FOGO

 

Eu peguei na mão do poeta e com a sua pena delicada desenhei o fogo da minha poesia.

Toquei as angústias das incertezas, e acendi o fogo do silêncio da resposta.

Beijei os lábios das cantoras vãs – deusas delas mesmas; vozes divinas em corpos pagãs – e nasceu o fogo das canções apaixonadas, enluaradas. Amásias sutis de versos perfeitos.

Amei os devaneios tontos dos amantes embriagados, e fiz o fogo das paixões ardentes.

Lambi as estrelas, como se elas fossem minhas crias mais primárias, e surgiram as faíscas do fogo que avisa os presságios às procelárias.

 

O Criador, que hoje se deixa fagulhar dentro de nós, teve forma de fogo.

Hoje etéreo e delicado. Antes fogo delgado.

As fagulhas Dele, que em nós vivem, são deuses retalhados fazendo fogo para manter acesa a chama das existências.

 O Criador, que distribui em suas criaturas, as centelhas dos lumes do elemento que compõe o seu Ser.

 

Fogo que me ascende e me acende. Que me alimenta e sustenta. Que me aquece e me esquece.

Que em seu braseiro impiedoso é todo o colosso para a vida.

O elemento da sobrevivência e da destruição. E que dentro de mim é mais que o símbolo da paixão, é a graça necessária para a minha iluminação.

Sem ele tudo é escuro; sem sua combustão tudo é inexatidão. Escombros vazios, nos invernos maltrapilhos. Nada seria dos invernos sem o fogo. Lodo seriam as estações. Congelados seriam os corações.

 

Ferramenta poderosa que reluz em tambores sagrados e em pés queimados em volta de sua fogueira.

Fusão de todas as almas. Labaredas de todas as coisas. Veemência de todas as energias.

Ancestral opulento de sangue elementar, onde nem a modernidade e a sua magnificência, conseguiram apagar.

 

Eu toquei a Mandala com o coração e surgiu em mim o brilho do fogo que a compõe.

Rastros dos cernes que unem estados, tempos e essências.

Mandala de Fogo que, com ele, remete-nos às nossas reminiscências.

Aquecimento através do ardor. Fogo também é mandala e o seu torpor também é amor.

 

Daniella Paula Oliveira