CELEBRIDADES NO MUNDO DAS IMAGENS

Por Eduardo Girão

Introdução

Este ensaio tem como proposta fazer uma reflexão sobre os motivos que levam as pessoas comuns a se interessarem pela vida dos famosos. Vamos citar exemplos de celebridades que conseguem permanecer na mídia apesar da superficialidade em que são retratadas. A personagem mais celebre do momento é a “patricinha” norte-americana Paris Hilton que tem sua privacidade constantemente exposta como numa telenovela cheia de cenas picantes e dramáticas.

Mas Paris Hilton não está só nesse contexto. Outras celebridades menos ou mais influentes também são manchetes inclusive dos telejornais.

Tudo vira espetáculo em nome do imperativo mercadológico e desaparece com a mesma rapidez com que surge. É possível crer que para continuar em evidência é preciso entender como funciona o sistema capitalista. Para fazer sucesso com o público, muitas celebridades - políticos, artistas, executivos, etc. - reutilizam antigos clichês.

Nesse trabalho vamos ressaltar ainda o novo olhar do ser humano, mais ligado as novas tecnologias que ajudam a reforçar valores como efemeridade, individualismo e superficialismo. Fragmentos de um tempo em que os meios de comunicação tanto influenciam quanto são influenciados. Os leitores agora deixam de ser coadjuvantes para participarem e interagirem mais. Exemplos disso são os textos virtuais. “Nessa nova realidade, as coisas fragmentam-se sob efeito do transitório, do excessivo e da instabilidade que marcam o psiquismo humano com a tensão nervosa, a velocidade, o superficialismo, a efemeridade, a hiperestesia, tudo isso convergindo para a experiência imediata e solitária do homem moderno”.

As celebridades, assim como os meros mortais, estão inseridas dentro de um espetáculo real e repleto de imaginação. Na civilização da imagem quem manda é a audiência. Tédio é palavra proibida para manter-se no Ibope . É o zapping que está no comando do showbusiness. Não tenha dúvida que para detê-lo, vale tudo inclusive a superexposição.

OS PROTAGONISTAS DO ESPETÁCULO

A indústria do entretenimento nunca faturou tanto com a superexposição da vida das celebridades. Revistas, programas de tevê e páginas da Internet ganham espaços cada vez maiores para divulgar as intimidades dos famosos. O público se mostra interessado em bisbilhotar a vida dos outros. Também parece menos exigente com a qualidade e o conteúdo das notícias. Só para se ter uma idéia a palavra celebridade aparece mais de oitocentas mil vezes no site google.

É nessa nova conjuntura que as celebridades ganham visibilidade. Paris Hilton, herdeira dos hotéis Hilton, é um dos símbolos dessa esfera que mais na frente vamos chamar de Era Virtual. Tudo que ela faz ou deixa de fazer vira manchete nos tablóides internacionais. Sua imagem percorre o mundo vendendo produtos: do perfume a bolsas e roupas de grife. Até seu lixo particular é leiloado no ciberespaço. Notícias que poderiam abalar sua fama passam a favorecê-la como um vídeo pornô em que foi protagonista ao lado de um ex-namorado. Ainda hoje é um dos vídeos mais comentados pelos internautas. A última da milionária foi dirigir bêbada com a carteira de habilitação suspensa. O delito fez com que fosse parar na cadeia. O público se diverte com esse tipo de notícia e se comporta mais como voyeur do que como espectador. “A vida cotidiana passou a ser um espectro visual, um desfile de aparências fugidias, um jogo de imagens que hipnotizam e seduzem”.

