele entende seus motivos, assim como entende Letícia. Pessoas tem motivações e vivências diferentes, nossas experiências nos moldam, mas nós que damos sentido a elas, e por isso que devemos interpretar essas experiências como aprendizados. É duro ouvir que algo pelo que passaste na verdade não era tão ruim como você pensava, mas discordar não é a resposta para achar uma forma de ignorar que outras vezes passe pelo mesmo. Perder, sofrer, desapontar, ansiar, há muitas formas de sentir sentimentos negativos, disfarçar que isso é simples é uma forma de fazer com que suas futuras dores continuem doendo como doem agora, se isso te fere tanto que diz não sentir mais nada, não é que você aprendeu, mas normalizou isso como se fosse o cotidiano, e é o que muitos fazem, mas por que é errado? é porque minimizar sua dor não é a cura da sua doença invisível chamada de angústia.

Talvez nem sempre poderemos entender outras pessoas e seus problemas, mas podemos confortá-las, mostrar que não há melhor forma de lidar com as coisas senão dando a devida importância.

Agora, chegando ao resto do grupo, Massimo, Julia e o corpo caído e morto de Liam próximo aos dois, Luke finalmente volta ao normal e fica olhando de longe para o morto, soltando Lucifer no chão também.

Massimo: É o Luke? O que?

Olhando para Massimo, ele acaba tendo uma surpresa, é o garoto que havia pedido para conversar com ele há meses atrás, o que faz a atenção de Luke se voltar para o outro garoto. Quando percebe, Lucifer sumiu, e Bruno, pegando o corpo de Liam, percebe que o receptáculo sumiu, ficando irritado com Luke.

Bruno: Porra, Luke! Você deixou ele fugir, tava fazendo o que?!

Luke: Foi mal, eu... eu...

Bruno: Ah... Tanto faz, ele não vai voltar a matar gente tão cedo, não agora que viu que podemos lidar com ele.

Desatenção, Luke sempre foi criticado por isso, mas a verdade é que ele sempre foi calmo demais, e é isso que faz com ele releve as situações em que está, muitas vezes ele age de forma pacífica demais, não por considerar que a situação é simples, é por ele ser assim, e é difícil escapar de quem ele mesmo é.

Mas de repente, ele se transforma de novo, não na forma híbrida, mas sim em sua forma completa. Ele sentiu algo, não era Lucifer, ele sente a diferença, mas sua repentina transformação faz com que os outros cinco fiquem com a guarda alta.

Sarah: O que aconteceu, garoto?

Lunar: Um, não, dois? Eu não entendo, é difícil de identificar o cheiro, vocês conseguem?

Sarah: Não sinto o cheiro de demônio, não posso ajudar nisso.

Letícia: Eu sinto um pouco, mas parece estar longe demais para que eu consiga sentir.

Por um momento, Lunar fecha os olhos e fica sem posição nenhuma, deixando seu corpo relaxar, tentando entender o novo cheiro, múltiplo em um corpo só? Isso lhe interessa, só dá mais vontade de massacrar o demônio que está por perto.
Lunar: Esse cheiro... você também...

Com um míssil sendo enviado diretamente em Lunar, ele corta o projétil com sua motosserra, transforma a matéria inteira em sombras concretas que se desfazem já no chão, sem explodir.

Lunar: ...Arthur.

Citando o nome de seu amigo, ele se apresenta finalmente, aparecendo do céu com a aparência robótica, ele não havia sido transformado em uma arma, ciborgue nem androide, mas era essa sua forma demoníaca, como se fosse um transformers, com asas de um jato, braços e pernas consumidos por material metálicos, peitoral com apenas o abdômen livre de peças, mas em sua cabeça tinha uma balaclava que se conecta com o corpo robótico, deixando seus olhos totalmente vermelhos mirando em um ponto em comum: A cabeça de Lunar.

 
Capítulo 13: Roubei seu nariz!
 

Lunar: Olha, faz um tempo que eu não te vejo, mas não imaginei que estaria assim.

Arthur: Pode me chamar de Asmo agora, de Asmodeus. E você é o Luiz?

Lunar: Só por que eu tô preto? Bem... Sou o Luke, na real.

Diz ele em tom irônico, mas não deixa de continuar em sua pose, preparado para lutar, mesmo que aquele fosse seu amigo.

Asmo: Eu não pensei que você estaria numa situação dessas.

Lunar: É... Mas agora eu vou ter que te bater um pouco, sem ressentimentos.

Assim, Asmo parte para cima de Lunar, tentando atingir com um soco míssil em seu peito, mas Lunar simplesmente desvia e chuta ele para o chão. Rindo da tentativa falha, ele para a risada rapidamente e retoma sua face neutra, agarrando Asmo pelo pé e jogando para longe.

A luta segue com a percepção de Asmo que está na clara desvantagem, e então começa a retirar um avião militar de seu corpo, rapidamente jogando na direção de dois aliados de Lunar, um que se joga no chão enquanto Lunar avança contra o jato, que é desintegrado pelas sombras da motosserra como já havia feito antes. Quando olhavam para Asmo, ele estava em seu corpo normal.

Lunar: Me parece que você precisa de algo para se transformar, não é?

Asmo: É, eu tenho poderes hereditários. Algum antepassado meu fez um pacto com um demônio e possibilitou que eu e outros do sangue desse antepassado pudéssemos ativar esse poder.

Lunar: E como você conseguiu isso? Como descobriu?

Asmo: Acha que eu vou te falar mesmo?

Lunar: É verdade, me desculpa, eu vou só acabar contigo.

