AS OVELHAS DE TASHLAM

Rodrigo Lima (Digão), em um momento C. S. Lewis

 

Essa história aconteceu durante a Última Batalha. E não foi contada pelos Penvensie, porque nenhum deles testemunhou os fatos. E nem Eustáquio e Jill, e muito menos Digory e Polly.

Ao sul de Nárnia, próximo ao Grande Rio, havia um pequeno aprisco. Naquele aprisco, as ovelhas viviam em paz, embora houvesse uma pequena desordem de quando em quando. Afinal, elas não tinham um alguém para orientá-las. Todos tinham ouvido falar de Aslam, e alguns até mesmo chegaram a vê-lo uma ou mais vezes. Mas sempre era algo distante, como um conto que os nossos pais nos contam para podermos dormir. Mas, todos, com certeza, sabiam que Aslam existia, e queriam aprender sobre ele.

Certo dia uma dessas ovelhas ouviu a voz de Aslam. Em um sonho, a ovelha Jolin ouviu Aslam falando com ele.

– Jolin, ensine às minhas ovelhinhas. Eu vou dizer a você o que você deve dizer a elas. Mas seja fiel ao que eu disser, Jolin. Não se esqueça que eu estarei sempre perto para ajudar você, e em breve voltarei a Nárnia.

Jolin, a ovelha escolhida por Aslam, acordou assustada. Eu, dizer as palavras de Aslam aos meus amigos!, pensou.

Jolin não era uma ovelha diferente das demais. Era de média estatura, e sua lã, muito bonita, estava novamente crescendo, já que as ovelhas precisam cortar seus pêlos de quando em quando. Jolin tinha olhos profundos e um sorriso bem largo, coisas que a distinguia.

Cheio de alegria e com algum medo, já que Aslam estaria sempre presente (apesar de não saber como), Jolin chamou as ovelhas e começou a dizer a elas:

– Ontem sonhei com Aslam!

Um ohhh de assombro e admiração foi o que se ouviu das ovelhas. Aliás, as ovelhas de Nárnia sempre se assombravam. Eram pequenos animais dóceis, mas nem sempre pródigos na malícia e no raciocínio. Era, realmente, um assombro que aquelas ovelhas não tivessem sofrido algum dano maior do que as marradas que um ou outro bode infiltrado no meio desse nelas. Uns diriam que isso é sorte; outros, diziam que Aslam, mesmo à distância, as estava guardando.

Então, Jolin começou a dizer as palavras de Aslam às suas companheiras ovelhas. Ohhh, ohhh, ohhh, era tudo o que se ouvia das ovelhas. Elas gostavam de Jolin, e gostavam de ouvir aquilo que Aslam dizia a elas através de seu guia, como Jolin agora era chamado.

Porém, aconteceu uma coisa em certo dia que transformou Jolin. Aslam havia dito a ela para dizer palavras mais duras, de repreensão, porque as ovelhas estavam ficando muito desordeiras, e diziam que eram assim porque Aslam permitia tudo. Afinal, ele estava longe e nunca tinha aparecido para dar uma bronca nelas. E as ovelhas estavam de olho também em outro aprisco vizinho. Só que o aprisco vizinho era formado só de bodes, mas era bem organizado. Parecia uma pequena fábrica de pequenos bodes, todos fazendo tudo o que o mestre mandava. Os bodes aparentavam felicidade, mas o bode-mestre, o nome de seu pastor, não dizia as palavras de Aslam, e sim as de Tash. No fundo, no fundo, as ovelhas queriam ser como os bodes do aprisco vizinho, que ficava perto de uma colina muito verde.

Mas, no meio daquelas ovelhas, uma delas começou a não gostar dessa atitude de suas companheiras. Ravit, a ovelha indignada, achava que não era coisa boa querer copiar os bodes do aprisco vizinho. Mas as outras ovelhas nem deram bola a ela.

Na reunião semanal onde Jolin passava as palavras de Aslam às suas companheiras, não se ouviu nenhum ohhh de aprovação. Aquelas palavras eram as palavras de repreensão, e não de carinho e consolo que estavam a ouvir. Na verdade, elas não gostaram de ouvir Jolin dizer aquelas palavras duras. Onde já se viu, pensaram, Jolin dizer isso, e ainda diz que foi Aslam que disse a ela! Como disse, as ovelhas não primavam pela esperteza, e também pelo bom senso.

