INOCÊNCIA

                                       Ela demonstra seu sentir mesmo quando a idéia é punir.

Vive nas asas das borboletas, que pousam em ombros pesados e que em pouco tempo, seus sonhos de felicidades são esmagados.

Ela repousa sonolenta em mentes insones, e consegue adormecer no barulho agudo da dor.

Sorri para o medo e desconhece impunidade.

 

Está no espírito das flores recém-nascidas que racham o solo e se expõe ao sol, abandonando o conforto da semente para o desafio do florir.

Está nas correntezas que seguem adiante, cantando quando se chocam com as pedras, desbravando o tempo e desaguando em oceanos.

Está nos seios fartos de mães ressequidas que alimentam vidas.

No sangue impróprio que desce entre as pernas das meninas índias que mal sabem desenhar fetos.

 

Ela é o dilúvio do bebê reconhecendo vozes e confiando na maciez de um colo.

O dourado do trigo que se porta a pão.

A irradiação dos astros que iluminam nascimentos e caminhos, mesmo quando esquecidos.

A ternura da criação, que não sabe do reconhecimento, mas que teima em germinar.

 

Ela voa nas asas dos pássaros que pousam confiantes nos fios de luzes descascados.

Se alimenta da respiração abandonada e restos de sonhos empoeirados.

Dança ébria nas veias amarelas dos rios puros, que mal sabem que os seus pedaços estão manchados logo mais a diante.

Percorre os caminhos sem atalhos onde se pode viver mais e chegar mais tarde.

 

Pássaro contente que voa entre abutres famintos. Força singular que permite unidade. Aperto de mão sincero com intenção de amizade. Gênese dos verbos.  Sensação de etéreo. Os elementos que vivem na Mandala. Impulso primário que o Escultor usou para esculpir no barro, o Homem.

Daniella Paula Oliveira