Lunar andava até Asmo, que fica parado simplesmente, Lunar não pensara que havia outra forma de Asmo se transformar, mas se surpreende ao ver que os pés dele mudam. Ele havia pisado em um formigueiro, que começa a se fundir em seu corpo, junto dele, as formigas, e sua aparência se altera para algo como uma formiga, ganhando braços extras e terra como armadura.

Asmo: Pode me chamar de demônio cleptomaníaco!
Lunar: Asmo é melhor mesmo, agora só para de ser idiota e deixa disso, que tal?

Asmo: Não! Eu quero mais, eu quero o sentimento dos outros, eu quero saber o motivo de amarem tanto seus objetos!

Lunar: Isso é idiota, acabei de falar.

Asmo: Talvez eu roube-

Interrompendo Asmo, Lunar simplesmente o atinge com um soco que o envia para árvores, sendo destruídas. Após alguns segundos batendo nos troncos, Asmo para há centenas de metros da pancada, levantando e quase sendo acertado novamente, dessa vez, por um pisão do demônio sombra, mas consegue criar formigas à sua frente para se defender, mas elas são destruídas facilmente e desintegram ao serem incapacitadas de lutar.

Ele consegue criar mais dessas formigas, empurrando Lunar com elas. São formigas grandes, entre 30 a 50 centímetros de altura até o ombro, parecendo ter membros mais grossos.

Lunar para em pé com sua motosserra começando a girar mais rápido que o normal, parecia estar entusiasmado, já que poderia dilacerar tanto quanto queria em seus treinos.

Lunar: Sabe, essa é uma oportunidade que não tive até agora, já que é caro demais para a organização ficar comprando alvos para eu ficar destruindo, mas me fala aí dessas formigas, elas não são como uns outros animais que enfrentei uma vez, elas parecem realmente animais.

Asmo: Já que você é um amigo, eu te conto. São invocações, mas nós chamamos de "demels", são diferentes de invocações criadas pelo poder em si, acho que até você pode criar invocações pelo seu poder, mas elas são comandadas pelo seu pensamento e precisam que você esteja vivo para que funcionem, diferentes das demels, que são seres de vida própria, mas alguns podem ter especificações, então não me pergunta como essas formigas funcionam, eu não sei.

Lunar: Certo, melhor ficar longe, PORQUÊ O DEMÔNIO AQUI FAZ NHAC NHAC CROCK CROCK PRO LANCHINHO.

E assim Lunar corre atrás da primeira formiga, mas algo acontece. E o que seria? Uma força que Asmo não havia mostrado? Um novo oponente que não apareceu?

Não, a pura hesitação, a hesitação de um garoto puro que não conseguia tirar vidas de seres vivos que não fossem demônios. Lunar fica parado em seus pensamentos, a situação deixa ele confuso, já que muitas vezes matou formigas sem nem perceber, e apesar da inocência ele começou a pensar se aquilo seria correto.

Lunar: Por quê? Não, agora não, elas são invocações, mas são vivas, por que eu hesito? por que eu não consigo matar? Não são demônios, será que somos todos assassinos por matar seres pequenos? Não podemos simplesmente evitar isso, mas... Que se foda, eu vou acabar com elas, AFINAL, EU SOU UM ESCROTO DO CARALHO MESMO KKKKKKKKKKKK.

Saindo de sua própria mente, ele vê que as formigas haviam ido até seus companheiros, lutando contra o grupo inteiro, fazendo com que Lunar se obrigue a ficar cada vez mais longe de Asmo para que ajudasse eles.

Ele vai cortando as formigas com sua serra, cortando e cortando enquanto grita loucamente, feliz com aquilo, e não se importa que esteja matando seres vivos, afinal, era para ajudar seus amigos.

Bruno: Luke, AJUDA A SARAH!

Ouvindo a súplica de Bruno, Lunar corre até Sarah, rodeada de formigas, tentando salvar ela das demels de Asmo, mas é neste momento que ele percebe seu erro. Asmo já havia saído do lugar quando ele estava em seus próprios pensamentos, o que fez com que ele tivesse tempo o suficiente para alcançar Sarah e perfurar o peito dela.

Asmo: Eu sempre quis tocar em uma mulher assim, mas acho que essa é a única forma de fazer isso sem a reclamação de uma...

O sangue escorre entre os seios da mulher com olhar mórbido pela sua derrota. Lunar não consegue parar de olhar para aquilo, e a raiva só tomava conta dele cada vez mais pela ação de um amigo, algo que ele jamais acreditou que seria possível, não pela pura decisão de Arthur.

Pode até ser que o momento atual não seja dos melhores para o Lunar com seu amigo, mas no passado dos dois houve outro momento também memorável para ambos.

Há 3 anos, quando ainda não se conheciam, Luke esbarrou em Arthur na cantina, derrubando o sanduíche do garoto.

Luke: Opa, foi mal, eu tava desatento.

Arthur: Tudo bem, eu pego outro...

Enquanto Arthur se agachava para pegar o sanduíche, Luke e puxa para cima e pega ele mesmo o lanche que havia sido derrubado por sua culpa. Após isso, ele coloca o sanduíche em cima de uma mesa.

Luke: Deixa que eu compro outro pra você.

E então ele leva Arthur para a vitrine, deixando ele escolher outro lanche para que pagasse pelo incidente que aconteceu, sem se vangloriar por isso, apenas um honesto pedido de desculpas.

Luke: Eu sei que não nos conhecemos, mas já te vi andar com o Kenni, vocês são amigos?

Arthur: É, somos sim, por quê?

Luke: Ótimo, eu acho que podemos ser amigos também, o que acha?

Arthur: Seria legal, eu acho...

