Introdução aos temas Globalização e Imperialismo Por Gislene Bosnich

        O sentido destes dois grandes temas é revisar os principais conceitos e categorias de análise desde a Antiguidade, passando pela Idade Média, Idade Moderna até atingir a Idade Contemporânea. Em geral, o conceito de globalização é projetado nos livros didáticos como um fenômeno marcadamente associado ao final do século XX, mas é necessário fazer um contraponto, ampliando a visão reduzida desta manifestação de magnitude territorial, de mercadorias/produtos e finalmente de informações, que apropriada pelas classes dominantes traduzem-se na sua face imperialista. Pode-se mensurar em três grandes momentos a globalização: O Império Romano, as Grandes Navegações e finalmente a Era do Satélite. No entanto, o próprio deslocamento pela África é o primeiro grande momento em que a Humanidade começa a trilhar seu caminho expansionista.

        É preciso distinguir o processo ontológico (próprio do ser humano) de espraiamento e de deslocamento de pessoas pelo globo - com a paulatina conquista da natureza e sua aceleração nesse processo de povoamento introduzindo estradas, meios de transportes animais, navios (espaço marítimo) e finalmente conquistando o espaço aéreo - do processo de apropriação privada das conquistas da Humanidade pela classe dominante de cada momento histórico, que é a primordial característica do Imperialismo que assentado no tripé: ocupação militar, controle político e exploração econômica arrebenta povos e aniquila culturas impondo, onde convém, sua sede de lucro. O imperialismo só tem condições de existir porque utiliza as conquistas da Humanidade, que oprime e explora, através da luta de classes e da Divisão Internacional do Trabalho.

        A partir destes dois temas: Globalização e Imperialismo é possível discutir classes sociais (explorados, exploradores), formas de organização do trabalho e modos de produção, miséria real e miséria artificialmente produzida, transição do mundo feudal para o capitalismo, corporações de ofício, formação dos Estados Nacionais, Revolução Industrial (1ª e 2ª fases) e já na transição do século XIX para o XX a ideologização da máquina como fonte de inteligência e eficácia. O fetiche da máquina e seus desdobramentos: desvalorização do trabalhador e valorização da máquina e da mercadoria, arrocho salarial, desemprego, criação do exército de reserva (desemprego ou precarização). Divisão Internacional do Trabalho, migração e imigração, as novas ondas de exploração (China: processo interno; Europa: imigrantes africanos e Leste Europeu; Brasil: imigrantes bolivianos e peruanos) e Imperialismo, novas ondas: Afeganistão, Iraque, Haiti.

         A Divisão Internacional do Trabalho está assentada na divisão social do trabalho[1] só que é mais ampla e determina também a situação dos países em relação a sua capacidade produtiva. A Revolução Industrial foi o grande estopim deste processo. Entre os séculos XV e XVII, países como a Inglaterra e a França saíram à frente no incremento[2]  de máquinas para acelerar a produção de mercadorias. Estes países foram seguidos depois por Alemanha e Itália, que estavam atrasadas em seu processo de formação de Estado-Nação[3]. Já os Estados Unidos passam à frente ao assumirem a dianteira durante a II Guerra Mundial (meados do século XX). Mas no que consiste à divisão internacional do trabalho? Consiste na apropriação e no desenvolvimento de tecnologia de ponta, que também vai se alterando à medida que vai se dominando mais a natureza[4] enquanto a maior parte dos países produzem bens de consumo duráveis (geladeira, automóvel, máquina de lavar, tratores, ou seja, produtos com baixa tecnologia embutida) e não-duráveis (grãos, cereais, gado de corte e de leite, hortifrutigranjeiros, como a exportação de frango do Brasil para outros países). Mas por que então todos não têm direito a produzir tecnologia de ponta? Porque tem relação com o poderio econômico que estes países (Estados Unidos, Inglaterra, França, Alemanha, Itália e Japão, principalmente) possuem no cenário internacional. Por exemplo, há décadas o Brasil dispunha de protótipos de carros movidos a energia elétrica e até mesmo a bagaço de frutas. Isso nunca foi levado adiante. Ao contrário, foi minado. Agora, os carros elétricos aparecem produzidos por montadoras francesas, japonesas, entre outras. Não se trata de competência, mas de deliberação  da classe dominante tanto dos países que produzem tecnologia de ponta quanto da burguesia dos países que produzem bens de consumo. Ou seja, há um acordo implícito para que tudo se mantenha como está. Os países que produzem bens de consumo vão continuar pagando muito caro para terem a tecnologia de ponta produzida por um grupo seleto de países.

        Como esta Divisão Internacional do Trabalho é utilizada na forma do Imperialismo? E aí que toda esta tecnologia de ponta[5] é usada para oprimir e explorar países que parecem estar contra a ordem mundial (ou que possuem muitas riquezas) e estão mais suscetíveis política (e às vezes também economicamente) de serem invadidos e expropriados em suas riquezas naturais, caso dos atuais: Iraque, Afeganistão, e Haiti. Isso significa que o Imperialismo e a própria Divisão Internacional do Trabalho vão contra a soberania de um país. Vejamos o que acontece com a usina de Jirau em Rondônia, Região Norte do Brasil. O ex-presidente, Willian (Bill) Clinton, a atriz Sigourney Weaver, o ex-ator Arnold Schwazenneger estão contra a construção. Mas será que o interesse real é a proteção da Amazônia ou fazer com que o Brasil detenha seu crescimento econômico? O país é soberano ou deveria ser. Há movimentos sindicais, ecológicos, partidários, todos brasileiros, contrários à construção. Se estes e outros estrangeiros são contrários a Jirau por que não se manifestam em relação às madeireiras que destroem a mata diuturnamente? Assim, parece ficar mais evidente a relação de: Globalização, Imperialismo e Divisão Social do Trabalho.


[1] A divisão social do trabalho existe entre os que elaboram e detêm a propriedade privada das ferramentas de trabalho [meios de produção]; e os que executam, vendendo sua força de trabalho. Em outras palavras, entre capitalistas, classe dominante e exploradora e trabalhadores livres assalariados, classe dominada e explorada.

[2] Incremento entendido como melhoria e sofisticação de matriz energética, carvão (século XVIII) e bem depois, século XIX, energia elétrica e outros combustíveis fósseis.

[3] A Alemanha e Itália somente se formaram no final do século XIX, pois antes não existiam como Estado-Nação, eram um punhado de cidades-estados, como o idioma e traços culturais iguais, ou até mesmo tinham parte de seus atuais territórios no interior do Império Austro-húngaro.

[4] Por domínio da natureza deve-se compreender a capacidade de criar máquinas, equipamentos sofisticados que colaborem para melhorar a condição de vida dos seres humanos.

[5] A tecnologia de ponta também está diretamente ligada à indústria bélica, uma das propulsoras de grandes inovações que saem das guerras e vão parar no cotidiano das pessoas. Tecnologia pode ser usada de acordo com quem a controla. Os capitalistas a usam de maneira privada, sem permitir que todos tenham acesso, e quando o fazem na guerra é conforme as características imperialistas.