Onde a arte não dorme...

 

Cheguei a Cuba em setembro de 2010, na época em que o céu da ilha parece um espetáculo pirotécnico, colorido por tantos relâmpagos que faz as noites parecerem parte de um filme de suspense. Depois de recolher meus quase 80 kg de bagagem, que na época eu achava que seriam suficientes para passar os 10 meses de estudos que me esperavam, eu fui para a Finca San Tranquilino – San Antonio de los Baños, há cerca de 40km de Havana. Endereço da Escuela Internacional de Cine y TV.

 

Foram quatro conexões, cinco vôos, quatro países e 24h, para sair de Macapá-AP, percorrer boa parte do Brasil e da América do Sul até chegar a Havana. Uma dessas peripécias geográfica das rotas aéreas, que faz com que lugares próximos se tornem tão distantes...

 

Eu conhecia muito pouco da EICTV antes de me submeter ao processo de seleção para o Curso Regular. Creio que eu, como a maioria das pessoas que chegam aqui, vim atraída não apenas pela possibilidade de estudar cinema mas, especialmente, pela idéia de estudar cinema em Cuba, um ícone ideológico, que hoje tenta, com muito esforço, ir bem além disso.

 

Na época eu não sabia, e não tinha como saber, mas a escola para a qual eu ingressaria, apesar de estar em Cuba (e talvez só poder existir por estar em Cuba), não é Cuba.

 

A Escuela Internacional de Cine y TV de San Antonio de los Baños – EICTV foi criada em 1986, como filial da Fundação do Novo Cine Latino-americano (fnCl), pelo envolvimento de pessoas como  o cineasta e poeta argentino Fernando Birri, o realizador cubano Julio García Espinosa e o escritor colombiano Gabriel García Márquez, que contaram com o apoio do governo cubano para construírem uma escola que conseguisse integrar pessoas da América Latina, África e Ásia na arte de produzir imagens (e narrativas) de seus próprios mundos.

 

A Escola dos Três Mundos, como costumava ser conhecida a EICTV, completa 25 anos em 2011, tendo se transformado em uma Escola de Todos os Mundos, que já formou cerca de 697 alunos, de mais de 50 países.

 

Concebida como uma escola de formação artística, a EICTV coloca em prática uma filosofia particular, que preconiza que o ensino deve ser ministrado por profissionais capazes de transmitir conhecimentos por sua prática e experiência, em especial cineastas em atividade. Isso faz com que aqui sempre se recebam realizadores que ministram oficinas para os diferentes cursos.

 

Internacionalmente reconhecida como centro de excelência no ensino do audiovisual, a escola é membro da Federação Internacional de Escolas de Cinema – CILECT, junto com algumas das mais prestigiosas faculdades de cinema do mundo. Além disso, um dos seus é o de ter recebido, no Festival de Cannes de 1993, o Prêmio Rossellini, um dos mais altos reconhecimentos da comunidade cinematográfica internacional, que jamais tinha sido outorgado a uma escola de cinema.

 

A escola oferece um Curso Regular de três anos, divididos em Polivalência (primeiro ano), onde os alunos de todas as especialidades estudam as disciplinas básicas para a produção cinematográfica e, dentro da dinâmica destas disciplinas, começam a produzir seus próprios trabalhos; Especialidade (segundo ano), onde se aprofunda os conhecimentos na especialidade escolhida; e Tesis (terceiro ano), onde se desenvolve uma tese cinematográfica, por especialidade. A tese pode ser um curta ficção em 35mm, para os estudantes de direção, ou curta documentário para os estudantes de doc. Os estudantes das demais especialidades compõem as equipes que desenvolvem estes projetos.

 

Ainda são oferecidos cursos de menor duração, divididos em Oficinas Internacionais e Cursos de Altos Estudos, que atendem um público diverso interessado em uma formação de curto prazo.

 

A organização dos estudos, para o Curso Regular, é feita por meio de Oficinas (tailleres) de curta duração (entre uma e três semanas), em tempo integral. Além das atividades das oficinas, as noites na escola também sempre são repletas de programações extra curriculares, que vão das regulares mostras da cinematografia mundial, que acontecem na sala de Cine batizada de “Glauber Rocha”, passando por diversas mostras culturais, até conferências e diálogos com convidados.

 

Além disso, a escola conta com uma midiateca onde é possível encontrar mais de 15mil filmes de referência e um bom acervo bibliográfico. Desta forma, é possível ter todo o tempo sempre muito bem preenchido pelas atividades propostas e pela vida social da escola que, sendo um caldeirão intercultural, sempre é muito intenso e permite uma frutífera troca de experiências. Nas paredes da escola, repletas de grafites de cineastas e estudantes que passaram por aqui, uma das frases mais famosas é a do cineasta Francis Ford Coppola, que esteve na escola em 1998, que diz que “Art never sleep”.  É um pensamento que traduz bem o cotidiano da escola.

 

 

 

O processo seletivo da escola é anual e, em 2011, está acontecendo em 30 países. A seleção leva em conta elementos muito distintos que vão desde conhecimentos básicos em arte e em cine, até o perfil do candidato e sua procedência. Em cada país onde o processo ocorre há um comitê responsável por realizar uma pré-seleção de candidatos que serão finalmente escolhidos pela Escola. Por ano são selecionados cerca de 40 alunos para o Curso Regular, divididos pelas 7 especialidades que a Escola oferece; direção de ficção, direção de documentário, fotografia, som, roteiro, edição e produção. Do Brasil, em geral, são selecionados 5 estudantes todos os anos.

 

Já foram formados por aqui quase cem alunos brasileiros, nas diversas especialidade do Curso Regular, que têm conseguido diferentes níveis de inserção no mercado cinematográfico nacional.

 

Entre os profissionais brasileiros, nas diversas especialidades de cine, que já passaram pela escola estão Wolney Oliveira, Erick Rocha, Alicia Andrade, Marcos Pimentel, entre outros. Mais recentemente, Janaína Marques, que se graduou em 2010, está com o seu curta ficção “Los minutos, las horas”, com uma boa repercussão nos circuitos de festivais de cine de todo o mundo, tendo participado, inclusive, do Festival de Canes 2010.

 

Muitos outros cineastas brasileiros já passaram pelos cursos de curta duração da Escola, como o pernambucano Camilo Cavalcante e a paraense Jorany Castro, entre outros. E a presença brasileira na escola também é notada no corpo técnico, que conta com muitos profissionais egressados da própria escola.

 

Com a inserção, desde de 2010, de Belém como uma das cidades brasileiras a realizar o processo de seleção, tem-se buscando também a diversificação da participação brasileira na EICTV, selecionando, pela primeira vez, estudantes da Região Norte para o Curso Regular. Esse pode ser o um importante caminho para de profissionalização e fortalecimento do audiovisual desta região, na medida em que sejamos capazes de difundir os conhecimentos e as experiências que estamos vivendo aqui.

 

 

 

 

 

Cassandra Oliveira

cassandra@eictv.org.cu

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Festival de Imagem-Movimento (FIM)

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