Eles saem da cantina e andam até um banco, dois garotos do ensino fundamental que se conheceram em um incidente formaram uma amizade, a inocência de praticamente duas crianças que fez isso.

Luke: Enfim, qual é o seu nome?

E quando Arthur abre seus lábios nessa lembrança, Lunar completa na frente de Arthur no atual momento.

Lunar: Arthur.

Asmo: Eu sei, isso é maldade, mas não é o que somos? Ruins? Somos demônios, é assim que nos chamam, cara. Vem comigo, podemos continuar sendo amigos.

Lunar: Não, não é assim que as coisas funcionam, eu vou te fazer se arrepender, você não vai se dar bem. Arthur, eu vou te ensinar de vez o que você precisa.

Ele fala de forma mórbida, não conseguia mais ver um amigo ali, mas sim uma pessoa incompleta, o caminho que ele trilha não é a de viver por ser, mas viver porquê sim. Viver sem se importar com o motivo tem dois caminhos, e só é possível entender isso quando olhamos para a maneira como agimos com os outros.
E ainda que Asmo estivesse em volta das formigas, Lunar avança com um soco de imediato quando havia terminado sua fala, acertando o peito dele, o que o empurra para longe, mas Lunar continua, indo para suas costas e segurando sua cabeça.

O demônio sombra enterra a cara do outro na terra, não humilhando, o menosprezando, Asmo já sentiu a força dele com tudo, e ele deixa a areia do formigueiro caia, matando as formigas que ele havia invocado.

Lunar: Você não consegue mais lutar, não é?

Arthur: Não...

De repente, Arthur se transforma mais uma vez e se teleporta para trás de Lunar. Dessa vez, sua aparência não mudou drasticamente, mas sua pele ficou avermelhada e suas veias saltadas.

Asmo: Foi mal, a gente se vê outro dia...

Falando entristecido, ele some novamente, deixando Lunar ali na mesma posição. Raiva, era isso que ele sentia, pois seu amigo matou uma pessoa, e agora fugiu sem enfrentar consequências, e agora iria buscar ele para resolver esse problema com essa pessoa, não um amigo, mas sim o seu oponente.

Lunar: Pode ter certeza, Asmo.

Ele se destransforma, voltando a ser apenas um humano comum, mas continua com sua raiva pelo incidente.

Bruno: Ei, fica calmo, nós vamos... achar ele. Você vai conversar com ele, ok?

Luke: Não, eu vou educar esse maldito, não que ele queira, mas não precisa.

Bruno olha para os corpos dos seus dois amigos mortos, que estão sendo carregados pelos outros agora, com certeza que não poderá falar com eles mais uma vez. Mais uma vez, ele foi falho para si mesmo.

No lado de Arthur, já normal, temos ele e Lucifer muito longe da floresta, estando em um depósito abandonado, parecia ter sido danificado por uma explosão de um produto.

Lucifer: Pois é, eu acho que... estamos vivos.

Arthur: É, o coração de demônio me ajudou. Mas parece que eu não fiquei tão forte quanto seria com um objeto mesmo... Acha que o sombra ficou irritado?

Lucifer: Tanto faz, eu não me importo com isso, nada disso.
Eles permanecem quietos por mais um momento, até que Lucifer fala de novo.

Lucifer: O demônio sombra é forte, mas eu vou matar ele, eu perdi porque estava fraco, eu vou ficar mais forte ainda e esse bosta vai se ver comigo. Deve ser um idiota que acha bate nos nerds...

Arthur: Acho que não, vamos logo encontrar os outros, não temos condição alguma de enfrentar eles agora, o cara tem uma motosserra que apaga matéria.

Lucifer olha para Arthur e anda até ele lentamente e Arthur recua até a parede, sendo preso pelo antebraço de Lucifer na garganta.

Lucifer: Você não tem que ter pena desse cara, a gente vai matar ele, entendeu?

Arthur: Entendi...

Lucifer: E agora que eu consegui lutar contra um grupo inteiro de seis membros da OCD, pode ter certeza que ele vai me parabenizar.

Arthur: Poderia ter derrotado eles antes. Mas olha, eu matei um também, mesmo com o sombra na minha cola.

O demônio solta ele da parede e apenas dá as costas e resmungando, voltando para sua forma humana.

Um receptáculo e um hereditário, ambos com seus motivos desconhecidos para ficarem como estão. E seus motivos são bons? Digamos que eles são o tipo de pessoa que as pessoas médias não gostam muito, mas se conhecessem mais, gostariam menos ainda.

Mas agora sim, finalmente existe uma ameaça futura que Luke terá que se focar para derrotar, mas não é Lucifer, mas sim perder um amigo por culpa de não ter o ensinado antes a ter empatia, uma derrota para Luke, não Lunar.

E sim, Lunar também tem um desafio, e esse sim é Lucifer, o demônio potencialmente mais forte que ele. Perigos externos são problemas de Lunar, o demônio sombra, Luke é apenas um garoto, fraco, incapaz e imprudente conforme o próprio Luke.

Claro, Luke sabe que ele ajudou pessoas, mas para alguém que lida consigo mesmo com mais de uma personalidade, divergir importâncias entre elas é comum. Ele se menospreza como humano, mas engrandece o lado demônio, como se seu valor fosse apenas o poder.

Em sua casa, ele bota sua irmã para dormir e vai para a sala. Luke não queria mais problemas, sua vida já estava uma bagunça. Então, sua campainha toca.

Ele abre a porta e vê Octávia, cabelos e olhos vermelhos, logo sentindo o cheiro de demônio, mas ignora.

Luke: Pintou o cabelo e comprou lentes? Eu sabia que você gostava de vermelho, mas isso aí já é muito, hein.

