Texto de Elisa Lucinda em homenagem a Regina Duarte

A vida é sonho ponto com vc

 

                

Só de pensar em fazer uma prosa poética em seu nome meus olhos se comportam como se fossem chorar. Você mora, menina, no meu imaginário de menina e pode imaginar que música explodiu no meu coração quando você saiu daquela ilusão, de lá dos Irmãos Coragem , para ser minha melhor amiga na ficção e mais amiga ainda na realidade. Vê-se que aprendeu com as fadas: cai bem e com facilidade dentro de um tecido azul, transita na seda, na malha, na cambraia, no linho e prossegue elegante num algodão cru.

                Com sua varinha mágica de otimismo realiza sonhos, atende e aceita pedidos. Empresária, romântica, mas também sabe conferir um borderô, não se aperta quando, de dentro de sua doçura, sua coragem é convocada, e goza quando tudo cintila: lantejoulas, strass, cristais, pedras preciosas e a luminosidade das artificiais; todos esses brilhos têm parentesco direto com o seu sorriso. Está escutando, minha rainha dos sete véus? A cada véu retirado, brota uma face, uma emoção; lá estão: a festeira cidadã, a menina alegre, a doce irmã, a majestade modesta ornada de algas marinhas, a inquieta mulher e as havaianas discretas nos delicados pés.

                Essa avó que gargalha, essa árvore que farfalha, essa belle de jour veio lá de Franca e Campinas para se misturar à história da televisão brasileira. E como é que eu vim parar em seu laço? O sábio Maneco parecia saber o que fazia com aquela escalação, pois em nosso primeiro encontro, nosso barco veloz e à vela já nos deu como amigas antigas a partilhar segredos, confiança, gargalhadas e união. Quando me telefonou pela primeira vez, do infinito constelado onde mora, não acreditei: Regina de quê?

                (pensei que era um trote)? Duarte. Vamos ser amigas na próxima novela, vem dormir aqui em casa, vamos cozinhar juntas, fazer uma sopa?? É desta alma que estou falando, é dessa artista trabalhada na simplicidade que, com sua presença e inteligência, costuma não perder boas palavras, bons amigos e honestas liquidações. Desde que a conheço não paro de me surpreender diante de sua originalíssima existência e sei que, desta estirpe sonhadora, Manuela e Theo não vão cansar de pertencer e de se orgulhar. O que quero aqui, meu Deus, relatar é o processo único de quem soube e sabe sonhar, quem foi escrevendo sua história, sobrevivente da ingenuidade de uma menina do interior, Regina da Arte foi se construindo na feitura de cada personagem com os quais nos encantou. De modo que pensar nela, pra mim, é agradecer ao que suas oferendas, em forma de protagonistas ou não, nos ensinam. Não vou falar o que todos já sabem, o que saía na revista Intervalo e hoje tem no youtube.

Vou dizer é que toda mulher que esteve na plateia de Regina tem um pouco da namoradinha Ritinha, de Malu Mulher e até de viúva Porcina. Estou nervosa, não sei se dá pra perceber, mas é que parece ficção que tenha cabido a mim escrever para homenagear mais de quatro décadas de dedicação desta rainha à nossa difícil e linda arte de representar. Quero falar do que ninguém viu: enquanto ríamos e nos distraíamos nas poltronas das salas de nossas casas ou nos assentos de veludo dos teatros do Brasil, nossa palhaçinha amada, guardava no coração como num cofre que não pode fechar, de cheio (com a permissão de Fernando Pessoa), os capítulos de sua vida real: as escolhas , os amores, as dores, as traições,as satisfações, as decepções, as separações , os filhos, as longas esperas nos estúdios e nas externas, as administrações afetivas feitas por telefone, as duras distâncias, as saudades de casa, a saudade de seus frutos, a falta de seu homem. Tudo isso, com discreto cuidado, foi preservado, em sigilo de gente transformante e não anônima que, ainda assim , consegue não fazer de sua vida privada uma novela a mais para os outros. No entanto, privar de certa luz de sua intimidade é ter aula particular de solidariedade e graça. Todo tipo de graça. Sorrir, para Regina, é um jeito de ser e estar.