No final daquela reunião, todas voltaram as costas a Jolin. Deixaram-na sozinha, o que a entristeceu. Afinal, ela estava fazendo aquilo que Aslam disse para fazer.

Na semana seguinte, outra palavra dura de Aslam, e depois outra, e depois, mais outra. Jolin as repassava sempre, pois temia que Aslam olhasse para ela com as mesmas palavras de reprovação dirigidas às outras ovelhas. Jolin se sentia cada vez mais triste, porque, por mais que se esforçasse, as outras ovelhas continuavam a admirar o aprisco de bodes, àquela altura já famoso nas redondezas. Até que um dia Jolin foi visitar o aprisco dos bodes para saber o que as outras ovelhas tanto admiravam.

Chegou lá e encontrou um aprisco muito bonito, com grama verdinha, tratada duas vezes por dia, um local apropriado para as refeições (balanceadas) dos bodes, um local para o descanso, outro para a meditação, e outro para o período de compartilhamento daquilo que Tash dizia ao bode-mestre. Jolin ficou maravilhado com aquilo tudo. Mas ficou ainda mais maravilhado com o amor demonstrado pelo bode-mestre e pelos seus. Nunca tive essa receptividade no meio das ovelhas!, pensou Jolin. E ficou também maravilhado por tudo aquilo que o bode-mestre ensinou a ela.

O bode-mestre era um bode com cara de sábio, com uma barbicha longa e bem branca, por causa da idade. Mancava um pouco, mas tinha vitalidade. Tinha vivido muitas coisas, viajado a muitos lugares, ensinado a muitos bodes. Diziam até mesmo que ele conhecia pessoalmente a Tash e a Aslam.

– Na verdade, são a mesma pessoa – disse o bode-mestre.

Isso espantou a Jolin. Como, serem a mesma pessoa? Ela sempre havia ouvido que Tash era áspero, rude com os seus seguidores, enquanto que Aslam era amável com as ovelhas, embora não tolerasse injustiças, coisa que Tash não se importava. Aslam também gostava das coisas simples que brotavam do coração, mas Tash gostava de opulência, ainda que vinda de um coração triste e falso.

– Ah, isso é coisa dos primeiros seguidores de Aslam – disse o bode-mestre – . Eles achavam que era necessário fazer essa diferenciação. Na verdade, nem somos tão diferentes assim. Somos até mesmo da mesma família. Então, por que Tash e Aslam seriam diferentes? Diga-me, Jolin, você é segue fielmente a Aslam?

– É claro!

– E você, como seguidora de Aslam, gosta de sofrer? Gosta de passar por privações? Ou gosta de uma relva fofinha, e uma grama bem verdinha e gostosa?

– É claro que eu não gosto de sofrer, e gosto de me alimentar bem! Ora, por que a pergunta?

– Porque os seguidores antigos de Aslam diziam que, se fosse preciso, iriam sofrer, e até morrer! Você acha que Aslam gostaria que você morresse?

– Ah, eh, hum… acho que não. É, acho que não. Mas não tenho certeza, porque sempre ouvi essas histórias também.

– pois eu vou dizer a você: essas histórias são bobagem! É claro que Aslam não quer você morrendo, ou sofrendo. Se você fala as palavras dele, é claro que ele quer o melhor para você!

– Mas...

– Veja, Tash diz que todos os que vivem de acordo com o que ele manda devem usufruir todas as guloseimas de Nárnia. Ele até mesmo diz que, se houver outra terra além dessa, coisa que eu e ele duvidamos, ela deve ter outras guloseimas que também devemos comer!

– Mas isso não é certo! – tentou protestar, timidamente, Jolin, já sem tanta certeza.

– E o que é certo, minha cara ovelhinha? Comer grama racionada? Ver os seus amigos virarem as costas para você porque você disse palavras duras de Aslam para elas? Aliás, nem sei se foram realmente de Aslam...

– Espere! Como você sabe que aconteceu isso?

– Ora, Tash me conta tudo. Na verdade, Tash está falando aos corações de suas ovelhinhas há muito tempo, e você nem sabia. E Aslam também, através de seus ensinos. Portanto, eu digo com toda certeza: Aslam e Tash são a mesma coisa. Viva Tashlam!

