Prof. Me. Ruberval Franco Maciel, entrevistador:

Mudanças tecnológicas, econômicas, sociais, entre outras, têm nos desafiado a propor novos desenhos para a educação no século XXI. Para falar sobre mudança na sociedade, informação, professores, ensino de línguas, entre outros aspectos, o nosso convidado é o Prof. Lynn Mario Menezes de Souza da Universidade de São Paulo (USP).

Prof. Lynn Mario, entre várias das suas pesquisas, uma delas é a formação de professores e também a teoria dos novos letramentos, então, como a teoria dos novos letramentos vê essas mudanças na formação do conhecimento?

Prof. Lynn Mario de Souza, entrevistado:

Bom, começa primeiro com a mudança no conceito de saber, e a relação entre o saber e contexto. Vamos às partes. O saber até agora, uma geração para trás, era entendido como algo independente que podia ser armazenado em bibliotecas e em livros, na mente de algumas pessoas, e não de outras, como se tivesse um valor intrínseco de cunho independente. Hoje em dia, com os novos meios de comunicação, como a internet, e os meios de comunicação que as novas tecnologias nos proporcionam, nos levam a perceber que o saber nunca pode ser algo independente de quem usa ou cria esse saber. O saber é sempre algo cujo valor é relativo e conectado ao contexto de uso de produção.

Isso nos leva, por exemplo, a tentar entender, ou reinterpretar, ou re-significar as palavras informação e saber. Informação é toda a fonte de informação que esteja disponível sem avaliá-la em termos o que é de valor e o que não é de valor. O que vai transformar a informação em saber é o contexto e a necessidade de quem acessa essa informação.

Isso é o grande problema, por exemplo, que acontece, hoje em dia, com jovens ou crianças acessando a internet. A internet permite e proporciona o acesso a uma variedade infinita de informações, mas isso não significa que essas informações têm um valor fixo. Depende do que a pessoa que a está acessando precisa, ou ainda que uso ela vai fazer dessa informação, como essa informação vai transformar as suas necessidades ou seus saberes anteriores. Todas essas características transformam aquela informação em saber ou não. Ou seja, hoje em dia o saber é uma informação contextualizada.

O conceito que a gente usa hoje de letramento não é só saber ler, ou escrever, saber o alfabeto, ou código da escrita, é saber lidar com a informação codificada em várias formas de escrita: ou visual, ou alfabética, ou sonora, etc., e transformar essas informações em saberes.

Isso significa que a gente precisa entender que o saber é sempre social e não algo independente, ou abstrato, ou que não tem nenhuma ligação com nenhuma comunidade, ou meio social. Não existem saberes que tenham valor intrínseco para qualquer um no planeta. O que é considerado saber para um, pode não ser saber para outro. A gente pode dizer que existem informações, mas dependendo dos contextos e necessidades dos usos essas informações vão se transformar em saberes pra uns em determinados contextos ou não. Então a questão do letramento enfatiza como os saberes que precisam ser contextualizados e entendidos como tal.

Os aspectos com relação aos letramentos envolvem a teoria do letramento crítico, embora haja uma confusão entre letramento crítico e pedagogia crítica que vem desde a época de Paulo Freire. Gostaria, então, que o senhor traçasse esse paralelo entre letramento crítico e pedagogia crítica.

Sim, há muitas confusões, mas não estou dizendo isso para dizer que estou acima dessas confusões, senão eu estaria indo contra o que eu falei: que o que vale é o contexto. Mas primeiro, pra entender um pouco do que está por trás do letramento crítico é entender de novo o que é letramento e como ele é diferente da alfabetização.

Sempre citamos Paulo Freire como a origem dessas teorias, o grande contribuidor, pois permitiu que hoje em dia pudéssemos falar disso, mas ele usava o termo alfabetização. Apesar de usar o termo alfabetização que está ligado a aprender alfabeto e letra, aparentemente, à relação entre som e letra, à forma que ele apresentou a questão da alfabetização e que revolucionou o ensino da alfabetização, era que ele mostrou que as palavras nunca são abstrações e simplesmente sons que podem ser representados através de letras. Palavras sempre têm um valor social, sempre adquirem um determinado valor em determinadas comunidades e contextos. Portanto, ele enfatizava o fato de que o conhecimento, o saber é sempre social e histórico.