Octávia: Eu... já sei, Luke, já sei que você tem poder também, não precisa fingir.

Luke mostra seu sorriso forçado, embora convincente, sua amiga sabe que não está tudo bem.

Octávia: Por favor, se abre comigo...

Logo seu sorriso se desfaz, e ele levanta a cabeça de Octávia com os dedos, fazendo ela olhar ele nos olhos, com a face de cansaço que ele já tem há alguns meses.

Luke: Quieta, entendeu? Vamos comer algo e ver TV.

Octávia: Sim senhor...

Ela aceita sem questionar, o que lembra ela o que uma vez prometeu a Luke, e agora seguirá fortemente novamente: Luke dá as ordens, e ela obedece.



Capítulo 14: Plano de identificação

No sofá, Octávia e Luke estavam dormindo sentados. Era manhã, já haviam assistido algo, na televisão estava passando um filme que nenhum dos dois prestava atenção.

Então, Luke acorda, seus olhos sem sono por ter dormido muitas horas. Ele não avisa ela de nada. Vai para a cozinha e começa a fazer um café da manhã, apesar de ser quase hora do almoço.

Enquanto Luke cozinha, Octávia também acorda, ela vê que Luke não estava mais na sala e vai até a cozinha também, sabendo que ele estaria cozinhando, como era seu costume fazer nas manhãs atuais.

Octávia: Eu sinto muito...

Luke: Pelo que? Virou um demônio, eu também, não posso te julgar. Mas sabe de uma coisa? Eu me sinto cansado, e o meu demônio não ajuda em nada, o seu ajuda?

Octávia: Ele fala comigo, ele sempre quer lutar...

Com o seu tom desanimado, Luke continua falando com Octávia, sabendo que ela se sente desconfortável em ter que conversar assim com ele.

Luke: Que engraçado... Eu percebi uma coisa, que muitas garotas me elogiam, falam que sou forte, que sou bonito, que sou esperto, mas e e aí? Nenhuma realmente me ama?

Quando Octávia decidia falar algo para ele, se declarar finalmente, sabendo que tinha uma chance de falar a verdade para seu melhor amigo que o que quer ter com ele não são só momentos bons, mas sim uma vida, ela é interrompida, pois Luke continua sua fala.

Luke: Foi aí que eu conheci a Neiva. Ela faz eu me sentir especial, que eu sou uma prioridade, ela sabe o que eu quero e quer me dar isso.

Octávia: Luke... Você não acha que pode estar sendo precipitado? Eu entendo que ela seja legal, mas também tem outras garotas que podem gostar de você, de verdade.

Luke: Então me diz quem, eu não passo de um otário sendo enganado por bajulações do meu corpo, mas e a minha mente? EU NÃO SOU UMA PESSOA PRA NENHUMA MULHER?

Octávia: VOCÊ É PRA MIM, É O MEU MELHOR AMIGO, ENTÃO TENTA ME ESCUTAR, POR FAVOR.

Ficando calado por um momento, Luke olha para o chão enquanto desliga o fogo do fogão, pensando por um momento no que ela falou.

Luke: Tá certo, foi mal... Eu só tô irritado um pouco. Aconteceram tantas coisas nesse meio-tempo, e eu acabei descontando em você, me desculpa.

Octávia: Tá tudo bem, afinal, somos amigos...

Se aproximando do seu amigo, Octávia abraça ele, percebendo que ele não havia entendido que ela gosta dele como um companheiro, mas não queria falar para ele em um momento assim. A inocência de Luke em achar que nenhuma mulher fora Neiva já se apaixonou por ele é uma dor que vem por conta de todas as vezes que já ajudou, mas nunca sendo ajudado, não porquê nunca tentaram, mas porque nunca ofereceram.

Luke nunca aceitou a ajuda de ninguém, nunca quis ser considerado dependente de outras pessoas, e isso fez com que sua mente acabasse confundindo ele, pois agora que queria ajuda, não sabia como pedir, e seu nervosismo tornou isso um pensamento errado, o qual ele pensa não ser ajudado por não ser aceito por outras pessoas.

Finalmente, com o celular de Luke vibrando, o abraço termina. Ele pega o celular do bolso e olha as mensagens que Bruno lhe enviou, deveria estar na casa dele para uma reunião em alguns minutos.

Luke: Você vem comigo?

Octávia: Pra onde?

Luke: Você vem ou não?

Octávia: Tá bom...

Luke: Ok, só vou avisar minha irmã que vou pro trabalho e vamos sair.

Octávia: Trabalho? Essa hora?

Enquanto Luke vai até o quarto de sua irmã para acordá-la, Octávia fica olhando. Aquele garoto que é tão elogiado pelos outros, na verdade se sente pequeno, e mesmo sendo corrosivo, mostra que Luke é humilde, pois não se bota acima de ninguém, mas também não se menospreza, e por isso se frustra, pois não entende direito seus sentimentos. Essa é a natureza que Luke tem desde que nasceu, e é a natureza que atrai Octávia, mesmo que ela não saiba como.

Luke: Vamos lá, hora de uma conversinha com a minha equipe de trabalho.

Já no apartamento de Bruno, estavam o próprio, Letícia, Neiva, Massimo, Julia, Kenni e Luis, que estavam apenas esperando Luke chegar, até que ele bate na porta.

Quando Bruno abre a porta, vê que ele está junto de uma garota que ele não conhece, mas percebe que ela é também um receptáculo, já que Luke não traria uma pessoa aleatória até seu apartamento.

Bruno: Qual é o nome dela?

Luke: Octávia. Kenni e Luis conhecem ela.