Jolin ficou atônita, a princípio. Tashlam? Que coisa estranha! Resolveu voltar ao seu aprisco, e lá encontrou as outras ovelhas pouco receptivas a ela. A única que ainda demonstrava apreço era Ravit, que dizia que Jolin deveria continuar firme.

À noite, Jolin teve sonhos horríveis. Sonhou que estava se transformando em um bicho estranho, que não podia descrever. Só sabia que era um bicho muito feio, que dava angústia e aflição. Só conseguia descrever as garras de prata que saíam de suas patas, afiadas e compridas como unhas de águia. Acordou assustada e toda suada com o pesadelo.

Na semana seguinte, começou a ensinar novamente as palavras de Aslam às ovelhas, que ouviam cada vez com menos ohhh. Durante o ensino, veio a Jolin as palavras do bode-mestre, viva Tashlam! Resolveu fazer uma coisa por sua própria conta e risco. Ao final do ensino, gritou:

– Viva Tashlam!

Ohhh! – foi a resposta de assombro e admiração das ovelhas.

Alguns sorrisos começaram a brotar das faces das ovelhas. Onde ouviram falar de Tashlam? Aquilo era novo, e ao mesmo tempo, antigo. Parece que alguma coisa dessas já havia sido sussurrada em seus sonhos durante a noite.

– Viva Tashlam! – gritou, novamente, Jolin.

– Ohhh! Ohhh! – responderam as ovelhas.

– Viva Tashlam! – gritou pela terceira vez e agora totalmente fora de si, Jolin.

– Viva! Viva! Viva – gritaram, pela primeira vez, as ovelhas.

Jolin foi carregado, em triunfo, pelas ovelhas. Era tudo aquilo que ela sempre quis. Ser amada, respeitada e honrada pelas palavras que proferia. Afinal, se Aslam a escolhera, ela deveria ter algo a mais do que as outras ovelhas.

Mas sua noite, novamente, não foi tranqüila. Mais uma vez, as imagens de sua metamorfose em um bicho estranho a atormentaram, mas algo a atormentou também. No sonho, viu o vulto de Aslam, triste, cabisbaixo, olhando aflito para ela, que se transformava em um bicho esquisito com garras prateadas de águia. Jolin sabia que Aslam sofria por causa daquela metamorfose. O Leão nunca escondeu suas emoções, nem mesmo quando falava em sonhos. Viu que Aslam sofria dores, pois se contorcia um pouco. Viu também que seus olhos corriam grandes lágrimas. Mas não eram lágrimas comuns, eram lágrimas de sangue.

Acordou sobressaltada, sem saber o que fazer. Uma voz sussurrou em seu ouvido: procure o bode-mestre amanhã. Estranhou a voz, porque não era a mesma voz de Aslam, ao menos a voz que ouvia em seus sonhos. Vai ver, Aslam fala com uma voz diferente fora dos sonhos, raciocinou.

No dia seguinte, já aflita com aquela voz que lhe falara e com o sonho estranho, Jolin foi conversar com o bode-mestre. Ele, ao contrário de Jolin, estava alegre, muito satisfeito com sua vida, pois, a cada dia que passava, mais animais de Nárnia vinham ouvir seus conselhos e lhe trazer presentes. Brincando com uma maçã que um tamanduá lhe trouxera, o bode-mestre, assim que viu Jolin chegar, com uma cara aflita, logo foi até ela, a abraçou e lhe disse:

– Seja bem vinda, minha amiga! Eu sabia que você viria!

– Mas... como...? – perguntou Jolin, afligindo-se mais.

– Ora, ora... não lhe disse que não há segredos entre Tash e eu? Eu sei que ele lhe sussurrou ao ouvido indicando-lhe o caminho até aqui. Viu como Aslam gosta de você? Você está sendo realmente fiel a ele, agora, que deu vivas a Tashlam!

– Ele disse isso a você também?

– Não, isso eu ouvi daqui, na última reunião de vocês, quando eu ouvi os brados de alegria de suas ovelhas. Oh, fiquei tão contente! E isso é só o começo!

– O começo de quê?

– Da sua guinada, sua tolinha! Ou você acha que Tash, ou Aslam, ou Tashlam, já que os dois são um só, ficaria contente em lhe dar migalhas? Ora, você vai comer banquetes de reis, digno de sua nova posição! Seremos mais cobertos de honra e glória do que o lendário rei Pedro!

– Mas, que posição nova é essa?