Não é à toa que os reality shows são sucesso. No Brasil, o mais bem sucedido é o Big Brother. Os telespectadores acompanham cada movimento dos participantes que ficam enclausurados em uma casa enquanto não são eliminados pela audiência. Quando saem do programa, os ‘big brothers’ se tornam celebridades instantâneas. O Vídeo Show e a TV Fama ajudam a promovê-los. Mas poucos conseguem permanecer na mídia. Quem ainda se lembra do Cleber “Bambam”? Para os pesquisadores esse tipo de programa veio para ficar. “Os realities são, simultaneamente, o formato da televisão da moda, o objeto de critica preferido na sociedade atual, o mecanismo mais fácil para chegar à fama e a melhor invenção para gerar conversação pública. Estão aqui e aqui irão ficar. Restam-nos somente relaxar e aprender a vê-los como são: televisão de impacto, negócio eficiente, cultura na contraluz e espaço de reflexão ética”.

Sem dúvida, o surgimento da televisão colaborou para a proliferação e popularidade das celebridades. Com seu poder sintetizador, a tevê consegue em instantes propagar e acentuar atos e feitos. Para existir é preciso virar notícia. “Todo ato científico, artístico e político visa a eternizar-se em imagem técnica, visa a ser fotografado, filmado, videoteipado. Como a imagem técnica é a meta de todo ato, este deixa de ser histórico, passando a ser um ritual de magia”. Para estar em evidência é necessário entender os meios de comunicação. O marketing pessoal se tornou ferramenta indispensável no mundo globalizado.

A televisão também se beneficia com a supervalorização do indivíduo. É uma via de mão dupla. Muitas vezes, a ética e o bom senso são colocados de lado para favorecer o mercado. A linha que separa o que pode e não pode ser publicado é tênue. Desde a morte da princesa Diana, os paparazzos são acusados de antiéticos. Estão sempre no centro da discussão e à mercê da industria da fofoca. O fato é que eles alimentam as fantasias coletivas com imagens de celebridades em momentos íntimos. As empresas de comunicação incentivam o trabalho desses profissionais comprando fotos e vídeos de qualidade, muitas vezes, duvidosa.

A pop star Madonna já foi vítima das lentes dos paparazzos. Mas como a maioria dos artistas, ela consegue tirar proveito até das imagens menos favorecidas. Madonna domina bem a arte da visibilidade e consegue manter o foco. É um fenômeno de popularidade e vendagem de disco. Para divulgar seu trabalho é capaz de mudar de visual, de assumir casos homossexuais e de usar símbolos religiosos como crucifixos durante as apresentações. A polêmica é sua marca. Atitudes rebeldes fazem parte de seu universo, mais um produto altamente vendável. A cantora entende os anseios da sociedade e oferece a ela o que procura. “’Nosso’ espetáculo abarca toda a extensão da vida social, porque se traduz na forma de imagens industrializadas; imagens que são mercadorias, portanto, funcionam socialmente como fetiches”.

Os políticos também se renderam ao poder da imagem. Perceberam que para continuar na política é preciso mais do que uma ideologia; é preciso ‘fotogenia’. As ideologias ficaram em segundo plano. Quem não se lembra das peripécias esportivas do ex-presidente da república Fernando Collor de Mello. Considerado na época das eleições um homem forte antenado com a economia global, capaz de modernizar o País. “Todos nós sabemos que a ‘fotogenia’ de um presidente, suas potencialidades de representação imagética, constitui por si só todo um programa e, em alguns casos, supera as funções desempenhadas pelos conteúdos ideológicos e as palavras de ordem”.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva também se rendeu ao apelo da sociedade contemporânea. Com um discurso popular, menos revolucionário e esquerdista, ele conquistou o voto de milhões de eleitores e a simpatia de boa parte da elite brasileira. Até agora, não teve escândalo que o tirasse do poder. ”A imagem é mais importante do que a realidade assim como a versão é mais importante do que o fato. Da mesma forma que a política é, hoje em dia, inseparável da cultura mediática do universo de simulacros que ela secreta (...)”. Os protagonistas desse espetáculo estão atrás de fama e glória. E só quem pode dar a eles é o público através dos holofotes da imprensa.

UMA IMAGEM: MIL PALAVRAS

As Imagens, dependendo da imaginação dos leitores, ganham dimensões extraordinárias. Podemos entender a imaginação como “a capacidade de codificar textos em imagens. Decifrá-las é reconstituir os textos que tais imagens significam.”

