UM NATAL SEM PERU

Por Eduardo Girão

Minha avó tem quinze filhos, quarenta netos, trinta bisnetos, dez tataranetos e um senso de humor de causar inveja. Apesar da lucidez, é tanta gente que fica difícil de lembrar o nome de todo mundo. Às vezes, dona Geralda, de oitenta e cinco anos (setenta dedicados ao marido), recorre à ajuda de um caderninho antigo que contém informações sobre os familiares: datas de casamentos, festas de aniversários, apelidos, etc. Tudo para não “fazer feio” durante as comemorações de fim de ano quando os parentes se reúnem para colocar os assuntos em dia.

Nesse período, Gegê (para os íntimos) faz questão da presença de todos.  E ai de quem não comparecer à ceia natalina! A matriarca de origem italiana é capaz de passar meses sem falar com os faltosos. Tira até o nome do ente querido das orações. São poucos os que se atrevem a desobedecer à tradição. Até porque o banquete é quase sempre regado a guloseimas e bebidas típicas como champagne, peru e farofa doce – bebidas e pratos que dão “água na boca” só de pensar e engordam um “bocado”.

No ano passado, porém, a festa foi – digamos – um pouco inusitada. Dois dias antes do encontro familiar, Gegê decidiu virar vegetariana. Ela tinha assistido a uma reportagem sobre os malefícios da carne vermelha para a saúde das pessoas, principalmente para as da terceira idade. Gostou tanto da matéria que resolveu aderir radicalmente a uma dieta à base de produtos naturais. Trocou o arroz por grãos integrais; deixou de beber refrigerante; passou a caminhar todas as manhãs.

A mudança pegou todos de surpresa. Ninguém sabia ao certo o que seria servido no dia vinte e quatro de dezembro. De temperamento forte, Gegê manteve em segredo o cardápio da cerimônia mais aguardada do ano. Deu ordens expressas aos empregados para não relatarem o que estava sendo preparado. Uma coisa era certa: o peru assado com frutas secas e calda de avelã – receita guardada à “sete chaves” - não iria mais enfeitar a mesa de jantar. Segundo “fontes seguras”, o plano era testar o nível de comprometimento de cada um dos convidados com o espírito natalino. Uma dúvida pairava no ar: eles apareceriam porque gostavam uns dos outros ou deixariam de ir à festa porque não poderiam mais se empanturrar de doces e salgados?

Desconfiados, os descendentes resolveram chegar segurando “quentinhas” compradas às pressas. Na falta de comida, pelo menos teriam como saciar a fome requentando-as no micro-ondas. De repente, um peru passa tranquilamente entre os convidados que começaram a correr atrás da ave. Gegê observava tudo de longe para depois anotar no seu caderno-diário. Era um momento que não poderia ser esquecido. A velha era esperta e sabia o que estava fazendo: ela queria unir ainda mais sua família. Nem as mulheres de vestido longo ficaram paradas. As crianças gritavam jogando copos e guardanapos para o alto. Foi a maior festa. Com a confusão, a mesa ornamentada com flores tinha se transformado em lixo. Só depois de 30 minutos de “pega-pega”, o bicho resolveu se entregar. Mesmo cansados, todos se abraçavam e riam alto uns dos outros e da situação. Naquele dia, minha avó deixou de ser “light” e preparou a melhor carne da minha vida.