Ao longo da evolução das sociedades

humanas desenvolvem-se ideologias

que as enformam e as tomam características

no seu tempo(... ) Na nossa região africana,

uma ideologia foi desenvolvida com

o nome de authenticité. Aparentemente,

esta ideologia não foi levada muito a

sério pelos “donos do mundo” que preferiram

chamar-lhe “mobutismo” em alusão

ao seu profeta e impulsionador.

(...) A “authenticité” foi posta em movimento

por Mobutu Sesse Seko enquanto

presidente-imperador da República do

Congo Kinshasa. Esta República do Congo

é a sucessora do antigo Reino do Congo,

notabilizado por ser, então e aparentemente,

o único reino organizado na África

sub-saariana. Entrou no rol dos soberanos

mundialmente conhecidos e, com ele, o seu

Reino.(...) Esse palmarés de primeiro entre

os reinos sub-saarianos a ter contacto com

a Europa e a ter relações diplomáticas com

a Santa Sé foi - e continua a ser. .. - motivo

de orgulho para os súbditos do rei do Congo

e seus actuais descendentes. Para Mobutu

também ...

Então, por que não expender uma doutrina

social africana à altura do seu “reino” e do

seu “reinado”? Por que não amarrar a essa

doutrina social as nações subsaarianas,

para glória do seu “reino”? Por que não haveria

de se aproveitar do trauma dessas

nações recém-libertadas do colonialismo

para as satelitizar ao seu “reino” para sua

ainda maior .. - glória? Pois não era o Congo

o reino que mais cedo se aliara à civilização

dominante, a civilização euro-cristã

e por tal mais apto a conduzir toda a África

para os elevados esplendores duma nova

civilização afro-authentique capaz de

suplantar aquela?

(...) Em África quem estaria à altura de se

opor à Authenticité? Talvez os boers da

África do Sul... Mas os boers eram declaradamente

neo-nazis, acérrimos defensores

duma raça pura eleita para dirigir o mundo.

A authenticité também o defende. Os

boers dizem: “Nada de misturas nojentas!”.

A authenticité também ... Por que não uma

aliança? Doutrinariamente idênticos, no

futuro se veria qual o mais forte ...

As colónias portuguesas, cheias de brancos

e mulatos, seriam fáceis: bastava descolonizá-

Ias completamente. Vistas as coisas

desse ângulo, até o que parecia um empecilho

se tornava uma vantagem ... Estava

ali um espantalho para agitar diante

do nariz dos respectivos povos “autóctenes”!

... Boa! AUTÓCTENES! Qual angolano

mulato, qual angolano branco! Angolano?

Só autóctene, com raiz em alguma

libata, com todos os ascendentes de segundo

grau (avós) nados, vividos, mortos

e enterrados em Angola!

Quando tudo parecia estar bem encaminhado,

o profeta morreu. Todavia, nenhuma

ideologia é descartável. Discípulos

de Mobutu, conscientes ou não desta

situação, conservaram os princípios ideológicos

do mestre e levam a sua evangelização

a todos os cantos de África e, quiçá,

do mundo. Por vezes envolvida em novas

roupagens.

Os seus “apóstolos” não esmoreceram,

nem quando encontraram situações imprevistas

como mulatos com os pais, os

quatro avós, os oito bisavós e os dezasseis

trisavós nados, vividos, mortos e enterrados

em Angola; angolanos negros tão ou

mais inteligentes que eles e se não deixaram

enganar; outros africanos subsaarianos

nascidos em Angola (e, não raro

de segunda ou até terceira geração) que

não abdicam da sua actual nacionalidade

e não alinham nos “cantos de sereia” dos

apóstolos da neooauthenticité.

Perante estas dificuldades, tornou-se

necessário acrescentar novos elementos

tácticos: o primado do dinheiro sobre o

direito; o suborno e a falsificação de documentos;

a instilação dum racismo e

tribalismo como nunca existira na vida

económico-social; a distorção de factos

históricos e sociais; a intriga e a subserviência;

o nepotismo; e, com todas estas

armas, a sabotagem subreptícia dos

esforços para pôr Angola a funcionar no

patamar técno-jurídico-administrativo

que já tivera antes da independência.

Mas outro “senão” também se impunha

por razões históricas: Como recusar o estatuto

de angolanas às famílias enraizadas

nas duas cidades fundadas séculos

atrás pelos colonos brancos, com gerações

sucessivas de permanência? E, não raro imbricadas

em linhagens “autóctenes”? Como

reagir a uma resposta à “Iibata de origem”

do género: a minha libata é nos Coqueiros

onde se radicaram os meus trisavós?

Ou, do outro lado dos “autênticos” (presumidos

e... presunçosos), os mucancalas

responderem: Nunca tivemos libata porque

a nossa vida é nómada? Para estes a resposta

é simples {à nazí… ) ”São sub-humanos.

O seu destino é a extinção”... Já quase o foram

nas sucessivas invasões bantos...

E então os Kwanhamas e os Mukubais que

percorrem, ao longo do ano, um vasto território

sem privilégio para nenhum cantinho

a que possam chamar “a minha libata”, como

o podem fazer os povos sedentários?

O estado de crise existe como existiu no

limiar do nazismo. Tal como aí, a neooauthenticité

aproveita-se do estado emocional

da população para difundir doutrinas

irracionais capazes de provocar respostas,

por sua vez também, irracionais, como a

do Rwanda há já uns anos.

Que enorme distância dos princípios defendidos

por Agostinho Neto! Que enorme

distância da praxis de Nelson Mandela!