“A imagem perdeu toda a intensidade. Não provoca espanto nem interesse, não resulta misteriosa nem particularmente transparente. Está ali só por um momento, ocupando o tempo, enquanto não for sucedida por outra imagem”. Esse conceito define bem o momento atual em que a vida das celebridades ganha espaço nunca antes visto. Mas é bom lembrar que nem sempre foi assim. Na história, a imagem já foi objeto de culto em que o Divino era fonte de inspiração. Nesse período, refletia-se a eternidade, as coisas do céu eram o centro do universo. O tempo era imóvel e os ídolos solenes. Ainda não existia a escrita, tudo era ensinado pela oralidade. Deus, espírito onipresente, guiava os homens pela fé. Só havia uma verdade e a arte era pura e sagrada. A Grécia Antiga é a referência máxima da Era dos Ídolos.

Depois o mundo conheceu a escrita. Tudo mudou. A Itália, representando o ocidente, passou a dar as novas ordens. Razão, ciência e Iluminismo romperam com os antigos dogmas. A arte retratava o real e era objeto de deleite, de contemplação. A verdade não podia ser só explicada por Deus; o homem tinha a história e a ciência nas mãos. “A primeira visa a refletir a eternidade; a segunda, a ganhar a imortalidade; a terceira, a transformar-se em acontecimento”. A maioria das obras produzidas nesse tempo encontra-se hoje nos museus ou nas bibliotecas. Era da Arte estendeu-se até o surgimento da tevê.

O tempo agora é real e a presença uma mera simulação. A ironia ganha dimensões globais. A utopia não é mais terrena nem extraterrena; agora, é virtual. As máquinas são figuras dominantes e objetos de distração. Tudo passa pelo remix e é bom que agregue valor para ser comercializado.

As celebridades surgem na Era Virtual. Sabem que podem contar com as tecnologias para se promoverem. Os aparelhos eletrônicos ajudam a popularizá-las, mas para permanecer na memória das pessoas é preciso muito mais, tem que estar constantemente se reinventando – uma eterna recriação. Provavelmente, sem a ajuda da televisão ou da Internet, poucas conseguiriam continuar sendo objetos de interesse - talvez nem existissem. O novo vilão agora se chama controle remoto ou zapping. Para dominá-lo é necessário mais que criatividade, é preciso entender os desejos dos seres humanos.

Todos tentam se acostumar com a velocidade dos novos tempos. As notícias surgem a cada instante. São tantas informações que a dificuldade agora é em escolher o que ler, assistir e navegar. “A velocidade do meio é superior a nossa capacidade de reter seus conteúdos. O meio é mais veloz que aquilo que transmite”. Com a mesma rapidez que se muda de canal, se perde o entusiasmo pela vida de um determinado famoso. A celebridade pode ser comparada a um programa de tevê que precisa de audiência para se manter em destaque. E audiência se conquista com “ritmo acelerado e ausência de silêncio ou de vazio de imagem”. No caso dos famosos, significa que precisam lançar notícias constantemente na imprensa não importando o quão escandalosas que sejam.

As celebridades são consumidas da mesma forma e intensidade que os produtos. São vistas como imagens que representam o mundo. O público se identifica mais com uma e menos com outra. Há gosto para todos, sem regra pré-definida. O que importa é participar do jogo, satisfazer o ego. Os aparelhos eletrônicos têm sim importância fundamental porque ajudam a fortalecer a imagem das celebridades, facilitam o consumo. “Ocorre que os nossos mitos são produzidos industrialmente, ou hiperindustrialmente. Para onde quer que se voltem os homens, na sociedade do espetáculo, hão de deparar sempre com imagens que buscam representá-los para si próprios”.

