Perspectivas sobre a avaliação das aprendizagens em contexto online


 

A avaliação da aprendizagem em contexto online é um aspecto tão fundamental, quanto complexo.

 

Na terceira actividade da unidade curricular Concepção e Avaliação em e-Learning, no âmbito do Mestrado em Pedagogia do e-Learning, objectiva-se uma análise, reflexão e, posterior, debate em fórum de discussão sobre as perspectivas, princípios e modalidades/estratégias que têm vindo a emergir na literatura sobre questões específicas da avaliação das aprendizagens no contexto da educação online.

 

Numa primeira fase precedeu-ser à leitura e análise dos três seguintes artigos, seguidas de uma reflexão. Este documento é fruto desse trabalho.

 

 

Resumo

Se existem questões principiais comuns ao modelo de educação presencial e a distância, outras ganham uma maior relevância no contexto da EaD. A avaliação da aprendizagem em contexto de cursos online implica uma reflexão sobre o conceito de avaliação e, consequentemente, pelas funções inerentes a esta que, por sua vez, determinam as metodologias e as ferramentas que as irão operacionalizar ancoradas, certamente,   numa perspectiva sobre modelos de conhecimento.

Palavras-chave: E-Learning, Aprendizagem,  Avaliação, Metodologia e Instrumentos, Modelos de Conhecimento

O Processo de Ensino e de Aprendizagens em Contexto Online

Existe um conjunto de questões iniciais sobre o contexto online em que surge o processo de ensino-aprendizagem que devem ser clarificadas.

Segundo Elena Barberà as questões centrais que deverão ser colocadas são duas e reflectem-se no facto de a tecnologia contribuir ou não para a avaliação da aprendizagem e, havendo contribuições, se elas  facilitam ou dificultam o processo de ensino e aprendizagem. Neste sentido a análise tanto do que é importante para uma definição das vantagens e das limitações do ensino online, bem como da visão da autora sobre a forma como se processa a avaliação e os instrumentos utilizados em prol da mesma, é fundamental.

Também se centrando, essencialmente, na problemática da avaliação e dos instrumentos utilizados em prol da mesma, Alex Primo faz a diferenciação entre dois modelos de conhecimento que originam duas visões acerca dos processos de avaliação, os quais se designam por: Modelo Empirista (centrado numa perspectiva behaviorista) que conduz à Educação Bancária e, por outro lado, Modelo Construtivista (centrado numa perspectiva cognitivista) que conduz à Educação Problematizadora. Da análise destas duas visões ao exame dos instrumentos para a avaliação das aprendizagens em contexto online vai um passo, o qual Primo dá sempre na tentativa de mostrar que uma educação partilhada e colaborativa é sempre mais enriquecedora tanto do processo de aprendizagem como do de avaliação.

Ao definir um conjunto de questões iniciais que se relacionam com a problemática do processo de ensino-aprendizagem online, Maria João Gomes foca-se, essencialmente, na problemática da avaliação das aprendizagens online começando por questionar sobre a identidade e perfil dos alunos e a possibilidade da sua verificação até chegar aos assuntos relacionadas com a avaliação dos processos e não apenas dos resultados. Aqui, questões como o ‘conhecimento’ acerca dos estudantes ou o feedback relativos à avaliação colocam-se veementemente. Assim sendo, Maria João Gomes considera oportuno fazer uma análise tanto do ensino em e-learning como em b-learning reflectindo sobre a organização dos cursos segundo duas abordagens distintas: a que reproduz um ensino mais tradicional (centrado num modelo presencial) e  a que reproduz um modelo baseado em princípios sócio-construtivistas. É no sentido de esclarecer estes dois modelos organizacionais que a autora faz uma análise exaustiva dos instrumentos de avaliação apresentando as vantagens e desvantagens dos mesmos relativamente a uma avaliação das aprendizagens em ambiente online.

Uma comparação detalhada da visão dos três autores, relativa aos modelos de conhecimento nos quais assenta a topologia da avaliação das aprendizagens, encontra-se no Anexo A deste trabalho.