– É o seguinte: no meu aprisco, eu sou o bode-mestre. Esse título é muito antigo, quase do tempo da criação de Nárnia, mas que ficou esquecido, porque os antigos achavam que era um título apropriado apenas aos fundadores. Veja só você, também entre os bodes havia aqueles que eram adoradores antigos de Aslam. Mas agora, Tash me disse que era tempo de novidades, e ele restaurou o título de bode-mestre para mim, e me disse que eu poderia escolher alguns chefes de bandos para serem os seus novos mestres. Já escolhi dez novos mestres: a hiena-mestra, o urubu-mestre, o porco-mestre, o pavão-mestre, a gralha-mestra, o papagaio-mestre, o rinoceronte-mestre, o camaleão-mestre, o lobo-mestre e o gorila-mestre. Esse último foi o mais difícil, porque ele não acreditava em Tash, achava que só o nome de Aslam valia a pena, mas eu consegui persuadi-lo.

– Como você conseguiu persuadir o gorila-mestre?

– Primeiro, dei-lhe um cacho de bananas mágico, que produz quarenta mil bananas por mês. Depois, mostrei a ele que, no novo governo de Nárnia, quando Tash voltar, aqueles que não estiverem no grupo serão exterminados!

– Que horror! Como Asl... quero dizer, Tash, faria isso?

– Oh, mas ele não fará. Na verdade, Tash não vai voltar. Mas eu disse isso para que o gorila não se rebelasse, provocando uma revolta em massa nos outros bandos de animais. Não foi difícil dizer isto ao gorila, já que ele é grosseiro e violento, mas não é muito inteligente.

– Mas isso é mentira! – espantou-se Jolin.

– Não, minha cara. Isso é um conceito do passado, assim como os antigos ensinos de Aslam. O que é uma mentira senão uma verdade contada de acordo com o ponto de vista de quem interessa? Além do mais, o nosso grupo está quase completo, e só faltava um nome para entrar. E eu quero o seu nome, Jolin.

– Eu? Mas o que eu tenho de especial?

– Ora essa! Você tem carisma, conseguiu reverter um quadro que seria praticamente irreversível. Agora as outras ovelhas estão ouvindo você, não importa o que você diga. Elas estão atraídas, não mais por algumas idéias antigas, mas pelas novas idéias de Tashlam: vida boa, tranqüilidade, grama verdinha o tempo todo e a certeza de que Tash satisfará todos os desejos. Então, a partir de agora, nomeio você ovelha-mestra. Juntamente comigo e com os outros dez mestres dos outros bandos, reinaremos sobre Nárnia! Viva Tashlam!

– M... mas, e em relação ao...

– Ah, você quer dizer... em relação àquela alucinação da noite passada? – o bode-mestre alterou a voz, com uma ponta de desprezo.

– Você sabe do sonho?? – espantou-se Jolin.

                – Ora, sua tola – disse o bode-mestre, já perdendo um pouco a paciência – eu disse a você que não há segredos entre Tash e eu. Aquela alucinação é fruto de seu ensino antigo em relação a Aslam. Mas eu digo a você que você deve, em nome de Tash, repudiar todo tipo de alucinação que quiser lhe roubar sua nova posição. Ora essa, você sabe que seguir a Tashlam é viver no esplendor, é viver uma vida cheia de dias e de saúde sem fim. Seguir a Tashlam é voar além dos horizontes! Viva Tashlam! – gritou tão alto o bode-mestre que todos os outros bodes repetiram, Viva! Viva! Viva!

                – Voar além dos horizontes... – repetiu Jolin, como num transe.

                – Ouça, Jolin. Você é nova nisso, mas muito em breve o seu coração será todo de Tashlam. Você começou agora na verdadeira realidade de Tashlam, muito além daquilo que você já viu, quando tinha ouvido falar apenas de Aslam. Saiba que esse conhecimento está revelado agora para os escolhidos, dos quais eu sou o primeiro e o maior. Saiba que seguir a Tashlam é não se rebaixar a ninguém, nem mesmo a Aslam, ou a Tash, que são a mesma coisa. Seguir a Tashlam é saber reivindicar todo o poder que lhe é devido para desbaratar os seus caminhos e subjugar os seus inimigos!

                – Mas eu não tenho inim...