CONCLUSÃO

Por mais que se queira, não há como evitar a superexposição das celebridades. Estão por todos os lugares: nos outdoors, nos produtos dos supermercados e até mesmo em cima dos palanques. Influenciam comportamentos, ditam padrões de estética e são endeusadas como mitos. As imagens de algumas grudam no pensamento como refrão de uma música popular de tão massificadas que são. Parece ser inútil ignorá-las porque mechem com emoções muito íntimas. Divertem, fazem rir, chorar, ter raiva, querer ser igual ou pelo menos parecido. O problema é quando são convidadas a opinar sobre assuntos que nem sempre dominam como quedas de avião, desmatamento de florestas e eleições governamentais.

Na sociedade do espetáculo, os famosos são incentivados pelos meios de comunicação a opinar sobre essas e outras questões. É comum vê-los substituindo profissionais como psicólogos, sociólogos, historiadores, entre vários, principalmente em programas de auditório. A tevê ganha audiência e o assunto mais visibilidade. Mas os telespectadores perdem porque deixam de receber informações mais precisas de um especialista. Assuntos de interesse coletivo deveriam ser discutidos de forma mais séria, menos teatral, fragmentada e superficial. A televisão perderia pontos no Ibope e talvez alguns anunciantes mas ganharia credibilidade.

Um outro problema é quando o estilo de vida das celebridades é retratado pelas mídias como um ideal a ser seguido. Quase tudo que fazem é divulgado e automaticamente copiado pelos admiradores como em uma receita de bolo. Mas os ingredientes para o sucesso não são fáceis de serem adquiridos. Ao se espelharem nos famosos, as pessoas correm sérios riscos de se frustrarem. Bom seria se o público pudesse distinguir de forma mais crítica as informações verdadeiras das falsas, o certo do errado. O livre acesso das celebridades as mídias deveria ser mais questionado – o que não significa censurado.

No Brasil, 90% dos lares têm televisão e boa parte da população é analfabeta. Para a maioria das pessoas, a tevê é o único canal de informação e entretenimento. Tudo que é vinculado nela ganha repercussão a nível nacional. Repensar o modo como as celebridades são retratadas pelos meios de comunicação ajudaria a desmistificar o glamour que existe em torno delas. Resta saber se isso interessa o mercado. Atos banais, sem compromisso, ajudam a vender e são ótimos passatempos. Mas também são extremamente influentes. Enquanto houver curiosidade pela vida dos famosos, eles vão continuar presentes no noticiário e na imaginação de cada um de nós. A elite intelectual vai ter que se acostumar com essa realidade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS

DEBRAY, Régis. Vida e Morte da Imagem: uma História do Olhar no Ociente.

Petrópolis: Vozes, 1993.

DUARTE, Elizabeth. Televisão: ensaios metodológicos. Porto Alegre: Sulina, 2004.

FLUSSER, Vilém. A Filosofia da Caixa Preta: Ensaios para uma Futura Filosofia da Fotografia. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2004.

HALL, Stuart. Da Diáspora: Identidades e Mediações Culturais. Belo Horizonte: UFMG; Brasília: UNESCO, 2003.

PARENTE, André. Civilização da Imagem ou Civilização do Clichê? Revista Eco: Rio de Janeiro, V.1, N°1. UFRJ. Imazo, 1992.

LEMOS, André. Ciber-Cultura-Remix. São Paulo, Itaú Cultural, Agosto 2005.

MARTIN-BARBERO, Jesus & REY, German. Hegemonia Audiovisual e Ficções Televisivas. São Paulo: SENAC, 2001.

NOVAES, Adauto. Muito Além do Espetáculo. São Paulo: SENAC, 200.

RINCÓN, Omar. Entrevista realizada pelo repórter João Freire filho durante a 4ª Cúpula Mundial de Mídia para Crianças e Adolescentes. Abril, Rio de Janeiro.

SARLO, Beatriz. Cenas da Vida Pós-Moderna. Rio de Janeiro: UFRJ: 2001.

SANTA ELLA, Lúcia. Três Tipos de Leitores: o Contemplativo, o Movente e o Imersivo.