                Aceitei ir à casa dela e dormi lá, em família, parecia. Ela também foi à minha casa, tomou chá, comeu bolo que nem as vizinhas da minha infância. Existem vários efeitos colaterais em ser amiga dela. Realmente, o tempo a fez mais bonita, mais sapeca e, por isso mesmo, integralmente mais bela. É uma mulher desperta, mambembe e muito fácil de presentear: vale flor apanhada de jardim, vale fruta, caderno de desenho, papel de carta, um prato de uma comidinha bem feita, brinco de luxo ou de lata, bilhete, sabonete cheiroso, qualquer enfeite de rainha, melhor ainda se for de Yemanjá. Me deu de presente uns conselhos ótimos, e deu mesmo. Dados, oferecidos, sem cobrar. Nem precisava, mas além de me ofertar também uns caderninhos de poemar trazidos de Paris, caderninhos estes onde componho meus versos mais recentes, ela ainda pintou meu retrato, minha gente! Fez um quadro de mim. Botou meus olhos verdes, as vermelhas unhas, deus textura cobre aos cachos. Uma beleza, uma pintura que parece comigo lá no departamento estético e mágico do coração bazar dela. Alí se encontra de um tudo. Tanto que ela me pintou de memória, apoiada nas imagens de seu arquivo pessoal. O quadro já foi da sala e está no meu quarto agora, nesta nova decoração da casa. Digo assim: tenho um Regina Duarte no meu lar! Dá bom pôster mesmo sua sinceridade, minha amiga querida, seu generoso sorriso de criança ávida de mundo. Regina cozinha, escreve, pinta, borda e fotografa. E muito, e tudo. E o faz de vários modos. Quando não com a máquina, fotografa nossos encontros e festas e conversas e shows de amigos ou não, com caneta e caderninho, no pensamento ou na mão, dentro da sua fina aquarianíssima observação.

                Não tentemos fixá-la. Não é a certinha, tampouco a doidinha, a séria ou a irresponsável, ou a patriótica cidadã. É ela e é tudo misturado e em constante mutação. Até o seu? Não? Tão alegre com o qual costuma começar suas frases é uma espécie de sim. Como também fez declamação, teve cedo educação de poesia e a poesia está na maioria de suas ações. Por isso combina muito com a Casa Poema e esta dama mimosa já foi lá sem saber que sua presença é poema pra gente. Digo que é minha amiga e parece que estou mentindo, mas não. É mesmo verdade tão verídica e boa, que nem preciso inventar. No dia em que vi que Regina trazia duas bolsas para o trabalho, duas bolsas pessoais, não acreditei. Foi como uma autorização para mim que nunca soube ser muito boa em sínteses. Pensei, mas se Regina pode...

                Bem Isabel, Malu, Lilian, Inesita, Bete, Carolina, Regina, Melissa, Pom Pom, Andréa, Roberta, Maria Célia, Ritinha , Patrícia, Simone Marques, Rosana Reis, Cecília, Bárbara, Nina, Luana Camará e Priscila Capricce, Alma, Viúva Porcina, Clara, Raquel Accioli, Florinda, Maria do Carmo, Helena Soares, Helena Graco Viana, Andrea Vargas, Helena Camargo Varela, Waldeti, Verônica, Shirley Therezinha, Maria Luiza de Malu mulher, Madalena, Lidia, Chiquinha Gonzaga, dona Irene, estas todas saíram do baú híbrido, do tesouro que é o coração dela. Há muitas dela também no cinema e teatro que nem vou aqui citar. Todas elas são rainhas, são regentes, são Regina, arte brasileira em forma feminina a quem me foi dada a honra como atriz, poeta e aprendiz, ao seu coração bazar conhecer, aprender, visitar, frequentar.

                Sei que para esta eterna estreante da vida, para esta senhora menina da história de nossa encenação, não tem tempo quente não. Pode amar a praia, o campo, o pasto, o boi, o dono do boi, o palácio, a birosca, o riso, o pranto. Pode ser feliz em vários cantos: na França, na Grécia, na Barra, na Itália, em Copacabana, Barretos, Barcelona, Bauru e Botucatu.

                Um fã clube destes, que me convidou a escrever estas linhas, equivale a uma especial família ou ao amor fiel de um amante a quem cabe registrar, encontrar e cuidar minuciosamente de todos os acontecimentos desta brilhante carreira. Você sabe, seu fã-clube trata seu acervo como se deve tratar uma joia. Esta noite de hoje é um abraço de irmãos e de amigos e estou na galeria dos seus fãs, grito com faixas, faço algazarras no seu maracanã! Estamos aqui para lhe devolver o amor que nos oferece com este seu sorriso dentro e fora da ficção. Toda luz a Eduardo pra que siga sendo, deste sorriso farto, incansável guardião. Fico pensando agora, se nós a queremos tanto, gente, imagine nesta hora o que sentem no coração André, Gabriela e João? Tudo isso quer dizer que com você, flor, a vida é sonho então!

 

                                                                               

 

 

ELISA LUCINDA

Dia 05/06/2010