Para leitura das obras Retirantes, de Raimundo Cela, e Untitled, 1961, de Saul Steinberg, foi utilizada a metodologia Image Watching que analisa uma obra de arte em cinco passos: olhar (somente descreve o que se vê); construir (analisa as cores, linhas, profundidade, técnica, etc); sentir (interpretação da obra, o que se sente ao vê-la); conhecer (informações contextualizadas sobre a tela), etc.

Retirantes

Um homem e uma mulher olhando para o horizonte, infinito. Ele segura com uma mão um galho de uma árvore e com a outra um chapéu. A mulher está sentada (à direita, logo abaixo) e usa um lenço na cabeça. Ambos estão de costas para o espectador.

A Obra é em preto e branco cujas linhas verticais predominam. Há também linhas horizontais e inclinadas, apesar da imagem ser estática, as linhas contribuem para que o espectador faça um movimento da esquerda para direita e de cima para baixo. Elas guiam o olhar do tronco até a mulher sentada, passando pelo marido. Algumas linhas são mais fortes; outras, mais suaves. A linha horizontal (bem abaixo do centro) dá ideia de repouso como também as verticais chamadas linhas estáticas, embora bem menos que as horizontais. As outras linhas são consideradas mais dinâmicas, criando movimento.

Os pontos geométrico e perceptivo ficam próximos a cintura do retirante. Sendo que o primeiro é aquele que precisa de uma régua para ser medido, pois é mais preciso a olho nu, pois fica mais difícil percebê-lo sem a utilização dessa técnica. É o ponto central entre as bordas de um quadro. O ponto perceptível é aquele em que o nosso olhar o identifica, geralmente fica acima do ponto geométrico.

Raimundo Cela conseguiu manter em harmonia a parte superior com a inferior. Na área superior, um galho de árvore levemente sombreado ajuda a equilibrar o peso com a roupa da retirante cujos traços são mais escuros. Sem esse tronco, o peso da tela seria muito maior na parte inferior por causa dos fortes traços da retirante. Apesar disso, há uma área de maior leveza na parte superior da tela.

O quadro passa a ideia de tranquilidade, contemplação, observação e espera. São essas as sensações e sentimentos que se misturam na obra.

Biografia Raimundo Cela (1890 - 1954)

Filho de uma professora brasileira e de um mecânico espanhol. Quando tinha quatro anos de idade a família se mudou para a cidade de Camocim, no litoral oeste do Ceará, onde seu pai assumiria um cargo nas oficinas da estrada de ferro. Foi em Camocim que Raimundo Cela e seus irmãos fizeram com a própria mãe os estudos iniciais de alfabetização. Em 1906 vem para Fortaleza para estudar no Liceu Cearense, à época uma escola de reconhecida qualidade, onde se diplomou bacharel em Ciências e Letras. Em 1910 chega ao Rio de Janeiro e, atendendo a sua inata inclinação para as artes, matricula-se na Escola Nacional de Belas Artes como aluno livre. “A pintura de Raimundo Cela consagra motivos regionais cearenses – pescadores, jangadeiros, beiras de praias com coqueiros, tipos nordestinos -, tratados com grande realismo, com auxílio de um desenho correto e de um colorido subordinado à realidade. Certo rústico expressionismo se evola dessas obras sólidas, que estilisticamente se situam à margem do modernismo, mas que ainda assim conseguem convencer pelo que possuem de íntima energia, de sinceridade e de emoção.

Untitled, 1961

Já na obra de Steinberg, um homem sozinho vê vários pontos de interrogação de tamanhos e formatos distintos. Nuvens e cactos em segundo plano. Ele está de perfil e em pé.

Um homem atônito diante de tantas possibilidades e dúvidas. Ele se torna pequeno diante das indagações. O peso dado às questões é diferente para cada uma. Algumas mais leves; outras, nem tanto. O sentimento é o de impotência diante de tantas dúvidas. O que fazer?

O desenho é em preto e branco e possui linhas horizontais (nuvens), curvas e arredondadas de espessuras diferentes. Nesses casos, as linhas arredondadas e curvas contribuem para o movimento do desenho. Mesmo as linhas horizontais (nuvens) são colocadas dando movimento a obra. Juntas, próximas e rápidas, essas linhas criam movimento maior do que se fossem traçadas separadamente e distantes uma da outra. O desenho preenche quase toda a tela, deixando alguns espaços vazios. O tamanho, a forma, a largura dos pontos de interrogações ajudam a criar movimento, apesar da maioria não flutuar no espaço por causa do peso como foram traçadas. Há ainda muita luz saindo da direita para a esquerda e sombras nos desenhos.

É difícil calcular o ponto perceptivo nessa obra, talvez pela grande quantidade de elementos soltos. Fica acima da linha inclinada (horizontal) e próximo ao ponto de interrogação central. O peso e leveza se equilibram entre as áreas superior e inferior do desenho, sendo que na área inferior há uma maior concentração de elementos. Os olhos do espectador caminha do lado esquerdo para o direito seguindo as orientações das linhas horizontais , curvas e verticais.

Comparação entre as duas produções

São obras diferentes em suas essências, mas que possuem elementos similares: nos dois trabalhos, as linhas são as grandes vedetes, escolhidas para traduzirem as inquietações dos autores. Traços fortes, leves, precisos - outros menos precisos. Essa composição cria o caráter desafiador e inquietante para o espectador que tenta desvendar os mistérios que estão por trás dos traços. Nenhum dos dois artistas utilizam a cor em suas obras. Eles preferiram o papel para retratar a composição. É interessante observar que, apesar dos desenhos serem de artistas, temas, épocas, estilos e técnicas distintas, há muito em comum entre as obras. Por exemplo, elas transmitem sentimentos profundos e fazem refletir. Não importa a forma mais ou menos naturalista, são geniais pela essência, composição, movimento, ideia e crítica.

Biografia de Saul Steinberg (1914 - 1999)

Saul Steinberg é cartunista, artista gráfico e um grande cronista do dia a dia. Nasceu na Romênia, em 1914 e estudou arquitetura na Itália. Na Segunda Guerra Mundial, foi morar nos Estados Unidos e se naturalizou como norte-americano em 1943.

Steinberg revolucionou a linguagem do desenho e, ao longo de 60 anos como artista e colaborador da revista The New Yorker, foi um crítico muito bem humorado da rotina das grandes cidades, do poder, da guerra, da futilidade. Galinhas gigantes, engarrafamentos, mulheres consumistas, imigrantes, tudo ganhava um novo sentido com os traços de Steinberg.