Luis: A Octávia tá aqui?! Quem deixou a fêmea vir?!

Os dois passam pela porta e Octávia fica ao lado de Luke, se sentando em uma poltrona da sala, enquanto Luke fica em pé. Todos os olhares daqueles que já estavam lá estão em Octávia agora.

Neiva: Depois falamos sobre a garota. Por hora, eu tenho que falar sobre outra coisa: Plano de identificação. Conforme vocês, Lucifer foi salvo por Asmo, o que pode significar que os dois sejam traficantes ou de um grupo que vai contra a organização simplesmente, que é o mais provável.

Enquanto Neiva faz sua explicação, Octávia fica olhando ao redor, encarando Kenni, que olha de volta para ela e coloca o dedo indicador na boca, sinalizando silêncio, logo passando o dedo pelo maxilar.

Octávia: Que idiota...

Neiva: Sei que pensam na possibilidade que sejam apenas os dois, mas acho muito difícil, considerando que são dois novatos pelo que parece, além de que um deles é um hereditário, o que significa que ele não pode ter sido ensinado como usar seus poderes por um novato.

Bruno: Acho coerente, mas não seria melhor reforçarmos o nosso grupo? Talvez se chamarmos um membro do grupo especial da OCD teríamos facilidade em derrotá-los para pegar informações.

Neiva: Sim, é uma alternativa, mas se descobrirem que falhamos em uma missão tão importante, nosso grupo seria dividido com cada um de nós indo para outro grupo, possivelmente. Precisamos encontrar eles, e acho que com algum resquício de sangue deles, podemos achá-los. Vocês pegaram o sangue de pelo menos um deles do chão, não é?

Do bolso, Neiva tira um cubo preto, parecendo ser metálico. Bruno, Letícia e Julia olhando seriamente para o cubo, mas o resto não entende, e então Neiva começa uma nova explicação.

Neiva: Esse é um cubo de essência. Eles são formados por sangue preservado de demônios ou receptáculos já mortos, que, quando abertos, funcionam por poucos segundos, tempo o suficiente para consumir esse tempo. O problema é que se você consome o sangue, se torna então o receptáculo completo desses mortos, que voltam à vida. Você praticamente morre, pois não há forma conhecida de voltar.

Letícia: Mas por que você mostrou isso? E como? De quem é o sangue?

Neiva: Bem, eu já ia comentar isso. Existem três demônios ou receptáculos em especial que eram os mais poderosos há mais de 2000 anos atrás, mas junto deles, também existiram outros muito poderosos, já que essa foi a época na qual mais houveram usuários fortes, e esse que tenho em mãos é um desses, mas não sabemos se é um demônio ou receptáculo, depois de tanto tempo perdemos essa informação, pela sociedade não diferenciar em nada receptáculos, hereditário e demônios, mas caso seja um demônio, podemos fazer um acordo com ele.

Luke: Não acha muito arriscado? E em quem faríamos isso? Não acho bom tentar fazer isso sabendo que podemos liberar um demônio com itenção assassina.

Neiva: É uma boa dúvida, mas não tem com o que se preocupar, os demônios assimilados são os que tinham mais afinidade com os humanos, mesmo que pouca. E sobre quem seria usado para o assimilado, é simples, prisioneiros velhos. Aqueles que já tem mais de 60 anos pelo menos, já que suas vidas já estão praticamente no fim, seria como uma libertação para eles, embora isso seja decisão externa da OCD e não minha, mas eu concordo. Felizmente existem muitas prisões que mantêm o segredo da OCD e permitem que peguemos alguns dos prisioneiros caso realmente seja necessário, esse é um dos casos.

Inconformado, Bruno acaba interrompendo Neiva, não como protesto, mas apenas questionamento amigável.

Bruno: Ok, entendo que os presos já estejam velhos e outros grupos façam isso, mas acho que não precisamos matar alguém para achar eles, podemos fazer isso de outras formas, mesmo que seja mais difícil.

Letícia: Olha, de certo modo, eu até concordo com ela, mesmo que eu não ache legal a ideia de matar alguém, eles foram presos por um crime, e se por exemplo um idoso de 65 anos ficar preso por 10 anos, restará pouco tempo de sua vida, dificilmente ele viverá por mais 10 anos.

Bruno: É, mas não temos direito de escolher quem vive e quem morre, só demônios, é com isso que a organização trabalha.

Neiva: E é com isso que estamos trabalhando, embora sejam humanos, esses dois ainda tem um poder capaz de matar diversas pessoas. O que você prefere?

Finalmente, Octávia fala algo, tentando mostrar seu ponto de vista também, já que o jeito que ganhou poderes pode demonstrar que demônios podem não ser totalmente ruins.

Octávia: Sei que são mais experientes que eu, mas não podem tentar dar uma chance que esses caras não sejam somente assassinos? Se até o demônio que fez pacto comigo não quis me matar mesmo sendo um demônio física, por que humanos seriam assim?

Bruno: Odeio ter que discordar, mas demônios e humanos não tem a mesma natureza. Eles agem pelos objetivos que lhe foram impostos, enquanto nós, com poder, podemos decidir o que queremos. É diferente.

Crimson: Pelo menos você tentou... Que tal chamar esse aí pro x1?

Octávia: Agora não, para de ser chato, cara.

E com mais silêncio de Neiva, ela olha para Luke e se levanta, chamando-o com a mão e logo indo para a cozinha.

Luke: Eu vou ir com a Neiva. Acho que podem decidir sobre o plano dela e conhecer a Octávia.

Então Luke também vai para a cozinha, deixando os seis ali. Octávia só conhecia Kenni e Luis, mas Bruno fazia ela sentir uma tensão, como se ele estivesse pronto para matá-la.

