O eurocomunismo

        

O eurocomunismo tem sua ascendência no bojo da complexidade histórica contemporânea e peculiar ao Stalinismo e a União Soviética. Principalmente no que compreende a invasão e repressão da revolução na Hungria e a invasão da antiga Tchecoslováquia, além de contendas tão bem conhecidas como a guerra civil na Espanha e tantas outras que marcaram a nefasta e canhestra política Soviética.

        O apontamento desses eventos marcantes da história do século XX é extremamente importante para entendermos não só a procedência do eurocomunismo, como também o alicerce de suas formulações, haja vista, que este, deita raízes nos desdobramentos materiais da concepção de socialismo em um só país junto com a teoria da frente popular e, por último da influência da social democracia no tocante “a estratégia de esgotamento”. Esses três pontos mencionados serão aludidos pormenorizadamente tendo por base as argumentações de Ernest Mandel em: O eurocomunismo.

        O grande Titanic soviético seguiu o torque do leme dado pela casta burocrática promovendo uma inflexão desgraçada para o futuro do gênero humano.Curvatura esta que consagrou as deturpações mais estrondosas e inconcebíveis à obra Marxiana.

        O ponto nevrálgico de toda a querela em questão salta aos olhos, sobre tudo, na sublevação da teoria do socialismo em um só país, o que acarretou, como não poderia deixar de ser uma serie de efeitos colaterais, dentre os quais podemos destacar o rearranjo da estrutura organizacional dos partidos e da internacional comunista. Tal rearranjo implicava na subordinação dos partidos comunistas que passavam de:

Forças agindo no sentido do derrube do capitalismo nos respectivos países (e da internacional comunista de derrube revolucionário do sistema imperialista e do capitalismo a escala mundial), em instrumentos prioritários de defesa do “bastião soviético”, o que induzia a adaptação automática e crescente da tática desse e da I.C. aos zigue-zagues da diplomacia do kremlin.(Mandel, Ernest 1977.)

        Dentro deste quadro restava aos partidos comunistas se adaptarem ao grande centro único de decisão e, a internacional comunista passava, “de instrumento da revolução socialista em instrumento da diplomacia da burocracia soviética”[1].

        Com essa nova configuração a U.R.S.S colocava em prática uma política, cujo único intento era defender seus interesses enquanto nação, isto é, a proliferação da revolução em âmbito mundial saiu da ordem do dia em detrimento das alianças estratégicas, tais como a política de coexistência pacífica.

        Um exemplo claro destes delineamentos feitos até aqui é o caso da guerra civil espanhola, onde a U.R.S.S apoiou uma aliança, uma frente única de todas as classes sociais em torno da frente popular, posicionando-se contra trabalhadores e camponeses que se organizaram espontaneamente coletivizando terras e contra milícias que se impunham corajosamente contra as forças de Franco.O partido comunista da Espanha seguindo as determinações do centro único:

Fez-se o defensor mais encarniçado, o mais conseqüente e o mais sanguinário do restabelecimento da ordem burguesa. Não o fez, decerto, como agente da burguesia, mas sim como agente do kremlin, obcecado pelo medo de que uma revolução socialista vitoriosa em Espanha e em França conduziria a uma “ grande aliança” de todas as potências imperialistas contra a União Soviética.Não se tratava, decerto, de uma viragem tática.Logo que a diplomacia soviética mudou a arma de ombro e concluiu o pacto Hitler-Estaline/.../ (Mandel, Ernest. 1977).  

        Mandel deixa claro o sentido das ações empreendidas pela U.R.S.S, e são justamente essas ações que provocaram grandes decepções e perda de militantes nos partidos comunistas europeus, ou seja, com a evidência do malogro dos propósitos da conduta soviética soçobrou aos partidos comunistas europeus empreender uma conduta autônoma, desvencilhada do grande centro único, portanto, forja-se na esfera das peripécias da burocracia soviética e sua descabida defesa do socialismo em um só país e dá prática da frente popular, aliança de classes na busca da social-democratização.

        Sendo assim, o Eurocomunismo passa a ter uma política independente e entra no jogo eleitoreiro se valendo das regalias da democracia parlamentar, tendo com principal bandeira a defesa do Estado democrático, pois este, seria um sustentáculo para as conquistas adquiridas historicamente pela humanidade, em outros termos, o Estado representa uma força ante tal perigo, para o Eurocomunismo o Estado está acima das classes sociais e, deste modo é capaz de promover a transformação social, contrariando frontalmente a teoria marxiana, assim como os escritos de Engels.

        Para Mandel:

O que é incontestável é que estes (os eurocomunistas) repetem textualmente raciocínios análogos da social –democracia: a terceira raiz histórica do Eurocomunismo é a “estratégia de esgotamento” do finado Karl Kautsky./.../ É que tudo isso faz abstração do fator decisivo da política em sociedade burguesa: a luta elementar de classe.A força de sucessivas mediações introduzidas entre a análise socioeconômica e a análise política, esta última acaba por se separar completamente da sua base e por ser considerada como um jogo perfeitamente autônomo, no qual o ardil, a manobra, o compromisso e a psicologia são tudo e o interesse material de classe se reduz a nada.(Mandel, Ernest 1977). Parênteses nosso.

        Desta feita então, o Eurocomunismo, da ênfase a uma atuação na esfera da política e do Estado deixando de lado a luta de classe, a atuação direta do proletariado contra a burguesia, principalmente no que tange a luta internacionalista.

         Na esteira da crítica de Mandel ao Eurocomunismo e no deslindar da sua elaboração teórica aqui abordada, chegamos a alguns delineamentos que nos permite uma singela apreensão de sua concepção a cerca da política e algumas ilações atinentes ao mesmo mote.

        Mandel ataca implacavelmente o estalinismo, com sua concepção de socialismo em um só país, ataca concomitantemente com a defesa do internacionalismo comunista. Crítica o Eurocomunismo em seu cerne, em sua cisão entre os fatores socioeconômicos e a política, crítica também sua política contraditória de convivência de classes antagônicas, evidenciando que na esfera da política, no âmbito reformista do campo eleitoreiro não é possível à revolução socialista e a supremacia o trabalho sobre o capital.        


[1] Mandel, Ernest, O eurocomunismo, 1977