                – Quieta! Estou falando! – alterou-se o bode-mestre – Você pode não ter inimigos hoje, mas com certeza terá, quando começar a ensinar a verdadeira realidade de Tashlam às suas ovelhas. Algumas ovelhas, bem poucas, não aceitarão passivamente aos novos ensinos. Estão por demais apegadas àquilo que ouviram falar de antigamente a respeito de Aslam. É seu dever calá-las, para que você seja sempre reconhecida como ovelha-mestre em seu aprisco, e lhe seja dada toda a glória devida a você dada por Tashlam!

                O bode-mestre estava eufórico. Ele sempre ficava assim, quando se lembrava acerca dos ensinos de Tash. Sempre lhe foi ensinado que, ao seguir Tash, muitos conceitos antigos desapareceriam. Aquilo que os antigos chamavam de egoísmo, Tash ensinava que era direito adquirido. Ensinava também que os seus seguidores deveriam reivindicar, em todo tempo, sua parte da relva verdinha a que tinham direito. Eram coisas que Jolin estranhou a princípio, mas que, pensando bem, achou melhor do que os ensinos dos antigos acerca de Aslam.

                Jolin voltou ao seu aprisco diferente. O seu sorriso, que era bem largo, agora não estava da mesma maneira. Deixe-me explicar melhor. Ela continuava sorrindo como sempre para todas as ovelhas, mas agora havia algo diferente em seu sorriso. Não era mais um sorriso natural, espontâneo. Somente alguns perceberam a diferença. O restante achou até mesmo que Jolin estava melhor.

                Na reunião seguinte, Jolin começou a ensinar à suas ovelhas.

                – Minhas irmãs, eu hoje sou uma ovelha diferente. Eu sempre ensinei sobre aquilo que Aslam me dizia em sonhos. Sempre quis ser literal nestas coisas.

                Silêncio curioso da platéia.

                – Mas hoje, minhas irmãs, vi que eu não estava sendo honesta. Há mais coisas de Aslam. Há coisas escondidas que somente alguns escolhidos conseguem desvendar. Os segredos de Aslam são insondáveis – ou, pelo menos, eram.

                Ainda silêncio. Uma ovelha, no fundo, deu uma balida abafada.

                – Sim, minhas irmãs, Aslam não é aquela figura distante, aquele Leão que ruge. Ele é mais do que isso. E ele não quer de nós, pobres ovelhas, vivamos uma vida de ovelhas! Ele quer que vivamos uma vida de bodes, como nossos vizinhos!

                Ouviu-se o primeiro ohhh da noite.

                – Irmãs, ouçam-me com cuidado, pois o que vou dizer pode parecer falta de respeito, mas na verdade é uma atitude de ousadia. Saibam que Tash é Aslam, e Aslam é Tash. Não ensinaremos mais apenas as coisas de Aslam aqui. Vamos ensinar também as coisas de Tash. Viva Tashlam!

                – Ohhh! Ohhh! Ohhh! Viva! Viva! Viva!

                – Agora, minhas irmãs, o que for ensinado no aprisco dos bodes, será ensinado aqui. E mais: a partir de hoje, não sou mais apenas a guia de vocês. Serei chamada agora de ovelha-mestra, e, juntamente com o bode-mestre, a hiena-mestra, o urubu-mestre, o porco-mestre, o pavão-mestre, a gralha-mestra, o papagaio-mestre, o rinoceronte-mestre, o camaleão-mestre, o lobo-mestre e o gorila-mestre, os queridos mestres de outros bandos irmanados sob o manto protetor de Tash, reinaremos sobre Nárnia! Viva Tashlam!

                – Ohhh! Ohhh! Ohhh! Viva! Viva! Viva! Viva Tashlam! Viva Jolin! Viva Tashlam! Viva Jolin!

                Jolin não cabia em si de tanta felicidade. Finalmente, pensou, agora estou fazendo a coisa certa em relação a Aslam, ou melhor, Tashlam. Sempre fui fiel, e agora tenho a minha recompensa!

                Ravit via a tudo isso com consternação. Viu que algo não estava bem no ensino de Jolin, mas não sabia bem o quê. Afinal, mesmo que fosse de maneira diferente, Aslam estava sendo honrado. Ou não?

