Carlos Santos é árbitro internacional de basquetebol. Cresceu e viveu na ilha do Faial.

Esteve recentemente no Faial a ministrar um curso de novos juízes de basquetebol, sob a responsabilidade organizativa da Associação de Basquetebol das Ilhas do Faial e Pico.

Aproveitámos a sua “passagem” pela ilha do Faial para  efectuarmos esta entrevista.

Agradecemos toda a sua disponibilidade e prontidão para aceder a este pedido. Vale a pena ler e reler as suas palavras, pelos muitos ensinamentos que transmite!

1 - Começaste a arbitragem no Faial. Há quanto tempo ?

Oficialmente há precisamente 22 anos, foi em Fevereiro de 89. Comecei por arbitrar nos treinos, houve três ou quatro jogadores dos juvenis que foram promovidos aos seniores do Fayal Sport Club por falta de jogadores dessa equipa, mas com uma diferença…seria mais para completar o banco…, ao mesmo tempo com a falta de árbitros da altura, surgiu a oportunidade de entrar em jogos treino, dos campeonatos de ilha e de seguida em campeonatos regionais. Houve muitas pessoas que me marcaram nessa altura, entre família e amigos mas para esse momento, a principal foi o Luís Paulo Vieira que me incentivou particularmente e me ofereceu sua camisola Adidas para começar a arbitrar bem equipado….naturalmente que beneficiei muito, por estar numa família e num grupo de amigos, onde o desporto a todos tocou de forma intensa.

2 - Quando é que começaste a actividade como árbitro internacional ?

Passei a árbitro internacional em Maio de 2001 num curso que ocorreu em Tel-a-viv.

3 - Quanto tempo é que necessitaste para passar de árbitro nacional a internacional?

Passei a árbitro nacional de 2ª na época 91/92 e a árbitro de 1ª em 93/94.

4 - O que é que nos podes dizer sobre o teu currículo na área do basquetebol, da arbitragem ,…

Formação de árbitros todas as épocas, em diferentes níveis de objecto e de objectivos. Para além dos cursos que participamos para árbitros regionais ou nacionais, existe também um processo de coaching contínuo para um grupo de trabalho específico, que nos é atribuído pelo Conselho de Arbitragem da FPB. No meu caso e genericamente, coordeno esta época a formação e evolução dos árbitros Nacionais de 1ª, 2ª ou candidatos a tal, nas regiões, de Setúbal, Algarve, Madeira e Açores. Para além do trabalho que é realizado por estes nas suas regiões e que passa pelo treino físico, teórico, técnico aproveitando especialmente o vídeo mas também em sessões de campo, existe semanalmente auto-avaliação de todos, que com o seu respectivo feedback, potencia que o árbitro para além de se sentir acompanhado, pode aqui desfazer dúvidas pessoais e mais importante ainda, aprender a conhecer-se melhor, evoluindo e consolidando as competências psicológicas.

Participação na formação de treinadores de nível 1, 2 e 3 é outra estação que nos compete e que concretiza a oportunidade também de aprender mais com o jogo e com compreensão da vida e da missão de um treinador. Quando as vitórias não surgem é seguramente o participante no jogo com a vida mais difícil.

Psicologia do Desporto é outra área onde tenho participado, tendo aqui a oportunidade de junto com os diferentes grupos de trabalho, passar a mensagem da importância das competências psicológicas na actividade desportiva de formação e alto rendimento.

 

5 - idade... Pode ser?

39..

6 – Lembras-te da tua formação como árbitro no Faial ? Onde é que foi o curso, foi ministrado por quem …?

Se bem me lembro foi uma semana e dois fins-de-semana seguidos, nas férias de carnaval desse ano, a parte teórica foi na delegação de desportos e a prática no pavilhão do Fayal Sport Club. O formador foi Mário Dias de Sousa do Cad do Porto, pelo qual e apesar de não o ver há muitos anos, tenho grande estima.

7 – Tem valido a pena o tempo e trabalho dispendido na área da arbitragem ?