Chegando mais perto de Octávia, seus dois amigos ficam olhando para seu cabelo, estranhando a mudança de cor, sem contar nos olhos.

Luis: Você pintou o cabelo e comprou lentes?

Octávia: Não... Eu virei um receptáculo mesmo...

Se intrometendo na conversa logo ao saber que a jovem se tornou aquilo, Bruno a questiona.

Bruno: Demônio físico ou espiritual?

Octávia: Físico.

Bruno: Como conseguiu ele e o que ele faz?

Octávia: Bem, eu consegui ele após ele perder uma luta-

Crimson: Por muito pouco! Hehe...

Quando Crimson fala com ela, Octávia fecha os olhos e move a cabeça com um pouco de incômodo pelo grito repentino dele.

Octávia: ...Acho que ele não vai querer que eu comente muito sobre isso, mesmo que ele fale sem parecer irritado. Enfim, ele tem o poder do carmesim, conseguindo endurecer sangue e o deixar explosivo. Ele também tinha fogo em umas partes do corpo, mas ele não usou muito, e eu não lutei até agora...

Com as informações dadas por ela, Bruno acaba de ter uma ideia. Por ela já ter um demônio relativamente forte, que ele sabe que foi o causador da explosão no meio da cidade há semanas atrás e ser confiável, ele pensa em uma possibilidade.

Bruno: Vai treinar com Luke, Letícia, Julia e Massimo, precisamos de mais gente, e você parece ser útil o suficiente.

Octávia: Mas e você, Neiva, Kenni e Luis?

Bruno: Nosso treinamento é diferente, e a Neiva não treina, ela cuida mais das formações dos planos, como esse, ordena a equipe para eles, sem contar que ela vai em missões de líderes, então não temos muita oportunidade de ir em missões com ela.

Octávia: Tudo bem, entendi. Mas e sobre esse cubo aí?

Permanecendo calado, Bruno olha para Letícia e Julia, permitindo que elas expliquem isso para ele. Letícia então dá alguns passos para frente, chegando ao lado de Bruno e apertando as bochechas dele com uma mão. Massimo parece não ter nada para falar na reunião, então só estava deitado no sofá.

Letícia: Digamos que esse cubo é uma roleta russa, já que podemos ter a sorte ou azar do cara que sair daquele cubo ser um grande filho da puta que foi mantido por um povo hostil. Mas também há a possibilidade de ser um cara gente boa, que foi posto no cubo para ser uma forma de proteção futura de povos ou até mesmo de famílias.

Julia: Sobre a nomenclatura, precisamos sempre chamá-los de assimilados, mesmo que não pareça mudar muita coisa, eles acabam tendo diferença entre quando estavam vivos há milênios, já que seus atributos físicos acabam um pouco menores, mas eles tem a vantagem de ter o cheiro da pessoa que bebeu o sangue e maior compreensão da própria energia, mas ainda não sabemos como, apenas que isso permite mais versatilidade de seus poderes.

Pensando sobre isso, Octávia, Kenni, Luis e Massimo se olham, cada um vendo se os outros também entenderam. Com isso, Bruno inicia uma nova explicação.

Bruno: Agora que entenderam isso, acho que já podem ter total noção do que Neiva pensou. O objetivo é que esse assimilado seja um trunfo, já que seu cheiro passaria despercebido, mas pelo grande poder dele, poderíamos garantir liberdade para ele caso permaneça na natureza, já que também temos membros poderosos que seriam capazes de enfrentar ele.

Octávia: Beleza, isso significa que vamos ter que chamar ele já preparados para enfrentar ele caso o contrato com ele dê errado?

Bruno: Sim, ele pode até ser poderoso, mas com todos nós juntos para lutar, ele com certeza pensaria duas vezes antes de recusar.

Por um momento, Bruno olha para o corredor, a porta da cozinha fechada, e ele continua sua fala.

Bruno: O plano é o seguinte: Vamos ir para a mesma floresta que enfrentamos Lucifer e Asmo, chamar o assimilado e conversar com ele, explicando que conseguimos derrotar os dois, mas não conseguimos achar eles, pois fugiram. Temos que mentir que foi fácil para que ele ache que somos mais fortes do que realmente somos.

Letícia: Vamos precisar treinar essa garota por alguns dias antes disso, vou conversar com o demônio parasita para ver se ele empresta mais do seu poder em troca de algo.

Bruno: Não, não quero que faça isso.

Letícia: Você não pode treinar com ela por mim conforme os treinos da OCD.

Bruno: Mas posso treinar com ela e o Luke juntos depois dos treinos organizados.

Crimson: ISSO, AGORA VI VANTAGEM!

Octávia: Pelo menos eu vou lutar com alguém que não quer me matar...

Assim, a conversa sobre o plano termina, e agora com foco em Luke e Neiva, era possível ver que a mulher de cabelos brancos, em pé, segura a mão de Luke, o qual estava sentado em uma cadeira, mas ele ainda não entendia o motivo disso, já que Neiva é sempre misteriosa quando se trata de conversar entre ela e outra pessoa.






Capítulo 15: Corrente e coleira

A satisfação de ter um propósito a seguir é confortante para muitas pessoas. Às vezes, você sente como se faltasse algo na sua vida, mesmo fazendo tudo que você deve, você não se conforma, sente o vazio de um "dever verdadeiro", como se o que fizesse não fosse nada. Quando alguém que você admira lhe dá um objetivo, você o toma como grandioso, mesmo que não seja exatamente o que você queria, você gosta daquilo não pelo prazer de concluir aquilo, mas sim de agradar alguém.

