A NEURA DO ROSTO PERFEITO

Por Eduardo Girão

A parte mais marcante eram os cabelos - ah, que juba! Castanho-escuros, eles eram o xodó do homem de pouco mais de 40 anos. Vaidoso, Pedro cuidava deles como se fossem um objeto de estimação. Nem os pêlos de seu cachorro da raça poodle, que precisavam ser tosados regularmente no petshop, recebiam o mesmo tratamento.

Toda semana, Pedrinho, como era chamado pelos familiares e amigos, preparava uma máscara capilar para deixar os fios brilhantes e sedosos. Não media esforços para comprar os melhores produtos: xampus de última geração, cremes rinse, condicionadores à base de babosa e ampolas de hidratação intensa – tudo para fortalecer a raiz, controlar o pH e permitir que as madeixas crescessem sem o risco de pontas duplas nem de fios ressecados e rebeldes.

De manhã cedo, a primeira coisa que costumava fazer era se olhar no espelho para ver se a cabeleira precisava ser aparada. O calendário da Pirelli, preso na parede do quarto, dizia que ainda faltavam duas semanas para o grande dia – quando saía de casa rumo ao salão que freqüenta desde criança. O já não tão jovem cabeleireiro se considerava um de seus melhores amigos. De mãos trêmulas, devido a LER (Lesão do Esforço Repetitivo), não negava que só era lembrado pelo cliente por causa das dicas que costumava dar-lhe sem cobrar nada em troca. Dizia que, para manter a grenha maleável, macia, forte e com brilho, a pessoa precisava ficar longe dos produtos químicos (permanentes, tinturas, descoloração), fixadores (gel e mousse), secadores e raios UV nocivos ao couro cabeludo. Missão quase impossível. Se seguisse os mandamentos, teria um cabelo sempre belo – referindo-se a sua marca preferida de produtos Sempre Bella.

Pedrinho levava a sério as orientações do “mestre das tesouras”. A preocupação com os cabelos era tanta que não se dava conta que tinha outras partes do corpo que deveriam ser lembradas. Até que numa tarde de domingo enxergou o próprio rosto e teve um susto. Os olhos escuros esbugalhados foram os primeiros a serem vistos e tocados pelas mãos cheias de veias e pintas decorrentes da passagem do tempo. A fase adulta tinha trazido os primeiros sinais. Percebeu as rugas instaladas logo abaixo das sobrancelhas grossas. Eram linhas de expressão imperceptíveis - só alguém muito atento poderia chamar aquilo de “pé de galinha”. Mas elas já se espalhavam pelo pescoço, testa e bochecha. O que fazer?

A cabeleira foi colocada de lado (esquerdo), literalmente, por um pente fino de matar piolho comprado num dos camelódromos de Fortaleza. A face agora era quem lhe chamava a atenção. No lugar dos condicionadores, produtos de beleza facial: antioxidantes, protetores solar oil free, ácidos antiidades capazes de intoxicar e criar manchas pelo corpo se não utilizados corretamente. Mais neurótico do que nunca, Pedrinho enchia as prateleiras de casa e se endividava mais e mais. Cada vez que se olhava, via defeitos que o faziam sofrer: orelhas grandes como as de um elefante; pescoço comprido poderia ser comparado ao de uma girafa; olhos que lembravam os de uma coruja assustada; boca tão irregular e ressecada que não havia comparação.

As olheiras profundas insinuavam que Pedro passara noites sem dormir, preocupado com os traços imperfeitos que descobrira possuir. O que ele queria era voltar à jovialidade. Era capaz de tudo, inclusive interferência cirúrgica. A busca pelos cabelos perfeitos era uma brincadeira infantil e sem maldade que o levou a uma doença capaz de tirar-lhe a alegria de viver. O narcisismo o dominara completamente.