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Edição 1 706 - 27 de junho de 2001

 Brasil Telefonia

 estasemana

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Sumário

  Brasil

 

Telefonia: Os bastidores de uma guerra de gigantes

Sudam: O quartel-general da quadrilha

Dividido, o PMDB não sabe se fica ou sai do governo

O programa com erros e equívocos do PT

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Os bastidores de uma guerra

Fitas revelam o lado oculto de uma

disputa bilionária no setor de telefonia.

Elas mostram todo o arsenal de recursos

com que muitos operam nos subterrâneos

dos grandes negócios

Consuelo Dieguez

Bia Parreiras

O empresário Nelson Tanure tem mandato dos canadenses para enfrentar o dono do Opportunity: "Estou convencido de que temos de levá-lo à loucura"

O empresário Nelson Tanure é conhecido por se meter em grandes negócios. Baiano, 50 anos, formado em administração de empresas, em pouco mais de uma década já se aventurou por vários setores da economia nacional - quase sempre deixando atrás de si um rastro de polêmica. Foi assim com a Sade, produtora de turbinas para geração de energia elétrica. Em 1990, num controvertido episódio da era Collor, um grupo de fundos de pensão de estatais enterrou 11 milhões de dólares na empresa, que vivia em dificuldades financeiras. Por trás da compra da companhia de Tanure, estaria a mão forte da amiga do peito do empresário e então ministra da Economia, Zélia Cardoso de Mello, que teria pressionado os fundos a aderir à operação. Em sua meteórica trajetória ao olimpo dos grandes empresários, Tanure chegou a ser dono de três grandes estaleiros, que detinham 80% de toda a capacidade instalada da indústria naval do Brasil. Acumulou dívidas tão pesadas que, em 1997, afundou em sua megalomania, sendo obrigado a retalhar seu latifúndio. No ano passado, estima-se que tenha botado no bolso 100 milhões de reais, numa transação espetacular: foi o preço para acertar os ponteiros com os antigos proprietários do Banco Boavista, contra quem vivia em guerra judicial – estes por sua vez tiveram de aceitar o acordo com Tanure para conseguir vender o banco ao Bradesco, que queria comprá-lo sem nenhuma pendência judicial. Recentemente, Nelson Tanure comprou um dos mais tradicionais diários do país, o centenário Jornal do Brasil, estreando no ramo da comunicação.

Nos últimos três meses, Tanure tem-se dedicado de corpo e alma a outro negócio. Coisa de grande vulto e intrincada, como parece ser do seu gosto. Uma empreitada que, segundo se comenta nos meios empresariais, poderá engordar sua conta bancária em até 40 milhões de dólares, caso seja bem-sucedido. Trata-se de uma negociação para o grupo de telecomunicações canadense TIW, sócio de duas empresas de telefonia celular no Brasil: a Telemig Celular e a Tele Norte Celular, avaliadas em 2 bilhões de dólares. A tarefa de Tanure é desfazer o nó em que a TIW se embolou ao formar uma complicada e nada amigável sociedade com o Banco Opportunity, de Daniel Dantas, outro baiano não menos polêmico. A sociedade foi formada na privatização do sistema Telebrás, em 1998, e tem ainda como parceiros cinco grandes fundos de pensão. O embaraço está no acordo de acionistas que Dantas conseguiu produzir, numa jogada de mestre. A TIW, por exemplo, uma operadora de telefonia que, pelo menos em tese, deveria intervir na gestão de uma companhia telefônica, não tem poder nem para nomear um contínuo. Por causa desse acordo, há quase três anos os sócios se engalfinham numa disputa sem tréguas pelo controle das empresas.

Bia Parreiras

Dantas: ação para assumir o comando das telefônicas irritou sócios e disparou a guerra

Agora surge mais um ingrediente nesse enredo. Uma série de fitas, que mostram com crueza impressionante a montagem de uma operação de guerra para derrubar um adversário do mundo dos negócios. Nas últimas semanas, a existência dessas fitas, ao que tudo indica gravadas ilegalmente entre os meses de março e abril, tornou-se o rumor da hora entre jornalistas bem informados, empresários e políticos. VEJA teve acesso ao material gravado. Ali se apresenta um exemplo extraordinário de como funcionam os bastidores de algumas grandes negociações. Dos diálogos saltam estratégias secretas e ataques pesados, que permaneceriam para sempre camuflados pelos discursos oficiais, obviamente mais polidos, articulados. Pela primeira vez os bastidores de um caso concreto são revelados em estado bruto. As fitas mostram apenas um lado atuando, e o leitor deve levar essa peculiaridade em consideração.