E na cozinha estavam os dois, Luke e Neiva, com suas mãos segurando a dele. O aperto é firme e forte, mas não o suficiente para machucar Luke, até que ela olha para o rosto de Luke e afrouxa um pouco a pegada.

Neiva: Receptáculos como você são fortes, Luke, mas sua força pode ir além. Se conseguir fazer com que seu demônio aceite que quem está no controle é você, o poder correrá livremente em todo seu corpo, mas o mais importante... Pulsará no seu coração.

Luke: E como eu faço isso? Eu dei que agora ele pode não estar ouvindo, mas ainda assim, ele é um demônio...

Neiva: Digamos que tem um jeito "definitivo" de fazer você comandar a si mesmo. Mas é melhor não te contar agora. Só me diga, Luke, você aceita?

Ele pensa um pouco, sua mente ainda processando que possa se despreocupar de Krallon, que, embora tendo pouca presença, sabe que uma hora ou outra ele irá se aproveitar quando estiver vulnerável.

Luke: Tá me dizendo que eu posso me tornar absoluto sobre ele? Que eu não teria mais problemas em preço desse poder?

Neiva: Não, esses poderes sempre tem um preço, então, se quiser ficar mais forte, terá um preço também. Nunca confunda alternativas mais fáceis como o fim de um problema, é importante que entenda isso, para o seu bem e do grupo também.

Com o esclarecimento de Neiva, Luke consegue entender, nunca estaria livre de malefícios, depois de aceitar o poder dado por um demônio, sua vida nunca mais seria normal.

Apesar de desejar que isso se torne sua realidade, Luke mantém um pé atrás, sabendo que poderia dar errado esse plano, sabendo que Krallon jamais se curvaria para ele. E se ela pensasse em matar Krallon? Isso faria com que Luke morresse conforme seu pacto, ele pensou.

Luke: Será que o meu pacto com ele pode ser algum obstáculo pra isso? Meio que eu... troquei de coração com ele.

Neiva: Isso é novidade pra mim...

Neiva pensa por um momento, ergue a cabeça e coça o cabelo. Fazer um pacto com um demônio já é radical, mas trocar de coração com um? Isso é loucura, mas ela não parece se surpreender muito, já que não espera nada muito normal vindo de Luke.

Neiva: Tudo bem, isso vai dar um probleminha, mas eu consigo resolver. Você é mesmo corajoso para fazer algo do tipo, mas não deixa de ser loucura.

Ela se aproxima de Luke, ficando com seu rosto à frente do rosto dele. Os dois se encaram, mas nesse momento, não havia nervosismo de Luke, ele estava pensativo. A mulher ainda toca o peito dele com as mãos, mas ele não faz nada, seu objetivo de tirar esse demônio de si era mais importante que se sentir atraído por ela, e isso a deixa contente.

Neiva se afasta, mais orgulhosa do que quando Luke aceitou a proposta, é que agora sabe que Luke consegue se controlar em situações que exigem sua atenção, e isso torna mais claro cada vez mais que Luke não é só um garoto.

Mas ela ainda não sabia tudo sobre ele, então uma dúvida surge nela. Neiva queria saber sobre o passado de Luke, o que fez que com que ele se tornasse a pessoa que é hoje.

Neiva: Então, Luke, o que você acha que fez você ser o que é? Seus pais? Traumas? Que evento fez você se tornar um homem controlado mesmo que esteja sob pressão?

Com o questionamento direcionado para ele, Luke pensou por pouco tempo, foi quase automático, mas a respostas veio à mente como se estivesse preparado para uma pergunta dessas.

Luke: A minha natureza não vem do que aprendi, não veio da minha criação. Se minha paciência e calma já foram confundidas com despreocupação, aqueles que pensaram isso estão enganados... Eu posso até ser novo demais para coisas tão grandes, mas eu só miro no que eu quero e preciso. Eu não sou assim por causa de ninguém, eu sou quem sou porque sim, e nada vai mudar isso, minha alma não pode ser moldada por ninguém.

Mesmo quando já não precisava mais, ele continua. Luke levanta da cadeira e discursa mais, tocando as bochechas de Neiva com uma mão.

Luke: Mesmo que eu morra, mesmo que eu tenha que me sacrificar, não me importo se isso dar uma vida melhor para meus amigos e minha irmã. Já fiz amigos, também perdi alguns, mas essas coisas acontecem, o que aconteceu não vai tirar minha motivação, embora eu sinta o remorso de poder ter resolvido aquilo. E se eu tivesse concordado quando o que eles precisavam era o que eu fazia? Dar a realidade, pode não ser a felicidade que eles buscam, pois ela não vem na hora, não é sofrimento, é espera. O que eles querem dá essa felicidade, mas o sofrimento de alguém quebrado que não é controlado é intenso. Eu queria poder ajudar todos, todos eles, mas eu não consigo, e tá tudo bem, não tenho que agradar todos, mas às vezes é melhor se afastar, se aquilo que fere seu amigo também te fere, já não é só sobre ele, e eles não entendem isso na hora, nunca entendem, aprendem com o tempo, e se arrependem. Agora eles voltam chorando até mim, mas eu não aceito mais, não é por não querer, mas a consequência precisa acontecer, se o mundo ainda não impactou com ela, eu serei a consequência que o mundo tem a oferecer, a minha ausência como resposta, mesmo que com tristeza minha, vai ser a resposta que eu darei. O fato é que eu me importo até demais, e isso vai ser um problema algumas vezes, mas eu vou aprender a lidar, é assim que vivemos, sempre temos problemas, e devemos aprender para vencê-los.

