Amor e Perdão

 

Perdôo-me pelas feridas que abri nos avessos das minhas veias.

Pois o amor costurou com linhas coloridas as gotas de sangue. Agora, correm nos meus vasos sanguíneos flores de todas as cores, arco-íris e perfumados odores.

Perdôo-me pelas as ausências que deixei permearem as minhas entranhas, ao pedir preenchimentos exteriores; pois o amor já me mostrou com compaixão que preenchimento é interno e o vazio também é emoção.

Perdôo-me por voltar meu barco ao ancoradouro, mesmo quando o mar estava receptivo e a tempestade distante. O amor me ensinou que os ventos favoráveis vêm da minha coragem em embarcar.

Perdôo-me pelas angústias causadas aos meus olhos. O amor já limpou o sal e deixou o brilho.

 

Já me perdoei dos rasgos que me fiz enquanto buscava na frívola madrugada ser feliz.

O amor foi reconstituindo o meu motriz e me dando forças para ir além do que qualquer situação condiz.

Perdoei os meus enganos quando amei todos os meus erros.

Amei as minhas falhas quando perdoei as minhas faltas.

Perdoei as falácias abadias, pois o amor é um epodo que deixa tudo ritmado nas minhas poesias.

 

Perdôo-me pelas máscaras que cravei na face.

O amor hoje as tira com delicadeza e cura as cicatrizes com maestria; mostrando-me nua a quem quer que seja.

Perdôo-me pelas lutas que travei comigo mesma.

O amor já enobrece e a luz da paz prevalece.

Perdôo-me pelas ilhas que construí em meio aos mares de alegrias.

O amor quebrou os muros e intercalou as pontes.

Perdôo-me pelo sentimento que confundi com amor e criei, e que em tormento o transformei. Pois o amor agora é real e o real não pode ser ameaçado, e toda dor é passado.

 

Na medida em que amo, perdôo. E como pássaro em pleno vôo, jogo-me no abismo da vida, confiante que lá embaixo existem todas as cores matizadas de luz a me amparar.

Busco no néctar do perdão o alimento sagrado do amor. E na graça do amor a capacidade infinda de perdoar.

E se hoje brota lírios em meu coração e se desfiz de mim para ser Eu, é porque o amor vive em comunhão com o perdão. E a leveza de ter ambos me corrige a postura e me aflora à emoção.

 

Perdôo-me por ainda fatigar-me a viver, pois o amor tem me ensinado que a existência só pulsa animosa para àqueles que, durante o percurso, mesmo sob o cansaço, exala as cores da mandala e o círculo da vida; o verso do silêncio e a canção da cura; a mudez da palavra e a essência da Criatura.

Daniella Paula Oliveira