As gravações reproduzem diálogos de Tanure com o presidente mundial da TIW, o canadense Bruno Ducharme, definindo estratégias de atuação contra o Banco Opportunity, de Daniel Dantas. Foram flagradas também conversas do principal assessor de Tanure, Paulo Marinho, uma peça ativa nas negociações em favor dos canadenses. Marinho, que até o ano passado trabalhava para Daniel Dantas, é um personagem bastante conhecido na sociedade carioca. Está sempre próximo de cabeças coroadas do mundo dos negócios e de mulheres bonitas, como a atriz Maitê Proença, com quem foi casado. As gravações envolvem também um dos mais influentes e respeitados jornalistas do país, o colunista Ricardo Boechat, do jornal O Globo.

Na fita, ele aparece participando de uma operação para ajudar Tanure. Em um dos diálogos, ocorrido em 15 de abril, Boechat conta a Marinho os termos da reportagem que está escrevendo para revelar manobras do Opportunity e que seria publicada no dia seguinte em O Globo. Pela conversa, fica evidente que a direção do jornal não foi informada sobre o grau de ligação do jornalista com Nelson Tanure e sobre o fato de que a reportagem foi minuciosamente discutida com Paulo Marinho (veja a reprodução de trechos). Não há nenhuma menção a favor, pagamento e outras práticas irregulares de compensação. Boechat e Marinho são, aliás, compadres e amigos de longa data. Curiosamente, a reportagem acabou sendo usada, dez dias depois, como peça de processo na ação judicial dos fundos de pensão – aliados da TIW – contra o Opportunity. Advogados utilizam com freqüência reportagens para embasar ações que impetram. No caso de Boechat, a combinação anterior pelo telefone com Marinho – e, muito especialmente, os termos usados na conversa – é que torna a história constrangedora. "Minhas fontes não são o cardeal Eugênio Sales nem o presidente do Supremo Tribunal Federal. Já negociei matérias com Daniel Dantas também. Não levo vantagem financeira com isso", diz Boechat. "O que quero é a notícia." Em outro diálogo, não reproduzido nesta reportagem, o jornalista instrui Tanure sobre como agir e o que falar numa conversa com João Roberto Marinho, vice-presidente das Organizações Globo, para passar a imagem de um empresário sem ambições políticas nem projeto de poder – características que a Globo não veria com simpatia no concorrente dono do Jornal do Brasil. Uma análise feita na semana passada, a pedido de VEJA, pelo perito Ricardo Molina concluiu que "todas as evidências indicam que, acima de qualquer dúvida razoável, a voz analisada é do jornalista Ricardo Boechat". Molina afirma também que "não existe nenhum indício de manipulação que possa representar tentativa de montagem".

É evidente que o mundo dos negócios não vive permanentemente nesse clima de ataques abaixo da linha da cintura. Mas quando um dos personagens da briga é Daniel Dantas, um economista de 45 anos, considerado um dos mais brilhantes de sua geração, dificilmente se pode esperar um cenário de calmaria. O dono do Opportunity é um operador audacioso como poucos. Em apenas seis anos transformou seu banco num colosso que administra fundos de investimento no valor de 3,4 bilhões de dólares. Seus domínios se estendem a setores tão diversos quanto saneamento, transportes, telecomunicações, portos, metrô, internet e futebol. Tem uma capacidade para fazer inimigos tão espetacular quanto seu talento para os negócios. A briga pela Telemig Celular e pela Tele Norte Celular é a mais perfeita tradução do jeito Daniel Dantas de atuar.

Para participar do leilão de privatização das duas empresas, em 1998, o Opportunity se associou à TIW e aos fundos de pensão. A TIW entrou com 49% dos recursos necessários para a compra das empresas. Os fundos de pensão, por sua vez, entraram com 24% de investimento direto, mais 27% através de recursos aplicados em um fundo de investimento do Opportunity, que colocou ali uma parcela correspondente a menos de 1% do valor da operação. No leilão, o sócio canadense desembolsou, sozinho, 380 milhões de dólares, com a promessa de ter participação na gestão das empresas adquiridas. Foi feita uma carta de intenções estabelecendo essas bases para o contrato. Tudo ficou só como intenção.