Ouvindo tudo que o jovem tem a dizer, ela abre um sorriso e tira a mão de sua bochecha, segurando sua mão outra vez, com gesto de carinho, feliz que ele tenha uma ideologia a seguir, mesmo que não seja como ela pensa. Era isso que Neiva queria, uma resposta de Luke, não para ela, ao mundo.

Neiva: A frieza de um homem nem sempre significa maldade, e sei que é o seu caso. não é submisso às regras desse mundo, você caminha ao lado dele, e o contesta quando acha necessário. Somos iguais nesse quesito, mas já sei que sou objetivo ao qual você mira, e tudo bem, eu sei que isso não significa que estou sendo posta como um troféu, apenas que você seguirá o que digo até que eu esteja satisfeita. Mas sempre que você estiver se sentindo frágil, eu estarei aqui para você, posso te fazer passar por desafios difíceis, mas também sou sua casa na praia, aquela que você vai para se afastar de outros para se acalmar e poder voltar com tranquilidade. Mas ainda vai aprender mais e entender que nossa vida funciona como uma prosa que é constantemente corrigida.

Os dois se olham, e Luke solta uma pequena risada depois disso. Ele entende o que ela fala, não completamente, mas tenta, palavras são difíceis de compreender quando elas podem significar tantas coisas, por isso ele não pode ter total certeza do que uma mulher misteriosa como Neiva quer dizer.

Neiva: Você com certeza conhece a história do homem que morreu humilhado e tratado como vilão em uma cruz, ao lado de dois malfeitores, como se fosse igual a eles. Acredito que ele tenha sido um receptáculo com o poder de fazer as pessoas acreditarem na sua palavra. O que você acha?

Luke: Eu não acreditava que coisas do tipo fossem possíveis há umas semanas atrás, mas olha, não posso dizer que está errada. Se sacrificar pelos outros enquanto os outros te julgam? É duro, mas é a realidade de algumas pessoas, quem garante que não façamos isso até hoje com desconhecidos?

E com calma, Neiva solta a mão de Luke. Dessa vez, ela apenas abre a porta e sai, deixando Luke ali com explicações e uma boa conversa.

E ele entende, Neiva foi até os outros, provavelmente conhecer Octávia ou falar sobre o resto do plano. Ele não precisa de palavras para entender algumas de suas ações, agora ele podia entender Neiva mais que todos os outros.

Krallon: Parece que ela tem algo em mente, mas acho que você não vai ter coragem, não vai querer morrer, né?

Luke: Finalmente voltou? Que engraçado, tá com medo que saiu da sua casinha? Eu sinto que tu tá é com muito medo.

Krallon: Um demônio com medo do próprio receptáculo? Me deixa te explicar uma coisa, demônios não mentem, e eu não estou sentindo medo.

Luke: Você fala sobre mentir, mas omitir é possível, eu sei disso, qualquer um entende, a forma que vocês todos falam deixa óbvio. Mas relaxa, a sua preocupação logo logo vai se tornar medo.

Krallon: A gente se vê daqui uns dias, eu não tenho tempo a perder com um moleque idiota. Vou te dar uma lição por me provocar, pode ter certeza.

Dessa forma, Luke vai até a geladeira e pega uma refrigerante para logo ir se sentar em uma cadeira. O refrigerante abre, o líquido escuro, ele não conseguia ver o fundo da lata, mas sabia que o fundo existia, e mesmo que o normal seja que não tenha nada, o que aconteceria se tivesse? Qualquer coisa, Luke não pode prever que a lata não tenha nada, mas ainda assim bebe. É algo que ele sempre pensa quando pega uma bebida assim. Enquanto a água é transparente, permitindo que ele veja o fundo, mesmo que em uma lata, o refrigerante pode se tornar um objeto de pegadinhas, usado para enganar os outros.

Talvez ele não entende porque pensa nisso, leva apenas como uma curiosidade que tem, pois algo tão banal não deveria ser levado a sério. Nem sempre o banal é simples, e nem sempre o difícil é complexo, mas muitas pessoas acham que essas palavras andam lado a lado.

Luke: Pois é, gosto de xarope...

Ele diz com a voz rouca, não é remorso de beber, não é surpresa, o gosto é o mesmo, não tão bom para seu paladar. Não há nada como sempre, a lata só contém líquido, mas ele pensa: E se tivesse?

Sua força não vem da imprudência, mas da coragem, mas às vezes precisamos ser imprudentes para mostrar coragem, mesmo que sintamos que é melhor recuar, é por isso que se chama coragem.

Luke: Eu acho que quero tomar refrigerante em uma casa na praia.

E assim Luke encontra sua primeira metáfora. Estar com Neiva, mesmo sabendo que há desafios que ele pode acabar não sendo capaz de vencer, isso lhe força a ter coragem, mas pelo menos sabe que pode ter um algo que o acalme, não o refrigerante, mas a casa na praia.

Enquanto mantinha seus pensamentos, ele ouve um barulho vindo de baixo da mesa. Ele se levanta e olha para baixo, e lá estava Arthur, ou Asmo, segurando dois cubos de essência.

Luke: Que porra é essa?

Diz incrédulo, mas Asmo, parecendo estar com o coração, apenas fala com um sorriso forçado no rosto e um tom amigável, mas parecendo preocupado.

Asmo: Oi, Luke... Eu só vim dar uma visita.

Luke: VEM AQUI, DESGRAÇADO!

Ele ordena com os olhos arregalados de raiva, mas Asmo atravessa o chão enquanto Luke tenta alcançar ele, apenas dando o conhecimento que ele ficava com a mesma aparência mesmo usando outros corações. Mas o mais urgente era falar que haviam perdido os assimilados por conta de Asmo.