                Ravit não conseguiu dormir. Seu sono não foi reparador. Ao contrário, teve muitos pesadelos. Via a Aslam chorando, ao longe, e todas as ovelhas do aprisco, juntamente com os bodes, as hienas, os urubus, os porcos, os pavões, as gralhas, os papagaios, os rinocerontes, os camaleões, os lobos e os gorilas, todos juntos, celebrando a Tash em gritaria e confusão. No sonho, em determinado momento, os mestres e os ouvintes começaram a se contorcer, sofrendo uma metamorfose. Não conseguiu identificar quais eram os animais nos quais eles se metamorfoseavam, mas pôde, claramente, ver que os mestres se transformavam em bichos horríveis, com garras prateadas de águia. No final do pesadelo, foi acordada pelo rugido feroz, poderoso e triste de Aslam.

                Acordou muito assustada, porque, no sonho, Jolin estava entre os mestres metamorfoseados. Procurou, rapidamente, sua nova mestra, mas não conseguiu falar rapidamente com ela, porque agora havia todo um séqüito de auxiliares que impediam o rápido acesso. Este séqüito era necessário, segundo Jolin, porque o aprisco iria agora tomar um novo rumo em direção ao futuro. Agora, haveria mais música, não apenas aquelas músicas falando dos atos de Aslam, mas umas músicas novas, falando também de Tash. As ovelhas que cantavam eram bem bonitinhas, e agora estavam também cantando com os bodes e com as gralhas. Uma das novas músicas dizia assim:

Oh, Tashlam, você é tão bonito

Oh, Tashlam, quero brincar com você

Oh, Tashlam, você me dá arrepios

Oh, Tashlam, quero abraçar você

                Ravit achou aquela música horrível. Além de parecer falta de respeito com Aslam, a mistura com Tash estava além do tolerável. Quando, depois de muito tempo esperando, conseguiu falar com Jolin, a mestra foi seca, diferente do que era em público.

                – Fale logo, porque o meu tempo é precioso – disse, com desdém, Jolin.

                – Jolin, pare com essas novidades! – clamou Ravit! – Tive um sonho horrível e acho que algo muito ruim vai acontecer logo.

                – Sei, sei. O seu sonho tem a ver com uma reunião com todos aos animais, sob a liderança dos mestres, com Aslam chorando ao longe?

– C... Como você sabe?

– Ora, Ora, não há segredos entre Tash e eu. Digo a você o que me foi dito pelo bode-mestre: isso é uma alucinação, e você deve repudiar isso, por amor a Tash.

– Mas, e Aslam?

– Ora, Aslam e Tash são a mesma pessoa. Viva Tashlam!

– Viva! Viva! Viva! – gritaram os integrantes do séqüito de Jolin.

Ravit saiu de lá muito triste. Quis alertar Jolin sobre o perigo que corria. Estava triste porque viu que Jolin havia mudado muito, e havia se tornado igual aos bodes. E essa transformação se deu porque quis agradar às ovelhas. Mas perdeu o foco das palavras de Aslam.

Aquela tristeza de Ravit durou toda a semana, até a véspera da reunião semanal. Durante a noite, Aslam apareceu a ela.

– Minha filha, eu amo você! – disse Aslam, com ternura na voz – Sei que você está sofrendo porque Jolin não é mais fiel a mim, e se aliou aos animais que adoram a Tash. Mas, minha querida ovelha, não tema. O seu sofrimento termina amanhã. Amanhã será o dia de libertação, o dia em que nunca mais se ouvirá de Tash em toda Nárnia!

Ravit acordou exultante! Que maravilha, ver Aslam em sonho, sabendo que ele estaria por perto, e terminaria aquele sofrimento. Mas, no dia da grande reunião?

 Aquela seria uma grande reunião, com todos os bandos de animais irmanados sob a proteção de Tash, e seria apresentado o novo grupo musical de animais que entoaria novos cânticos em honra a Tashlam. Seria apresentada, também, a estratégia de conquista de Nárnia para Tash.

Ravit ficou no fundo do aprisco, que estava apinhado de animais. O que antes era um local de apreciação das palavras de Aslam havia se tornado uma verdadeira balbúrdia, com gritos, gemidos, urros e grasnados em honra a Tash.

As músicas em honra a Tash começaram, e Ravit mal podia suportar. Uma ovelha, que cantava como uma gralha e dançava como um porco, estava liderando as músicas. Ravit estava a ponto de ir embora, quando começou a sentir algo estranho no ar.

Mas não foi somente ela. Todos os animais começaram a ficar mais indóceis do que o normal. É como se eles estivessem sentindo alguma ameaça no ar. O clima, que até aquele momento era festivo, começou a ficar pesado, como se fosse começar uma tempestade.