O que vale hoje como saber, pode não valer como saber amanhã. O saber de ontem pode se tornar obsoleto. Nesse sentido, Paulo Freire mostrou que o saber é sempre uma prática social, é produto de uma prática social. E aprender a ler e escrever são práticas sociais. Não basta apenas formar letras e ler, interpretar letras, ou seja, saber verbalizar em voz alta uma letra no papel, o que fazemos com a escrita, exige saber ler em determinados contextos, saber ler um jornal é muito diferente de saber ler um contrato, saber ler a linguagem jurídica é diferente de ler um sinal de trânsito, ou uma legenda de um filme, ou seja, são práticas de escritas diferentes, práticas sociais de escrita. Assim, não basta saber o alfabeto, precisa saber aprender essas práticas. Como a escrita é usada de determinadas formas por determinas comunidades em determinados contextos. E isso é letramento.

Já mudamos de alfabetização apenas como a relação de letra e som, para letramento como o uso social da leitura e da escrita em contextos específicos sociais. Mas o que é letramento crítico? Seguindo as primeiras pesquisas e propostas de Paulo Freire da década de 60, muitos pesquisadores norte-americanos desenvolveram o conceito de letramento crítico seguindo as teorias marxistas, segundo as quais ser crítico era aprender a enxergar a verdade por trás das aparências. Partindo do princípio de que vivemos numa sociedade capitalista, exploradora, desigual, então quem domina os meios da escrita e da produção da escrita, são as pessoas que estão por cima, da classe dominante. A idéia é que os textos escritos, os publicitários, por exemplo, têm o interesse de convencer, de manipular um leitor desavisado para comprar um produto que ele não queira comprar. É uma manipulação e exploração nesse sentido.

A pedagogia crítica marxista pressupõe que a escrita, na sociedade ocidental capitalista, é usada para manipular, para enganar, enfim, para dominar e controlar. A proposta da pedagogia crítica era levar os alunos a enxergar a verdade por trás dessas aparências. As perguntas que se colocavam eram: quem escreveu esse texto? Qual o interesse dele em escrever este texto? O que ele procura convencer o leitor a fazer? Os defensores da pedagogia crítica acreditavam que essas perguntas sensibilizaram o aprendiz leitor, e essa sensibilização podia emancipar a população manipulada a resistir contra a manipulação. As pessoas iam se tornar mais críticas ao perceber que em determinados momentos eles estavam sendo controlados, manipulados.

A proposta da pedagogia crítica era levar essa forma de leitura a enxergar a verdade por trás das aparências. Agora isso mudou. O conceito hoje em dia de letramento crítico, de pedagogia crítica é mais complexo. Da mesma forma que o que chamamos de informação e de saber é mais complexo do que vinte, trinta anos atrás.

Essa tal de sociedade de informação, em que vivemos, é uma sociedade que, por causa das novas tecnologias em que temos acesso a várias fontes de informações simultaneamente, temos tudo em excesso, uma multiplicidade de coisas. Então, quem resolve, nesse sentido, perante esse excesso, quem resolve o que é certo ou o que é errado? Quem está manipulando quem? Quem pode se dizer apto a emancipar quem? É difícil aceitar aqueles argumentos de 10, 20 anos atrás, de uma pedagogia crítica que se dizia emancipadora. O que é emancipar o aprendiz-leitor de hoje em dia? É dizer “eu vou te ensinart a enxergar a verdade no texto?” Mas a verdade pra quem?

Como dissemos, o saber para um pode não ser a verdade para o outro. A verdade para um pode não ser a verdade para o outro. Então estamos emancipando ou manipulando o aluno? A nossa crítica, hoje em dia, do letramento crítico é nesse sentido. E as perguntas que colocamos nessa nova geração de letramento crítico, por exemplo, são: “quem é você, leitor?”. Não é mais “quem está escrevendo o texto e com que interesse?”, “o que o autor do texto quer que você entenda?”. Isso era a antiga forma de letramento critico. Hoje perguntamos para o leitor qual o interesse em ler o texto. E depois fazer as mesmas perguntas sobre quem escreveu o texto, esse texto foi escrito por quem, com que interesse? Ai você compara os seus objetivos enquanto leitor com o do autor em escrever o texto. Há uma discrepância ou encontro nesses objetivos. E isso vamos usar como reflexão para perceber que um texto é um encontro entre leitor e autor, mostrando que esse encontro não garante nada. Pois o significado não está no texto e nem na mente apenas do autor e nem na mente apenas do leitor, mas nesses três elementos: texto, autor e leitor, unidos pelo contexto que une os três elementos.