Bia Parreiras

O presidente mundial da TIW, Bruno Ducharme: permissão para Tanure negociar e articulação telefônica da estratégia para destituir aliados de Daniel Dantas

Batido o martelo, começou a confusão. Quinze dias depois do leilão, Dantas sinalizou para os canadenses que o acordo inicial não valia mais. Num estranho acerto com os presidentes dos fundos de pensão, o Opportunity montou uma sociedade totalmente diferente da desenhada inicialmente com os parceiros estrangeiros. Na época, os fundos eram capitaneados por Jair Bilachi, da Previ, o fundo de pensão do Banco do Brasil, e por Francisco Gonzaga, da Petros, o fundo de pensão da Petrobras, que deixaram o cargo sob suspeita de má gestão dos recursos dos fundos. A estratégia de Dantas foi juntar os recursos dos fundos de pensão em uma só empresa, a Newtel, que passou a deter 51% das ações da Telpart, holding da Telemig e da Tele Norte. Embora tivessem maioria das ações, os presidentes dos fundos concordaram em passar para Dantas o poder de gerir a companhia, incluído aí o direito de escolher todos os dirigentes das duas celulares e de definir todos os fornecedores. Assinaram ainda uma cláusula bizarra, em que os conselheiros dos fundos se obrigam a votar com o Opportunity, qualquer que seja a decisão do banco. Caso votem contra, são imediatamente destituídos. Dantas conseguiu manter-se forte enquanto teve os fundos do seu lado. No entanto, as novas diretorias dos fundos de pensão começaram a questionar os acordos feitos por seus antecessores. A briga esquentou quando os dois sócios se uniram contra Dantas. Os fundos e os canadenses querem que a Newtel seja desfeita e que, em seu lugar, seja criada uma sociedade em que os três sócios tenham pesos iguais.

Foi em março, no meio dessa confusão, que Nelson Tanure surgiu na história como a figura que poderia salvar os canadenses. O presidente da TIW, Bruno Ducharme, vislumbrou a chance de encontrar um competidor à altura de seu adversário. Tanure era o homem. O que fica claro nessa história é que os canadenses, que entendem quase nada de Brasil, acharam que Tanure conhece suficientemente as artimanhas do adversário para jogar um jogo de igual para igual. A manobra parece ter começado a dar resultado. Há cerca de um mês os sócios conseguiram uma vitória em cima do parceiro indesejado. Emplacaram o novo presidente da Telemig e da Tele Norte, que passou a ser o executivo Gunnar Vikberg. A manobra para a escolha do novo executivo foi montada com a ajuda de Tanure, que combinou a operação com Ducharme, por telefone. "Nosso foco é para tentar tirar o diretor (escolhido por Dantas)", explica Tanure, num dos trechos grampeados. Deu certo, embora seja uma vitória provisória, questionada na Justiça pelo Opportunity, que já conseguiu destituir Vikberg da presidência da Telpart.

Enquanto os dois sócios se armam para tentar enfraquecer Daniel Dantas nas duas telefônicas, o banqueiro baiano tenta garantir as conquistas obtidas. Nos últimos meses, tem feito ofertas aos fundos para a compra das empresas. Quanto aos canadenses, embora sejam o maior acionista individual, suas ações não têm o mesmo poder de fogo sem o controle das empresas, que continua nas mãos de Dantas. Até o final da contenda, as entranhas dessa guerra bilionária deverão ficar cada vez mais à mostra. Mesmo porque o jogo de poder entre Dantas, Tanure, canadenses e fundos de pensão está longe do epílogo. Estão todos operando os meios à disposição com ferocidade.

Com reportagem de Marcelo Carneiro

e Ronaldo França

 

A construção de uma

estratégia de combate

Nelson Tanure sabe perfeitamente o tamanho do adversário que tem pela frente, mas, ao contrário do que acreditam os canadenses da TIW, não conhece Daniel Dantas em detalhes. No diálogo abaixo, o empresário se aconselha com Paulo Marinho, seu principal assessor, sobre os caminhos que deve tomar para neutralizar o inimigo. Um dos possíveis aliados que Tanure quer conquistar agora é Jair Bilachi, que presidia o bilionário fundo de pensão do Banco do Brasil na época do leilão da Telemig e da Tele Norte. Outro que querem atrair para apoiá-los é o ex-czar do fundo de pensão do BNDES. "Eu boto esse cara no seu colo", diz Marinho. "Ele tá louco para ganhar uma grana"

Marcos Rodrigues

Paulo Marinho, assessor de Tanure: jogo "abaixo da cintura" para derrotar o adversário

Nelson Tanure – ...O que eu não conheço direito é o nosso inimigo (Daniel Dantas).