Bom, a tempestade não começou, mas começaram a ouvir-se raios e trovões. Com isso, todos os animais começaram a ficar ainda mais assustados, e seus olhos começaram a ficar arregalados. Alguns animais começaram a desmaiar, tal o clima de medo que podia ser sentido. Mas Ravit era a única ovelha que não sentia medo. Pelo contrário, começou a sentir uma paz e uma quietude muito gostosa, mas não podia entender a razão disso tudo.

Logo, logo, Ravit pôde entender a razão de sua paz e da inquietude dos demais. A música, com os trovões, cessou, e o burburinho aquietou-se. Todos, a uma só vez, viraram-se para a entrada do aprisco, e viram algo que não gostariam de ver.

Em pé, defronte a todos os animais, estava Aslam. Calado, soturno, sem conversar com os animais, Aslam caminhou sem pressa em direção ao palco onde estavam os mestres e os animais cantores. No meio do caminho, Aslam voltou-se para o fundo, e encontrou Ravit. Foi o único momento em que ele desanuviou sua face grave.

                – Minha amada ovelhinha, não tema! Fique aqui, pois nada acontecerá com você. Você verá agora que Aslam é único, e não permito que meu nome seja misturado ao de Tash!

Naquele momento, todos os animais voltaram-se para Ravit, com fúria nos olhos. Se pudessem, trucidariam aquela ovelha ali mesmo. Mas a presença de Aslam intimidou a platéia, que ficou cabisbaixa com o olhar grave do Leão.

Ao chegar ao palco, Aslam olhou para a platéia, e começou a chorar. Chorava copiosamente, com grande tristeza. De repente, começou a urrar de dor, como se uma lança traspassasse o seu coração. Aquele urro fantástico de Aslam encheu toda a platéia de medo.

Os mestres a tudo olhavam, mas as reações variavam. Alguns, mostravam indiferença; outros, indignação pelo fato de Aslam interromper aquela reunião tão importante em honra a Tashlam; e outros, desprezo, pois Aslam nada mais significava para eles. Jolin estava entre esses últimos.

De repente, Aslam olhou com fúria para os mestres, e começou a andar em direção deles. Ainda que muitos o desprezassem, ainda assim ficava o medo por causa do poder do Leão. Aslam olhou por vários minutos nos olhos de cada um dos mestres, e em especial de Jolin, que não esboçava nenhuma reação.

Em meio ao olhar furioso de Aslam, lágrimas corriam de seus olhos. Lágrimas grandes, grossas, de sangue, igual às lágrimas que apareciam nos sonhos de Jolin. De repente, Aslam começou a contorcer-se de dor, como no sonho, e então Jolin deu-se conta da coisa terrível que poderia lhe acontecer.

– Asl... Asl... – balbuciava Jolin.

– Cale-se, tola! – gritou o bode-mestre.

– Calem-se todos! – gritou Aslam com grande indignação.

Todos ficaram consternados. O olhar furioso de Aslam não saía dos mestres, que começaram a encolher-se de medo. O medo é porque todos os animais tinham sonhado o mesmo sonho com as lágrimas de sangue e a dor de Aslam, mas deram ouvidos ao bode-mestre, e encararam aqueles sonhos como alucinações pueris, e ignoraram-nos, até que os sonhos cessaram. Mas hoje viram que não era apenas um sonho; era um aviso. Um aviso que não atentaram.

– Eu estou indignado com todos vocês, que se intitulam mestres! Quem lhes deu este título, que era pertencente aos fundadores de Nárnia? Quem se arrogou no direito de usar algo que não lhe é próprio? Quem lhes deu o direito de ensinar as coisas de Tash como se fossem minhas? E quem lhes deu o direito de misturar o meu nome com o nome de Tash? Pois saibam que não há nenhuma harmonia entre Aslam e Tash! Vou demonstrar isso agora para vocês!