Claro, sem dúvida. Faz-se muitos sacrifícios, há deles importantes para o definir de determinado rumo de vida, fica a faltar tempo para outras coisas mas não se pode ter tudo, pode-se é fazer as coisas em fases diferentes da vida.

A arbitragem, o Basquete e o desporto em geral só me tem dado a ganhar, desde as pessoas, às coisas, aos sítios, às emoções, aos ganhos, à saúde, à educação desportiva a tudo…não há nada mais completo que o desporto e há ainda no ar alguma ideia que fazer uma carreira de desportista de formação ou alta competição, jogador, treinador, árbitro… é coisa de loucos…que é incompatível…incompatível é não ser feliz.

8 – Tens conseguido, mas certamente não é fácil conciliar a vida profissional com a arbitragem ?

Fácil não é, mas sabemos que nada é fácil…todo o tempo vale ouro, há que conciliar a vida profissional, pessoal e desportiva.

Trabalho na área comercial de uma companhia aérea e tenho muito orgulho em estar na empresa que estou há 12 anos, há que gerir a história pessoal na empresa com a competência exigida, que é o objectivo de todas as empresas, a SATA não foge à regra, o empenho, organização e procura de resultados são permanentes.

Além disso tenho a minha vida pessoal, tenho uma filha de três anos que é a minha Maria, e tenho a vida académica que anda em banho maria, diria mais que se vai reiniciar em breve para dar seguimento à vida da Psicologia, que é a base de formação e que é o que realmente aprecio.

9 – Qual foi a situação que mais te marcou como árbitro ?

Há muitas e diferentes….qualquer jogo de sub-14 ou seniores motiva-me, este ano tive oportunidade de arbitrar a final de sub-14 femininos de Lisboa e foi um verdadeiro espectáculo de jogo, em termos de campeonatos há dois que destaco…o campeonato mundial universitário em Pequim em 2001, o campeonato europeu de sub20 masculino de divisão A em Moscovo em 2005, onde jogaram muitos jogadores que pontificam hoje em importantes equipas europeias e alguns contratados para a nba. Depois, todo o jogo ou campeonato internacional tem a sua história e todos são importantes.

De inverno existem as competições europeias de clubes masculinos e femininos e os campeonatos nacionais, de verão as competições de selecções. Participei em 14 campeonatos da Europa de formação e arbitrei cerca de 200 jogos internacionais, divididos 50/50 entre campeonatos de selecções e competições de clubes.

Na Europa há 5 competições de clubes, 3 masculinas, euroliga e eurocup sob a égide da Uleb e a Euochalenge na Fiba, depois duas femininas a euroliga e fibacup também na Fiba. Temos três árbitros na Uleb e 4 na Fiba onde me encontro.

Marca-me o facto, da arbitragem ter-me permitido conhecer todo o Portugal e ter estado em mais de cinquenta sítios diferentes, países e cidades espalhadas por toda a Europa, juntando aqui Moçambique e China.

Em termos nacionais, estou na 17ª época como árbitro de 1ª divisão e houve desde então a oportunidade de ter estado em cerca de 400 jogos entre equipas da primeira divisão..(quando chegar aos mil vou me embora J..), tendo tido até ao momento a felicidade de arbitrar as finais de todas as competições e que quero repetir ainda muitas vezes…pelo lado negativo, há também várias, não é fácil lidar com as épocas inteiras, também existem erros com que se tem de conviver, estar em campo e nada poder fazer, no último jogo do grande jogador que nos deixou muitas saudades, Paulo Pinto.

10 – Qual é o sentimento de estar “hoje” no Faial como Formador na área da arbitragem ?

Satisfação claro, é a terra onde cresci, onde vivi... sinto-me em casa e sei que estou em casa, há uma identificação imediata com tudo.