Paulo Marinho – Eu conheço, Nelson.

Tanure – Não sei como vai ser a reação dele.

Paulo – Eu atuei ao lado dele nos piores momentos dele neste um ano e meio. Eu tava ali do lado no inferno astral dele, vi as reações todas.

Tanure – Não sei qual vai ser a reação dele. Isso é o que me angustia.

Paulo – (...) Como ele é muito talentoso e muito preparado, Nelson... A gente não pode perder isso de vista. Ele pensa pra c.... Se você se acha um cara que pensa, multiplica isso por dez, é ele. Até porque você joga golfe, tem quatro filhos. Ele só tem uma filha, que não vê. E não tem outro prazer a não ser trabalhar. Então, ele se aplica pra c...

Tanure – Mas estou convencido de que temos que levá-lo à loucura.

Paulo – Ele não está, até pela qualidade dos inimigos que colecionou até agora, acostumado a jogar com o jogo abaixo da cintura.

Tanure – Mais do que isso, fizeram coisas primárias. Eles pediram destituição da companhia da qual eles não eram sócios. Estou convencido de que estes advogados pegam umas causas pra pegar honorários e só fazem m.... Mas não sei qual é a reação dele. Eu quero tentar produzir algo pra gente dar uma sucessão de feridas nele. E o seu papel é importante pra dizer (para Daniel) 'é só o começo. Acabe com isso no começo, vai ser um erro, Frank Sinatra (diz, em tom irônico, claramente substituindo o nome de Daniel Dantas pelo de FS) nesta operação'. (...)

Tanure – Liguei pro Leleco (Barbosa) e o homem é íntimo do Jair (Bilachi, ex-presidente da Previ). Quer ir no nosso escritório amanhã. E esse cara tem coisa pra gente operar com ele.

Paulo – E ele é homem de trazer o Jair pro nosso lado. Mas eu te liguei porque tenho a grande solução de nome. Paulo Vales, foi durante dez presidências do BNDES , presidente da Fapes, o fundo de pensão do BNDES. Esse cara, o Daniel, se você fala o nome dele, se c... todo nas calças. Só de falar no nome dele. Se c... de medo. Se este cara sentar numa mesa de operação... E conhece todos os caras de fundos de pensão do Brasil. Você sabe quem é?

Tanure – Sei demais. Mas, Paulo, esse cara não vai entrar no nosso jogo não. Sabe por quê? Porque foi ele um dos caras que me deu a f... na Sade (empresa que pertenceu a Tanure e recebeu recursos dos fundos de pensão).

Paulo – Eu boto esse cara sentado no seu colo.

Tanure – Esquece. ...Eu lembro muito bem que foi a Fapes, lembro que aquela maluca ligou (Zélia Cardoso de Mello, que no cargo de ministra teria pressionado os fundos a investir na Sade) e ele aproveitou e ligou para a imprensa.

Paulo – Esse cara se aposentou e tá na mão e tá naquele fundo de infra-estrutura.

E tá louco pra ganhar uma grana.

 

A corte ao senador

Jader Barbalho

Uma operação selada em janeiro transferiu o controle do Jornal do Brasil da família Nascimento Brito para Tanure. Neste trecho, Paulo Marinho avalia os resultados da corte que sua turma está fazendo ao senador Jader Barbalho. Jader foi procurado sucessivamente por Tanure, o diretor da sucursal do JB em Brasília, Teodomiro Braga, e pelo herdeiro da família Nascimento Brito, José Antonio Nascimento Brito, no mês de março. "Dali vai sair muita coisa", diz Paulo Marinho. "O suficiente para pagar muitos compromissos"

Ana Araujo

Barbalho: mais um na lista de amigos diligentes de Tanure

Nelson Tanure – Alô.

Paulo Marinho – Alô.