A Avaliação das Aprendizagens em Contexto Online

Tendo-se a noção dos aspectos mais e menos positivos do processo de ensino aprendizagem efectuados em ambiente online[1], a avaliação das aprendizagens neste contexto, segundo os autores em análise, deverá ter cada vez mais um carácter processual, ancorada em instrumentos pedagógicos e metodológicos que permitam ter da avaliação uma perspectiva holística, integradora e globalizante. Neste sentido a avaliação fundeada numa visão construtivista terá de deixar de lado a visão empírico-behaviorista que tem uma postura educacional “conteudista” focada no ensino e  inspirada em métodos pedagógicos que valorizam a transmissão (pelo professor) e a reprodução (pelo  aluno) e que tem como medida única a avaliação da retenção de informações e a capacidade de repetição do que foi dito[2]. Uma visão construtivista é uma visão do processo de ensino-aprendizagem que defende, antes de mais, uma educação problematizadora[3] em que a aprendizagem é centrada no aluno e o processo cognitivo acontece mediante momentos de desequilíbrio mediados por vários elementos: professores, colegas, informação disponível na rede e instrumentos de avaliação alternativos e diversificados; de salientar é ainda a utilização da aprendizagem através de resolução de problemas como estratégia privilegiada. Porque deverá ter um perfil construtivista tanto na vertente educacional como organizacional ela deverá ser uma ‘avaliação em processo’ capaz de se traduzir numa reflexão contínua sobre objectivos[4].

Na vertente educacional do processo inerente à avaliação das aprendizagens é consensual a existência de uma avaliação multi-facetada que vai desde uma avaliação com um carácter de diagnóstico passando por uma avaliação contínua que inclua em si os momentos formativos (do processo) e os sumativos (dos resultados) até um processo final de auto e hetero-avaliação. Certamente que estes processos de avaliação deverão ser conjugados entre si e integrados numa avaliação pessoal e interpessoal, ou seja, que individualizem as competências dos alunos, por um lado, e os integrem em comunidades de aprendizagem[5] por outro. Assim sendo, e porque o processo de avaliação é um processo contínuo, moroso mas que implica, seguramente, a comunicação (tanto individual - do aluno consigo mesmo - como interpessoal - do aluno com os colegas e com o próprio professor -), é nos instrumentos de avaliação online que tanto o domínio da comunicação como o da avaliação são perceptíveis.

Uma comparação detalhada da visão dos três autores, referente aos domínios de aplicação da avaliação, encontra-se no Anexo B deste trabalho.

Os Instrumentos de Avaliação em contexto Online

Ao focarem os instrumentos de avaliação os autores manifestam algumas semelhanças em relação à abordagem de alguns; por exemplo Elena Barberà e Maria João Gomes reconhecem que Testes de escolha múltipla, quizzes, preenchimento de espaços lacunares e outros (muitas vezes fazendo parte de LMSs) facultam aos alunos uma resposta directa e adequada que, por sua vez,  lhes permite uma avaliação dos seus conhecimentos, se bem que  os considerem limitados no que diz respeito, por um lado, à comunicação[6] e, por outro, à avaliação de competências de reflexão, síntese, crítica, entre outras[7]. Também a conversação síncrona, através de Chat ou VoIP, é considerado um instrumento que fomenta relações cooperativas permitindo a discussão planeada de temas e o desenvolvimento da capacidade de argumentação e escrita[8]. Os Portefólios digitais, Diários de bordo/blogs e Projetos de Aprendizagem  além de permitirem uma contínua reflexão por parte do aluno e evidenciação das suas aprendizagens, contribuem para a interacção entre os alunos e professores permitindo a produção de artefactos positivos que estão expostos ao reconhecimento e apreciação de uma opinião mais ou menos pública[9]. As Pesquisas na Internet, Elaboração de Monografias e Ensaios sobre um determinado tema são instrumentos de avaliação que permitem a criação de trabalhos digitais com uma forte componente crítica que promovem o choque de ideias entre colegas e permitem um descentramento da sua posição contando, ainda, com a disponibilidade da Internet como fonte inesgotável de informações e recursos[10]. Barberà não deixa de referenciar a possibilidade do plágio com todos os problemas a ele inerentes.