Deu tempo para matar algumas saudades, poucas… e trazer bolo de milho….melhor que isso é ver mais de 25 miúdos e miúdas a tirar o curso de árbitros e oficiais de mesa, mantendo a actividade de jogadores ou treinadores, ou optando já pela arbitragem, querendo assim elevar o seu conhecimento do jogo, muito bom! Além deles, mais todos os outros, os mais velhos, desde dirigentes, juízes a treinadores, muito bom mesmo, parabéns a todos!

11 – A arbitragem influencia o desenvolvimento do basquetebol. Como é que a arbitragem pode contribuir para a evolução do jogo ?

Influencia de facto e muito. O jogo hoje deve permitir que quem é melhor fisicamente, mentalmente, técnica e tacticamente, deve ter melhores condições para ganhar.

Nos últimos anos tem-se corrigido de alguma forma uma certa trajectória cultural do próprio jogo, que sempre deu mais vantagens ao atacante que ao defensor. Há que mudar essa maneira de pensar, o atacante não pode ter qualquer vantagem cultural ou teórica…se estiver a ser bem defendido, tem de demonstrar recursos que o permitam ultrapassar o adversário ou atingir a solução que pretende, de forma simplesmente legal. O que se pretende é que os jogadores possam aplicar em campo, o maior nível de agressividade possível.

Os árbitros devem intervir no jogo, quando for evidente e o uso ilegal da técnica ou do corpo com directa ou indirecta vantagem. No uso das mãos na defesa ao portador da bola por ex, deve-se interromper o jogo, se essas mãos não permitirem que o outro jogador mude de direcção ou arranque para espaço livre…caso contrário e dentro de determinados limites, deve se evitar interromper o jogo e aplicar o conceito de vantagem/desvantagem que se aplica a pequenos contactos.

Na avaliação dos passos, não se pode permitir que um atacante a ser bem defendido o possa ultrapassar efectuando essa violação…aqui o drible directo nas penetrações do jogo exterior para o interior e as mudanças de pé eixo nas zonas próximas do cestão serão as situações a ter mais em conta.

O jogo fora da bola é outro assunto importante…defender sem bola pode ser mais difícil que com bola..além disso há aqui mais contacto entre os jogadores…há que controlar este tema durante todo o jogo e não permitir vantagens ilegais, quer da defesa quer do ataque. Por lado ainda, a verticalidade e as situações de carga/obstrução. O mais importante é avaliar bem quem invade o cilindro de quem….resumindo…esperar que as coisas aconteçam e ver os filmes do principio ao fim..quando tomamos decisões e só vimos metade do filme, provavelmente vamos nos enganar..arbitrar primeiro a acção e depois a reacção.

12 – Para além do que está definido nas regras oficiais, qual é a relação que um árbitro deve ter com os jogadores e treinadores em jogo oficial ?

O árbitro está para o jogo para arbitrar, como o jogador para jogar, o treinador para treinar, o adepto para apoiar etc..,nada que não saibamos…a questão passa por sublinhar que cada um desempenha de facto, um papel completamente diferente…a função de arbitrar, ajuizar, decidir sobre terceiros…equipas…requer equilíbrio e credibilidade durante todo o tempo de jogo…ou seja consistência.

Os árbitros devem basear o seu comportamento e comunicação com os jogadores e treinadores, na assertividade, ou seja directos, honestos e respeitosos. Estas características beneficiam a comunicação interpessoal, aumentando os níveis de auto-confiança do árbitro, gerando mais confiança dos outros sobre as suas decisões e ao mesmo tempo, reduzindo os níveis de ansiedade.

Um jogo de basquete é um jogo público, ou seja, as regras são públicas, devem ser claras e iguais para todos. A relação com os participantes no jogo, deve ser uma relação entre papeis…entre árbitros e jogadores ou treinadores…e não enquanto pessoas por si, cada um tentará desempenhar o seu papel da melhor forma, como num teatro…quando a cortina fecha, voltamos a ser as nossas pessoas, na verdadeira acepção da palavra.

13 – Não é fácil para os nossos árbitros procurarem evoluir com poucas experiências externas. Como é que podemos minimizar este problema ?