Tanure – Fala Paulinho, tudo bem?

Paulo – Tudo bem. Falei com o Josa (José Antonio Nascimento Brito), mas...

Tanure – Chegou agora?

Paulo – Cheguei.

Tanure – Como foi o Josa lá?

Paulo – Ele me disse que foi bem, que conversou com ele (Jader Barbalho). Aquela mesma conversa, tava meio apreensivo e tal. Que ele vai assinar o negócio da CPI, mas combinado que o partido não vai aceitar. Mas ele pelo menos dá uma satisfação pública de que tá apoiando a apuração dos fatos.

Tanure – Então, ele disse que o partido não vai aceitar?

Paulo – É , mas combinado com o partido, entendeu?

Tanure – Entendi, entendi...

Paulo – Ele não quer botar querosene na fogueira, mas ao mesmo tempo quer dar satisfação. Certo?

Tanure – Certo (...)

Tanure – Você acha que vamos marcar um tento hoje com ele?

Paulo – O fato de ter ido de manhã com o Teodomiro (Braga, diretor da sucursal do JB em Brasília) e o Josa voltado agora à tarde e você ter tido aquela conversa com ele... Essas três visitas já mostram interesse em ajudar pra c... (...)

Tanure – Outra coisa, Paulo. Nós precisamos conversar um pouco, nós dois, calmamente, sobre o assunto Canadá.

Paulo – Tá bom.

Tanure – Tá bom? Vamos conversar sobre esse assunto que eu tô com uma série de idéias. Eu tô trabalhando neste assunto, viu? Hoje de manhã de novo reunião. Hoje nós perdemos uma liminar. Porque... você se lembra daquela liminar... O pessoal pediu a ampliação dela. Hoje, o Tribunal não deu. Então faz com que o nosso amigo (Daniel Dantas) esteja cada dia mais forte.

Paulo – O que é bom...

Tanure – O que é ótimo.

Paulo – Cá entre nós, é bom.

Tanure – Quer saber de uma coisa, acho que você tem um papel muito importante. É, quando a gente entrar, fazer com que ele não dê muita importância. Tipo assim: 'isso aí é aventura'. Pra ele não focar.

Paulo – Ainda que eu faça isso, ele é um cara que é disciplinadíssimo, entendeu?

Tanure – Mas, olha, em Brasília foi bem , né?

Paulo – Foi ótimo, Nelson.

Tanure – Você acha que dali vai sair, né?

Paulo – Vai sair e se trabalhar vai sair não é pouco não. Vai sair o suficiente pra gente pagar... muitos compromissos.

 

A imprensa como

arma na guerra

 

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Reportagem combinada em O Globo (à esq.) foi usadant>

Reportagem combinada em O Globo (à esq.) foi usada para reforçar a ação judicial com que os fundos de pensão tentavam barrar o Opportunity

Ricardo Boechat é um dos mais  respeitados jornalistas do país.  Amigo de Nelson Tanure há muitos anos, acabou virando munição na briga do empresário contra o Banco Opportunity. Nesta conversa que teve com  Paulo Marinho, braço direito de Tanure, Boechat relata os detalhes de uma reportagem que escreveu e seria publicada no jornal O Globo no  dia 16 de abril contando as manobras planejadas por Daniel Dantas para uma assembléia. O jornalista leu a reportagem inteira para o assessor de Tanure, que aprovou. "Tá ótima", comentou Paulo Marinho. "A matéria diz tudo que  a gente queria falar." Dez dias depois,  a reportagem de Boechat  integraria os documentos de uma  ação judicial (reproduzidos acima)  movida pelos fundos de pensão contra o  Opportunity. Tanure e os fundos estão do mesmo lado da trincheira

Bruno Veiga

Ricardo Boechat: "Minhas fontes não são o cardeal Eugênio Sales nem o presidente do STF"

Secretária – Pronto.

Boechat – Oi, o Paulo, por favor.

Secretária – Quem deseja?

Boechat – Ricardo Boechat,

Secretária – Um momento...

Boechat – Obrigado.

Paulo Marinho – Oi.

Boechat – Oi.

Paulo – Diga lá...

Boechat – Seguinte: primeiro acho que a matéria talvez saia assinada...

Paulo – Hum, por você?

Boechat – É...

Paulo – Tá...

