Sabedoria

 

Eu vi o pescador fitar o mar e mergulhar a sua rede e trazer lá do fundo, peixes.

Vi a águia soltar os seus filhos em um abismo para que eles aprendam a voar, e estar lá em baixo para aparar.

Vi as correntezas se chocando com as pedras e formando canções.

Vi um punhado de grama rachar o asfalto e brotar.

Vi olhos cansados descansando sobre pálpebras roxas e quando abertos, vi brilho neles.

Vi poetas salvando vidas em um soneto e libertando almas em uma ode.

Vi jardineiros virando flores e flores virando amor.

Vi crianças com cem anos brincando de estar no mundo e viver; aprendendo as cores das borboletas e voando com elas.

Vi uma grande árvore caindo para deixar viver milhões de seres que germinam em suas raízes.

Vi dentro da mandala da vida a sabedoria de estarmos todos unidos.

 

Essa sabedoria que vem de um sopro interno, de uma fagulha de luz que se espalha, do mais puro e natural cerne, da mais essencial natureza.

Daquele sorriso que fala quando não há o que dizer. Daquele silêncio que nasce quando nada mais bastaria. Daquele barulho dos pés do caboclo em contato com as folhas e a terra de uma mata. Daquele fragor das ondas se abraçando. Da pequena gota que anda léguas até se fundir ao oceano – da pequena gota que tem a sabedoria de continuar.

 

A sabedoria dos espaços, do silêncio, do branco, do essencial. Que floresce em todos e em tudo – pálpebras roxas, unhas ruídas, barriga com fome, pés descalços, mãos calejadas, costas surradas; Himalaia, beira de praia; seringal, quintal; canoa no rio; bar frio; embarcação – pois em tudo há coração e é através dele que a sabedoria fala.

Agora ela nos vem como mandala. É só sentir a pulsação.

 

Daniella Paula Oliveira