O Maximo Bussaca, um dos melhores árbitros do mundo de futebol é da Suiça..e outro que está no top5 mundial é do Usbequistão…e então…que futebol temos nesses países? O que traça os nossos limites chama-se ambição e desejo, cada um terá de saber até onde quer chegar…por outro lado, o factor competição tem o seu peso…a Terceira que está a meia hora de voo é a região do país com mais destaque no Basquete Português, duas equipas na proliga, uma na liga feminina e outra na liga masculina…para uma terra com menos de 60,000 habitantes é obra…não pode o Faial vir a ter uma equipa na cnb1 masculina ou na 1ª divisão feminina a curto médio prazo…e Santa Maria nos femininos a mesma coisa e a equipa masculina de São Miguel subir à proliga mantendo a feminina na liga…claro que podem….depende da vontade e dos recursos…e finalmente dos resultados…há que fazer algum investimento que não será muito….quem o faz normalmente não se arrepende..os clubes franceses há muito que gerem os seus orçamentos com pequenos mas muitos sponsors…e não ficam à espera de um apenas, que resolva todos os problemas. É quase tudo uma questão de cultura e personalidade. Se alguém gosta de ver Nba e espera pelas duas da manhã para apanhar o directo é porque gosta mesmo de ver Nba….resumindo há que investir…com recursos e condições mas primeiro que isso…com motivação.

14 – Um indicador importante de desempenho de um árbitro ocorre na área da sua formação pessoal, nomeadamente a imagem de juiz, que deve ser Justo e Correcto na relação com todos os intervenientes do jogo. É importante a avaliação do trabalho desenvolvido por estes, no sentido de ser efectuada uma selecção, que permita a escolha de uns em detrimento de outros, procurando mudar atitudes e comportamentos. Como é que é possível intervir nesta área ?

Todas as componentes do árbitro são decisivas, mas a parte psicológica é a mais importante na minha opinião, preparação, motivação, concentração, tomada de decisão, consistência….há que juntar formação humana e desportiva com a formação técnica, num corpo e numa cultura de atleta….a um jogador é compensada a estatística de turnovers ou lançamentos falhados, com as assistências certeiras e pontos que marca…e que influenciam a vitória da sua equipa….a um árbitro não são permitidos muitos erros…é como que se os erros fossem para os jogadores porque são eles o jogo…pois, mas na verdade são todos feitos do mesmo…só há um caminho…errar o mínimo e superar.

15 – Quais são as estratégias que consideras que podem melhorar a arbitragem no Faial ?

O Faial está no caminho certo mas é importante não perder o contacto permanente “com o mundo” do Basquete nacional e trabalhar continuamente.

Ao que sei, existe um número considerável de atletas, masculinos e femininos, nos vários escalões, apesar de se concentrarem em basicamente dois clubes, há mini-basket, há formação, há adeptos, treinadores e juízes…há mais vida do que já houve anteriormente. Melhorar a arbitragem passa por elevar o nível de preparação dos jogos, com maior profissionalismo, com maior cuidado e encarar cada jogo como o mais importante, dando-lhe a maior dignidade desportiva possível.

Há bastante gente ainda em formação e jovem, há que ajudar nesse processo de forma responsável e tenho a certeza que o Mauro Ferreira com a ajuda do João Machado e dos outros, levarão a bom porto os seus objectivos.

16 – Podes transmitir alguns conselhos aos nossos árbitros ?

Como conselhos não, apenas duas notas; que nunca percam a noção de que o jogo é feito da relação entre o jogador e o adepto e que sejam muito felizes com o facto de estarem dentro do campo, com a missão grata e ingrata, de garantir credibilidade e controlo ao desenrolar de um jogo, com as suas regras, com a sua técnica, com a sua intensidade, com a sua história, que invariavelmente varia de jogo para jogo, de minuto para minuto.

Parabéns pelo vosso projecto e votos de felicidades, 1abraço!