Aslam pareceu segurar, por alguns segundos, sua respiração, para depois soltar um urro. O maior urro já ouvido desde a fundação de Nárnia. O rugido daquele tremendo e poderoso Leão fez com que toda a terra estremecesse, mas algo pior ocorreu com aquele urro. Os mestres começaram a contorcer-se de dor, e todos, sem nenhuma distinção, caíram no chão, e começaram a ficar deformados. A metamorfose foi algo terrível de se ver, e deve ter sido bem dolorosa, devido às suas faces. Ao final, se transformaram em animais horríveis, uma mistura de vários bichos. Eles tinham a barriga de um hipopótamo, o pescoço de uma girafa, o rabo de um pavão, as pernas de um jacaré e as garras de águia, só que prateadas. Os seus rostos também sofreram transformações. Eram basicamente os mesmos rostos, mas os seus olhos ficaram brancos, pois ficaram cegos, e os seus dentes cresceram tanto e ficaram tão pontiagudos que era difícil fechar a boca, o que os impossibilitava de falar.

– Vejam, animais, esse é o retrato de quem ensina coisas de Tash, pensando que está fazendo a vontade de Aslam. É confusão e mais confusão. – disse Aslam para a platéia atônita com o que acabara de ver. – E vocês, animais, que não quiseram dar ouvidos às minhas palavras, dando ouvidos àquilo que vocês achavam ser o certo para vocês, seguindo a Tash pensando que estavam fazendo a minha vontade, me encheram de tristeza!

Neste momento, Aslam começa a chorar novamente, contorcendo-se de dor. Prendeu, por alguns segundos, sua respiração, e em seguida dá outro rugido, igualmente esplêndido. Ao ouvir o seu rugido, os animais da platéia, com exceção de Ravit, começaram a se contorcer e a cair no chão. Mas o rugido provocou um efeito contrário em Ravit. Ela agora se sentia em paz, segura, com muita calma. Porém, Ravit se assustou ao ver que todos os animais também se metamorfosearam. Não como os mestres, mas também se transformaram em animais cegos. Todos os animais dali se transformaram em burros!

– Animais, ouçam-me! Vocês sempre tiveram a mim presente. Sempre cuidei de vocês, mas vocês não quiseram. Sempre enviei guias a vocês, mas vocês não quiseram. Em vez disso, sempre quiseram fazer aquilo que vocês supunham ser o melhor para vocês. Os seus guias que me foram fiéis foram rejeitados por vocês. E o que mais posso fazer? Vocês decidiram o seu destino!

Um grande silêncio caiu naquele lugar. Mas Aslam nada fizera, ainda, pois ele ainda precisava falar com os mestres.

– E vocês, meus guias, que se acham mestres! Eu quis que vocês falassem do meu amor aos animais de cada bando, mas vocês não quiseram. Vocês, com o tempo, voltaram-se para sua própria vaidade. Acharam que, pelo fato de falarem aquilo que eu dissesse, seriam bem aceitos pelos seus, e teriam todas as riquezas de Nárnia. Mas a riqueza para os que são fiéis não está aqui, está na verdadeira Nárnia, muito além dessa! Uma riqueza que vocês nunca verão, porque vocês foram infiéis a mim!

Neste momento, Aslam soprou sobre todos os animais e sobre os mestres, fazendo-os desaparecer para sempre de Nárnia, gritando e urrando de dor como se estivessem caindo em uma fornalha acesa.

Ravit, apesar da paz que sentia, sentiu um pouco de medo. E agora, como será comigo?, ela pensou.

– Nada vai acontecer contigo, minha ovelha amada – disse Aslam, ainda no palco. Era incrível, mas o Leão conseguia ler os pensamentos – . Você não tem parte com esses animais de Nárnia. Você vem comigo, para a verdadeira Nárnia, além desta, onde você encontrará grama sempre verdinha e um pasto gostoso para você e para os que não aceitaram os ensinos de Tash como se fossem meus. Venham, minha amada Ravit!

Naquele momento, Ravit viu-se transportada daquele lugar para outro. Parecia-se com Nárnia, mas era diferente. Era um lugar mais perfumado, com colinas verdes, onde todos os animais estavam felizes e alegres, e até mesmo brincando com Aslam, que estava sempre ali. Na verdadeira Nárnia, muito além da antiga Nárnia, Ravit pôde brincar com o sr. Tumnus, com os Penvensie, com Digory, com Polly, com Jill e com Eustáquio, pois sabia que aquele momento seria eterno. E, como disse Aslam, aquela Nárnia era a verdadeira Nárnia, cheia de pastos verdes e água limpinha, onde não haveria Tash, onde não haveria tristeza, onde não haveria coisas ruins. E onde Aslam estaria com todos e cuidaria de todos, para sempre.