Essa é a complexidade do conceito de leitura que tentamos desenvolver no letramento crítico de hoje. Quem está no lugar de emancipar quem? Isso deixamos para cada um refletir e chegar à conclusão por si só. Damos umas dicas, uma ajuda, mas não mais pregamos “eu estou aqui, e vou ajudar você a se emancipar”, como fazíamos na década de 80.

Um dos marcos das políticas públicas para o ensino de língua estrangeira, foram os PCNs lançados em 98, posteriormente, em 2006, foram lançadas as diretrizes curriculares do ensino médio das quais você é um dos autores. Em que as orientações curriculares ampliam ou acvanço em termos de discussão comparadas com os PCNs

Seguindo a mesma lógica, e isso é uma leitura minha, de novo, contextualizada, pois sou um dos autores. Na minha leitura, os PCNs não levavam em conta essa nova sociedade de informação em que a gente vive hoje em dia. Não de forma suficiente, pelo menos. Falavam em transversalidades, transdisciplinaridades, mas enfatizavam algumas habilidades, como a de leitura. Mas baseados em quê? Se vivemos numa sociedade em que o contexto, a necessidade de determinados grupos, comunidades de determinadas, regiões é o que vai resolver que informação é transformada em saber ou não, na base do que vamos ensinar apenas algumas habilidades e não outras?

Então o aspecto de transversalidade foi ótimo, pois mostra que o saber não tem dono, não se limita a determinada disciplina, o saber é algo criado em várias disciplinas de formas diferentes. Por isso, quando os PCNs enfatizavam determinadas habilidades, entrava em contradição com a idéia de que o saber precisa ser produzido contextualmente. E isso é o que nós tentamos fazer nas Orientações Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (OCEMs). Onde a gente aponta, desde o inicio, que o saber e o conhecimento são produzidos em contextos sociais, dinâmicos, mutáveis, não podem ser preestabelecidos.

Levamos o professor, o aprendiz a refletir em seu próprio contexto, quais são as suas necessidades, em que contexto você vive, por exemplo, a língua estrangeira não existe como uma totalidade, que tem um valor, não é um saber predeterminado, pois o que significa português e inglês como língua? Existe o lado de fora da língua? É um objeto que podemos segurar e pôr numa caixa? O que a gente chama de português e de inglês reflete os nossos usos e nossas necessidades. É isso o que tentamos colocar nas OCEMs.

Quem vai definir o que é a língua estrangeira a ser aprendida ou ensinada é cada região, cada contexto. A primeira coisa que o professor, ou as pessoas envolvidas no ensino vão ter que fazer, é colocar essas perguntas: quais são nossas necessidades, quais os recursos que nós temos disponíveis, que tipo de aluno ou professor nós temos na nossa frente, e a partir disso chegar aos conteúdos, mas nunca estabelecer os conteúdos antes.

Então o contexto que vai produzir o saber que precisa ser ensinado e esse saber é mutável, o que é relevante pra ser ensinado ou aprendido hoje, pode não ser amanhã. Esse é um aspecto muito importante dessa tal de sociedade de saber e informação que nós temos hoje em dia. É muito mais importante a gente produzir aprendizes capazes de buscar o saber em constante mudança, do que aprender um conteúdo fixo e, supostamente, dominá-lo pro resto de sua vida. Precisamos enfatizar como aprender, mais do que o que aprender. Isso porque como aprender vai levar o aprendiz a pesquisar, saber onde procurar, saber lidar com essa fonte de informação infinita e transformar, de acordo com suas necessidades, com seu contexto, parte dessa informação em saber, de acordo com o contexto e as necessidades dele.

Gostaria de agradecer sua participação e espero ter outro momento de interação como este.

Obrigado.