Comum aos três autores e instrumento fundamental para uma avaliação contínua, os Fóruns Electrónicos são talvez os meios mais eficazes tanto para a elaboração de uma aprendizagem colaborativa (que implica a capacidade de crítica, síntese, análise e reflexão, confronto de ideias e participação de forma assíncrona), de uma avaliação do processo, do produto final individual e do grupo e, ainda, da incorporação de  práticas  de  avaliação  colaborativa  dos contributos colocados em fóruns, envolvendo alguns ou todos os estudantes, como refere Maria João Gomes. Em contra-ponto, há que ter em conta que o processo da avaliação qualitativa é morosa e poderá, de alguma forma, impor limites ao ritmo individual na abordagem a um trabalho.

Uma comparação detalhada da visão dos três autores, referente aos instrumentos de avaliação online, encontra-se no Anexo C deste trabalho.

Conclusão

Das reflexões e análises elaboradas podemos concluir que “... desenhar contextos de ensino e aprendizagem virtual significa dotar-se de um sistema de avaliação completo que inclua critérios, juízos, decisões educativas, retro-alimentação, no sentido de um aproveitamento das ajudas do professor para se desenrolar uma aprendizagem progressivamente mais sólida e complexa.” (Elena Barberà, 2006)[11]

Maria João Gomes salienta que se, e existem questões comuns ao modelo de educação presencial e a distância, outras há que ganham uma maior relevância no contexto da EaD. A avaliação da aprendizagem em contexto de cursos online implica uma reflexão sobre o conceito de avaliação e, consequentemente, pelas funções inerentes a esta que, por sua vez, determinam as metodologias e as ferramentas que as irão operacionalizar.

Para o desenvolvimento de cursos online problematizadores e dialógicos, a interação mútua deve ser valorizada e o trabalho autoral e cooperativo dos alunos fomentado. A avaliação deve ser contínua, levando em conta todas as atividades desenvolvidas na rede.” (Alex Primo, 2006) sendo que neste sentido o colaboracionismo e a avaliação deverão desenvolver-se de forma conjunta.

Se bem que de forma diversificada, os três autores evidenciam uma avaliação contínua que contempla o processo de aprendizagem, sem que isso signifique um descurar dos produtos da aprendizagem (learning outcomes).

As ferramentas da Web 2.0 são, em regra, de manuseamento intuito, sem uma curva de aprendizagem íngreme, o que admite um focar no tema e conteúdo, e não na tecnologia. Através de um feedback regular por parte do professor, mas também comentários dos colegas, os alunos são chamados a reflectir sobre o que produziram, degrau por degrau, e melhorar, alterar, o que apresentam como trabalhos finais.

Nesta perspectiva, a avaliação não é uma parte da aprendizagem, também ela é aprendizagem.


[1]Como Barberà refere: a flexibilidade espácio-temporal, a informação da sequência programática e o acesso ao ciberespaço em termos informativos e comunicativos são aspectos positivos contra a inflexibilidade institucional, a avaliação quantitativa em vez da processual e o fraco recurso a istrumentos pedagógicos e tecnológicos que são marcadamente aspectos negativos.

[2]Segundo a perspectiva de Alex Primo

[3]Segundo a perspectiva de Alex Primo

[4]Segundo Maria João Gomes

[5]Já referenciadas por Palloff & Pratt

[6]Segundo Barberà

[7]Segundo Maria João Gomes

[8]Segundo Primo e Maria João Gomes

[9]Segundo Primo e Maria João Gomes

[10]Segundo Barberà e Primo

[11]"... diseñar contextos de enseñanza y aprendizaje virtual significa dotarse de un sistema de evaluación complejo que incluya criterios, juicios, decisiones educativas, retroalimentación, en el marco de un aprovechamiento de las ayudas del profesor para desarrollar un aprendizaje progresivamente más sólido y complejo."