Boechat – E aí temos que ver o seguinte... Eu estive pensando... Esta é uma possibilidade que eu preferi não perguntar. Vou te dizer o seguinte: eu também meio que descobri que não adianta muito tentar dissimular esta relação, não.

Paulo – Entendi.

Boechat – Eles já identificaram esta relação, certo?

Paulo – Certo.

Boechat – ...que acabou sendo meio escancarada com este convite pra eu ir pro JB.

Paulo – Perfeito.

Boechat – E, por mais que eu tenha dado como uma iniciativa do Mario Sérgio (Conti, diretor de redação do JB)... Ninguém... ficou aquela... o João Roberto, o Merval, o Luiz Eduardo (integrantes da cúpula do jornal O Globo)... Todo mundo sabe que o Nelson (Tanure) tem uma relação de amizade pessoal.

Paulo – Certo.

Boechat – Eu pensei em dizer 'não assina, não'. Mas preferi ficar calado.

Paulo – Acho que você dizer pra não assinar eu acho um erro. Tu não pode dar esta montaria pra esses caras...

Boechat – Sabe o que mais? O último detalhe é o seguinte: aquela última nota nossa do dia 3, quando a gente... quando teve a reunião do conselho, que eu dei a história da demissão, lembra? Da demissão do Arthur (Carvalho, cunhado, braço direito de Daniel Dantas no Opportunity e o representante do banco nos conselhos de administração das telefônicas)...

Paulo – Lembro.

Boechat – Eles... quando deu, eu assinei. Eu dei na Agência Globo sem assinar.

Paulo – Eu sei, você disse que eles identificaram em dois minutos que era sua a nota...

Boechat – Eles botaram no ar um desmentido com meu nome. Então é ridículo eu ficar dissimulando...

Paulo – Claro.

Boechat – Se fosse uma coisa clandestina.

Paulo – Também acho, você tem razão.

Boechat – Conheço o cara e... ele é uma fonte e tá me dando uma notícia...

Paulo – Exatamente. Aliás, é um erro dissimular isso. Agora também é o seguinte, quer dizer...

Boechat – ...(inaudível) escancarar.

Paulo – Mas também se os caras não colocarem com seu nome, você não vai reclamar por causa disso.

Boechat – Não, de jeito nenhum. Enfim, outra coisa, diferentemente do seu material é preciso falar com o Nelson: "Nelson, a adjetivação não é uma característica da notícia. Não tem como adjetivar".

Paulo – Perfeito.

Boechat – Então, o texto que eu mandei pro Duda, o cara que tá fechando a edição pra amanhã...

Paulo – Rãrã...

Boechat – Me disse que tá dando bem. Então, suponho que ele vá dar a matéria na íntegra, pá-pá-pá. Não sei que título ele vai dar. Seguinte: o texto que eu mandei, eu disse assim pro Mineiro (Luiz Antonio Mineiro, editor de Brasil de O Globo): 'Mineiro, aí vai a matéria. Eu não consegui falar com o pessoal da Economia, mas tentarei mais tarde. Estou no telefone tal. Se for preciso peça à telefonista... Acho que este assunto vai dar um bom caldo. A intenção de demitir os conselheiros dos fundos consta da ata da assembléia convocada pelo Opportunity no dia 17 no Monitor Mercantil (jornal carioca de economia). E a estréia do ex-governador (Antônio) Britto (que acabara de ser contratado pelo Opportunity) no fascinante mundo do lobby financeiro, quem diria?, ainda não foi revelada por ninguém'. Aí vai o texto...'. Um abraço, Boechat' e tal. Aí, começei da seguinte maneira. É um texto curto e tal. Dizendo assim: (O jornalista lê na íntegra a reportagem que foi publicada em O Globo no dia seguinte.)

Paulo – Tá ótima a matéria, diz tudo o que a gente queria falar.

Boechat – Agora, não dá pra dizer que a atitude é ilegal, entendeu? Mas é isso aí.

Paulo – A matéria tá muito bem-feita, meu querido. Tá na conta. Não precisa botar mais p... nenhuma, não. O resto é como você falou: é adjetivação que você não pode colocar. (...)

Boechat – Os caras disseram que vão dar bem a matéria, vamos ver. (...)

Paulo – Amanhã, eu te ligo pra te dar notícia da matéria.

Boechat – Pra saber se deu certo.

 

 

 

 

 

 

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