Conversas com Linguistas: Virtudes e Controvérsias da Linguística

BOLSISTAS: Fernanda Silva e Ianderléia de Oliveira

QUE É LÍNGUA?

QUAL A RELAÇÃO ENTRE, LÍNGUA, LINGUAGEM E SOCIEDADE?

A LÍNGUA TEM SUJEITO?

Ataliba de Castilho

Ataliba de Castilho

Ataliba de Castilho

A língua é um multissistema o qual  aborda a língua como léxico, ligado ao qual temos a semântica o discurso e a gramática. E por ser multissitêmica é governada por um dispositivo sociocognitivo, entendido como dispositivo pré-verbal, porque antecede a sua execução lingüística, mas governa essa execução.

A relação entre sociedade eu localizo nesse dispositivo, em que você analisa as condições sociais em que se encontra e vai produzir um discurso. As relações entre língua e linguagem remetem a distinções feitas, sobretudo no modelo estruturalista, em que se postula a língua como um código abstrato e as utilizações concretas desse código como a fala. A linguagem é um meio de comunicação que ultrapassa o meio verbal.

O sujeito é uma questão fundamental, você não pode conceber a língua sem um sujeito, entendido como o sujeito falante e seu interlocutor. No momento da execução linguística, a primeira situação linguística propriamente dita é essa situação em que se instaura o locutor e seu interlocutor. Ou se instaura por meio de uso de expressões próprias, que estão lá na gramática da língua.

José Luiz Fiorin

José Luiz Fiorin

José Luiz Fiorin

É a condensação de todas as experiências históricas de uma dada comunidade. É nesse sentido que temos que ver a língua, é claro que tem a gramática, ela tem um léxico, mas o aspecto mais relevante é a condensação de um homem historicamente situado.

A língua é uma maneira particular pela qual a linguagem se apresenta. A linguagem humana é essa faculdade de poder construir mundos. A linguagem dá ao homem uma possibilidade de criar mundos, de criar realidades, de evocar realidades não presentes. A língua nesse sentido é a concretização de uma experiência histórica. Ela está ligada à sociedade, não negando a existência de regras gramaticais, mas o que me interessa é essa vinculação da língua com a sociedade.

O sujeito da linguagem é uma formação social com todas as suas contradições.

João Wanderley Geraldi

João Wanderley Geraldi

João Wanderley Geraldi

É produto de um trabalho social e histórico de uma comunidade. É uma sistematização sempre em aberto, enquanto fenômeno sociológico e histórico, está sempre sendo retomado pela comunidade de falantes. A língua é instrumento e produto do trabalho ao mesmo tempo.

Poderia dizer que a historia de uma sociedade é a historia de como ela organizou o seu trabalho. Ora, é aí que a língua surge: sem sociedade não há linguagem. Então, ele emerge, ao mesmo tempo, como parte do processo de construção de organização social; ela se dá pela atividade de sua própria construção, e o processo de construção da linguagem permite a construção do pensamento, que funciona como instrumento de produção de discursos, lugar onde se produz língua. Você não tem língua, você não tem linguagem, você não tem sociedade estratificada, fechada e estabelecida, você não tem sujeito pronto e acabado, mas tem sempre movimento.

Para Geraldi o sujeito é historicamente aquele que se constitui no corpo biológico que somos, nos processos de relação desse corpo com outros corpos, processos que produzem a emergência, a constituição de consciência, sígnica por certo. O sujeito não se constitui na medida em que se desprende do outro, mas, ao contrário, o sujeito se constitui na medida em que se relaciona com os outros. Do ponto de vista da unidade plural, heterogênea, mutante do sujeito, a linguagem o tem no sentido que o constitui, mas paradoxalmente o sujeito só é sujeito porque tem linguagem.

Mary Kato

Mary Kato

Mary Kato

Na verdade tenho duas visões de línguas. A primeira é a chomskiana (língua-I), que é o conhecimento que o indivíduo tem da língua, que é aquela que todas as crianças trazem como um dom genético (abordagem biológica). Já a segunda é a língua externalizada (língua-E), onde é vista em tudo aquilo que o homem produz, notada ainda no corpus da fala.

A sociedade imprime certas restrições que são independentes daquelas restrições que Chomsky impôs, limites biológicos. A língua muda, muitas vezes por motivos sociais, mas a mudança se faz dentro do que a gramática universal permite, como um organismo vivo. A fala revela a nu essas mudanças, mas, na escrita, é a sociedade que determina o que da língua anterior, quer dizer, do estágio anterior, vai se preservar. Agora o termo linguagem vai depender muito de como você define. Linguagem é um termo muito mais genérico. Você fala em linguagem artística, linguagem matemática, quer dizer, qualquer coisa que tenha alguma estrutura, alguma informação, é linguagem.

Kato diz que na visão chomskiana não existe esse tipo de preocupação com o sujeito. Diz que essa é uma discussão interna a quem faz análise do discurso

Ingedore Koch

Ingedore Koch

Ingedore Koch

A língua é simultaneamente como um sistema e como uma prática social, onde não  possível dissocia-las, por ser um conjunto inter-relacionados em vários níveis. Mas ela só pode se realizar enquanto prática social

Linguagem é a capacidade do ser humano de se expressar através de um conjunto de signos. Então eu acredito numa linguagem pictórica, numa linguagem sonora, numa linguagem verbal. Então, linguagem é todo meio de expressão do ser humano através de símbolos. E a sociedade nessa relação é essencial, sem sociedade não há língua.

O sujeito é esse sujeito social que evidentemente está sujeito às determinações do meio social em que vive. Ele opera escolhas significativas entre toda a gama dos meios linguísticos que tem à disposição e vai dar uma configuração determinada ao seu discurso.

Luiz Antonio Marcuschi

Luiz Antonio Marcuschi

Luiz Antonio Marcuschi

A língua deve ser entendida como uma atividade e não um sistema ou forma. Ela é um domínio público de construção simbólica e interativa do mundo. Língua é mais do que um conjunto de elementos sistemáticos para dizer o mundo. Língua se manifesta como uma atividade social e histórica desenvolvida interativamente pelos indivíduos com alguma finalidade cognitiva, para dar e entender ou para construir algum sentido. A língua é atividade sócio-interativa sempre voltada para alguma finalidade e secundariamente serve para transmitir informações e representar o mundo, porque tanto as informações transmitidas quanto o mundo representado são, sobretudo produtos ou frutos de um processo interativo em que a língua atua.

Neste ponto, ele concorda com Chomsky, vendo a linguagem enquanto propriedade da espécie humana seria uma faculdade mental instalada no cérebro. A língua seria uma das formas de se organizar, efetivar, concretizar essa faculdade humana, assumindo histórica, social e culturalmente uma das determinadas maneiras de ser. Então a linguagem seria uma faculdade humana e a língua uma das formas assumidas por essa faculdade no exercício cotidiano do ponto de vista social e histórico. Existe uma relação bastante estreita entre estruturas sociais e estruturas linguisticas, mas as estratégias linguísticas, ou seja, entre usos linguisticos e estruturas sociais, porque essa relação entre linguagem e sociedade se dá pela cultura e pela situação em que as pessoas vivem e por aquilo que as pessoas querem fazer.

O sujeito é uma construção e uma construção muito complexa dentro de uma cultura; culturas diferentes constroem sujeitos de forma diferentes e há processos ideológicos, processos históricos, processos sociais diferenciados. Conclui-se que a língua não tem sujeito.  Sujeito é uma construção pela língua, com a língua, na língua, mas nunca fora dos indivíduos que estão interagindo com a língua.