Cura

 

Quando o trópico esverdejante lambeu as feridas deixadas pelos os invernos taciturnos,

A menina balbuciou na mulher. O garoto encorajou o homem. A semente rachou a terra e se expôs ao sol.

Curaram-se as chagas há muito abertas pelas navalhas das ilusões, estancou-se o sangue há tempos jorrado pela a hemorragia da culpa e calaram-se os gritos dissonantes à música essencial.

 

A cura veio das vísceras, dos pulmões, das veias em chama, do coração, da razão, do fulgor das têmporas que já esperavam o equinócio.

Veio lá do motriz do íntimo, dos escarpados caminhos da mente, da cavalgada iminente à luz.

Veio dos labirintos das digitais; do cheiro da pigmentação que passamos a conhecer; do lúgubre e do fértil bem do meio dos nossos seios.

Veio do mistério que não desejamos desvelar, mas viver; do ar da coragem que nos fez soprar os ventos que impediam nossas flores de nascer; da palavra AMOR fustigada de fora para dentro.

 

Lá dos píncaros da nossa vontade, a cura esbravejou e renasceu.

Lá da harmonia vibrante das coisas alheias e unas dentro de nós, ela estremeceu e ressurgiu.

Onde a vida brota sem precipitação e sem atraso – e onde a sabedoria, tantas vezes calada, faz sua morada.

Onde a máscara é retirada, e uma leve plumagem cai todo fim de tarde só para proteger nossa face, a cura se principiou.

 

Ela puxou nossos cabelos para nos lembrar de apontar para as alturas, e fez cócegas nos nossos pés para nos livrar do aferro a terra.

Despiu a nossa impetuosidade para alimentar a nossa mansidão, e ornamentou a nossa mansidão para irmos para a guerra das emoções.

Limpou os nossos pés e sujou as nossas mãos; para que adentremos o nosso templo sagrado sem nos apoiar nas nossas sujeiras.

Declamou poesia para a nossa alma e entregou flores murchas para o nosso ser; para que através da delicadeza façamos reviver as flores do nosso interior.

 

A cura veio através dos ensinamentos que se despertaram em nós, e conseguimos transformar em aprendizados.

Através do cerne divino enraizado nas constelações dos nossos reais sentimentos.

Através das batalhadoras formigas e das guerreiras mariposas que levamos conosco.

Além do gigante dragão que adormecemos nas tempestades interiores e das vicissitudes exteriores; onde a cura remanesceu desse sono, acordando-nos para a liberdade da paz.

 

Ressurgiu colorida na mandala da vida – dizendo-nos:

Contemple a maravilha, pois a Cura, assim como a Fênix que não só renasceu das cinzas, mas também do íngreme das suas asas, ela renasceu do cinza tornando-se cor e do ponto mais elevado de si mesma se fundiu a nós.

Seja-me! A Cura nos diz. Contemple-a! A Mandala nos fala.

Daniella Paula Oliveira