O TÊNUE SENTIR NAS MÚLTIPLAS NUANCES DA OBRA DE SIMONE BICHARA

Certa vez li que as pessoas que mais se aproximam de Deus são os artistas. A artista Simone Bichara, com as suas múltiplas mandalas e mandala múltipla, não só se aproxima de Deus como nos permite tal experiência.

Um trabalho que, embasado na singeleza e expressão da mata, expande-se na mais precisa sofisticação e delicadeza.

Muito além da significação mística e oriental da mandala, a obra artística de Simone Bichara é permeada de uma etérea e ao mesmo tempo palpável paisagem brasileira. Brasileiríssima, eu diria.

Em seus círculos envolvidos de simbologia cósmica e meditativa, é possível também percebemos a musicalidade das cores da nossa floresta, suas nuances secretas, sua germinação constante e em instância não só poética, mas hermética, o próprio oxigênio. Suas mandalas trazem consigo um frescor e certo ar da floresta acreana.

Ousaria dizer que a contemplação das suas rodas de cura, pela o qual entramos em um estado meditativo, ultrapassa a prática da meditação convencional. O estímulo sinestésico na obra de Bichara é um fato experimentado, que deveria não somente ser sentido como observado.

Em sua Teoria das Correspondências o poeta francês Charles Baudelaire propõe uma reflexão em torno da existência de uma relação entre os domínios sensórios; para o poeta, certos cheiros, por exemplo, estão associados a uma cor. Em sua Teoria, defendia a idéia de que cores, sons e cheiros estão de alguma forma co-relacionados. Intrínseca à teoria do poeta e, mais propriamente, à sinestesia, como plano de relações sensoriais, encontra-se as mandalas de Simone Bichara.

Transversalmente às Mandalas da Floresta estão os nossos sentidos. Através delas experimentamos a expansão da nossa sensibilidade. É possível, no campo sensório das circunferências da artista e nessa inter-relação de percepções, convergirem em nós os cincos sentidos humanos. Em uma contemplação atenuada de sua obra podemos sentir os sons, cores, sabores, odores e toda a vivência manifesta da mata.

Outro âmbito a ser observado na arte de Bichara é o tocante da feminilidade. Acentuadíssima feminilidade.

Mandala pode ter uma conotação de casa, de nave, de "gestação"; nomes que não são femininos por acaso, em grau semântico, têm razões inúmeras de ser quem são.

A fêmea, na estrutura mandálica da artista, é visivelmente trabalhada, desde a preparação meticulosa dos traços até a adjetivação dos nomes.

Em recente levantamento da produção artística de Simone Bichara, somou-se mais de cento e quarenta obras, entre elas mandalas em mosaicos e os seus primeiros desenhos nessa modalidade; observa-se a profunda ligação com o feminino, tomando como exemplo os nomes das mandalas que, atingindo quase cem por cento, são adjetivos e substantivos do gênero.

O que não se pauta no fato de estar dando identificações a uma arte propriamente femínea, pois existe a "Baribená", a "fragmentos", entre outras. Além de que, no hinduísmo onde se pinta e se contempla mandala para ajudar no processo de iluminação, nas ocasiões onde os nomes são dados, normalmente, são de gêneros masculinos.

Todavia, a presença do feminino nas produções artísticas da acreana, é uma demonstração clara da relação intrínseca que a artista tem com a "Mãe Divina", "Nossa Senhora", Rainha da Floresta" e as demais denominações do Deus encarnadamente mulher.

E entre as tantas peculiaridades que permeiam a sua obra, uma das mais relevantes é essa, onde a mandala desperta em nós, se não uma deusa - considerando a nossa não-intimidade cristã com a figura do Deus mulher - uma divindade múltipla, andrógina; terna, expressiva e acolhedora como uma mãe.

Outra ressalva a fazer na análise da obra de Bichara é a temática indígena. Além dos nomes como: kaxinawá, Huni Qui, Ushe Bena etc.; a presença pertinente (literalmente em quase todas as mandalas) dos kenês. Kenês que são as

escritas/símbolos indígenas e que são emprestados as sensíveis e férteis criações da artista.

Esse oportuno desdobramento e incorporação da arte oriental com a dos índios brasileiros, deve-se ao fato da ligação significativa que a artista tem constantemente com a sua raiz. Que mais que acreana, é amazônica e brasileira.

Poderíamos, nesse momento, aprofundarmos na função terapêutica das mandalas; essas que recuperaram seu significado em solos ocidentais com Jung, que se dedicou avidamente a estudar essas formas em várias culturas, e considerava que as mandalas eram capazes de organizar nossas funções espirituais, mapear o desconhecido universo inconsciente e expressar o que é primordial em todos nós: o símbolo da mãe. Porém, cabem a nós, de momento, mediar à especulação, instinto e sentidos que são instigados a partir da contemplação das mandalas florestais da artista; o que não deixa, de certa forma, de ser uma terapia.

Embora as observações aqui realizadas sirvam, talvez, como princípio para uma análise mais profunda e expressiva da vasta e graciosa criação, a intenção transcende o realizado e atinge aquilo que se não consegue dizer, e, portanto, é o mais importante.

Para finalizar, eu poderia ressaltar (desnecessariamente) a beleza das Mandalas da Floresta, mas como é óbvio a ponto de ser verdade impreterível, prefiro propor algo discutível: A maior originalidade da criação artística de Bichara é a brasilidade contida nela. Brasilidade no sentido mais autêntico e "verde" que se possa ser. Para tanto, não bastou à competência artística, mas as experiências extra-analíticas: a fé fundamentada no holismo – embora "holismo" bem brasileiro, que requer englobar todas as vertentes de fé que aqui se encontram -, os ensejos das vivências com "seres da mata" (e quem sabe, as inspirações deles/neles) e a espiritualidade dotada de instrumentalização para transformar madeira reciclável em obras de artes.

Enfim, para materializar o Brasil Amazônico contido nas mandalas de Simone Bichara, teríamos que dissertar e peregrinar sobre o invisível; sobre a íris dos olhos "ayahuasco" e enraizado na misteriosa Floresta da artista; tornando-se assim, não só inviável, como escusável, pois mais importante que corporificar é sentir.

Publicado em Revista Acadêmica, por Daniella Paula Oliveira (escritora cuiabana formada em Letras e há dois anos estudando as tipologias artísticas na obra de Simone Bichara).