Kenês

 

Escreva nas minhas veias a escrita primordial. A mais original das candeias que aqui nos iluminou.

Borde em mim, com agulhas fagulhadas em urucuns, os kenês do seu povo bravo, bárbaro; incandescente de coragem, força e dor.

Tatue o amor (que eu já tenho me esquecido do seu valor).

Branca, assim como sou, preciso urgentemente da sua escrita delicada que sangra em corpos nus, nos nacos dessa floresta sem fim.

 

Kenês retalhados. Símbolos ilibados. Códigos enleados.

Literatura construída no cimento verde das árvores roucas e dos pássaros mudos. Delineada por rabiscos tontos dos puros sensatos da paz. Daqueles que querem nada mais,

- que unidade orgânica e inorgânica com os demais.

 

Venham índios, tribos, colossais...

Venham todos para a minha aldeia há tempo fragmentada

Junte as palavras (in) decifradas e fazem delas a escrita indígena dos seus matagais.

Traga para dentro de mim a mata azul e o rio lacrimoso; o ardiloso bailar dos seus pés.

Pinte-me com as pontas das asas das araras, para que eu possa voar com as suas graciosas sílabas, com as suas tênues palavras em forma de desenho poético.

Trace em mim o seu traço hermético.

 

Kenês de frutíferas imaginações, indagações e expressões.

Auwê, caciques e pajés!

Salve os seus totens escritos e garatujados nos corpos e nas almas fagulhadas de luz.

Auwê, Mandala Kenês!

Salve a contemplação que nos leva e nos eleva à Naná, aos Manás de Tupã, aos caboclos, índios e índias que há tempos escrevem em nós.

Que há tempos nos pitam com o jenipapo e o urucum, dessa Terra de todos e nenhum.

Auwê, Kenês!

 

Mandala de Simone Bichara – Texto de Daniella Paula Oliveira